Beast And The Harlot
2 Segundo ato: Inveja
Notas iniciais
Enfim, é isso. Enjoy 8D
Segundo ato: Inveja
... and makes us drink the poisoned wine to fornicating with our kings.
A esposa agarrou sua mão assim que adentraram no imenso salão, numa tentativa frustrada de dizer a todos que haviam se reconciliado por sua última briga. Brian odiava aquilo. Não o fato de querer mostrar aos amigos que haviam feito as pazes, mas por saber exatamente quais eram os motivos da mulher: Exibi-lo feito um troféu. Sentia falta da antiga Michelle, aquela doce menina que conseguia fazê-lo rir com suas expressões diferenciadas e sua maneira despreocupada de enxergar a vida. De uns tempos para cá, não sabendo exatamente o porquê, a mulher havia mudado da água para o vinho. E não havia sido apenas ele que notara, pois seus amigos entreolhavam-se cúmplices quando a loura agia daquela forma.
Suspirou. Precisava manter o foco.
Faziam quase quatro semanas que não sabia de notícias de sua meretriz. Uma gargalhada singela escapou por sua garganta ao relembrar que não sabia nem ao menos seu nome. Tudo o que sabia era que seu corpo era uma terra certa para pecados, para a luxúria e para... A paz. Sim, a paz. Pois por mais que não a conhecesse, por mais que sua mente fosse uma verdadeira incógnita para ele (apesar de seu corpo já ter sido decifrado até aos mais insignificantes detalhes), sentia que entre os dois havia a paz que ele não conseguia encontrar em nenhum outro lugar. Havia o silêncio da alma, havia o prazer. Já fazia alguns meses que se encontravam em quartos de hotéis aleatórios, mas desde a última vez que se viram a besta não conseguia tirar sua meretriz do foco de pensamento. Deveria ser a culpa. Culpa por atender à esposa na frente dela, por deixá-la sozinha entre os lençóis depois de uma noite de êxtase e nem sequer se despedir. Sabia que era apenas mais uma mulher dessas das quais ele teria algum tempo de sexo e depois enjoaria, mas sentia-se pesado com aquele sentimento que o corrompia... Espere aí, culpa!? A meretriz já deveria estar acostumada com aquele tipo de situação. Com toda a certeza Brian não era seu único cliente, e mesmo se fosse, tinha certeza de que já exercia sua profissão por tempo o suficiente para saber o que fazer com aquele tipo de contratempo.
Mesmo assim, a besta não conseguia esquecê-la.
Ela cheirava a chocolate.
A suor.
A pecado.
A meretriz lhe dava paz.
Michelle fora responsável por cortar-lhe o foco do pensamento, comentando sobre qualquer coisa que ele não faria questão de se lembrar. Assentira, mais preocupado em analisar o território em que pisavam do que em dar atenção à mulher. O salão onde o casamento seria realizado era bem simples, mas ao mesmo tempo transpassava uma aura de conforto e acolhimento. Lembrou-se imediatamente da meretriz. Era assim que ela o fazia sentir. Avistou aos amigos algumas mesas à frente, sentados em casais e devidamente vestidos para um casamento e reconheceu um dos donos da festa ao lado de Zacky, conversando animadamente com todos eles. Ao forçar sua mente, a besta percebeu que sequer se recordava onde e quando conhecera o noivo, mas este lhe cumprimentara com um aceno de cabeça entusiasmado. Provavelmente estava mais feliz de ter Synyster Gates por perto do que Brian, concluíra a besta. Aquilo lhe incomodava. O importante era que Synyster Gates fosse erguido e mostrado como o prêmio máximo para que os pobres mortais pudessem lhe apreciar com devoção que beirava o doentio. Se antes aquilo lhe incomodava, agora que a banda começava a ser notada pelo mundo, sabia que tendia a piorar. Não que não gostasse, afinal as facilidades que a mídia lhe proporcionava eram imensas. O que não suportava era sentir-se tão vazio podendo ter qualquer coisa que quisesse a qualquer hora. Queria desafios. Drama. Um pouco de ira também não cairia nada mal. E, ironicamente, pensou mais uma vez em sua meretriz. Curioso, não? Ela era a única que ele definitivamente não poderia ter, e era o que ele mais queria.
Um aceno de cabeça fora o suficiente para cumprimentar os amigos.
