Bavarois
23 Capítulo XXIX
XXIX
A tempestade que não tardaria para chegar não esperou o anoitecer para mostrar as garras. Logo, a cidade viu-se coberta, redesenhada por aquela tela de veludo líquido, enquanto a cerração eterna cobria-a aos poucos. As poças formavam-se aos montes no chão, e eu tinha certeza de que o sol não poderia mostrar-se, com aquela quantidade absurda de nuvens plúmbeas no céu.
Eu havia me distraído em demasia lendo aquele diário. Não sei quando comecei, nem quando tive de acabar e devolvê-lo aos montes de vestidos perfeitos de Emma Shelser, sorrateiramente, antes que ela percebesse que eu era uma pequena ladra. A verdade é que eu sequer tinha sono: só ansiedade.
Parei apenas de lê-lo quando ouvi os sons de mamãe Irisa arrastando-se à minha direção, querendo acordar-me. Provavelmente, eu estava incrivelmente atrasada para as minhas obrigações de empregada mais “dama de companhia”.
- Bom dia, minha filha... Que cara é essa? – ela perguntara-me, quando me encontrou. Parecia preocupada, e isso me fez alvoroçar-me.
- Ah... Errr... Eu não dormi direito, acho... Tive uns sonhos estranhos... – apelei para a desculpa que sempre funcionava.
Quando eu fui achada por mamãe Irisa e o senhor Sunderland me deixou ficar ali como uma empregada, mesmo sem sequer me conhecer, eu tive pequenos problemas para me habituar àquele ambiente. Nos primeiros meses, sempre tive muitos pesadelos de noite.
Fantasmas cobertos de pele obsidiana, o cheiro pútrido dos mortos e da carne queimada. Eu via o lugar, eu via aquela casa, e parecia até mesmo que uma fada em minha mente fazia-me rever todo aquele dia fatídico outra vez. Aqueles eram os sonhos mais traumatizantes: nunca acordei de um deles sem estar gritando e perturbando a paz das outras empregadas e funcionários.
- É mesmo? – eu sabia dos efeitos colaterais: um deles era ver Irisa Baker aproximar-se de mim e tocar-me o rosto, me abraçar, coisas assim. – Mas fazia tanto tempo que não tinha pesadelos!... Foi muito ruim?
- Não muito, mamãe. Eu não acordei gritando, graças aos céus. Mas também não pude mais dormir. – incrível, eu estava me revelando uma mentirosa nata. Sequer estava me lamentando por enganar tanto a mulher que me salvou.
- Da próxima vez, quando tiver um pesadelo assim, venha dormir comigo. Como fazia antigamente, lembra? – e eu senti seus dedos longos de uma pianista que ela nunca foi acariciando meus cabelos acobreados.
Eu ri, como não podia deixar de ser. Mães nunca vêm o crescimento de seus filhos. – Não acha que eu estou um pouco velha pra isso...?
- Nunca para mim, meu bebê. – beijou-me a testa.
“Boneca”, “bebê”... As pessoas adoravam chamar-me de tudo, menos pelo meu nome. Eu iria acabar adquirindo um sério complexo por causa dele.
- Ah, tá bom... – continuei rindo. – Falando nisso, mamãe! A senhorita viu o M... Senhor Sunderland por aí?
Quando ela me disse onde os dois estavam, eu suspirei pesadamente. Mitchell tinha uma personalidade excêntrica e propícia a barbáries inimagináveis, mas não imaginava mesmo que chegasse àquele ponto. Ele era mesmo um anormal, para arriscar sua vida o tempo todo e nunca morrer de pneumonia! A família Sunderland inteira sucumbiu a isso e ele, o mais frágil, permaneceu firme.
Irônico, muito irônico...
Quando me vi diante da porta dos fundos, na cozinha abarrotada de empregadas atarefadas que me saudavam assim que me reconheciam (e eu as cumprimentava em retorno), eu respirei fundo, reunindo coragem. Contei até três e abri-a, correndo sob a chuva.
Não demorou muito mais que alguns minutos para que eu me encharcasse até a medula, e começasse, obviamente, a tilintar de frio.
Aquela tempestade começara ainda pela madrugada, perto da hora onde cantam os primeiros pássaros, e não parara até agora. Eu não vira nem Emma Shelser nem Mitchell Sunderland na hora do almoço, e isso me deixou com uma sensação lamentável e algo preso na garganta (identifiquei, portanto, como efeitos do ciúme). Procurei-os por alguns momentos, mas logo voltei-me ao quarto de Emma para ler mais um pouco.
Fui desperta daquele mundo de revelações e verdades que eu já suspeitava por mamãe Irisa, que finalmente deu-me o paradeiro daqueles dois riquinhos irresponsáveis sumidos desde a manhã.
