Bavarois

18 Capítulo XXII


XXII

Eu não pude dizer quando a primeira das lágrimas começou a descer. Elas simplesmente escorreram, e quando vi, já não as podia conter.

Não sei porquê raios ele continuou tocando aquele piano o tempo todo. Aquela melodia tão nostálgica já estava enchendo meus ouvidos de dor. Em verdade, todo meu corpo parecia insuportavelmente dolorido. Eu pensei que aquele devia ser mais um reflexo do passado de Mitchell, mais uma de suas manias tortas: ele permaneceu tocando. Não me olhou. Não parou. Não me tocou. Não fez nada. Só continuou tocando aquele piano.

Não tinha idéia do que ele estava pensando. Na verdade, sequer via seu rosto. E, por isso, fiquei chocada: porque imaginava que aquilo devia ser muito doloroso.

Para ele, muito mais do que estava sendo para mim. Eu não tinha as imagens. Não tinha as cicatrizes. Eu não tinha a vivência e nem a experiência. Tudo que eu tinha era a imaginação e as lágrimas. Perguntei-me como era a expressão agora, depois de ter descarregado todos aqueles lamentos sobre mim.

Estaria chorando? Estaria triste? Neutro? Irritado, talvez?

Eu tinha medo de falar. Achei que, se falasse, estragaria aquela música tão triste, aquela atmosfera tão dolorida e opressiva. Mas meus lábios entreabriam-se o tempo todo; eu estava desesperada por consolá-lo, de qualquer forma.

Porque eu pude sentir a sua dor. Eu vi seus ombros retesando, vi a amargura na voz quando contou da cicatriz, da morte da mãe...

E imaginei como fui imbecil.

Nunca fiz idéia. Para mim, aquele homem sempre foi uma existência além da dos outros. Nunca me pareceu humano, na verdade. Era tudo, menos uma pessoa comum. Era como um monstro do armário, uma criatura mística e perfeita, alguém intocável para os reles mortais, sob muitos aspectos.

Mas, repentinamente, ao som daquela canção-de-ninar dedilhada no piano, com os parcos raios de sol diluídos nas plúmbeas nuvens do céu, naquele lugar cheirando a poeira e ausências... Eu aproximei-me de Mitchell Sunderland.

Eu toquei em sua humanidade renegada.

- No início, os outros patriarcas me viam com maus olhos. Não gostaram, creio, de ver um “moleque que mal saiu das fraldas”, de acordo com seus comentários, comandando uma família tão poderosa quanto os Sunderland.

Ouvi aquele seu riso ressentido, mais parecendo um lamento, e baixei os olhos, sentindo o peito doer sem avisos.

- As companhias dependentes da família Sunderland, por outro lado, adoraram. Eles tentaram me passar a perna, subestimando-me por causa de minha idade. É claro que não demorou muito e angariei o respeito deles... Se bem que eu acho que foi mais o temor. Claro... – ele riu de novo. – Eu fui cruel. Tão cruel quanto era com você, nos primeiros dias, lembra? Eu mostrei o que um “moleque de dezesseis anos” podia fazer como um superior hierárquico.

E como eu esqueceria? Imaginei como devia ser um Mitchell adolescente, cruel daquele jeito com trabalhadores que dependiam de seu apoio. Devia ter sido memorável; e altamente prazeroso para ele.

- Naquela época eu ainda estava com aquela chamada “fúria canalizada”. Destruí a moral de todos... Eles me respeitaram em questão de meses. O mesmo com os senhores das outras Grandes Famílias... Em pouco tempo, eu era “Lord Sunderland”, “Senhor Sunderland”. Incrível como alguns olhares cortantes e algumas palavras nas horas certas mudam totalmente o “moleque imaturo de dezesseis anos”.

Eu lembrei de uma certa história que a senhora Harold contou. Ela disse que quando a senhora Becka Sunderland (que na época eu só sabia ser a antiga senhora desta mansão, nada mais) morreu, Mitchell Sunderland compareceu ao seu enterro, e cuspiu sobre seu túmulo. O choque foi geral, mas ela contou que ninguém ousou repreender o rapazinho de quinze anos.

