Beast And The Harlot
1 Primeiro ato: Tempo
Notas iniciais
Faz coisa de um ano que não escrevo fanfics, então perceberão também que minha escrita não está lá grande coisa, principalmente em terceira pessoa (sou péssima em descrever as coisas em terceira pessoa, bjsbjs). No mais, é isso, espero que gostem.
E queria agradecer a Lilith Malfoy, que fez com que a veia literária brotasse em mim novamente. 8D Obrigada, flor! o/
Primeiro ato: Tempo
There sat a seven-headed beast, ten horns raised from his head.
Symbolic woman sits on his throne but hatred strips her and leaves her naked.
E como se o mundo não lhe dissesse respeito, a meretriz soltou um lento e profundo suspiro, jogando fora suas frustrações e organizando os pensamentos.
Os minutos se arrastavam torturantemente. A única prova de que eles realmente passavam era o pequeno relógio digital que repousava sobre um dos criados mudos, e mesmo assim ela duvidava da veracidade daquele aparelho. No visor, os trinta minutos de atraso lhe fazia revirar-se sobre a cama, dando-se conta de que o tempo era tão relativo quanto a verdade: Não existe uma verdade absoluta, assim como não existe tempo que passe de forma igual para todas as pessoas. E, para ela, aqueles tão insignificantes minutos mesclavam-se nas horas, na inquietante ansiedade que lhe possuía lentamente e se divertia com sua aflição.
Seu corpo moldava-se perfeitamente nos lençóis de seda, a pele arrepiando-se com o toque delicado e macio do tecido. Lembrava-se das vezes em que havia visitado um quarto de hotel semelhante, com os mais diversos homens e mais ainda variados gostos. Chefes de família. Empresários. Até mesmo alguns famosos. Deleitava-se com o fato de que muitas pessoas dariam a vida para ter o contato que ela tinha com eles. A pele que roçava na pele. Os gemidos, os pedidos, a excitação. O que para muitos poderia ser considerado uma falta de respeito, para a meretriz não era apenas um divertimento, mas sim sua forma de ganhar a vida. Afinal, fazia o que gostava e gostava muito do que fazia.
Enrolava delicadamente o dedo indicador em dos inúmeros cachos castanhos, analisando o quarto que parecia ter sido criado para abrigar um rei: As cortinas elegantes caíam pesadas à frente das janelas, escorrendo até o chão perfeitamente decorado com tapetes dos mais finos. Na verdade, procurava alguma distração para abster sua mente dos agora quarenta minutos de atraso. Os olhos passearam pelo teto, pelas paredes, pelos quadros que continham mais informação do que ela jamais tivera a vontade de decifrar. Reconhecia as figuras, mas os pintores nunca lhe vinham à mente. À meia luz, via sua silhueta refletida nos inúmeros cristais da luminária pendurada sobre ela, um falso reflexo de si mesma. Uma metade imperfeita de seu ser.
Afinal, sua outra metade perdia-se naqueles minutos que não passavam.
A meretriz se perguntava onde estaria sua besta.
Haviam se conhecido pelo acaso, numa noite de um lugar qualquer. Seria apenas mais um cliente, mais um dos homens com quem dividiria a cama por uma noite. Tentou, inclusive, imaginar qual seria o motivo de ele vir até ela. Alguns tinham seus relacionamentos em crise e procuravam pelo prazer que não mais encontravam, outros pagavam apenas por sua companhia. Imaginou que seria apenas mais um pobre homem perdido em um casamento esgotado, necessitando de mais um par de braços que lhe amparassem na dura rotina que levava. Sim, aquele deveria ser o motivo. E ela, como sempre, seria aquela que lhe salvaria de seu desespero. Mas assim como o tempo e a verdade, o destino também é relativo. Não existe uma verdade absoluta, não existe tempo que passe de forma igual para todas as pessoas e não existe destino que siga uma linha tênue até o fim da vida.
Fora esta a conclusão em que chegara quando o conheceu.
Lembrava-se dos olhos que lhe encaravam feito aves de rapina, de um castanho escuro que se mesclava com o ébano do céu e com a malícia de um homem que já experimentara de quase tudo na vida. Perdeu o ar, até hoje o perdia. O sorriso lascivo que se formara nos lábios perfeitos fora o suficiente para esclarecer todas as suas dúvidas, para que ela soubesse que, daquele momento em diante, pertenciam-se. Seu corpo era dele. E mesmo tendo sido usada e abusada por muitos outros, era apenas com ele que permitia sentir-se mulher. Sua mulher. A única que conseguia levar-lhe à loucura. A meretriz não se atrevera a apresentar-se a ele, mesmo que o nome fosse uma das únicas informações que tivesse do homem. Brian. Guitarrista de uma banda dessas que ela não lembrava do nome e que não fazia questão de lembrar. Casado. As duas primeiras ela conseguira de forma simples, da terceira só tivera conhecimento após ver a grossa aliança que envolvia seu dedo anelar.
