Bavarois
59 Epílogo II - Capítulo LXXI
LXXI
Invariavelmente, mesmo quando queremos que ele pare, o tempo continua a fluir. A neve caiu, a temporada de chuvas abateu-se sobre a cidade e a névoa de todas as manhãs a engolfou, como de costume, costurando uma parede branca e etérea ao seu redor. Quando percebi, mais dois anos se passaram...
- Muito obrigada pela folga que me deu, cond Shelser.
- Você precisava mesmo de tempo para se dedicar ao seu lar. – sorriu ela, mas logo ergueu uma sobrancelha, cessando o riso. – E pare de formalidades, Cora! Pode me chamar de “Emma”, que coisa!
As nuvens brancas e límpidas formavam desenhos vaporados, cujo significado perdeu-se nas eras, no céu azul. A brisa estava agradável e não havia mais traço da nevasca que se abateu sobre St. Helens, derramando lágrimas brancas e quase que cristalizadas.
Apenas as rosas que o jardim interno da mansão Shelser possuía estavam maculadas pelas gotas de neve derretida. Era, talvez, a única lembrança.
- Ah, mas... Eu estou trabalhando... Acho que devíamos manter uma certa...
- Que nada! Você é a única que me trata informalmente, e agora vem com essa frescura? – quase sem acreditar, vi aquela lady fazer um beicinho de criança. – Não admito. Pode me tratar como sempre!
- Tudo bem, tudo bem. Eu continuo chamando-a de “Emma”! – desisti. – Que coisa! Você já tem 25 anos, já é uma adulta!
- E você tem 22 e trabalha para mim há 5 anos dos mesmos, e ainda não aprendeu isso! – finalizou, ainda naquela sua falsa ofensa.
A cond Shelser (e não condess, como pensei primeiramente) bebeu um pouco mais do chá que estava tomando, sentada numa das cadeiras brancas que decoravam a mesa igualmente branca de arabescos em relevo. Depositou, delicadamente, a xícara no prato, o som da porcelana se pronunciando, e suspirou.
Era estranho pensar em Emma Shelser assim. Desde a morte do pai, ela ocupara os comandos dos negócios da família e, como poucas mulheres britânicas, tinha agora o título nobiliárquico de cond Shelser, que antes pertencia ao pai. Não era comum ladies o terem, e por ter sido algo tão incomum, trouxe muitos comentários, tanto de cunho desagradável quanto agradável.
- ...Bem, já decidiu?
- Hum?... – ergui a cabeça, quando até então, estava mais ocupada (distraída, na verdade) desamassando o punho de meu vestido de governanta.
- O que você fará sobre Miles... Já decidiu, Cora? – Emma repetiu-me.
Afastei-me temporariamente daquele cenário, rumo ao novelo escuro de pensamentos que era aquilo. Do que minha senhora falava, eu sabia muito bem. Apenas não tinha noção do papel de meu filho naquilo tudo.
Uma vez que Mitchell Sunderland morreu, mesmo um filho “não-oficializado” por um casamento continuaria sendo filho dele. E, na falta de qualquer espécie de parente ou semelhantes, Emma cuidava da mansão. Mas até quando? Era aí que Miles entrava: ele seria educado pela própria Shelser, mesmo não morando ou pernoitando em sua casa. Teria a vida normal de um menino dos subúrbios e, no futuro, quando tivesse dezesseis ou dezessete anos, subiria ao cargo de “Patriarca” oficialmente.
Na verdade, eu já tinha tido o suficiente. Não desejava meu pequeno envolvido naquele mundo cheio de mentiras. Só queria que aquela criança fosse... Feliz. E algo em mim não achava que essa felicidade seria encontrada entre quatro paredes amaldiçoadas pelo tempo.
Mesmo que fosse uma espécie de herança...
- Ah, Emma... – eu sussurrei, insegura, como se tudo conspirasse e tivesse ouvidos prontos para nos ouvir. – Você sabe que eu não gosto desse assunto...
- Mas precisa começar a pensar no futuro do Miles, Cora! – ela respondeu. – Ele é o filho legítimo do Mitch. Pode muito bem comandar a família que virá a ter. Eu estou dando uma boa educação a ele desde já, você sabe... Mas, um dia, ele vai ter que saber porque eu o deixo tocar aquelas louçãs melodias em um violino ou ler todos aqueles livros, ou mesmo saber porquê há pessoas que lhe ensinam História, Geografia, Música, Literatura e etc. Isso se até já não desconfia... Aquele menino é muito esperto!
Isso eu sabia. Como estava sempre comigo ali na mansão Shelser, Miles sempre estava ocupado com algo. Emma, em segredo, estava o treinando desde cedo para ser um bom cond no futuro.
Eu não concordava muito, achava que ele tinha o direito de ser uma criança normal, mas sabia que sua educação era muito mais evoluída do que a de qualquer garoto de sua idade ou condição social.
Além disso, Miles parecia gostar muito do conhecimento... Como o pai.
“Veja só, mãe. Aprendi a tocar The Devil’s Trill, finalmente! Dizem é uma das melodias mais difíceis de toda a história de partituras de violino”, ele me dizia, em febril emoção, quando superava a si mesmo.