Imaginei que Mitchell sempre foi ele mesmo: sempre impôs seu respeito pelo medo, desde o primeiro dia de liderança, por aquela aura de mistério macabra e, ao mesmo tempo, tão frágil que o rondava, do mesmo jeito que disse que faria, enquanto me contava seu tão doloroso passado.

- Isso sem mencionar as mulheres... – eu estremeci. Aí estava um assunto que me trazia uma sensação desconfortável. – A quantidade de cortesãs ou aspirantes a ladies que tentaram me seduzir achando que eu era só mais um moleque cheio de dinheiro e poder que não sabia se manter nas calças foi absurda. Se eu estou solteiríssimo hoje em dia, não é por falta de pretendentes...

Repentinamente, eu nunca saberia dizer porquê, Mitchell parou de tocar.

Ele continuava de costas para mim, mas eu o vi erguer a mão. Eu o vi tocar em seu próprio rosto, com um movimento inconfundível.

- ...Mas é meio doloroso, admito. – sussurrou ele, como se aquilo fosse um segredo maior do que toda a história que me contara. – Acho que meio triste também.

Mitchell Sunderland virou-se para mim, e eu não estava preparada para vê-lo. Assustei-me com sua feição. Aquele sorriso abatido e triste acendeu-se em seu rosto. Era o retrato perfeito da própria derrota. Um sorriso cansado.

- Desculpe, Cora. Eu a assustei com tudo isso? – provavelmente, ele deve ter percebido que eu fiquei totalmente sem palavras até agora.

Na estranha penumbra da biblioteca, senti a sua mão quente segurar a minha. Ele acariciou-a, ternamente, lentamente, como se estivesse querendo ler as linhas de minha pele. Eu tremi diante daquele toque tão triste e, ainda sim, tão carinhoso.

Aquele homem que parecia tão inumano no início de nossa convivência agora era mais como uma imagem quebrada. Acho que tive a imagem mental de uma matrioska, aquelas bonecas russas que se abrem e deixam outra gêmea menor sua sair de si. Mitchell tinha milhares de fragmentos dele próprio, pequeninos, insignificantes... E muito preciosos. Todos espalhados pelo chão, ruínas do que um dia foi apenas uma criança que queria uma vida normal.

Minha mão foi guiada por ele até seu rosto, e eu senti as mãos dele fechando-se sobre a minha. Ele cerrou os olhos, parecendo subitamente abandonado àquele gesto.

- ...Ei, diga alguma coisa. – pediu, e seu hálito quente contra a palma de minha mão fez-me estremecer inconscientemente.

- Me desculpe... – foi o que sussurrei, em resposta.

Nossos olhares se cruzaram, assim que eu disse aquilo. Eu vi a dúvida em seus olhos, e ela desapareceu tão rápido quanto veio, para dar lugar à surpresa.

- Cora, você... Você está chorando...?! – e, de fato, aquilo o estava assustando. Talvez fosse assim com todos os homens, afinal: nenhum deles sabia lidar com lágrimas femininas.

- Me perdoe... Me desculpe mesmo... Eu sei que é inútil me desculpar assim, com vinte e dois anos de atraso, mas... Me perdoe por não poder ter te ajudado...

Senti as mãos de Mitchell em minha cintura, repentinamente, e ele me puxou para si. Quando percebi, eu estava sentada em seu colo outra vez, como quase sempre acontecia. Mas, naquele momento, ao contrário das outras vezes, eu não sentia raiva ou nojo por isso. Ao contrário, eu enlacei seu pescoço em meus braços, e o senti envolvendo-me.

- Você é tão tolinha... – ele falou em meu ouvido, e isso só me fez chorar mais (malditos hormônios).

- Eu realmente sinto muito... – mas continuava insistindo.

- Se é assim, eu... Eu também sinto muito por ter chegado tarde.

Ergui meus olhos para ele, surpresa. Quando foi que Mitchell Sunderland...?

- Como eu disse, boneca... – ele pareceu ler aquela pergunta em meus olhos, e afastou uma mecha de meu cabelo acobreado do meu rosto. – ...Seus olhos. Eles me contaram logo no início.

- A-ah... – gaguejei. Aquilo foi, de fato, uma surpresa.

