Bavarois
26 Capítulo XXXII
XXXII
O som das falas alheias silvava em nossos ouvidos, reverberando assim como a ventania forte. O quarto estava mergulhado em escuridão e silêncio. A porta estava entreaberta, e a tênue claridade das velas do corredor abria-se à nossa frente, apenas num breve alento que arranhava as trevas.
Emma Shelser e eu estávamos sozinhas no quarto que, outrora, fora meu. Ela não podia participar do jantar de negócios, nem ser vista por ninguém. Nenhuma pessoa podia descobri-la na casa do lord Mitchell Sunderland, por isso, o mesmo deu-me a incumbência de cuidá-la enquanto, lá embaixo, o som de taças de fino vidro e das conversas animadas era absoluto.
- Imagino que o Mitch esteja odiando estar lá.
“Mitch”. Soergui uma sobrancelha, incomodada com toda aquela intimidade. A janela entreaberta deixava uma furiosa agulha de luz prateada da lua vaporar num ponto qualquer do chão. Peguei-me, na falta de um livro ou algo melhor, olhando-o fixamente.
- O lord Sunderland... – e frisei o seu título, tentando fazê-la perceber o tamanho da barbárie que ela cometia chamando-o com tamanha familiaridade. – ...Deve ter odiado ter que dar esse jantar de negócios, para começar.
- É mesmo... As agruras do poder são irritantes. – suspirou a mademoiselle de sorriso quebrado.
Suspirei. O clima entre nós estava estranho.
Não era inocente de imaginar que, depois que deixou o quarto, Mitchell fora assim tão gentil com Emma Shelser. Eu sabia que ele ficara extremamente perturbado quando eu falei do diário de Victoria, e isso me fez perceber que, no momento em que eu disse que era dali, ele já sabia a quem recorrer.
Sem dúvidas, enquanto treinavam (se é que fizeram isso mesmo), Mitchell havia brigado muito com Emma.
A ponto de ela estar assim, daquele jeito quebradiço outra vez.
- ...Mil perdões, milady. – suspirei, por fim, desfazendo eu mesma aquela atmosfera opressiva. – Parece que a senhorita não está se divertindo, mesmo sendo este o meu papel, distraí-la por não poder descer.
A lady de cabelos negros e pele de boneca apenas sacudiu sua cabeça.
- Sem problemas, senhorita Baker. A culpa é minha mesmo, eu não estou cooperando.
Fiquei pensando em como a vida era avara: até ontem, eu sinceramente tinha ciúmes, curiosidade e alguma raiva daquela mulher. Agora, eu a estava receando. Será que Mitchell Sunderland havia aberto a boca e contado tudo, como, por exemplo, que eu quem roubara o diário da falecida que estava com ela, que eu a havia posto, mesmo sem querer, contra ele?
Se ela estivesse mesmo com mágoa de mim por isso, ficava pensando em como devia ser estar no mesmo quarto escurecido junto com a inimiga. Eu definitivamente devia parar de pensar neste tipo de coisa ou teria um ataque! Passei a mão por meus cabelos, deixando os fios deslizarem por meus dedos.
Aquilo pareceu me acalmar, mesmo que só um pouquinho, o suficiente para que eu me dirigisse a ela:
- Algum problema, milady?... – e minha voz besuntou-se de mel.
- Pois não? – a dela também, aparentemente.
- Milady Shelser, a senhorita está tão desanimada.
Ela pareceu ponderar alguma coisa, olhando para os lados, como se levasse mesmo a sério o ditado das paredes que têm ouvidos. Não pude deixar de compará-la a um animal acuado.
- É que... – e, então, sussurrou. Num tom extremamente baixo. – Ontem... O Mitch... Ele... Ele brigou comigo, sabe...
- O lord Sunderland?! – droga! Ele abrira mesmo a boca! Maldito Mitchell! – Eu fico surpresa é quando ele não está brigando com ninguém. – menti. – Mas... Permite-me perguntar o que ele fez, milady?
- Não foi exatamente brigar... Eu é que estou sendo dramática... Ele parecia... Hum... Parecia angustiado...
- Angustiado? O que o deixaria assim, milady? – impressão minha ou minha patética tentativa de aliviar alguma coisa estava, na verdade, dando frutos totalmente inversos, como piorar o clima entre nós?
Emma Shelser deixou escapar um suspiro, e puxou a manga de sua camisola para cobrir mais o colo imaculadamente branco. – Mitch ficou muito, muito angustiado quando você contou que leu o diário, senhorita Baker. E que sabe de muita coisa que não devia mesmo saber.
Gelei. Imediatamente, foi como se um aríete tivesse batido com toda a força em meu corpo, jogando-me para uma dura e diferente realidade.
