Bavarois
17 Capítulo XXI
XXI
Numa fria e nublada tarde de Setembro, o herdeiro Alrick Sunderland casara-se com uma moça de boa família, de nome Becka Walker. Aos olhos do patriarca Sunderland, Gerard, que estava em seu leito de morte, Becka pareceu-lhe frágil, bonita, jovem e principalmente fértil (além de ter bons familiares e um ótimo dote). A mulher perfeita para seu filho. Alrick era um homem de pouca beleza, um raciocínio metódico, mas muito poder, por ser filho de uma das Quatro Famílias. Não foi amor; aquele foi um casamento por pura conveniência.
Naquela noite gelada de Setembro de 1821, o herdeiro que transpirava solteirice e a jovem que desejava apenas cumprir seu papel de mulher de boa família deitaram-se pela primeira vez num leito nupcial, saboreando os mistérios da alcova. Dois dias depois, Gerard Sunderland morreu, deixando o próspero império da família Sunderland, conhecida em toda a região por controlarem as fábricas e manufaturas, nas mãos de seu ambicioso e único filho.
As estações passaram e, então, tanto Becka Sunderland quanto seu marido começaram a se preocupar. A mulher tão dócil e perfeita não estava engravidando.
Os comentários entre os membros das outras poderosas famílias começaram a chegar aos seus ouvidos. Os Shelser, os Bursnell e os Lerwick... Todos comentavam a falta de herdeiros, o destino incerto do império Sunderland. Como assim, não haviam herdeiros?
Alrick Sunderland aplicou à situação a sua lógica metódica, jogando a culpa em sua mulher. A mesma tentou de todas as formas seduzi-lo, rezou, pediu a todos os santos que lhes desse um filho apenas, um só estaria bom. Mas não... Naquele útero, nenhum bebê desenvolvia-se. A jovem Sunderland continuou em sua obstinada busca por um meio de engravidar.
E, enquanto ela afogava-se na culpa em não poder produzir um herdeiro digno, Alrick Sunderland afogava-se em seu trabalho, em comandar as fábricas, em cuidar para que o poder da família não fosse afogado junto, graças à incompetência de sua esposa. Ele era um homem viril, um homem maduro! Era um verdadeiro macho! A culpa não era sua; e agora, tinha de cobrir os erros de sua esposa e ainda cortejá-la todas as noites, na tentativa de emprenhá-la.
Numa manhã nebulosa de 1824, Alrick Sunderland recebeu um comunicado de que uma fábrica na área de Prescot estava com problemas, e necessitava urgentemente de sua presença.
Aquele foi o chamado divino para Alrick Sunderland.
Foi com alívio que ele beijou sua esposa, por obrigação, foi com imenso alívio que fechou a porta da carruagem, deixando a neve escorrer por sua janela, e respirou fundo, sentindo-se livre, quando viu-se longe de St. Helens, longe dos comentários, das obrigações infrutíferas de sua vida pessoal e insatisfatória.
Prescot tinha um clima muito mais ameno, e a primeira coisa que ele fez foi retirar seu casaco.
Naquele mesmo dia, depois do almoço, Alrick Sunderland dedicou quinze minutos de seu tempo livre para andar pelas ruas da cidadela, observando seu povo, descansando, enfim. E então, pousou seus olhos azuis de um céu primaveril na vitrine de uma floricultura.
Ele observou por muito tempo, muito atentamente, uma jovem que ali trabalhava, e alcançava uma rara e fresca tulipa escarlate para uma menina das redondezas. Aquela mulher tinha os cabelos mais loiros e sedosos que ele já vira, presos em uma trança que caía-lhe pelas costas. Os olhos eram da cor do mar, da cor do céu, um límpido azul-primaveril, e sua pele era branquíssima, da cor da pele das donzelas dos livros de romance que via sua esposa ler. Mesmo aquela jovem não sendo uma lady, ela competia com sua esposa, e certamente ganhava em beleza e graça da mesma.
Pela primeira vez em toda a sua vida, Alrick Sunderland fez algo que não julgou uma obrigação. Fê-lo por livre e espontânea vontade: ele entrou naquela floricultura, encantado por aquele anjo delicado.
A jovem sorriu-lhe e se apresentou como Faith. Faith Harpper, era o seu nome. Aquela era a floricultura de sua família, levada por uma doença muitos anos antes, e ela cuidava da mesma sozinha agora.