“Syn.” Matthew foi o primeiro a cumprimentá-lo, seguido da cópia aparente de sua esposa. Diferente da irmã, Valary era daquelas que espalhava alegria e simpatia por onde passava. Como dois lados de uma mesma pessoa – Valary, a alegria e Michelle... Frustrou-se por não saber como comparar Michelle à irmã.
“Venham, sentem-se.” Leana, a namorada de seu melhor amigo, agarrou ambos pelo pulso e obrigou-nos a se sentarem. Os olhos castanhos da besta flutuaram até o mar de águas calmas que eram os olhos de James, o mais alto. Em um segundo, o baterista pôde perceber que havia algo errado e enviou um olhar enigmático para a besta. “Precisamos contar uma novidade, aproveitando o casamento de Charles.”
“Que novidade?” Charles, o noivo, demonstrava exagerada – e forçada – animação. O Avenged Sevenfold e suas namoradas contando novidades em meu casamento, u-a-u.
“Estou noivo, seus putos.” Jimmy explanou, enquanto uma onda de felicidade se instalava entre eles. Seu sorriso parecia conter a alegria de toda a humanidade. “Tratem de comprar um presente bem caro para mim, ou então barro todos vocês na porta da igreja.”
“Vou comprar é um vibrador para você.” Comentou Zacky.
“Ah, pode ser também. Sei que você tem muitos deles em casa para se animar quando Gena está fora, então com certeza estou sendo presenteado por um expert em vibradores.” O sorriso de Jimmy transmutou-se para um retorcer de lábios debochados.
“Vá se foder.” O dono dos olhos verdes ralhou, emburrado por sua esposa não se pronunciar em sua defesa. Gena gargalhou e abraçou-o, amolecendo a raiva de Zacky instantaneamente.
Era curioso reparar o quanto uma mulher consegue mudar um homem. Elas eram mais frágeis, mais sensíveis, mais fúteis e dramáticas, mas o poder de uma mulher perante um homem era, no mínimo, devastador. Elas os levavam à loucura, ela o levava a loucura. E diante das comemorações e congratulações de seus amigos para Jimmy, a besta pensou em sua meretriz mais uma vez. Nua, sobre ele, gemendo e entregando-se completamente. Frágil, sensível, talvez fútil e dramática, mas na medida certa para fazê-lo perder a noção do mundo à sua volta.
Charles e a noiva – da qual Brian também havia esquecido do nome e da procedência – foram ao centro do salão, iniciando uma valsa lenta, de arranjos simples. A luz focou-se apenas neles, deixando o resto do salão numa penumbra agradável, quase instigando ao erótico. Aquela foi a deixa para que a besta captasse o olhar preocupado do melhor amigo, Jimmy, e tentasse transpassar em seu silêncio o quanto estava confuso. Era impossível contar-lhe os detalhes agora, mas sabia que a amizade entre os dois era tão profunda ao ponto de se compreenderem apenas com um olhar. Jimmy não sabia o que acontecia, mas tinha certeza de que era algo complicado demais para que Brian ficasse tão apreensivo. A besta era daquele tipo de homem que passa por cima dos sentimentos. Mal sabia ele que uma mulher também era capaz de passar por cima dos sentimentos de um homem...
A esposa apoiou a cabeça no ombro do marido, e este por sua vez repousou a sua sobre a dela, num movimento mais mecânico do que sentimental. Uma salva de palmas ecoou pelo salão, e os noivos convidaram outros casais para dividirem com eles a pista de dança, a música alternando para um ritmo mais dançante. Tinha certeza de que Michelle logo se levantaria e pediria para que dançassem, mas ele não tinha nenhuma intenção de sair daquela cadeira. Limitou-se a ficar sentado, ouvindo a conversa de seus amigos e reparando nas pessoas que se dirigiam ao centro do salão. Uma ruiva ligeiramente rechonchuda, agarrada ao braço do marido de cabelos que começavam a rarear. Umas duas meninas, talvez primas, vestidas em vestidos curtos demais que deixavam suas pernas muito finas de fora. Uma senhora e um bebê de colo que tentava colocar docinhos na bolsa enquanto o segurava. Sua meretriz num vestido azul marinho, com a mão de um velho lhe envolvendo a cintura.
Estacou.