E lá estava ele.
Não o ouvira chegar, tampouco o notara ali. Era engraçado como seus pensamentos confundiam-se com a realidade: Estava tão absorta mentalizando Brian que sequer conseguia distinguir a realidade de uma mera projeção. Seus cabelos estavam ligeiramente molhados, e se fosse qualquer outro de seus clientes ela tentaria estabelecer um diálogo simples, perguntando se chovia do lado de fora ou se algum imprevisto acontecera. Mas não com ele. Em sua presença, o mundano e o corriqueiro não faziam a menor importância. Nem mesmo o tempo, aquele mesmo que passava tão lentamente, importava mais. Se antes ele desacelerava, agora ele corria incontrolavelmente, a contagem dos segundos sendo baseada nas batidas desabaladas de seu coração.
A besta encarou a meretriz como um tigre que aprecia a presa antes de abatê-la. Seus cachos estavam esparramados pelos travesseiros, sua boca semi-aberta convidando-o antes mesmo que ele pudesse se pronunciar. Percebeu que usava algo vermelho por baixo – um vestido? Uma lingerie? Não sabia dizer, pois a seda grudava-se em seu corpo e deixava-a extremamente convidativa. Tinha pressa, tinha desejo. Sabia que bastava uma única palavra para que ela lhe pertencesse por inteiro.
“Você demorou.” A meretriz sussurrou, mesmo não se importando com o sentido de sua frase. Naquele momento nada era mais importante do que sua voz. “Pensei que não viria mais.”
“Eu tive alguns imprevistos com a banda.” Tentou lembrar-se do nome, mas não surtira o efeito desejado. “Precisávamos resolver algumas coisas sobre a música nova.”
“Hmm.” Ela murmurou. Não sabia o que dizer. “E o que resolveram?”
“Não muita coisa... A letra já está quase pronta, vamos começar a parte instrumental na semana que vem mas já temos uma base. Vai se chamar Nightmare.”
A meretriz concordou, olhando-o com um misto de curiosidade e incompreensão. Ele gostava disso. Sabia que ela não conhecia a banda e que tampouco fazia questão de conhecer. Tudo o que lhe interessava era sua presença, seu dinheiro e suas carícias. Motivos inescrupulosos, era verdade, mas não deixavam de ser sinceros. E esta sinceridade era o que faltava em sua vida há muito tempo.
Brian aproximou-se da mulher, puxando o lençol fino que a cobria e deparando-se com um vestido aparentemente caro, vermelho, feito especialmente para ressaltar as curvas de um corpo tão bem cuidado como aquele. Excitou-se. Ajoelhou-se sobre ela, vendo-a se contorcer de desejo abaixo de si e suspirar conforme seus corpos se encostavam. Aquilo era mais do que suficiente para fazer com que um homem perdesse o foco e tomasse-a por inteira, mas não com ele. A besta gostava de se divertir lentamente, apreciando o máximo possível de sua caça. E a meretriz, por outro lado, perdia o ar apenas por imaginá-lo divertindo-se às suas custas.
Iniciaram um beijo cálido, lento e sensual. Já haviam se encontrado vezes o suficiente para descobrirem os gostos um do outro, portanto a meretriz permitiu-se ser domada pelo homem. Brian gostava de estar no controle, e perguntou-se se sua esposa não permitiria que ele fizesse dela o que bem entendesse. Jamais perguntara, mas era curiosa para saber o motivo que o levara até ela. Contudo, mesmo sabendo que a parte traída não era ela, sentia inveja ao saber que alguém poderia estar com ele todos os dias, dormindo na mesma cama ou compartilhando de diálogos sobre tudo e sobre nada. Gostaria de saber como era a esposa de Brian, o que ele achava dela e o que sentia quando a tocava da mesma forma que agora lhe tocava. As mãos de Brian passeavam pelas coxas da mulher, levantando seu vestido e contornando o rastro de pele nua que ficava logo em seguida. Levantou-se para tirar a blusa que o cobria, revelando músculos perfeitos em braços completamente tatuados. A meretriz permitiu que suas mãos passeassem pelo tórax definido da besta, sentindo-se cada vez mais excitada.