Alrick Sunderland apiedou-se por aquela alma tão forte em um corpo tão etéreo, e conversou com ela, gastando todo o tempo livre que reservara para si. Quando percebeu, precisava voltar para aquele mundo fechado, o mundo das obrigações. Ele despediu-se, e Faith Harpper pediu-lhe que esperasse um pouco. E, então, depositou uma flor branca de maçã em sua mão de homem de negócios, e disse que aquela flor significava “Boa Sorte”.
Alrick Sunderland viu-se apaixonado naquele dia por Faith Harpper, eterna e invariavelmente.
Os dias transformaram-se em semanas, as semanas em meses. Alrick Sunderland escrevia à sua esposa somente para não preocupá-la, e procurava notícias agradáveis para transmitir-lhe, como a reorganização da fábrica, o fato de que ele estaria voltando em breve para ela (não que isso fosse bom para ele). Enquanto isso, Becka Walker enviava-lhe cartas falando dos comentários ao seu respeito, da demora dele, de como estava sendo difícil suportar tudo sozinha... E, principalmente, da saudade que ela tinha.
Não demorou muito para que Faith Harpper e Alrick Sunderland tornassem-se amantes. Eles viam-se todos os dias, trocavam prazeres e sorrisos. Nunca a vida fora tão gentil àquele homem solitário. Ele estava feliz.
E desejava aquela felicidade para sempre, se pudesse.
Até que, num trágico dia chuvoso de 1824, Faith Harpper anunciou: “Eu estou grávida, Alrick...”, ela disse. “O filho é seu”.
Durante toda aquela tarde, Faith chorou nos braços de Alrick, enquanto o mesmo ponderava o que faria dali em diante, com um filho bastardo no ventre de uma amante. Eles consolaram-se mutuamente por muito e muito tempo, e chegaram à conclusão de que, todo o mês, Alrick Sunderland mandaria uma certa quantia de dinheiro escondida, para que ela criasse sozinha, em segredo, aquele bebê.
Ninguém poderia saber que ele era filho de um Sunderland. Ninguém.
Faith Harpper concordou, sem saídas, e naquela noite solitária, eles amaram-se uma última vez, entre lágrimas e gemidos. No dia seguinte, Alrick Sunderland desapareceu fisicamente para sempre da vida de Faith Harpper.
Todos os meses, no lugar em que eles combinaram, Faith encontrava um envelope cheio de dinheiro. E ela pôde sobreviver com aquele dinheiro, e também graças à ajuda de sua floricultura.
E, assim, sozinha e sem ninguém, ela deu à luz uma criança, numa madrugada cheia de névoa e lágrimas de chuva em 1825. Foi encontrada pelas vizinhas que ouviram seus gritos desesperados, e encontraram-na no limiar da consciência, tentando expelir aquela criança que já chorava a plenos pulmões de seu corpo.
Faith Harpper acordou dois dias depois, quando a febre finalmente baixou e a dor já não era excruciante.
Ao seu lado, placidamente, um bebê estava adormecido.
Ela o pegou em seus braços, balançou-o ternamente, encharcada de um estranho e profundo amor que jamais sentiu por ninguém, nem pelo pai daquele bebê. Ao puxar-lhe os panos brancos, viu que era um menino. Um menino pálido e de olhos azuis. Era a sua cópia perfeita. A mesma beleza etérea, os mesmos cabelos loiros, os mesmos olhos de alfazema.
“Mitchell”, ela disse, neste momento. “Você irá carregar o nome de meu dileto pai. Será um homem tão admirável quanto. Você se chamará Mitchell, meu filho”.
Duas semanas depois, Faith escreveu uma carta para Alrick Sunderland, contando sobre o nascimento de seu filho, de como aquela criança era especial, de como era tão parecida com a mãe e, ainda sim, tinha alguma coisa do pai, algo que ela não conseguia explicar. Pôs toda a sua alma naquela carta. As lágrimas de saudade e emoção por sua criança manchavam o papel a todo o momento.
Ela enviou a carta, e esperou. Esperou pela resposta do amado, esperou por sua felicidade, por sua promessa de vir conhecer seu filho em breve.
Mas essa resposta nunca chegou. E o dinheiro também.