Ali, naqueles jardins internos, sete anos atrás, todos os pertences dos falecidos da família Sunderland foram queimados. A história alastrou-se por St. Helens como o fogo o faz em palha.
Ouvi, de repente, o som agudo de metal chocando contra metal.
Abrindo um sorriso por finalmente ter uma direção no meio daquela tempestade cruel, corri para a direção de onde o som ficava mais alto. Os pouquíssimos raios solares que conseguiam atravessar a grossa camada de nuvens no céu não eram o suficiente para ajudar ali. Aquela tarde mais parecia uma noite profunda. Eu via o contorno delicado das flores brancas e das vermelhas, engolfadas pelo cinza espectral e chicoteadas pela chuva, e sentia pena delas, por alguma razão.
Quando divisei as duas silhuetas, corri, tencionando gritar o nome de Mitchell. Mas parei, tão logo percebi o que eles faziam.
Graças aos deuses não era o que eu pensava (um homem e uma mulher somem do nada por longas horas!). Suspirei, aliviada, ao constatar que ainda não ganhara um par de chifres daquelazinha. Na verdade, foi tão surpreendente quanto flagrá-los fazendo algo do tipo, mas não foi assim.
Ambos tinham floretes nas mãos. Uma fina, porém resistente espada, aquelas que eu via em gravuras de cavaleiros encantados da idade média.
Mitchell vestia uma roupa que eu consideraria natural para este tipo de situação: uma camisa branca de mangas compridas, ensopada de chuva e colando-se ao corpo dele em alguns lugares, uma calça de um marrom que beirava o negro puro e botas negras. Uma roupa simples e típica para treinamentos, que se assemelhava e muito às também da idade média.
Era Emma Shelser que me impressionava. Aquela mademoiselle usava algo muito semelhante. O uniforme típico de um lutador de esgrima (creio ser este o esporte). E como era inteiramente branca a sua roupa, ela também colava-se e ficava transparente nos lugares mais inconvenientes (morte àquela garota!).
Eu nunca havia visto uma mulher de calças antes. Foi uma surpresa imensa, ainda mais ao vê-la lutar com Mitchell Sunderland. Aquela minha imagem de mademoiselle delicada e quebradiça pareceu ser feita em frangalhos em dois tempos. Os dois pareciam extremamente concentrados, debaixo da chuva, trocando golpes de espada, desviando-se dos que eram-lhe aplicados com uma graça exemplar. Pareciam até, constatei com ciúmes, uma pintura.
- Você passa alguns dias longe daqui, e já perde quase tudo que havia aprendido, Emma! – eu o ouvia dizer em meio aos golpes ensurdecedores do florete. – Vamos ter que treinar a tarde toda hoje e amanhã!
- Sem problemas, Mitchell. – ela respondeu. Impressão minha ou estava sorrindo por tudo aquilo? – Quanto mais me ensinar, melhor!
Percebi que estava prendendo a respiração, e imediatamente corei, mesmo com a chuva gelada derramando-se até dentro de minhas células.
Era incrível como a chuva tinha a capacidade de deixar as pessoas um tanto quanto melhores: Emma Shelser tinha seu cabelo cacheado e perfeito com alguns de seus cachos colados na nuca. A mesma parecia até mesmo mais visível do que o normal. Odiava admitir, mas ela era uma bela mademoiselle. Os olhos dela, geralmente tão apagados, estavam acesos, brilhantes, como devia ser uma donzela normal: ela estava apaixonada por aqueles momentos, lutando com um lord e vestindo-se como homem.
Mitchell também estava muito mais belo que o habitual (e isso eu constatei com um aperto vergonhoso no coração). O cabelo loiro estava igualmente colado à sua nuca, e alguns fios de sua franja caíam-lhe pelo rosto, conferindo um ar de príncipe de contos-de-fada realmente convincente. A pele, anormalmente pálida como eu conhecia, quase parecia se fundir com aquela camisa branca. Eu nunca o vira de branco antes, por isso, foi uma agradável surpresa constatar como ficava bem. Sempre achei que Mitchell Sunderland e o preto e o vermelho fossem o casamento perfeito, e o resto era resto.
Perguntava-me porquê dois nobres totalmente normais, com tanta coisa a mais para divertirem-se, estariam treinando esgrima no meio de uma chuva torrencial. E fiquei ainda mais intrigada do porquê não tê-los alertado de minha presença.
- Incrível! Você não está recitando nada nem me dizendo que “a esposa de Mitchell Sunderland tem que ter uma inteligência impecável”, e me ofendendo por eu não ter isso. – Emma riu, repentinamente.
Percebi pelo rosto de Mitchell que ele foi pego de surpresa com isso, mas o vi dar um pequeno, discretíssimo sorriso.
- Estava distraído. E então, algo para alegrar meus ouvidos?
- Bem... Eu aprendi haikus!
- Falando sério? – ergueu uma sobrancelha.