Imagine uma criança que joga uma pedra contra o vidro e este se estilhaça no mesmo instante. Imagine o vidro sendo a vida da besta e a pedra sendo a meretriz. Calcular os estragos não era seguro, pois as proporções astronômicas que eles causariam não poderiam ser revertidas. Lá estava ela, magnífica, em um vestido azul marinho que favorecia suas curvas generosas. Não havia decote frontal, mas as costas estavam completamente nuas, chamando a atenção para a pequena tatuagem que ela tinha no cóx. Seus cabelos estavam presos, com alguns cachos caindo para moldar a face em um rosto angelical.
A meretriz virou-se para olhar o resto do salão, com um sorriso forçado no rosto.
E o mundo pareceu ruir.
Quando o olhar da besta e da meretriz se cruzou, o silêncio reinou no salão. Não que as vozes e a música houvessem cessado, mas para eles nada poderia ser mais relevante do que a presença um do outro no mesmo recinto. Ela estava linda. Ele estava deslumbrante. O coração da meretriz acelerava-se e dava cambalhotas como fosse possível, e a mente da besta trabalhava e corria para todos os caminhos que conseguia, sem nunca encontrar uma saída ou uma fresta para escapar. Tensão. Nervosismo. Desejo. Ele queria tomá-la nos braços e possuí-la ali mesmo, ela queria atirar-se sobre ele e ignorar o que o resto do mundo poderia vir a dizer. Mas não podia. O cliente a seu lado pagara o triplo do preço para tê-la como acompanhante a uma festa, e não podia simplesmente ignorá-lo. Sem falar que... A loura deveria ser a esposa de Brian. Sim, com toda a certeza era ela. Não apareceria com outra prostituta em público. O olhar da meretriz alternava entre a mulher deitada em seu ombro e o rosto da besta, tentando decifrar a expressão que ele agora tinha no rosto. Mas ela não conseguia. Sentiu ira, sentiu mágoa, sentiu inveja. Inveja da esposa, da tal Michelle. Ela poderia tê-lo durante todo o tempo, demonstrar publicamente seu afeto e não deveria se importar com o que os outros diriam. Eles eram casados. A aliança em seu dedo significava que ela tinha um compromisso com Brian. E o que podia provar que a meretriz já havia provado do corpo delicioso da besta? Suas memórias? O dinheiro que agora estava em sua carteira? Pela primeira vez aquilo pareceu ridículo, ridículo demais. Queria sair dali naquele instante, mas o olhar da besta lhe havia aprisionado. Baixou os olhos e voltou-se para o cliente, um senhor na casa dos cinqüenta anos cuja barriga denunciava um imenso apreço por bebidas alcoólicas. Finja que não o conhece. Era a melhor coisa a se fazer.
Em contrapartida, a besta precisou de um esforço desumano para manter-se naquela cadeira. Jimmy percebera e conseguiu juntar todos os pontos ao notar o olhar que a besta e a meretriz compartilhavam. Enquanto os olhos de mar suspiravam em lamento pelo amigo, o castanho dos orbes da besta emanava fúria. O cara do lado deveria ser o cliente da noite. Aquela vadia, aquela maldita vagabunda. Queria agarrá-la pelo braço e tirá-la dali, mas o peso morno em seu ombro dizia que, daquela vez, não seria como ele queria que fosse. Era muito desagradável querer algo que não se podia ter e Brian acabou ficando desacostumado a isso em sua vida de estrela. A besta ansiava pela meretriz. Agora. E não ficaria feliz caso não a tivesse.
Não sabia quanto tempo se passava, mas tinha certeza de que ele caminhava lento, a passinhos muito curtos e torturantes. Brian já não prestava atenção nos diálogos a seu redor, e se não fosse por Jimmy a enviar olhares que o acalmassem, a besta já teria feito alguma besteira. Precisava se livrar de Michelle por alguns minutos para conseguir chegar a sua meretriz. E depois? Ele ainda não sabia. Também precisaria se livrar do maldito cliente, mas aquilo seria o de menos. Seu real obstáculo seria alcançá-la. Esperou que algum dos olhares furtivos que a meretriz lhe enviava servissem como sinal para que ficassem à sós, mas eles pareciam apenas vagos, como se não o encarassem de fato. A besta tentou inúmeras vezes conformar-se com o fato de que ela era uma prostituta, uma mulher da vida e que aquela era sua rotina. Sair com outros homens. Mas o simples fato de não ser todos estes homens fazia com que o punho da besta se fechasse tanto ao ponto dos nós de suas mãos doerem.