Foi um duro golpe para Faith Harpper, mas agora ela viu-se sozinha, sem apoio financeiro, sem nenhum marido e com um bebê para cuidar e amar. Nenhum homem queria-a, agora que ela era uma “mãe da vida”, com um bebê bastardo que ninguém sabia quem era o pai.
O dinheiro da floricultura já não podia pagar todas as contas, afinal, ninguém mais comprava flores de uma mulher com fama de puta e, então, Faith Harpper apelou para a profissão de criada em várias casas. Suas senhoras falavam mal de sua criança – ela era um dos assuntos preferidos na pequena cidadela de Prescot –, mas, ao menos, deixavam a criada trazer o bebê Mitchell, para ser amamentado pela mãe e mimado pelas outras empregadas.
Os primeiros meses foram os mais difíceis. Por muitas vezes, Faith achou que não conseguiria dar conta de tudo sozinha. Mas, então, ela parava tudo que estava fazendo, e olhava para seu bebê.
Aquele serzinho tão frágil e dependente, aqueles olhos tão brilhantes, tão azuis... Tudo aquilo iria ir embora se ela não fosse forte, se ela não suportasse. Ela queria que Mitchell crescesse. Queria que ele se tornasse um bom rapaz, uma pessoa íntegra, honesta, alguém que, quando crescesse e se apaixonasse, quando seguisse uma profissão, quando tivesse sua própria vida, sempre pudesse assumir seus erros e seus acertos... Ela o criava com todo o esmero, dedicando-lhe todo o seu amor de mãe. Ela desejava que ele se tornasse um bom menino, ao contrário de seu pai.
Ensinou-lhe lições de humildade, lições de perseverança, lições que iam se fixando à alma daquela criança. O pequenino querubim acatava tudo, e qualquer ordem ou pedido de sua mãe era a prioridade. Ele via a tristeza em seus olhos; e queria ser o que ela imaginava. Queria ser o “bom menino” que ela desejava que fosse. Queria fazê-la feliz.
Desde cedo, Mitchell Harpper tinha a paixão nos olhos. Ele tinha a bondade. E tinha o ódio. O ódio por aqueles que humilhavam-na publicamente, só porque ela foi abandonada por um homem egoísta que não a amava de fato, deixada só com ele, um bastardo, uma criança indesejada, mas que ela amou mesmo assim. Tinha o ódio pelo seu genitor e pelas pessoas que ousavam difamar a única pérola de sua vida: ela. Sua querida mãe. Sua única Faith Harpper.
Eram sentimentos e compreensões pesados demais para uma criança tão pequena, e isso teve um preço: ele cresceu cedo demais. Forjado na humildade e na humilhação, ele tornou-se uma criança extremamente taciturna.
“Mil perdões, Mitchell... A culpa foi toda minha”, sua mãe dizia-lhe, às vezes, quando balançava-o em seus cálidos braços, fazendo-o dormir. “A culpa por você ser tão mal visto... É toda minha... O pecado é todo meu, mas você paga por ele também...”
“Não me importo, mamãe”, a criança respondia. E ela era sincera nisso. “Não me importo comigo. Mas eu fico triste quando a mamãe chora por isso.”
Ele pensava que, nessas horas, desejaria nunca ter nascido, se fosse pelo bem da felicidade de sua mãe. Ou desejava morrer. Mas ele sabia, de alguma forma, que nem mesmo sua morte consertaria aquela situação.
A impotência. A frustração. Ele era muito jovem, e já conhecia aqueles sentimentos muito bem.
Mitchell Harpper ia crescendo aos poucos. Tornou-se uma criança de olhos profundos, e não eram poucas as pessoas que afirmavam que aqueles eram olhos de demônio, que fixavam e pareciam ler a alma dos outros. As empregadas sempre lhe diziam que, quando ele crescesse, iria se tornar um homem muito lindo, de olhar penetrante. “Se você fosse mais velho, pequenininho, eu casaria com você!”, diziam algumas, apertando sua bochecha rosada de criança em tenra idade.
Faith Harpper sentia que não podia ter mais sorte. Estava conseguindo criar sua criança, mesmo com os comentários maldosos. Estava sobrevivendo naquela cidade! E, mais do que tudo, tinha um filho maravilhoso, mesmo que fosse um bastardo.