Acompanhando seus movimentos, a mulher ajoelhou-se sobre a cama para que pudesse ficar na altura de seus ombros. Como adorava passear com as mãos sobre cada pedacinho daquele homem... Cada centímetro de pele parecia como um território inexplorado, mesmo que houvessem sido descobertos muitas e muitas vezes. Brian gostava daquela sensação. Suas mãos eram pequenas e exalavam inocência e luxúria ao mesmo tempo, num contraste vivo. A meretriz empurrou os ombros do homem, fazendo com que ele se deitasse novamente e sentando-se por cima dele, sentindo sua animação pulsando dentro de suas calças. Tirou o vestido com agilidade, revelando-se inteiramente nua por debaixo do tecido vermelho. Um sorriso safado brincou nos lábios de Brian.
Ainda sentada sobre ele, a mulher virou-se de forma a ficar de costas para o homem. Abriu o zíper da calça que vestia e libertou o membro de Brian, tão ereto e tão convidativo como em todas as vezes que se encontraram. Iniciou um movimento lento de masturbação, acariciando-lhe o sexo como quem acaricia uma peça raríssima e de valor incalculável. Hoje seria ela quem estaria por cima, pensou irônica. Poderia divertir-se como bem entendia.
Em resposta, Brian agarrou as coxas da meretriz, apertando-as com intensidade. Não ligava para as marcas que seus dedos deixariam ali ou se a machucava, afinal ela já estava acostumada com aquilo. Os movimentos lentos e calculados da mulher o deixavam louco. Estaria ela o torturando? Se sim, o resultado não poderia ser melhor. A besta suspirou – ou gemeu? Nem ele mesmo soube responder -, tomado por uma necessidade urgente de sentir-se saciado. E vê-la ali, de costas para ele, tocando-lhe tão compenetrada fazia-o querê-la ainda mais.
Sentou-se, ainda com ela em seu colo, agarrando-a pelos quadris e tomando-a como sua. Era incrível como aquele homem conseguia fazê-la perder a noção com apenas um toque. Se havia uma linha tênue entre a sanidade e a insanidade, Brian conseguia chegar ao limite de ambas sem que ela fosse arrebentada. Brian penetrou-a com violência, fazendo com que a meretriz soltasse um gemido alto e erguesse a cabeça, permitindo que o rosto da besta fosse coberto por seus cachos macios e bem cuidados. Cheirava a chocolate, a suor, a pecado. Era isso. O pecado estava presente em todos os lugares daquela mulher, na voz, no cheiro, no sabor e no olhar – apenas sua presença era necessária para que o pecado se instalasse por todos os lados. Ela ajeitou-se sobre seu colo, iniciando um movimento ágil de subir e descer, rebolando conforme os executava. Deixava-o louco. Seus gemidos fizeram com que o homem se excitasse ainda mais, levando as mãos aos seios da mulher e acariciando-s sem nenhum pudor. A meretriz gemia em excitação. Aquilo era melhor, muito melhor do que qualquer pagamento que pudesse vir a ter. Nenhum cliente no mundo poderia se comparar ao homem de olhos de chocolate que a levava até seus limites.
“Oh, Brian...” Ela gemia, esquecendo por um momento que era sua função dar prazer para ele, não o inverso.
Os movimentos se tornavam cada vez mais urgentes, e nenhum dos dois parecia mais se lembrar de suas preocupações. Era como se, quando juntos, uma redoma impenetrável lhes envolvesse e espantasse todos os males que os perseguiam. Sentiam-se seguros em um mundo onde apenas as suas vontades eram acatadas. A meretriz gemia cada vez mais alto, e sabendo que logo estariam em seu limite, Brian beijou-lhe a nuca, alternando entre mordidas e lambidas, sentindo o gosto salgado de seu suor.
Chegaram juntos ao orgasmo, coisa que raramente acontecia com sua esposa ou com qualquer um dos clientes dela. Por um momento, o mundo perdeu seu sentido. Tudo o que importava estava ali, bem na sua frente, contorcendo-se com o prazer que tantas pessoas buscavam e tão poucas conseguiam alcançar. Virou-se para encarar sua besta, conseguindo enxergar seu rosto sombrio envolto à meia luz do quarto daquele hotel. A besta sorria com um quê de diversão e êxtase, como se não fosse capaz de controlar seus próprios instintos. Ofegavam. Encaravam-se como se os sentimentos pudessem ser transpassados em apenas um olhar.
Beijaram-se com mais urgência, a boca voraz da meretriz lutando contra qualquer resquício de distância que pudesse ser estabelecido entre eles. Para quem havia dito que dois corpos não poderiam ocupar um mesmo lugar, bom, sentia dizer que um erro grosseiro fora cometido. A besta e a prostituta eram dois unidos em um único corpo, amassando-se e emaranhando-se da maneira que mais lhes convinha e sem a necessidade de temores ou hesitações. E para que hesitar? Ambos sabiam que ali havia muito mais do que um homem pagando pelos serviços de uma mulher ou uma meretriz lucrando com seu trabalho. Necessitavam um do outro de uma forma que mesclava o imoral, o desumano, o inexplicável. Ela lhe pertencia e ele pertencia a ela, também.