- Muito. Lembrei de você, na hora. – e aquele maldito sorriso de mademoiselle quebradiça nasceu em seu rosto. Eu devia saber: uma vez Emma Shelser, para sempre minha inimiga.
- Recite-me um.
- “De que árvore florida / Chega? Não sei. / Mas é seu perfume”.
- Hum... Basho Matsuo, o pai do haiku. Muito bom, Emma.
Sempre quando o assunto voltava-se para aquele tipo de coisa, livros, cultura, inteligência... Os olhos de Mitchell Sunderland sempre adquiriam uma outra tonalidade de azul. Ficavam quase que alegres. Eu sempre podia sentir, nessas horas, o quanto ele gostava disso, do conhecimento.
Ao contrário de muitos homens e lords que achavam o suficiente a educação cristã, eu via nele uma sede de aprender sempre mais e mais, quase como uma necessidade física. E achava aquilo louvável, tinha de admitir.
- Ah! Por que tudo que eu conheço você já conhecia bem antes?! – e ela fez um beicinho nessa hora, quando o ouviu dizer o nome do autor.
- É porque, cara Emma...
Com um rápido movimento de sua parte, Mitchell jogou seu florete sobre o de Emma, num ataque tão rápido e tão calculado que eu não pude acompanhar com os olhos. Tudo que vi foi o florete da mademoiselle Shelser voando, sua figura descrevendo arcos perfeitos no céu, o seu contorno recoberto com uma camada esfumaçada de chuva.
E então, com um baque surdo de metal caindo sobre a grama úmida, ela viu-se sem armas, e com o florete de Mitchell apontado para seu queixo delicado, com o próprio lord Sunderland insuportavelmente próximo a ela.
- ...Eu sou insaciável. – e isso foi quase um sussurro.
Respirei fundo, extremamente fundo, para não pular no pescoço dele.
- Com licença. – me fiz ouvir, com um pigarreio, e os olhos de ambos desviaram-se para a minha direção. Pareciam, até então, totalmente alheios à presença de uma empregada em suas lições secretas.
- Ora, senhorita Baker... – ele precipitou-se sobre mim, fazendo-me prender a respiração ao ver o corpo encharcado dele (e muito de seu peito sob a camisa semi-transparente) bem ao meu lado. – O que está fazendo no meio da chuva?!
- Eu que pergunto, senhor Sunderland! – aquelas formalidades me irritavam, mas na frente de Emma Shelser, eram necessárias. – O senhor sabe que tem a saúde fraca. Vai adoecer!
- Não se preocupe quanto a isso, senhorita. – ele respondeu, simplesmente, passando a mão pelos cabelos úmidos.
Engoli em seco, desviando minha atenção a Emma.
- Milady Shelser, importa-se de me responder o que estão fazendo? – e fiz questão de olhá-la de cima a baixo, com uma face neutra. Ainda me surpreendia de vê-la de calças, quando ela me passava uma imagem de tanta fragilidade, enquanto eu me descobria a verdadeira donzela delicada da situação.
- Treinando esgrima, senhorita Baker. – ela me sorriu.
Não diga...
- Milady Shelser, a senhorita vai ficar aqui?
Quando eu percebi, Mitchell havia pegado os dois floretes e estava fazendo o mesmo caminho que o meu, tencionando entrar pela cozinha.
- Mi... Lord Sunderland! – eu exclamei, surpresa. Não era nada educado deixar uma dama, por mais que fosse uma dama esquisita, com tendências pervertidas e que lutava esgrima, na chuva e sozinha.
- E-eu vou sim, muito obrigada. Já os acompanho. – ela disse, simplesmente. Emma não mentira mesmo, naquela hora, quando disse que estava acostumada à personalidade torta de Mitchell.
- Bom, senhorita Baker, me acompanhe, sim?
- Hum?...
- Preciso tomar um banho quente antes que fique seriamente resfriado. A senhorita vai me ajudar, é claro. Não vai? – e virou-se, apenas para me sorrir daquela forma sádica e divertida, de quando nos conhecemos.
Minha primeira reação foi borbulhar de raiva, a ponto de esquecer que pequenas nuvenzinhas semi-transparentes escapavam pelos meus lábios gélidos. Mas então, lembrei-me do diário: era isso mesmo que eu queria! Ficar sozinha com Mitchell e tirar algumas estórias a limpo!
Não poderia ter vindo em melhor hora aquela proposta.
(Apesar da situação infame onde ela iria ocorrer).
- S-sim... Sim senhor, eu irei ajudá-lo... – é claro que ninguém ia desconfiar disso. Eu era uma empregada, uma “dama de companhia”. Meu trabalho era exatamente fazer esse tipo de coisa. – Até mais tarde, milady Emma.
- Até. – ela fez um “tchauzinho”, e logo, perdeu-se nas brumas da tempestade que assolava a tarde daquela cidadezinha.
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