Bavarois

58 Epílogo I - Capítulo LXX


Epílogo:

LXX

Flocos de neve dispersavam-se e caíam sem destino definido. Quando algum caía em meu colo, eu o pegava em minhas mãos e as fechava, para ver uma poça mínima de água líquida e gelada descansando na palma da mão.

A madeira da casa estava gelada, e eu trouxera almofadas para eu e mamãe sentarmos na varanda. O vento cuspia redemoinhos vaporados, enquanto os flocos de neve que cobriam St. Helens e que mais pareciam uma cerração formavam uma cortina de pontos brilhantes, como se diamantes preciosos estivessem caindo sem descanso do céu. Lágrimas de Deus, eu pensava nessas horas.

Suspirei, deixando que uma nuvem difusa de vapor escapasse dos lábios entreabertos.

- E então, mamãe? Como está o senhor Allen? – perguntei, soprando o chá que segurava em mãos, distraidamente.

Mamãe, que parecia ainda mais distraída olhando a neve cair e preencher o chão de uma camada branca e infinita, virou-se para olhar-me nos olhos, como que acordando de alguma espécie de transe.

- Ah... Sim, o Allen está bem. – ela sorriu, segurando também a sua xícara (um presente de Emma) mais perto de si, como que para reter o calor. – Ele inventou uma nova receita de pão que está fazendo muito sucesso.

- Outro surto criativo? – eu ri.

- Sabe que não posso impedi-lo quando ele começa com aquilo... – e ela suspirou, com um sorriso resignadamente divertido.

- Vou à sua padaria, então, algum dia desses. Preciso experimentar este pão!

- Eu iria trazer um pouco para você, mas... – outro suspiro. – Ele vende tão rápido... Tive de atender clientes que quiseram-no imediatamente...

- Não, tudo bem, mamãe. – sacudi a cabeça, numa veemente negação. – Pode deixar. Além disso, eu preciso mesmo visitar você e o senhor Allen.

Antes que eu percebesse, haviam se passado cinco anos desde aquele dia.

Mamãe Irisa, agora com seus 36 anos, mas ainda com aquela aparência de beleza juvenil e congelada no tempo, abandonou a mansão Sunderland e seus serviços como governanta no ano seguinte àquele incidente, quando se casou com um homem chamado Allen Kingston. Ela mudou se sobrenome também, e isso ainda me causa confusão: é difícil chamá-la de “senhora Irisa Kingston”, quando foi “Irisa Baker” que sempre esteve tão próxima de mim.

Atualmente, ela ajudava o marido com a padaria que ele comandava. Como a própria disse, “é uma vida simples, porém perfeita”. Eu ficava muito feliz por mamãe: ela merecia aquela felicidade, depois de tudo que passara em vida.

Enfim, encontrara um homem que a fazia feliz e completa e, mesmo que não pudessem ter filhos, ela contava-me que o senhor Allen jamais a culpou por isso, e até disse que um filho não é o propósito de felicidade e também nenhuma condição para amar ninguém (lembro-me de ter ficado chocada ao ouvi-la repetir a frase do marido, porque Mitchell também me disse exatamente isso, mesmo que as circunstâncias fossem diferentes). Eu ficava extremamente orgulhosa dele, e até arriscava chamá-lo de “papai Allen” às vezes (coisa que ele adorava – dizia até que eu era a filha ideal).

Mamãe fazia visitas ocasionais e, quando vinha à minha casa, às vezes trazendo pão (mesmo que eu dissesse que preferia pagar pelos mesmos), adorávamos sentar na varanda e tomar chá quente enquanto observávamos o movimento das ruas, as carruagens que iam e vinham e as pessoas, embebidas em seus próprios problemas, também com suas próprias vidas sendo guiadas.

- Quem diria, já se passaram cinco anos! – ela exclamou, de repente.

- É verdade! – concordei. – Até parece que foi ontem.

Eu estava morando em uma casa só minha agora, não mais na mansão Sunderland. Aquele era um bairro muito tranqüilo e a vizinhança, mesmo não me vendo com tão bons olhos, ainda sim, era aceitável. Na minha condição, porém, eu não podia reclamar melhor tratamento; por isso, resignava-me.

- Ele vai ficar feliz quando vê-la aqui... – emendei, um pouco depois daquele comentário casual sobre o passar do tempo.

- Fico com o coração na mão por não ter trazido um daqueles pães... Pelo menos, devia ter sobrado um para ele... – mais uma vez, mamãe Irisa suspirou, deixando escapar o vapor quase vítreo do frio.