Brian forçou-a para trás, deitando-a na cama e ficando por cima desta vez. Beijou-lhe o queixo, os lábios, a mandíbula, novamente os lábios e prosseguiu nesta viagem pelo rosto da meretriz até dar-se por satisfeito. A mulher permanecia com os olhos fechados, suspirando a cada toque do homem e acariciando-lhe as costas musculosas. Não se sentia cansada, muito pelo contrário. Tornava-se insaciável pelo simples fato de Brian estar ali. O mesmo podia ser dito dele, tão ou mais necessitado de prazer do que da primeira vez.
Mas assim como o tempo, a verdade e o destino, haviam outras coisas que eram absurdamente relativo.
Celulares.
Nunca se sabe quando os malditos vão começar a tocar.
Foi com este pensamento que Brian estacou, reconhecendo de imediato a música que escapava dos fones do aparelho. Tinha a mania de escolher uma música diferente para cada pessoa, e aquela não deixava-lhe dúvidas: A esposa. A meretriz conseguiu captar a mensagem apenas com a expressão apreensiva que tomara seu rosto, e soltou os braços de suas costas para que o homem pudesse atender a ligação. Não sabia o que a besta havia dito para escapar da mulher por mais uma noite, mas talvez ela já estivesse começando a desconfiar de suas desculpas. Chegou a sorrir pequenamente com a idéia de a esposa abandoná-lo caso os descobrisse e deixasse o caminho livre até aquele homem, mas livrou-se daqueles pensamentos no mesmo instante em que começaram a animá-la demais. Era uma prostituta. Mentalizar aquele tipo de coisa chegava a ser infantil, no final das contas.
“Michelle.” Ele chamou, virando-se de costas para a meretriz. Então aquele era o nome da esposa de Brian. Não sabia o que pensar. “Sim... Não, não. Já acabou. Eu estou...” Brian olhou para o teto e teve uma idéia. “Estou saindo da casa do Zacky. É. Ele e a Gena redecoraram o quarto e me pediram para ver. Ficou bom...” Ouviu o que a mulher dizia do outro lado. “Tu sabe que o Matt tem uma paciência do caralho para essas coisas, né? O Jon se esquivou dizendo que ia ver a Lacey em algum lugar aí, e o Jimmy foi se esfregar com a Leana em um banheiro sujo. Aí sobra pro Syn.” A meretriz estranhou. Não reconhecia nenhum dos nomes citados no diálogo, nem ao menos o que ele usara para referir-se a si próprio. Sentiu inveja. Inveja daquela mulher, inveja das pessoas que com ele partilhavam do cotidiano. “Certo. Estarei aí em uns trinta minutos. Eu também te amo.” E desligou.
Encararam-se. Na expressão de Brian – ou Syn, ou seja lá como eles o chamavam – misturavam-se as desculpas de quem se sente culpado e a incerteza de quem não sabia o que fazer diante daquela situação. A meretriz assentiu. Por mais que pudesse parecer estranho, estava acostumada com aquele tipo de situação. O que mais lhe perturbou fora o fato de sentir-se tão mal diante daquela cena. Ela era a outra, sabia disso. Fora a outra de muitos outros e seria a outra de mais alguns incontáveis, mas pela primeira vez sentiu-se enjoada ao perceber que não passaria da outra para ele. Não conheceria seus amigos. Nem a tal banda. Não saberia o porque desse Syn. E jamais, jamais poderia saber como era ouvir um “eu te amo” abafado pelo aparelho telefônico, mesmo que de mentira. De mentira? Talvez ele realmente amasse Michelle. E enquanto ele se vestia apressado, a meretriz perdia-se em suas suposições. Não poderia sentir, mas sentia. Sentia a completude que ele lhe causava ao tê-lo por perto e sentia o vazio que ele deixava ao ir embora. Afinal, assim como o tempo, como a verdade, como o destino e como os celulares, os sentimentos também eram relativos. Brotam nas terras mais áridas, morrem nas mais férteis plantações. Mas, acima de tudo, comprimem corações como quem espreme uma laranja, retirando dali pensamentos e sensações surpreendentes.
A besta deixou um punhado de notas sobre o criado mudo e saiu sem se despedir.
A meretriz tentou aplacar o turbilhão de sentimentos e sensações estranhas que ele lhe causava.
Fale com o autor