Bavarois

25 Capítulo XXXI


XXXI

Contra meu corpo, eu sentia o frio estranhamente marmóreo da parede. Minha roupa estava aderindo ao corpo, causando ainda mais esta sensação insuportável de estar em temperaturas mínimas. Algo em minha mente dizia que nem o sistema imunológico mais forte iria resistir muito mais tempo sem um banho quente (ou, pelo menos, um banho e uma boa troca de roupas).

Era estranho eu estar pensando em pedir lá na cozinha qualquer coisa líquida e quente, não importava (porque, afinal, eu era uma empregada, querendo ou não, e folhas de chá são iguarias que pessoas sem título nobiliárquico jamais iriam ter).

Há poucos segundos atrás, eu estava livre. Minha mente estava em polvorosa, eu queria respostas. Agora, eu já não tinha mais certeza de nada, apenas de que não desejava mais encarar aqueles orbes cianos fixos nos meus olhos acastanhados, daquela forma tão assustadoramente intensa.

Nos primeiros instantes, eu pensei que Mitchell estivesse com uma overdose de hormônios, achei mesmo que me prendera na parede porque era um macho e, como tal, tinha instintos estranhos, mas... Não. Eu vi naqueles olhos confusão, raiva, receio... Vi tudo, menos paixão.

E aquilo me assustou. Muito.

Mitchell Sunderland sabia exatamente como fazer alguém temê-lo. E, se não soubesse, deveria: era só encarar alguém por mais do que cinco segundos. Isso já era o suficiente. Não consegui manter-me encarando-o, e minha primeira reação diante disso foi, passivamente, baixar os olhos.

Foi quando aquela sua mão em meu queixo trabalhou. Puxou meu rosto, obrigando-me a levantá-lo.

- Está... Está me machucando, Mitchell... – sussurrei, fazendo o que eu podia para manter minha voz firme.

- Olhe para mim, então.

Era exatamente isso que eu estava evitando, mas de repente, vi-me sem nenhuma alternativa a não ser erguer os olhos. Eu achei que fosse chorar, como uma menininha tola de romance, mas fiquei orgulhosa de mim própria quando ergui a cabeça, corajosamente, e fiz um esforço sobre-humano para encará-lo em pé de igualdade (metaforicamente falando, porque ele é alto demais para haver, um dia, até mesmo uma igualdade hipotética...).

Acho que ele ficou tão surpreso quanto eu quando consegui fazer isso, porque soltou de imediato o meu queixo. Findada aquela pressão, eu respirei aliviada, muito discretamente para que ele não ouvisse meu pânico escapando por aquele suspiro.

- Consegue suster seu olhar, boneca? – perguntou ele, apoiando os braços e as duas mãos espalmadas no branco ebúrneo da parede. Eu estava presa entre seus braços, sem nenhuma chance de escape.

- Pensa que está falando com quem? Com uma donzela indefesa? – devolvi-lhe, arrogantemente, mesmo estando longe de sentir toda aquela coragem.

Mitchell riu. – Ótimo. Desculpe por ter apertado seu queixo sem medir minha força. Agora, hora de você me responder algumas coisas, boneca.

- Só te respondo se me responder também.

Algo dentro de mim teve vontade de rir da cara que Mitchell fez. Ele não era de expressar muitas emoções (pelo menos no rosto), e quando ele ergueu a sobrancelha daquele modo, totalmente surpreso, quase que admirado, eu o achei muito engraçado, porque era mesmo a primeira vez que via aquela expressão.

- Ou seja... Você está negociando comigo, senhorita Cora Baker!

Assenti, contendo meu corpo que, ao contrário do meu orgulho, já não estava assim tão confiante.

- Pode me surrar até a exaustão, mas eu não conto nada. Troco respostas por respostas, lord Mitchell Sunderland.

Mais uma vez, eu ouvi aquele seu riso de ironia.

- Você está agindo como uma messalina. Isso me excita.

Rezei para que meu rosto não me traísse, e corasse violentamente quando ele disse aquilo. O brilho divertido em seus olhos azuis me trouxe sentimentos que variavam da raiva à confusão.

- Não se excita coisa nenhuma. – devolvi, no mesmo tom de deboche, propositalmente. Era difícil manter a seriedade com aqueles olhos sempre fixos nos meus. – Pare de ser mentiroso.

- Tem razão, não me excita. E então? Eu já posso jogar?

