Bavarois

22 Capítulo XXVIII


XXVIII

Desde aquele dia feito de sopros de neve na janela, onde Mitchell Sunderland caiu, vitimado de febre, e eu descobri a estranha marca que tantas vezes já tinha visto, sem nunca ter percebido, eu me perguntava o que acontecia debaixo daquele teto, o que estava estendendo seus tentáculos de trevas para ali.

Foram muitos acontecimentos desde aquele dia. Muitas outras pessoas que conheci. E todas elas tinham a mesma sombra que Mitchell em seus olhos: o medo. A insegurança. Os segredos. Grilhões que me impediam de saber a verdade, como se eles estivessem protegendo a mim e a si próprios de algo muito maior.

Eu tinha medo. Muito medo daquilo que sequer sabia o que era.

E, repentinamente, debaixo daquele teto esbranquiçado que refletia as luzes das velas, eu percebi que outras pessoas já haviam pisado naquele território.

Outros tantos pagaram pecados indeléveis e misteriosos.

“Victoria Barrington”, por exemplo.

Aquele era o seu diário. Anotações secretas, escondidas em páginas envelhecidas, e no tecido macio e perfumado das roupas daquela mademoiselle Shelser. Eu não sabia porquê ela tinha aquilo. Mas, antes que eu pudesse perceber, algum instinto profundamente enraizado em mim forçava-me a ler (provavelmente com um dedo da curiosidade) aquilo.

Não posso imaginar quanto de sua energia e tempo ela gastou para pesquisar e escrever tudo aquilo. Nem com quem aprendeu a fazer isso...

Eu aprendi com mamãe, por exemplo. Será mesmo que Victoria também aprendeu a escrever e ler com mamãe, enganando-a, apenas para poder conseguir desvendar os mistérios das letras diminutas, unidas em uma frase, e que seriam, quem sabe, a chave para sua sobrevivência?

É muita informação!, eu pensava, surpresa, enquanto folheava as páginas.

Parei em uma delas, sem querer, onde Victoria descrevia com uma minúcia absurda os Nephilim, com uma nota de rodapé dizendo “Gênesis 6:4”.

Um grande pentagrama estava desenhado sobre o texto, o que dificultou um pouco minha leitura. Era como se Victoria estivesse associando onde pudesse fazê-lo, como se aquilo fosse algo muito importante.

Meus olhos pararam num trecho mais afastado da explicação de Nephilim, que, pelo que li, eram os descendentes das filhas dos homens e dos anjos caídos, mas não menos curioso que o resto:

(...) Nas mais antigas crenças Satânicas, o centro de um pentagrama indica a exata localização dos Caídos, os anjos banidos do Paraíso.

Logo abaixo, encontrei algo falando de hexagramas.

(...) Talismã das bruxas. É o mistério da maldade, referido na Cabala como o símbolo da união de todos os planetas. (...) Era, no passado, largamente utilizado como talismã de contenção por sacerdotes.

Uma flecha puxava os dois trechos e concentrava-os em apenas uma palavra: “Correntes?”.

Acredito que minha memória tenha sempre sido fotográfica. E esta crença mostrou-se verdadeira, porque imediatamente algo se acendeu em minha mente. Eu não soube dizer com clareza o quê era, mas sentia que precisava folhear mais uma vez as páginas daquele diário, revistar cada linha, porque aquilo queria dizer algo.

Lá, no fundo de meus ouvidos, eu ouvia Emma Shelser banhando-se, mas todo meu corpo tremia de uma estranha e muda expectativa.

Eu sentia que um laço muito mais estreito do que imaginei unia os destinos meu e de Victoria.

Ela já esteve aqui, em meu lugar.

Buscando freneticamente o que minha mente havia alertado naqueles rabiscos apressados, eu divisei um desenho do brasão dos Sunderland. Eu o conhecia, afinal, há cinco anos trabalho aqui neste lugar... Se fosse qualquer outro brasão (se bem que, agora, eu conheço o dos Shelser), certamente não o teria relacionado.

Era um áureo leão acorrentado, com uma moeda em sua boca. Lembrou-me do comentário de uma empregada, de como as Nobres Famílias eram estranhas por terem dinheiro até no brasão. Por isso, imaginei que nos outros brasões também houvesse uma moeda em algum lugar.

...Estranhamente, os Shelser eram os únicos sem esse símbolo.

Eram àquelas correntes do leão que Victoria fazia referência?

Para minha surpresa, pude ler pequenas inscrições em algumas partes do leão dourado, sem dúvidas, escritas pela ex-dama de companhia de Mitchell Sunderland, em algum momento frenético seu.

“Corrente: servidão. Moedas: mundo material”.

Nunca pude dizer de onde me veio aquela conclusão, apenas que ela atravessou minha mente, e não pôde mais sair, depois daquilo: isso queria dizer, então... Que os Shelser e os Sunderland, bem como as outras famílias... Todas elas estavam unidas em alguma coisa? Em alguma espécie de vida secreta, separada de suas vidas como os superiores de St. Helens?

Que aquelas correntes... Significavam a submissão das famílias aos Shelser, “a lei absoluta da região”? Ou seja, aquela marca em Mitchell, em mamãe Irisa e até mesmo na própria filha de Edward Shelser...

Eram marcas de submissão?!

O hexagrama dos espíritos e o pentagrama dos anjos desonrados era isso... A marca do pecado?

Em que história de gente louca eu fui me meter?!

Antes que eu pudesse ficar mais assustada, ouvi o som da porta abrindo-se, e rapidamente escondi o diário de Victoria debaixo de meu vestido, entre meus pés. Com um sorriso, divisei a mademoiselle Emma saindo do banheiro repleto de vapor de água quente e cheiro adocicado de sais.

- A senhorita já vai para a cama, milady? – sorri, tentando me fazer gentil.

- Sim... Não pude encontrar Mitchell de novo... – ela suspirou. Parecia sofrer com isso, e novamente eu me perguntei o porquê dela estar ali.

- Amanhã ele deve estar apto a falar com a milady de forma decente. O senhor Sunderland ainda está surpreso, acredito. – bem, eu estava...

- É, deve ser isso... – concordou, baixando a cabeça e deixando seus cachos negros caírem em seus ombros e revelarem a nuca alva.

A camisola de Emma Shelser era grande. E escondia grande parte das costas e até da própria nuca, chegando quase ao pescoço. Eu compreendi na hora o seu complexo com aquela marca maldita; mamãe e Mitchell também o tinham.

Eles eram três pessoas completamente diferentes. Mamãe Irisa era uma empregada, Mitchell era um nobre, porém de origem humilde, e Emma era uma delicada mademoiselle da nobreza pura. Não havia nenhuma conexão ou sentido aparente nestas escolhas. Aparentemente...

- Acho que vou dormir, senhorita Baker. – ela anunciou.

- Ah... Gostaria que eu a cobrisse? Quer ajuda para dormir? – não saí do meu lugar, entretanto. Era perigoso deixar que Emma Shelser notasse que eu tinha seu diário em meus pés.

- Muito obrigada, já causei problemas o suficiente. – ela me sorriu. Por um instante, só um instante pequenino, eu senti pena daquela menina. Ela devia ter sido uma donzela de sorriso radiante antes de tornar-se isso, um esboço de milady, de sorriso e gestos quebradiços. – Mas... Poderia apagar as velas...?

- É claro, milady Shelser. – fiz uma calculada reverência, arrastando como podia o diário comigo até chegar no castiçal, na mesa perto da porta. – Boa noite.

- Boa noite, senhorita Baker.

...É, eu teria uma longa noite. Gostaria que fosse boa, ao menos.