- Não se preocupe, mamãe. Já disse que está bem! Ele ficará feliz com a sua presença, com ou sem pães. – sorri-lhe.

- Falando nisso, onde está ele?

- Brincando. A Eva veio chamá-lo há algum tempo e eles saíram. Se bem os conheço, devem estar no lago congelado, ralando os joelhos...

- Quando apareço, ele parece sempre ter adquirido o dobro de machucados que da última vez que o vi.

- Não duvido. Aquele pestinha é impossível! – revirei os olhos.

Beberiquei um pouco mais do chá quente, deixando-o escorrer pela garganta, aquecendo meu interior. Na verdade, eu só tinha a agradecer àquele fato, por mais que os dois, juntos, fossem mesmo impossíveis: Evangeline Harris, chamada pelos vizinhos e conhecidos de “Eva”, era, talvez, a única amiguinha dele.

Os pais das outras crianças não deixavam-nas brincarem com ele. Achavam-me, e também a ele, por tabela, uma “má influência”. Eu ficava triste, é claro, mas não havia muito mais o que fazer. Por isso, saber que ao menos a família Harris não fazia questão de esconder a filha única deles me deixava contente. Eu mesma já fora convidada inúmeras vezes para visitá-los. A senhora Harris, a doce e gentil Sasha, inclusive compreendia a minha situação e penalizava-se.

Mesmo que eu dissesse que estava tudo bem, que já estava acostumada, ela ainda sim fazia tudo o que podia para ajudar-me. Eu sempre a aconselhava a se afastar de mim ou ela e seu marido ficariam mal-falados, mas ambos insistiam em continuar sendo meu único ponto de apoio naquele bairro.

- ...Ele é tão parecido com o pai. – comentou mamãe, com um nostálgico sorriso, pondo uma mecha dos cabelos acobreados atrás da orelha.

Depois de acompanhar o gesto casual, baixei os olhos, fixando-os no líquido fumegante de minha xícara.

- De fato... – sussurrei em retorno.

As (realmente) poucas pessoas que conheciam sua origem – mamãe Irisa e Emma, basicamente – diziam sempre a mesma coisa, e eu acaba concordando, porque era a pura verdade: ele era a cara do pai. Mesmo.

Como se percebesse que aquele era um campo minado, mamãe mudou o foco da conversa.

- “Evangeline Baker”... Não fica ruim. – sorriu.

Sem evitar, também me permiti rir daquilo. – Mamãe! Eles têm cinco anos!

- Temos que pensar no futuro desde já. – ela devolveu. – Além do mais, eles são tão amiguinhos. Um romance de infância... Não é bonitinho?

- Já sabe o que ele ia dizer, caso nos ouvisse falar isso, né?

- Parece que até o vejo aqui na minha frente, de braços cruzados, falando “eu, casando com a Eva?! Que nojo!”.

A imagem mental foi demais para mim. Tive de rir.

- E se a Eva estivesse junto, diria o mesmo! – completei.

- Mãe! – uma terceira voz, totalmente nova, ergueu-se, de repente.

- Ora... Falando nele...

A primeira coisa que eu ou qualquer um percebia naquela criança eram os olhos. Brilhavam em qualquer penumbra, em qualquer lugar, como uma moeda no fundo de um poço. Os olhos azuis de alfazema, quem sabe, tão azuis quanto o céu límpido e tão lavandas quanto as flores de mesmo nome. Era uma questão de ângulo; em alguns dias tinha uma coloração mais exótica, em outros, mais azulada. Os cabelos loiros e lisos estavam úmidos, e a franja escorria-lhe pelo rosto perfeitamente simétrico, quase que de porcelana.

Pequenos flocos de neve impregnavam-se na roupa e nos cabelos, e alguns caíam no chão enquanto ele encurtava a distância entre nós. Talvez ele não fosse tão branco como o pai, mas ainda sim, sempre me parecera um pequeno querubim esculpido em brumas.

Sem dúvidas, era a pequena cópia dele... Eu me perguntava se, quando pequeno, Mitchell também tinha essa aparência.

- Ah! A vovó Irisa está aqui! – seus olhos expressaram o brilho efêmero da felicidade que, geralmente, nunca demonstrava. Com um movimento ágil de infante, ele esqueceu-se de mim no mesmo segundo e correu para os braços da mulher de cabelos de cobre líquido que eu chamava de “mãe”.

- Ora! Se não é o meu menino!... – com um sorriso igualmente genuíno, mamãe Irisa fechava-o em seus braços. – Veja só! Você cresceu ou foi impressão minha?! Se continuar assim, logo, eu não poderei mais carregá-lo!