Quando Mitchell disse isso, só então eu percebi que tudo aquilo era um jogo, como se ele estivesse testando o respeito às minhas próprias regras. Ao ver que eu, mesmo que sem querer, havia o feito, acredito ter ganhado sua confiança. Porque ele apenas inclinou-se ainda mais, quase colando seus lábios nos meus.

- Tenho uma única condição: eu pergunto primeiro.

- A pura verdade, você me entendeu?

- Entendido, boneca. Uma pergunta só, tudo bem?

- Sem problemas.

Quando o peso daquela estranha letargia tirou suas mãos de meus ombros, eu percebi enfim onde estava me metendo: eu estava mesmo negociando a verdade com Mitchell Sunderland, e ele estava disposto a me conceder apenas uma verdade absoluta em troca de outra.

Eu tinha apenas uma pergunta. Só uma chance. Precisava ser cautelosa. Pensar cuidadosamente em tudo que eu sabia, em tudo que eu queria saber, e fazer apenas uma única pergunta que pudesse, ao menos, responder parcialmente as outras. O vapor da água quente propagava-se pelo banheiro e escapava pela porta aberta em direção ao quarto, de onde escapava uma irisada iluminação dourada por debaixo de todo o escarlate que ele continha.

- Muito bem... – Mitchell respirou fundo. – Eu não lembro de ter te falado, ou ao menos dizer que existe, nem metade disso que me falou. Onde você conseguiu estas informações, boneca?

Estremeci. Eu sabia que ele iria fazer essa pergunta, mas, ainda sim, não pude deixar de ficar com medo de sua expressão.

Era como se o lord Sunderland fosse matar quem as tivesse me dado. – Foi... Eu peguei do diário de Victoria Barrington.

Achei que ele fosse ficar uma fera, urrar de ódio ou, ao menos, perguntar-me onde eu havia conseguido aquele diário, se o conhecesse. Mas não. Mitchell ficou absurdamente parado, o rosto neutro, os olhos perdendo, lentamente, todo o brilho de expectativa. Não sei explicar o que aconteceu, mas pareceu-me que ele ficou propositalmente apático, como se esperasse algo assim.

Eu já não tinha a coragem que havia reunido até então, e deixei-me encolher quando os olhos cheios de algum sentimento contido fixaram-se em mim. Mitchell ficou quieto, imóvel, como se fosse uma estátua de mármore frio. Suas mãos continuavam prendendo-me.

Depois do que pareceu uma eternidade silenciosa, ele suspirou. – Estou esperando sua pergunta, Cora.

- Ah... – eu tinha uma visão mais romântica daquela situação, o que me fez ficar seriamente surpresa com a sua fala. O tom naturalmente rouquenho dele estava ainda mais fraco que o habitual. Seja lá o que a frase “eu peguei do diário de Victoria Barrington” tenha significado para ele, deixou-o totalmente sem chão.

Uma pergunta.

Eu devia fazer a pergunta.

Aquela que responderia a tudo e não responderia a nada ao mesmo tempo. Uma estranha dor de cabeça latejou em minhas têmporas, e eu desejei apenas um banho, apenas que aquele latejar estranho passasse. Meus lábios tremeram, e eu forcei-me a buscar mais uma vez aquela coragem que tinha antes.

- Diga-me, então...

Creio que pus toda minha alma em meus olhos, como aquele ditado que diz que os olhos são mesmo o espelho dela. Porque Mitchell me encarou com igual expectativa, com, talvez, a mesma emoção.

- ...Quem matou Victoria?

Mitchell ficou em silêncio. Um longo, sepulcral silêncio.

E, então, sussurrou: – Eu...

- Seu menti...!

- ...E “aquela pessoa”.

O vapor cálido, os olhos de Mitchell, a própria surpresa misturada de um frio no estômago que senti... Tudo isso se desvaneceu em questão de segundos.

- Quem é “aquela pessoa”, Mitchell?!

- Desculpe, boneca. Uma pergunta apenas. – sorriu.

- Mas eu preciso saber! É a minha vida que está em jogo!... – gemi. – Se eu não descobrir e evitar isso, eu... Eu vou morrer, como aconteceu com a Victoria!

- Realmente, este tipo de passividade não combina com você. Mas...

Os lábios gélidos colaram-se no lóbulo da minha orelha. Meu corpo frio foi invadido por uma súbita e perturbadora onda de calor.

- ...Já é tarde demais, de qualquer forma.

Apertei os olhos. Eu achei mesmo que fosse chorar naquele instante. – Por que? Por que é tarde demais?...