“Vou pegar uma bebida.” Comentou com a esposa e com os outros presentes, deixando reticências no ar. Jimmy havia entendido e se perguntava qual seria o plano da besta. “Não estou me sentindo bem, preciso tomar um ar.”
“Não quer que eu vá contigo? Não acho seguro beber neste estado.” Indagou a esposa.
“Não, não. Curta a festa, eu estou bem. Volto assim que der.”
Juntou todas as forças para sorrir e retirou-se, cruzando o salão como quem pretende encarar um desafio. E o que aquilo era, senão um dos seus maiores desafios? Ele a queria e estava disposto a encarar qualquer sacrifício para tê-la. Se era culpa, se era desejo, se era paixão, ele não sabia dizer. Suas emoções pararam de fazer sentido desde que a tivera pela primeira vez.
A meretriz o percebeu caminhar na direção que estavam e direcionar-se à mesa onde taças de cristal se empilhavam com elegância. Aquela era a deixa, ela concluiu sem sequer precisar pensar muito. Precisava sair dali o quanto antes para poder ficar mais próxima de sua besta. Disse que iria ao banheiro retocar a maquiagem, e a confirmação de seu cliente lhe causou repulsa. Pela primeira vez sentiu que não era dona de sua liberdade e aquilo lhe afligiu mais do que deveria. Contudo, não era a hora de sentir pena de si mesma.
Aproximou-se da mesa com cautela e tentando parecer despreocupada, contornando o grande corpo da besta como quem ronda sua próxima caça. Pensou no quão elegante ele ficava de terno e em quão excitante deveria ser enquanto o via despir-se dele... Sorriu. Por um momento não existia mais esposa, cliente, festa, convidados ou noivos. Apenas os dois. Gato e rato em um jogo onde nenhum dos dois poderia saber se o desfecho era bom ou ruim, mas que estavam doidos para descobrir.
A meretriz roçou levemente seu braço no dele, tentando chamar a atenção, mas foi surpreendida por uma mão que agarrou-lhe o pulso com violência. Os olhos da besta estavam sombrios, envoltos de um sentimento que ela não pôde discernir de início. Assustou-se. Eles estavam em público, como ele poderia agarrá-la daquela forma diante de tantas pessoas? Infelizmente não teve tempo para conferir, pois Brian arrastou-a até um canto aparentemente vazio, onde algum dos banheiros se encontrava. Só soubera dizer que era o feminino pois duas senhoras saíram de lá, envoltas em uma maquiagem pesada demais para suas idades, mas graças aos céus não pareceram notá-los.
Brian empurrou a meretriz para uma das cabines e trancou-a, levando os braços da mesma até a parede e prendendo-os com os seus próprios. Utilizou o próprio corpo para prensá-la, a privada fazendo com que a mulher ficasse em uma posição desconfortável. Não se importou, contudo. A única coisa na qual a meretriz conseguia se focar no momento era os lábios de sua besta, tão insuportavelmente próximos e distantes ao mesmo tempo...
“Quanto está cobrando para acompanhar aquele velho, hein?” A voz de Brian era embargada pela raiva. “Aposto que está ganhando uma nota para se deitar com ele. Diga-me, ele fode melhor do que eu?”
“Quem você pensa que é para falar assim? E me solte, está me machucando.” Ela se desesperou. “Alguém pode nos ver!”
“Foda-se que nos vejam, eu não me importo. O que acontece é que eu não suporto te ver do lado daquele cara. Ele toma viagra para poder te comer ou você faz o serviço sozinha?”
“Vá se foder, Brian. Desconte essa frustração na sua esposa. Afinal, foi com ela que você veio.”
“Não me venha com essa agora. Você adora isso, não é? Dormir com vários caras e comprar vestidos com o dinheiro deles.”
“E você também deve adorar, não é?” Agora a meretriz parecia com raiva. “Ter qualquer mulher que quiser enquanto sua esposinha fica em casa tricotando. Faça-me o favor, Brian. E me solte porque meu cliente está me espe-“
“Sim, eu adoro!” Interrompeu-a. Aproximou ainda mais os rostos, fazendo com que seu nariz roçasse delicadamente o dela. “Adoro poder comer uma mulher por dia, e ainda ouvi-las implorando para voltar. Mas ainda há algo que eu adoro ainda mais nisso tudo.” Amansou a voz. Sentiu que o coração poderia sair por sua boca a qualquer segundo. “... Você.”