- Eu ainda sou pequeno... – suspirou. Ele nunca gostava de ver quão pequeno era, quando sabia que a genética contribuía para que tivesse uma altura respeitável.

Como eu sempre percebia, meu filho era uma criança precoce. Mais uma das tantas características que herdou do pai (esperava, ao menos, que essa precocidade não o transformasse num louco excêntrico como o mesmo...).

- Sua mãe não é tão baixa assim. Além disso, seu pai era um homem muito alto. Dê tempo ao tempo, verá que logo, logo, irá se transformar em um gigante!

- É? Meu pai era alto assim?

Em momentos assim, eu me sentia culpada. Os olhos daquela criança sempre cintilavam de tristeza e curiosidade quando alguém mencionava o pai.

“Mitchell Sunderland” tornou-se um assunto proibido quando seu filho nasceu. No fim, eu nunca superei a morte dele, e falar sobre ele para aquela criança sempre me fazia chorar copiosamente, tão logo era assaltada por imagens daquele passado que eu achei que seria para sempre.

Ainda lembrava daquele dia. Do dia em que me descobri grávida.

Achei que fosse Deus, em sua infinita piedade, que me dera uma única chance, uma réstia final de felicidade.

Eu cuidei de minha gravidez como se ela fosse o mais precioso dos metais. O ouro mais brilhante. Minhas ilusões românticas me diziam que, se Mitchell tivesse sobrevivido e casado comigo, eu também ficaria grávida em breve e ele estaria segurando minha mão quando eu estivesse dando à luz, ele quem estaria fazendo minhas vontades e me apoiando por oito ou nove meses.

Nevou muito no dia em que Miles Baker nasceu. Tanto quanto hoje, talvez. Eu entrei em trabalho de parto mais cedo do que o esperado, e só consegui chamar mamãe Irisa antes de desmaiar de dor. Quando acordei, eu já estava na cama, com mamãe segurando minha mão, e uma parteira fazendo o que podia. Lembro-me que, só por um segundo, eu achei que fosse de Mitchell aquela mão que eu tanto apertava.

Nunca soube se, naquele dia, eu chorei por tudo ter sido apenas um sonho quando o borrão pálido de sua silhueta tornou-se o rosto preocupado de mamãe Irisa ou pela dor de outra contração.

Miles nasceu tão frágil e pequenino que quase não resistiu. Eu tremi de medo; aquela criança não podia morrer. Era tudo que restara de Mitchell neste mundo. Se ela morresse, eu morreria com ela.

Para a minha sorte, por mais que parecesse frágil, na verdade, ele era forte. Muito forte. E sobreviveu para mim. Eu lembro-me de que o peguei no colo, e as lágrimas escorreram no mesmo segundo. Eu me assemelhava a uma pobre criança ganhando o primeiro brinquedo de Natal. E mais parecia isso mesmo, porque aquele menino nasceu perto desta data, em Dezembro.

Tanto o senhor Allen como mamãe Irisa ficaram comigo pelos dois dias restantes, na minha casa mesmo, cuidando de minha saúde pós-parto (e me mimando como nunca fui mimada antes). Foi o próprio senhor Allen quem deu a sugestão do nome para meu filho, e eu gostei, na verdade.

- O jovenzinho iria ficar tão feliz... Meu Deus, parece que eu o vejo olhar para mim, de olhos brilhantes, e dizer “veja, Irisa! É o meu filho!”... – mamãe comentou, quando olhou para o bebê adormecido em meus braços.

- É verdade... Também consigo vê-lo... Ele ia mesmo ficar tão...

Estávamos chorando no segundo seguinte, com palavras imensas entaladas na garganta. Palavras que nunca externamos.

Enquanto Miles Baker crescia, eu pouco contei sobre o falecido pai (e meu próprio filho parou de pedir para contar sobre o pai depois de ver que eu sempre desatava num pranto homérico quando tentava falar algo). Talvez, Emma Shelser e mamãe Irisa tenham falado mais dele do que eu.

De repente, vendo que eu iria cair outra vez na armadilha das más lembranças, sacudi a cabeça, como que espantando tudo aquilo.

- Sim, ele era alto, muito alto. E, sem dúvidas, você será também. – pegando-o em meu colo, com uma falsa seriedade estampada no rosto, encarei-o. – Onde o senhor estava, mocinho? Está todo encharcado!

- Ele estava só brincando, Cora... Não seja tão severa, e...