- A culpa foi toda minha. Eu a pus neste “mundo” sem necessidade.

- E-eu não me importo... Eu...

- Mas eu me importo. Meu capricho matou Victoria também. E irá matá-la, ou pior. É por isso que estou te protegendo.

Sem me dar conta do que estava fazendo, vi minhas mãos agarrarem-se à roupa negra e quente de Mitchell. Fechei os olhos com força, escondendo meu rosto em seu ombro. Contive um soluço, e pensei em usar o mantra que eu sempre usava para quando queria mas não devia chorar, mas não precisei.

Os braços do lord Sunderland estreitaram-me gentilmente contra o corpo dele. Pensei em dizer-lhe que eu estava molhada e ia feder logo a tecido úmido, e que ele também ia cheirar mal se continuasse assim, mas nada saiu.

- Eu sinto muito. Tentei te afastar, naquela ocasião em que tentei violá-la, achando que ainda podia salvá-la disso, mas... Não adianta mais. “Aquela pessoa” vai buscá-la igual. – sussurrou-me, ainda em meu ouvido, muito baixinho. – Por isso, ao menos, fique onde eu possa observá-la. Onde eu possa tentar protegê-la. Mesmo que eu não possa contar, acredite na minha intenção. Não estou mentindo, Cora.

- Por que não pode me contar...?! – gemi outra vez, com minha voz abafada pela roupa dele.

- Porque eu tenho essa “marca”.

Os lábios de Mitchell deixaram meu ouvido, e subiram até o topo de minha cabeça, depositando um beijo em meus cabelos úmidos. Fechei os olhos com ainda mais força, sentindo as pernas tremerem.

- E esta marca indica que eu sou uma “coisa”. Uma “propriedade”. Algo inteiramente “daquela pessoa”. Por isso, o que “essa pessoa” me diz é a verdade absoluta. Não posso ir contra a ordem dela de que eu devia dizer a quem perguntasse que quem matou Victoria fui eu. Simplesmente não posso, Cora.

Deixei que meus olhos traíssem-me, enfim, mostrando a surpresa que eu não pudera evitar. O diário de Victoria também dizia isso... Dizia que...

- Mitchel, você...

“(...) Eu vislumbrei brevemente seus olhos azuis. Admito que eles me deixam perturbada. São intensos demais.

Não gostei do que vi.

Meu senhor Sunderland tinha o puro e bruto medo ali.

(...) Algo em mim me alertou de qualquer coisa extremamente errada naquilo tudo. Uma coisa muito podre no reino da Dinamarca, espalhando-se na Inglaterra, na mansão Lerwick...”

- Você é um... Um “escravo”...?

- Um pentagrama e um hexagrama. O símbolo do mal reverso, a marca que indica os anjos desonrados.

Aquela mão asquerosa encostou-se a minha pele sensível, bem sobre aquela queimadura que ardia como se estivesse devorando aos poucos todas as camadas de derme que eu possuía.

- “Malos Spiritus Sigillent”. “Contenção de Maus Espíritos”. De agora em diante, esta será a sua “marca”, Mitchell. A sua marca de perdão, de rendição... E aquilo que indica a sua “posse”.

Os lábios daquela pessoa desceram até meu rosto úmido de lágrimas, e eu senti o toque áspero de sua língua traçando o mesmo caminho salgado, até meu queixo.

- Você é “algo” meu. É uma “propriedade”. Saiba desde já o seu lugar...

- Ou qualquer coisa do tipo. – sua voz era baixa, rouca e extremamente triste, sussurrando diretamente em meus cabelos.

O som da chuva continuou ecoando em meus ouvidos. Assim como aquele pulsar mudo do sangue em minha cabeça.

- Agora, eu preciso ir treinar esgrima com a Emma. Mas... Descobrir a verdade não ajudará em nada, Cora. Esqueça tudo isso. – sussurrou-me, uma última vez, tocando em meu rosto.

A mão cálida de Mitchell Sunderland parou no ar uma última vez e, sem mais nenhuma palavra, ele me deixou sozinha naquele banheiro. Ouvi a porta do quarto abrir-se, o eco dela reverberando fundo dentro de mim, e se fechou tão rápido quanto, preenchendo de silêncio, enfim, o ambiente.

Minhas costas escorregaram, devagar. Meu corpo já não se agüentava mais. Escorreguei até que eu senti-me sentando sobre o chão gelado.