- Para mim, você já está ensinando-o até demais. – resmunguei, enquanto servia mais chá para Emma. – Dia desses, ele começou a discutir com mamãe Irisa sobre a teoria da evolução.
- Oh, eu perdi isso! – ela riu.
- Foi assustador... Ele tinha uma oratória...
- Estou te dizendo! Ele é um mini-Mitchell! Poderíamos pô-lo como cond aos quatorze anos, ele prosperaria até mais que o pai!
- Não acho que...
- Com licença?
Nós duas desviamos o olhar, assustadas pela súbita interrupção e repentinamente capturadas pelo timbre da voz que tirou-nos daquela linha de conversa. À nossa frente, como se estivesse ali apenas para nos dizer que ainda estávamos embebidas num sonho, uma miniatura do objeto de nossas lágrimas invisíveis precipitou-se.
Ao ver aquela criança vestida em uma roupa negra, com um casaco pesado da mesma cor com os pequenos detalhes vitorianos em vermelho-sangue, cheguei a sentir falta de ar. A beleza discreta foi-me insustentável, e eu tive de cobrir os lábios com as mãos para abafar o esgar de surpresa que se formou sem minha permissão.
Odeio quando ele faz isso!, pensei.
Porque parecia até mesmo uma brincadeira de mau gosto.
Era como se ele estivesse ali, zombando de nossa tristeza, apenas nos fazendo perceber que, na verdade, nunca se afastou de nós. Apenas assumiu uma outra forma, vivendo no corpo de uma outra pessoa.
- Miles! Como essa roupa ficou bem em você! – Emma, ao contrário de mim, recuperou-se muito mais rápido da surpresa.
- Você acha, tia Emma...? – ele deu um pequeno sorriso, envergonhado. – Eu acho que realmente não combino com roupas nobres...
- Besteira, olhe só pra você. Parece até um príncipe negro.
- Sei... – ele suspirou. – Estavam falando de meu pai, não é?
Como se houvesse engatilhado e apontado um revólver em minha cabeça, engoli em seco. O sorriso que Miles dava em momentos assim, quando pronunciava a palavra “pai”... Eu jamais saberia explicá-lo.
Mas podia dizer, sem sombra de dúvidas, que ele me destruía.
- Não sou surdo, tia Emma. Ouvi você e a mamãe falando sobre como sou parecido com ele, antes que tente me convencer do contrário. – finalizou.
Rendida, cond Shelser sorriu do mesmo jeito que ele. – E até onde você ouviu?
- Pode deixar, não ouvi nada mais. Mas sei muito bem que pretende, por exemplo, me tirar da minha vida pacífica e me enfiar na roda dos poderosos das Quatro Famílias no futuro.
Mais uma facada. Realmente, meu filho sabia até demais, mesmo nunca demonstrando isso...
- Be-bem... – eu gaguejei.
- Mas não se preocupem. Eu realmente não me importo. – deu de ombros. – Por hoje, me basta conhecer a mansão Sunderland.
Este era outro assunto que eu estava conseguindo evitar mentalmente, mas que, agora, com aquelas palavras, voltou com toda sua força à baila. Emma Shelser, num súbito acesso de empolgação (daqueles que eu me perguntava até hoje de onde vinham, provavelmente de sua dieta de doces estranhos nos fins-de-semana), sugeriu que eu e ela levássemos Miles para conhecer a sua futura mansão, sob o pretexto de ficar sabendo mais sobre o pai.
Quando o assunto era esse, era até covardia: meu filho deixava seus olhos azulados brilhando de expectativa. E concordaria até em descer ao mais profundo nível do Inferno, se lá houvesse alguma lembrança do genitor falecido. Neste caso, a reação foi a mesma. Ele foi o primeiro a concordar, antes mesmo de eu própria.
- Miles, lembre-se que você ainda pode desistir, se não se sentir preparado... – eu forcei um sorriso. Porque eu própria queria desistir daquela idéia.
- Não seja desmancha-prazeres, Cora! – Emma fez um outro beicinho.
Eu fuzilei-a discretamente com o olhar, deixando claro o porquê de eu estar fazendo aquele apelo. Aparentemente, ela entendeu, afinal, calou-se no mesmo instante, até mesmo se afastando do foco de ameaça, como se dissesse que aquele era um assunto “de família”.
- Estou mais do que preparado, mamãe. – ele me sorriu, daquele jeito que me fazia pensar que era, na verdade, algum anjo vindo diretamente dos céus. – Tenho oito anos. Desde que aprendi a falar e a andar eu desejo viver esse momento.
- Gosto de ver! Você é bem decidido, garoto! – minha senhora abriu um largo sorriso também, batendo nas costas dele. – Honre o sobrenome que você terá e o que você já tem!
- Claro, tia Emma. É claro que honrarei a ambos.
- Então, quer trocar de roupa, Cora? Aí podemos ir embora.
...Eu realmente não podia fazer nada diante de pseudo-apelos como aqueles.
Suspirando, procurei alguma empregada para que recolhesse a louça do jardim, e me preparei mentalmente para enfrentar meu destino.
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