- Mas eu não vou insistir. Quando desejar fazer como eu, sentar e descarregar esses lamentos para mim, eu irei escutá-la com a máxima atenção. – sorriu-me. E, desta vez, não era aquele sorriso de derrota. Era algo gentil. – Até lá... Eu vou esperá-la. Quanto tempo precisar. Agora que podemos fazer isso.

Senti-me contente. Aquele era um Mitchell Sunderland (ou seria Harpper, agora que eu sabia?) que ninguém mais além de mim conhecia.

Eu me surpreendi desenhando mentalmente o contorno daquele corpo estranhamente translúcido, quase que fantasmagórico. Surpreendi-me, mas em nenhum momento censurei-me por isso. Eu sentia meu pulso arder sob a sua pele.

Invadiu-me, naquele instante, uma ânsia dolorosa de beijar Mitchell Sunderland. Era algo que eu jamais havia experimentado e, então, eu percebi em seus olhos que ele soube disso também. Talvez fosse a primeira vez em que eu desejava perder-me naquela rara intimidade feita de penumbras e corredores vazios, mesmo com uma voz no fundo de minha mente dizendo que o que eu estava fazendo era errado, perigoso e infantil.

- Muito obrigada... – sorri-lhe. E, pela primeira vez, eu não vi mais uma ameaça ou mesmo um humano. Eu vi um homem à minha frente.

Não daquele jeito que me apavorava. Era de uma forma boa.

Mitchell estreitou-me em seus braços, repentinamente, e inclinou-se sobre mim. Beijou-me, então, na testa. No último lugar onde eu imaginei que faria. Lembrei-me do dia em que precisei recitar Shakespeare: ele também havia encostado os lábios ali.

Eu lera em algum lugar que existem vários tipos de beijo. Quando um homem beija a sua mão, ele está dizendo que te adora. Quando o faz em sua boca, diz que te ama. Quando beija seu pescoço, está dizendo que a deseja. Quando o beijo é no lóbulo da orelha, é uma espécie de presa-e-predador.

Mas o beijo na testa... Esse é o mais precioso de todos, de acordo com aquele livro (que, aliás, foi roubado desta mesma biblioteca). Ele significa muito mais do que um beijo na boca. O livro dizia que a testa era uma espécie de terceiro olho, um local místico, cheio de simbologia, onde a pessoa entra em contato direto com a alma de outra. Quando alguém recebe ou dá um beijo desses... É porque tem um bom coração. E quem o recebe deve ser eternamente grato; o beijo na testa é o beijo do carinho eterno, e não o da paixão efêmera.

Talvez eu estivesse em mais um daqueles “períodos ruins mensais”. Minhas lágrimas apenas aumentaram exponencialmente com aquele gesto.

Não queria menosprezar os esforços de mamãe Irisa, mas aquela era a primeira vez em cinco anos que eu me sentia realmente segura. Como se nenhum fantasma pudesse me pegar ali, nos braços de Mitchell Sunderland...

- ...Não precisa me agradecer, tolinha. – ele sussurrou contra minha pele.

Eu corei. Violentamente, diga-se de passagem. Vi seus lábios baixando sobre os meus, eu vi a cena que iria desenrolar-se, eu vi o lugar, vi tudo... Fechei meus olhos com força, esperando o pior. Mas tudo que senti foi um roçar delicado.

Pensei no quanto desejava me refugiar naquele toque gentil, naqueles olhos tão melancólicos e azuis, ou mesmo na solidão que preencheria meu corpo se ele me soltasse naquele instante. Eu pensei em tudo que gostaria de receber dele e no tão pouco que tinha a oferecer em troca.

Mesmo sabendo disso, aventurei-me a deixar que ele me beijasse, e minhas mãos, sem que eu pudesse pará-las, buscaram o contato de seu rosto. Meu corpo tremia, e eu não sabia dizer do quê, exatamente. Se de contentamento ou de medo.

- Cora, você nunca fez isso antes, fez? – ele me perguntou, encostando sua testa na minha, tão logo se separou de mim.