- Vocês...?
- Eu já sabia há muito tempo. – ela sorriu. – Que você tinha ciência da “marca” nas costas dele, que o estava curando, que já sabia de seu passado... Eu já sabia disso. Senti desde que a vi com ele, mesmo vocês fingindo uma relação totalmente normal entre empregada e patrão.
Oh, Deus..., gemi, mentalmente.
- Talvez, por isso eu trouxe aquele diário... É, talvez eu quisesse que você descobrisse... Não sei... – Emma deixava escapar, outra vez.
- Você já sabia que eu...?
- Quando soube por meu pai de uma nova “dama” para o lord Sunderland, imediatamente pensei em Victoria. E em como o seu futuro era sombrio.
Baixei os olhos, massageando a fronte. Então, era mesmo verdade!...
- Então, milady Emma... Por que você está com o diário da falecida Victoria Barrington entre as suas coisas? O diário deveria estar aqui, na mansão Sunderland. Digo... Ele não criou pernas e foi embora, e...
- Mitch quis que eu desse um fim nele. Não queria mais vê-lo.
Novamente, eu me vi pálida, parada ali perto de onde aquela mademoiselle estava sentada na cama. Era como se mãos invisíveis feitas da escuridão do quarto me segurassem e impedissem-me de me mover.
- Ele lhe deu este...?
- Sim. E me ordenou queimá-lo, jogar fora, qualquer coisa. Queria ver este caderno “morto”. Mas eu não tive coragem... Não sei explicar, mas não tive coragem de desfazer-me disso... – vi-a baixar os olhos.
Lentamente, a realidade começou a fazer um pouquinho de sentido.
- Então, a senhorita estava junto dele e “daquela pessoa”, no dia em que Victoria Barrington morreu?...
Emma empalideceu ainda mais, encolhendo-se.
Eu a vi, nervosamente, olhar ao redor de si mais uma vez, protegendo-se de fantasmas invisíveis que eu desconhecia. Desejei poder ler a sua mente, a sua alma, talvez, apenas para saber o que ela pensava e o que escondia.
- Não. Mas eu já sabia que aquilo iria acontecer, muito antes de acontecer de fato. Por isso, quando o diário parou em minhas mãos, eu... Não me surpreendi.
Forcei-me a erguer os olhos depois daquilo, olhando a sua silhueta parcialmente desenhada pela luz dourada das velas.
- Não foi você quem o pegou, Emma Shelser! Ele não te deu o diário!... – compreendi tudo. – Foi “aquela pessoa” quem te deu!... Você apenas pensou que Mitchell iria querer que você se livrasse daquele peso, ou quem sabe, foi uma ordem “daquela pessoa”, a qual não podia ir contra, por causa da sua marca... Mas você... Você escondeu esse diário!
Uma onda de adrenalina afogou meu cérebro em expectativa.
- Quem é “aquela pessoa”, Emma? Por que ela te deu esse diário?! Certamente, se foi parar nas mãos dela, essa pessoa soube quão incriminadora era a prova! Victoria desvendara o segredo, praticamente!...
- Não... Eu não posso falar... – ela gemeu, sacudindo a cabeça freneticamente. Eu me senti diante de uma criança assustada. – Eu não po...
- Ora. Mas olhe quem está aqui!
Com uma corrente elétrica serpenteando minha espinha, obriguei-me a virar para onde uma estranha onda de escuridão borrava e desfocava a luz das velas do corredor. Eu ouvi o som da porta cedendo, abrindo-se como uma cova, e desenhei uma silhueta recoberta de uma paleta de tons amarelos e laranjas.
- Boa noite, miladies. – a figura nos reverenciou. – Não as vi lá embaixo.
Eu não tinha fala. Parecia que tudo em minha anatomia, subitamente, parara. Senti-me uma corça cercada de leoas. Uma presa rendida.
Como ele...?!, perguntava-me mentalmente, sabendo que nunca obteria resposta satisfatória para aquilo.
Mas Emma, tão ou mais surpresa quanto eu... Ela sim, soube dizer algo.
- Pai?...
Sim, era ele mesmo. A luz desenhava a figura assustadoramente felina e completamente vestida de negro de Edward Shelser.
- Olá, Emma. – ele saudou a filha com um breve aceno da cabeça. E, para mim, dignou uma calculada reverência. – Boa noite, senhorita Baker.
Em minha mente, eu gritei por Mitchell ou por mamãe Irisa várias vezes, mesmo que isso parecesse excessivamente “donzela em perigo” para mim.
Porque eu sabia...
Eu sabia que tanto milady Emma quanto eu estávamos estranhamente encurraladas por alguma força destrutiva e muito maior.
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