Mitchell era uma criança muito solitária, privada da socialização com outros de sua idade por conta de sua condição de “filho bastardo”, e que evitava o contato com qualquer um que não fosse sua mãe. Não falava nada, mas quando abria a boca, suas frases eram impecáveis, tão perfeitas que assustavam (e maravilhavam na mesma medida). Desde cedo ele deu mostras de que seria um homem culto, impecável, alguém de aparência inalcançável e sóbria.
Além disso, ele nunca perturbava ninguém. Sempre inventava brincadeiras solitárias, conversava com o que pareciam ser amigos imaginários. Ele nunca pareceu se interessar por lições de catecismo, mas tinha aqueles olhos de alfazema particularmente brilhantes quando ouvia, em silêncio, escondido, as senhoras das casas onde sua mãe trabalhava recitarem poemas em saraus da tarde, lerem livros em voz alta, enquanto bebericavam chá. Aquela criança tinha uma verdadeira paixão pelas artes escritas.
Uma das senhoras de sua mãe, numa certa tarde, percebeu-o bisbilhotando, e chamou-o para se aproximar. Temeroso, Mitchell foi até ela.
Aquela mulher estudou-o por longos minutos, e então estendeu o livro para ele. Perguntou se ele conseguia ler, e a criança loira disse que sim. Então, ela pediu-lhe que lesse aquele trecho para ela.
“Venha comigo, venha comigo, morte,
E deixe-me deitar num triste cipreste;”
Mitchell Harpper apaixonou-se por Shakespeare naquele dia.
E, enquanto ele e sua mãe voltavam, ela carregando-o em suas costas, como sempre, ele recitava outra vez, feliz, o poema em questão de “Noite de Reis” para sua mãe, contando como a sua senhora fora gentil e paciente com ele, de como pediu para que ele a acompanhasse mais vezes em suas leituras.
Ela sorriu, e deixou que ele visse a sua senhora mais vezes, que ele aprendesse a ler mais, que visse todo o mundo que ela jamais pudera ver. Mas, infelizmente, nunca mais houve ‘outra vez’.
Naquela noite, a caminho de voltar para sua residência, no andar de cima à floricultura, um homem alterado atacou Faith Harpper, acusando-a de ser uma mácula naquela cidade. Não eram poucos os habitantes daquele pequeno lugar que tinham raiva daquela “meretriz”, mas fora a primeira vez em que alguém a atacara fisicamente por isso. As autoridades prenderam-no muito tempo depois, e perceberam que ele estava altamente embriagado.
E, tarde demais, sobre o cadáver esfaqueado da mulher delicada, uma criança ainda mais frágil chorava desamparadamente. Agora, órfã.
Quando a criança foi levada ao posto policial próximo e questionada sobre quem era seu pai ou mesmo responsável, para que o mesmo pudesse ser avisado da situação, Mitchell Harpper apenas disse que não podia responder àquela pergunta. Os policiais insistiram, quiseram saber quem era o pai daquela criança bastarda, já que a mesma sabia. O menino não disse nada.
Só depois de uma surra memorável, quando seu corpo trêmulo já suplicava por alívio e que não havia mais do que bile em seu estômago, é que Mitchell Harpper disse “Meu pai se chama Alrick Sunderland... Alrick Sunderland...”.
Ele levou outra surra, os guardas alegando que ele era um orfãozinho mentiroso, um bastardo.
Entretanto, viram-se obrigados a confirmar a informação.
E, para a surpresa deles, quando Alrick Sunderland, em St. Helens, soube disso, disse em alto e bom som, quando veio pegar seu filho, que vinha dormindo desde aquele dia nos corredores frios de um albergue próximo à delegacia local, “Esta criança é meu filho”.
Pela primeira vez em sua vida, Mitchell estava andando de carruagem. Um meio de transporte de “gente rica”. Algo muito além de suas expectativas. E, mesmo maravilhado, ainda tinha os olhos turvados de tristeza.
“E então? Qual é mesmo o seu nome, meu filho?”, Alrick lhe perguntou, num certo momento, depois de longas horas de silêncio.
“Me chamo Mitchell, Mitchell Harpper, senhor”, a humilde criança respondeu.
“...Mitchell Sunderland”, o patriarca corrigiu, “Não acha que soa bem esse nome? Ao menos, para mim, parece um nome forte. Impõe respeito”.