O beijo iniciado a partir dali fora uma mistura de sentimentos que nenhum poeta poderia definir com clareza. Era dor, era inveja, era sabor, tristeza, rancor, todos bagunçados dentro de algo que anteriormente poderia ser chamado de coração. Afinal, como se chama dois corações que, desarmonicamente, guerreiam para encontrar sua harmonia? Se havia uma maneira de nomear aquilo, nenhum dos dois sabia. Só sabiam que, quando a meretriz cruzou ambas as pernas na cintura de Brian e agarrou-lhe os cabelos, não havia mais nada que os impedisse. Eles ouviam as pessoas entrando e saindo do banheiro, ouviam nomes proferidos por vozes femininas que não conheciam, mas nada daquilo passava de um plano musical para o ato que se consumava muito longe dali. Fisicamente, estavam em uma cabine de banheiro. Mentalmente, viajavam por um lugar desconhecido e conhecido ao mesmo tempo, transpassando músculos e bocas e olhos e seios e pernas e mãos e dedos. Eram fogo e água ao mesmo tempo. Tudo e nada. A única contradição que parecia fazer algum sentido.
A besta soltou-a, abrindo o zíper de sua calça e revelando-se excitado como sempre. Não havia tempo para pré-liminares, e mesmo que ambos lamentassem muito este fato, sabiam que não haveria escapatória daquela vez. Se antes o tempo caminhava a passos curtos, agora corria em desabalada carreira rumo a canto algum. Brian afastou a calcinha da meretriz e a possuiu, precisando beijá-la para abafar o gemido que fugia por sua garganta. Ou seria o seu próprio? O fato é que não podiam chamar a atenção, e nada poderia parecer mais excitante do que aquilo. O risco iminente de serem pegos exatamente por quem não devia. Ela poderia perder um de seus melhores clientes, e ele a esposa. De certo modo, cogitar aquela opção não pareceu tão absurda para nenhum dos dois.
As estocadas da besta eram violentas e desesperadas, para o deleite da mulher. Queria arrancar-lhe o terno e arranhar suas costas, queria vê-lo se contorcer de prazer. Mais do que isso, queria ter a certeza de que o levava à loucura. Era bem mais do que sexo, eles sabiam. Afinal, não se sentiriam tão atraídos um pelo outro se fosse apenas o prazer carnal. Era mais. Era raiva, era rancor, era tudo de bom e de ruim que o mundo poderia lhes oferecer. E lá estavam eles, a besta e a prostituta unidos em uma dança sem ritmo, sem música, mas tão o mais intensa do que qualquer uma das outras. O que antes se iniciara pela inveja, agora ganhava tom e ritmo de um bolero adocicado. Estavam quase em seu clímax, e enquanto a besta felicitava-se internamente por ter a mulher em seus braços mais uma vez, a meretriz lamentava que o tempo com o homem se esgotava.
Uma estocada. Duas. Três. E então foram ambos para aquele lugar perfeito, aquele mesmo que só existia quando os dois estavam juntos.
Mesmo empós o orgasmo, a besta e a meretriz continuaram abraçados, ela envolvendo a cintura do homem com suas pernas e ele forçando os braços musculosos ao redor dela, como se a protegesse ao mesmo tempo lhe ameaçasse. Arfavam e suavam profundamente, encarando o castanho dos olhos um do outro e perguntando-se como isso havia acontecido. Não se lembravam como haviam chegado ali. Pareciam absortos demais ao tentar decifrar os próprios pensamentos e os do outro, como se pudessem compartilhar seus medos e suas alegrias através de uma respiração entrecortada, de um olhar dilatado ou de uma centena de outros fatores. Poderiam ficar assim para sempre, para todo o sempre, mas o sempre parecia tão limitado! E mesmo agora, juntos, eles se perguntavam novamente qual seria o grand finale desta estória. Deveriam esperar pela alegria ou pela tristeza? Deveriam esperar, no final das contas?
Brian abriu a boca para tentar proferir algo, mas fora interrompido por uma voz que ele bem conhecia.