- É, mamãe, mas você lembra do último resfriado? Foi muito sério! – lembrei-a, e mamãe calou-se. De fato, Miles pegara uma gripe terrível no último Inverno, que rapidamente transformou-se em pneumonia, a ponto de eu achar que ele fosse morrer (nem valia a pena lembrar-me daquilo, foi desesperador demais).

- Já disse que sempre me cuido, depois disso, mãe!

Soerguendo a sobrancelha, olhei no fundo dos orbes azulados de meu pequeno rebento, e compreendi. – Muito bem, onde ela está?

- Ugh! – vendo que eu também percebera o motivo de tanta pressa, ele suspirou, derrotado. – Na porta. Esperando.

Dando uma piscada para mamãe (que devolveu-a), eu virei-me e me dirigi até a porta de entrada.

- E-espera, mãe...! Me deixa descer, pelo menos...!

- Não. – respondi, simplesmente. – Você é muito imprevisível. Vai ficar no meu colo, onde eu sei que está seguro.

- Que?! Ah, mãe! Não dê esses ataques de mãe-coruja-super-protetora!

- Não adianta se debater.

- Mãe! Está sufocando minha individualidade!

- Individualidade! – apenas repeti, com uma imensa incredulidade.

Por dentro, entretanto, eu me divertia. Ele era tão parecido com Mitchell que me dava vontade de rir, no fim. Com apenas cinco anos e tão pequeno, já era bastante independente, além de falar coisas difíceis e parecer um mais um adolescente (o que contribuía, obviamente, para aquela sua solidão misantrópica).

Mais engraçado ainda era o meu aprendizado. Nestes cinco anos, desde que tornei mãe solteira (ou viúva?), eu descobri-me uma autêntica “coruja”. Sempre estava ao redor de meu “bebê”, protegendo-o do que eu considerava ruim, incentivando sua personalidade desde cedo erudita. Doía-me o coração vê-lo assim tão parecido com o pai, em tantos e tantos sentidos, inclusive naquele de óbvio preconceito da parte dos outros por ser um “bastardo”, mas, às vezes, eu conseguia extrair uma boa lição daquilo tudo. Eu conseguia vê-lo sem ter vontade de chorar.

Enfim, ao abrir a porta, quem eu previ estava esperando: uma diminuta boneca totalmente encasacada.

Evangeline Harris era uma menina bastante inteligente (a ponto de rivalizar com Miles) e muito gentil. Tinha olhos dourados, como se a mais preciosa das jóias tivesse sido derretida e se derramado naqueles orbes com discretos pontos âmbares. Tinha os cabelos compridos e ondulados como os meus, numa coloração castanha, geralmente sempre soltos (o que Sasha Harris dizia ser uma pena, porque sempre tentava embelezar a filha, que preferia o visual mais “menininho”).

- Eva! Que agradável surpresa. Boa tarde. – sorri-lhe.

- Ah... Boa tarde, senhorita Baker. – com aquele seu sorriso de boneca, ela saudou-me. – Ah... O Miles... Ele não pode...?

Sorri ao perceber que meu filho virara o rosto, provavelmente consumido de vergonha ao deixar-se ver tão infantilmente bem diante da amiga (e eu começava a imaginar que, afinal, mamãe Irisa e Emma estavam certas e eles eram futuros marido e mulher e eu era a única que não sabia disso).

- Claro, querida. Ele já volta brincar. – toquei-lhe no topo da cabeça, numa carícia maternal. – Eu só vou banhá-lo antes que pegue uma gripe. Que tal fazer o mesmo? Não queremos ficar de cama, não é?

Evangeline baixou o rosto, parecendo envergonhada. Diante de mim, ela mais parecia uma menininha normal (mas as “lendas” acusavam-na de ser um legítimo “menininho em pele de menina”).

- Cla-claro... Claro, eu já volto, então. Posso?

- Vamos estar te esperando.

Vi a sua figura angélica desaparecer na cortina de neve branca, e fiquei preocupada, por um momento. Queria que ela chegasse em casa logo, ou pegaria uma gripe forte demais.

- Obrigado por acabar com a minha imagem bem na frente da minha única amiga, mãe... – Miles sussurrou, o rosto contra o meu ombro. Eu quase podia sentir as emanações de seu constrangimento.

- Não seja bobo. Vamos rápido pro banho!

- Que? Por que?...

Mamãe Irisa, que estava parada ali no início do pequeno corredor que levava aos quartos, também não conteve um largo sorriso. – Porque é o cavaleiro quem deve ir cortejar a dama em seu castelo, não o contrário, Miles querido. Não é?

- Vovó!...

- Mamãe!...

Bem, em matéria de corar violentamente por qualquer menção deste tipo, Miles Baker era (muito) parecido comigo.