Aquela criança de cabelos loiros sentia falta de sua mãe. Sentia falta de sua casa, sua humilde casa cheirando a pão e flores. Sentia falta de Prescot, mesmo com os comentários ofensivos, mesmo com toda a discriminação, mesmo com a solidão... Ao menos, lá, ele tinha sua mãe. Tinha uma vida.
Agora, o que ele teria ali, em St. Helens?
Desde o momento em que pôs os pés na mansão, o olhar cortante da esposa de seu pai, a esposa oficial, Becka Sunderland, queimou-o da cabeça aos pés, retesou seu corpo, fê-lo perceber que ela o odiava abertamente.
Uma criança, mesmo uma criança inteligente como Mitchell Sunderland, não podia entender a verdadeira extensão da tragédia.
Depois que voltou para casa, depois daquele tórrido romance em Prescot, Alrick Sunderland voltou a ser o mesmo homem de sempre. O homem vazio, que tentava engravidar a mulher, que cuidava dos negócios da família. O homem inalcançável, cheio de novos segredos.
Entretanto, quando ele soube que aquela criança, fruto extraconjugal, finalmente nascera, algo nele quebrou. Ele desesperou-se.
Alrick Sunderland nunca mais foi o mesmo. Parou de mandar dinheiro, quis matar a mulher e a criança de fome, quem sabe assim ninguém descobrisse isso. Mas seu desespero foi maior ao perceber o que fizera: abandonara-os. Para compensar sua mente atormentada, ele dedicou-se com afinco à tarefa de ser pai legítimo.
As investidas em sua esposa Becka e os chás estranhos que a mesma tomava, dicas de outras ladies tão desocupadas quanto ela, enfim, deram resultado: oito meses depois, nascia uma linda menina.
...Uma menina.
Mesmo que ela fosse a herdeira oficial, era uma mulher e era mais nova, enquanto Mitchell Harpper era um homem, um garoto mais velho, mas ainda sim, fruto de um romance extraconjugal. Alrick Sunderland e a esposa estavam diante de um verdadeiro dilema de sucessão.
Enquanto esteve ali, entretanto, Mitchell Sunderland foi uma presença invisível, dócil ao extremo. Deixava que a meia-irmã mais nova puxasse-lhe o cabelo e lhe fizesse judiarias (muitas vezes incitada pela madrasta, mãe dela). Nunca revidava nada que ela lhe fazia. Tampouco respondia para a madrasta, quando ela o xingava, escondida, destilando seu veneno sobre ele. Mitchell apenas a encarava, de olhos vazios, porém penetrantes, e escutava tudo em silêncio.
Para evitar constrangimentos, Alrick Sunderland não contou a ninguém sobre o filho bastardo. Ele era uma presença inexistente naquela mansão. Entregue às moscas, era cuidado primariamente pelas empregadas que se apiedavam de sua condição e de sua aparência frágil.
Mitchell ganhara um quartinho nos fundos, onde ele chorava todas as noites de medo do escuro e de saudades da mãe.
O único momento em que deixava de ser ele mesmo era quando, de vez em quando, passava pela biblioteca. Haviam vários livros naquele lugar. De toda aquela mansão fria e infame, aquele era seu lugar predileto. Escondido, Mitchell lia de tudo; queria absorver todo o conhecimento que podia, todas as leituras que conseguisse memorizar. E conseguia. Um feito inédito, mas conseguia memorizar muitos daqueles livros, repassando-os mentalmente à noite, deleitando-se, como um remédio para ter coragem para dormir naquele escuro.
Num certo dia, quando Mitchell tinha cinco anos de idade, seu pai aproximou-se dele. Alrick Sunderland era como todos os outros: nunca falava com ele sem necessidade. Todos evitavam aquele bastardo naquele ninho perfeito.
“Mitchell... Você quer conhecer uma outra casa?”, ele perguntou-lhe, ajoelhando-se até ficar mais ou menos de sua altura, pondo a mão no ombro pequenino e pálido da criança.
“Uma outra casa, senhor? Como assim?”, apesar disso, aquele menino pensava que qualquer lugar podia ser melhor que a mansão Sunderland.
“Um novo lugar para você. Será divertido, eu prometo. Você irá morar lá, será melhor para todos nós. Você não acha, Mitchell? Será mesmo melhor para todos nós, não é?”.