“Alô vocês, queridos ouvintes que fazem besteirinhas nas cabines de banheiros da vida!” Era Jimmy, seu melhor amigo. O sorriso divertido que se moldou nos lábios da besta fizera a meretriz sorrir também, mesmo que esta não fizesse idéia de quem falava do lado de fora. “Sei que estão em um momento decisivo da vida de vocês, mas apesar de o grandão aqui ser muito bom com desculpas e tudo o mais que livre a cara dos amigos, o estoque de ‘desculpas para esposas desconfiadas’ não é infinito! Ou seja, terminem o que estiverem fazendo em cinco minutos ou serei obrigado a castrar um certo alguém para que ele nunca mais coloque o bro dele na pior! Abraços, e eu amo vocês.” Dito isso, o barulho da porta se abrindo precedera o silêncio do banheiro, e Brian concluiu que o amigo lhe esperava do lado de fora.
Olhou-a. Percebeu que ainda sorria ao notar um pequeno contorcer de lábios no rosto da meretriz, e eles nunca pareceram tão cúmplices. Brian soltou-a delicadamente, ainda lhe encarando com um sorriso, e fechou o zíper de sua calça. Ela se arrumou, ajeitando os cabelos e o vestido, e tentando conter a gargalhada que teimava em querer fugir de si. Aquilo era insano demais, pelos céus! Tão insano ao ponto de fazer sentido. Ali estavam eles, os dois, sorrindo um para o outro depois de uma rapidinha dentro de uma cabine de banheiro. Lá estavam eles, perdidos em olhares complacentes, enquanto os dois que os esperavam lá fora não faziam idéia do que ocorria em suas mentes. E ali estavam novamente, tentando absorver cada segundo remanescente, tentando prolongar ainda mais o tempo curto que lhes fora dado.
Ele foi o primeiro a falar. “Me desculpe pela última vez, eu não sabia muito o que fazer. Michelle estava no telefone e eu-“
“Shh.” Ela falou, cobrindo os lábios dele com o dedo indicador. “Eu sei, eu sei. Não se explique.”
Uma gargalhada divertida escapou dos lábios dele, e a besta suspirou, como se dando-se por vencida. “O que está acontecendo com a gente?”
“Eu não sei.” Admitiu a meretriz. “Não sei de muita coisa quando estou com você.”
Brian assentiu, buscando a carteira em seu bolso e retirando mais um maço de notas. A mulher não o impediu, apesar de sentir-se desconfortável com aquela ação. Pegou hesitante o dinheiro e guardou-o na calcinha, não por achar que aquilo o excitaria mais, mas por simplesmente não haver mais lugar para guardá-lo. Clamou para que o cliente não percebesse, pois não teria como explicar como conseguira o dinheiro sem que a desconfiança se enraizasse entre os dois.
Com um até logo e um beijo rápido, a besta despediu-se a contragosto da meretriz. Saiu apressado, arrumando os cabelos e rezando para que nenhuma mulher o notasse. O que diriam ao ver um homem saindo de dentro do banheiro feminino? Boa coisa não seria, obviamente. Ao encaminhar-se na direção da mesa, explicou que precisou passar um tempo do lado de fora do salão para que seu mal estar cessasse, mas agradeceu infinitamente ao melhor amigo por acobertá-lo naquela situação – não apenas naquela, mas em muitas outras. Michelle não parecia satisfeita com sua explicação, mas aceitou-a mesmo assim. E quando viu sua meretriz saindo do banheiro, devidamente maquiada e arrumada, não sentiu inveja ou raiva. Sentiu-se... Orgulhoso? Sim, orgulhoso. Pois mesmo que ela estivesse com outro cliente ou com qualquer outro homem, Brian sabia que ela pertencia a ele e apenas a ele. Assim como, inconscientemente, ele pertencia apenas à ela. E ao apertar as mãos de sua esposa, imaginou-se entrelaçando os dedos aos de sua meretriz, esquecendo-se por um momento de Michelle e tendo-a em pensamento a seu lado, naquela mesma situação, reparando no anel de casamento que ela usava em seu dedo anelar. Se antes imaginar aquilo parecia profano, agora nunca pareceu mais necessário. Talvez se arrependesse daqueles pensamentos mais tarde, talvez não. A vida havia colocado muitos talvez em sua trajetória após conhecer sua meretriz. Contudo, de algo tinha certeza: A última coisa que pensaria naquela noite não seria na letra da nova música ou no quanto Jimmy lhe xingaria quando se reencontrassem.
Pensaria no sorriso de sua meretriz.
E do quanto gostava de si mesmo quando estava com ela.
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