- Errr... E-eu... Acho que... Acho que não... – mas por que diabos ele tinha que perguntar logo isso?! Parecia de propósito! Acho até que ele sabia que, se perguntasse esse tipo de coisa, eu iria corar como um pimentão, até ficar numa cor duas ou três vezes mais forte que o meu cabelo.

Seus dedos traçaram meu rosto ainda úmido pelas lágrimas. Nunca pude dizer o que havia por baixo daquela avalanche de ciano em seus olhos.

- Sou eu... Quem lhe peço perdão por ter demorado tanto... – sussurrou-me, simplesmente.

Sacudi a cabeça. Droga, ele realmente percebeu tudo. – A culpa não é sua, Mitchell. Não é de ninguém...

Antes que eu pudesse raciocinar, ele me levou com seus lábios outra vez àquele mundo separado da realidade de St. Helens, onde estávamos na biblioteca da mansão Sunderland, sentados no banquinho do piano, num romance proibido e de enorme diferença hierárquica digno de livrinhos de romance.

Eu já estava me sentindo entontecida pela falta de ar, mas, então, ele parou outra vez, e encostou de novo a testa na minha.

- O que foi...? – perguntei-lhe.

- Você me lembra bavarois. – sorriu.

- Bava... A sobremesa? – mas hein?, eu me perguntei mentalmente.

- É. É o meu doce favorito. E me lembra você. – confessou-me, com aquele seu mesmo tom de quando falou a sua história. Possivelmente, a confissão era séria. – É doce na medida certa, tem uma aparência exótica... E desce de um jeito pelo meu estômago, sempre.

Bom, eu lembro que, quando pequena, mamãe Irisa dizia-me que o sentimento de “gostar” (eufemismos...) era dividido em duas categorias: o calor generalizado e o tijolo no estômago (mais eufemismos...).

Em suma, se fosse a segunda opção, era porque a coisa era séria.

- Devo me sentir honrada? – arqueei uma sobrancelha, com um tom irônico. Mas, mesmo assim, eu estava completamente feliz por dentro.

- Pois deve mesmo. – devolveu-me, no mesmo tom.

Ouvi um som estranhamente familiar, provavelmente, a porta da biblioteca sendo aberta, porque no segundo seguinte, a voz de mamãe Irisa fez-se pronunciar lá da entrada, me assustando totalmente.

- Jovenzinho, está aí...? Os senhores Piffle e Crowley estão aguardando no hall. Vieram para tratar do negócio acerca as fábricas.

- Ah, já estou indo! – eu o ouvi falar alto o suficiente para que ela percebesse onde ele estava, e quase tapei sua boca. Mas seu rosto era de insatisfação por eles terem chegado justo num momento como aquele.

- O que está fazendo...?! – urrei, numa voz baixa, porque mamãe não podia saber que eu estava ali.

- Infelizmente, o dever me chama, boneca. – erguendo-se e me deixando sentada no banquinho do piano, totalmente atônita, Mitchell Sunderland beijou mais uma vez minha testa e afagou meus cabelos. – Escute, Cora... Poderia fazer um chá? Se quiser, é claro, eu gostaria de bebê-lo com você mais tarde.

- É... É claro... – e eu poderia falar mais alguma coisa, depois de tudo aquilo?

- Obrigado – ele sorriu. E foi embora, antes que Irisa o chamasse de novo e, quem sabe, viesse até ali inspecioná-lo.

- O senhor demorou.

- Estava embebido em nostalgia, minha cara.

- Sei... Viu a Cora por aí, jovenzinho?

- Não a vi hoje. Aliás, se a vir por aí, diga que quero falar com ela. O mais rápido possível, de preferência.

Houve um silêncio, o suficientemente prolongado para que eu ouvisse meu próprio sangue em seu pulsar mudo nas minhas têmporas.

- O que aconteceu com o senhor?!

- Nada, cara Irisa. Absolutamente nada. Como você é desconfiada!

- Mas o senhor está estranho!

...Bom, ele era um temendo e experiente mentiroso. Porque mamãe nem suspeitava do que havia acontecido de fato.

Antes de me lembrar que tinha chá para fazer, fiquei muito tempo absorvendo os fatos. Eu estava, definitivamente, encrencada. De muitas formas.