Aquele sorriso de Alrick Sunderland... Era um sorriso nervoso. O riso de alguém que precisava desesperadamente daquela criança.
Mitchell assentiu, alguma coisa em si desejando ardentemente a liberdade daquela casa tão opressiva.
A liberdade. A esperada liberdade daquela criança finalmente chegou.
Mas, então, o cárcere veio tão rápido quanto.
Aos cinco anos, Mitchell Harpper (ou Sunderland?) foi trancafiado numa sala escura, com cheiro de esgoto e fezes de animais. Era uma espécie de cela, pequena e úmida, mais parecida com uma gruta. Correntes retorcidas de ferro pendiam no teto, assustadoras, como se fossem serpentes que desceriam a qualquer momento e iriam enrolá-lo em seu abraço de metal frio.
Mitchell gelou. Ele odiava o escuro. E, então, ele viu as centenas de bonecas. Milhares de criaturinhas delicadas, sem olhos, todas de vestidos e babados, todas com cabelos perfeitos e cútis translúcidas.
“PAPAI!”, e aquela foi a primeira e última vez que Mitchell gritou por Alrick. “PAPAI! POR FAVOR, PAPAI! ME TIRE DAQUI! ME TIRE DAQUI, PAPAI! PAPAI! EU TENHO MEDO DO ESCURO, PAPAI! POR FAVOR, PAPAI! EU VOU SER UM BOM MENINO, PAPAI! JURO QUE VOU SER! EU REALMENTE TENHO MEDO DO ESCURO, PAPAI! POR FAVOR, ME TIRE DAQUI! PAPAI!...”
Aquelas bonecas estranhas iriam devorá-lo com os seus olhos cegos...
Sem dúvidas, elas iriam...
“PAPAI!!”, Mitchell continuava berrando, investindo contra a porta, fazendo qualquer coisa para que pudesse sair.
Ele tinha cinco anos quando foi preso, enviado para a “forca” pelo próprio pai.
Lá, naquela prisão, ele pagou por todos os seus pecados. Todo e qualquer mal que ele tenha feito, Deus o puniu todos os dias com dor, medo e agonia. Todos os dias. Durante dez anos.
Irisa Baker era sua única salvação, seu único anjo. Ela era uma empregada que trabalhava, na época, naquela casa assustadora. E ela tinha a mesma marca que as suas, nas suas costas. Apiedou-se daquela criança de olhos assustados assim que o viu pela primeira vez, quando Mitchell tinha sete anos, ao levar-lhe comida. Desde aquele dia, Irisa era sua única ponte de salvação.
Tudo que o impedia de enlouquecer de vez.
Mas, em verdade, Mitchell Harpper só saiu daquela prisão digna de pesadelos no dia em que aquele mesmo homem que lhe traíra, o homem que chamou uma e única vez de pai, morreu.
Até aí, Mitchell já era um rapaz de olhos azuis e penetrantes, de face eternamente séria, de corpo e alma marcados. Já era um moço de quinze anos.
Quando ele saiu de sua prisão, a primeira coisa que fez foi cumprir a sua promessa com o seu anjo: há muito tempo, ele prometera levar Irisa Baker com ele para bem longe, caso conseguisse fugir.
Estava livre. Estava longe daquele lugar infernal.
E, como o prometido, levou Irisa consigo, tornando-a sua governanta.
Agora, com a morte da filha legítima, ele era, sem nenhuma dúvida, o único e derradeiro herdeiro de uma das Quatro Famílias. Naquele dia, St. Helens ficou sabendo da existência de um segundo filho misterioso, nunca antes mencionado, que apareceu por motivos de sucessão, graças ao falecimento do patriarca e da herdeira original, devido a uma doença.
Mitchell Sunderland era o seu nome.
E a mansão e Becka Sunderland, que sobreviveu por mais alguns meses em poder do filho bastardo de seu marido, nunca mais foram os mesmos.
Aquele rapaz levou consigo daquele cárcere muitas lembranças. Algumas delas ainda podiam ser vistas em seu corpo. As cicatrizes dos chicotes e das torturas. Mas, principalmente, o pentagrama e o hexagrama sobrepostos, e a inscrição em latim. Ele ganhara aquela tatuagem feita com ferro em brasa em seu cárcere, para ser “marcado”.
A marca indicava que ele era “propriedade” daquelas pessoas. Uma relação intrínseca de “senhor e escravo”. E ele era o “escravo”.
Irisa também tinha aquela marca. Ela também era uma “propriedade”. Mas Mitchell Sunderland exigiu-a, e foi atendido: agora, ela morava na mansão dele. Agora, ela era a governanta dele.
E, certamente, se sua mãe estivesse-o olhando dos céus, ficaria orgulhosa dele: ele cumpriu sua promessa. Ele salvou Irisa Baker do inferno.
Quando Becka Sunderland, em seu leito de morte, viu a marca nas costas do filho infame de seu marido, ela cravou seus olhos odiosos nos dele. E sussurrou “Você já não é mais algo seu. Você é deles”. Mitchell riu. Ele riu como um louco.
As empregadas que estavam ali, de prontidão, sempre cuidando de sua senhora, assustaram-se, encolheram-se num canto, esperando a conclusão daquele riso histérico. “Eu nunca fui algo meu, senhora!”, o loiro respondeu, ainda rindo. “Por dez anos, graças a você, à sua família doente... Eu fui propriedade deles! Em todos os sentidos!”
“Eu pertenci àquelas pessoas! Vocês sabiam que isso ia acontecer comigo! Me enviaram deliberadamente àquele antro de infamidades! E essa marca indica que eu ainda pertenço!... Você irá morrer, sua velha irritante...”, ele rosnou. Nunca Mitchell Sunderland foi visto com tanto ódio descontrolado antes. “E, graças a vocês, irei continuar tendo que suportá-los! Eu não vou morrer... Antes disso, eu vou destruí-los. Está me entendendo?! Eu vou contar tudo, sua decrépita! Que ironia, não acha? O filho bastardo de uma amante assumindo como o patriarca! E eu vou contar tudo isso enquanto você estiver viva... Você irá morrer cheia de desgosto, velha irritante... E eu estarei aqui, todos os dias, vendo-a agonizar, morrer lentamente. E vou ter prazer nisso... Ah, vou sim!...”
Mitchell permaneceu rindo por muito tempo. E Becka Sunderland empalideceu. Nada disse, porém, ela viu que aquela guerra estava perdida, e que ela subestimou o lado inimigo. Aquele rapaz iria destruir todo o império Sunderland.
“Eu, Mitchell Harpper, tomo como meu o nome ‘Mitchell Sunderland’ de hoje em diante! Eu comandarei o império Sunderland, Becka! Eu, o bastardo!”
“Você não ousaria...”, tremeu.
“Não se preocupe, Becka Sunderland. Morra em agonia, sem pressa, enquanto eu vou estar dando um novo conceito à palavra ‘diversão’”, e então, ele virou-se para as empregadas, empalidecidas diante daquele homem louco. “E VOCÊS! Tirem todos os quadros da parede, todas as esculturas dos corredores, tudo... Lençóis, diários, roupas, louças... Tudo, tudo que lembrar Alrick Sunderland, Becka Sunderland ou Anne Marie Sunderland... Eu quero tudo empilhado nos jardins de trás! Vamos fazer uma festa, senhoritas. Ponham fogo em tudo.”
A senhora tossiu, enquanto as mulheres deixavam, apressadas e temerosas, o quarto. A tensão que aquele ambiente acumulou era capaz de deixar qualquer humano sentindo-se péssimo tão logo colocasse os pés ali.
“E quanto à senhora, minha dileta madrasta...”, Mitchell sorria, tranqüilamente, enquanto abria as janelas e iluminava o quarto da enferma. “Você irá sentir o cheiro da vingança. As labaredas subirão até o firmamento celeste. Vai ser divertido!”
“EU O AMALDIÇÔO, MITCHELL HARPPER!”, bradou Becka Sunderland.
“TARDE DEMAIS, BECKA SUNDERLAND!”, e o rapaz de apenas quinze anos respondeu, em um timbre tão firme que aquela mulher estremeceu. “EU JÁ ESTOU AMALDIÇOADO!”
Não havia mais espaço para a inocência.
Faith Harpper, provavelmente, choraria ao ver em quê seu filho havia se tornado. Mas já era tarde, afinal: ele já era amaldiçoado.
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