Bavarois

12 Capítulo XV


XV

Só posso pensar sobre quão avara é a vida.

Você tem tudo num segundo e, no seguinte, não tem mais nada.

Aquela biblioteca estava salpicada pelos tímidos raios do sol, despontando, erguendo sobre a cidade um novo dia. Deixava tudo, estranhamente, com mais vida. As cortinas escarlates brilhavam mais, os livros tinham suas estampas banhadas por um conjunto de luz e sombras, e tudo adquiria um ar ainda mais sagrado.

Mas, mesmo com aquela luz, Edward Shelser era uma sombra. Uma interferência no Éden.

Eu dei, instintivamente, um passo para trás quando ele se aproximou mais de mim, tencionando segurar-me o queixo para me analisar. Percebi que, ao contrário de Mitchell, ele não tinha paciência para insubordinação. Eu esqueci-me, por breves segundos, que era uma empregada...

Deixei que ele me segurasse, com uma pressão que machucava, e inspecionasse meu rosto.

Bochechas, testa, lábios, olhos... Ele observou tudo com atenção. Passou a mão em meus cabelos, colhendo uma madeixa deles, deixando-o escorrer por seus dedos e cair em meus ombros de novo. Eu só tinha os olhos estáticos para sua figura tão sóbria e ameaçadora.

Os mesmos baixaram para aquele brasão. Ele não tinha a estranha inscrição latina, mas era um pentagrama e um hexagrama sobrepostos, e no centro dessas figuras geométricas reluzia a luz rubicunda de pedras preciosas vermelhas.

...Exatamente igual ao símbolo das costas de Mitchell e as de mamãe Irisa.

- Interessada no brasão? – ele perguntou, percebendo meu olhar fixo naquela figura, especificamente. O tom dele era baixo, calmo e muito frio. E percebi que ele sequer deu atenção à minha pergunta de antes, sobre este mesmo assunto.

- Um pouco. São figuras curiosas, se me permite... – sussurrei, cautelosa.

- É, sim. Se você está aqui na biblioteca do Mitchell, é porque tem o mínimo de cultura, não é? Ele não deixa qualquer um entrar aqui. – como aquele homem sabia disso? E como ousava chamar o senhor Sunderland com tamanha familiaridade, até intimidade...?

- Ah... É que eu sou... Eu sou a... “Dama de companhia”, na verdade...

Não achei que ele fosse entender e, envergonhada, já me preparava para explicar o real sentido do cargo imposto, mas para minha surpresa, Edward Shelser pareceu entender, e até deixou escapar um sorriso.

- Então você está no lugar da falecida Barrington? – tocou-me no ombro, com um sorriso polido. Suas mãos, pelo que percebi, eram ágeis como as de um felino. – Esforce-se, pois a obrigação é grande.

Mas será que todos ali sabiam sobre Victoria e só eu não?!

O senhor Shelser era alto. Era muito alto e ameaçador. Sua figura não me deixava acalmar, eu ficava totalmente retesada, principalmente com aquela sua mão enluvada em meu ombro trêmulo.

- Vo... Vou tentar, meu senhor... – eu sorri amarela.

Repentinamente, ele inclinou-se para ficar um pouco mais da minha altura. Apoiou as duas mãos (enfim) na bengala, e dignou para mim um sorriso torto.

- Você sabia, senhorita Baker, que uma das funções do pentagrama, no Satanismo, é ser uma espécie de mapa? O centro dele indica o local onde os Anjos Caídos estão.

Os Anjos Caídos, mencionados em algum lugar da Bíblia...? Eu engoli em seco. Não sabia dizer se aquele homem era tão louco (e assustador) quanto Mitchell ou talvez até mais do que ele.

- Ah... Ah, é...? – tentei parecer interessada, ao menos gentil, mas o medo era maior que qualquer outra coisa.

- E você sabia que, antigamente, os prisioneiros e pecadores eram marcados com símbolos semelhantes? Pentagramas e hexagramas? – ele sorriu. – Houve uma época, aqui em St. Helens, senhorita Baker, onde os presos eram marcados com ferro em brasa com o mesmo símbolo do meu brasão. Nas costas. Afinal, somos desde prístinas eras os guardiões da lei.

Corra! Corra agora!, era o que minha mente me dizia, em pânico.

Eu bem que queria fazê-lo, mas aquele corpo alto parecia um armário, uma barreira que eu não conseguiria transpor só me usando de força.

- As costas... Senhor Shelser...? – entretanto, mais do que medo, eu fiquei subitamente interessada naquilo. Atualmente, ele estava me falando nada mais nada menos que sua família, no passado, já praticou aquele tipo de coisa. Aquela marca nas costas de Mitchell e de mamãe já estiveram nas de outros.

Ou seja... Mitchell Sunderland e o senhor Edward Shelser tinham algo a ver?

Tudo bem, eles eram os “cabeças” das suas respectivas famílias. Se não me engano, os Shelser cuidavam dos negócios envolvendo a proteção da cidade. Eram militares, policiais, cuidavam do departamento de polícia e investigação, disso qualquer um sabia... Então, não era assim tão suspeito ele falar isso, mas...

Mas eu sabia da marca. E sabia, agora, que o símbolo dos Shelser, por mais que fosse um símbolo maldito, algo indizível, era aquele. O pentagrama e o hexagrama sobrepostos.

- A senhorita não devia menosprezar o poder da simbologia, senhorita Baker. As costas... Essa área das nádegas até a base do pescoço... Ela tem muito significado. Historicamente, flagelação nas costas dos prisioneiros era um método de tortura. E, também, um método de forçar escravos a trabalharem.

Minha cabeça dava voltas.

Talvez, eu estivesse achando teorias conspiratórias em tudo, mas as costas de Mitchell me davam medo, mesmo que eu não dissesse isso em voz alta, nem pensasse muito sobre isso para não magoá-lo e nem a mim mesma. Suas costas estavam cheias de tecido de cicatrizes, indicando que alguém as chicoteara por muito tempo, muitas e muitas vezes, no passado.

E, agora, Edward Shelser me dizia muito naturalmente que aquele método era usado no passado (coisa que eu sabia), e que sua família, como guardiã da lei de St. Helens, também já abusara de métodos semelhantes.

Por que será que ninguém naquele lugar era mais normal...?

Deixei escapar um riso nervoso. – Ah... Ah, é? Eu não sabia disso, senhor Shelser. Não achei que essas regras rígidas já foram aplicadas aqui...

- Devia informar-se. Ficaria surpresa com o que descobriria. – ele me sorriu também. Não identifiquei seu tom; se era uma ameaça ou, simplesmente, uma conversa amigável.

- EDWARD!

Estremeci de susto, e virei-me para divisar Mitchell na porta da biblioteca.

Achei que ele iria erguer a sua sobrancelha, daquele jeito irônico dele, e iria me ridicularizar na frente do senhor Shelser. Mas o que vi nos seus olhos foi a ira. Não uma raiva qualquer: era aquela raiva passiva de uma gazela, ou simplesmente um animal frágil, encurralado por um leão ou algum predador perigoso do tipo.

Ele mesmo hesitou um pouco antes de entrar. Estava vestido normalmente, e eu me perguntei se eu que demorei demais naqueles momentos tensos com Edward Shelser ou ele que simplesmente tinha acordado mais cedo, apenas com uma espécie de manta vermelha sobre os ombros. Imaginei que para proteger-se do frio da manhã e de piorar ainda mais sua gripe.

Mitchell havia gritado o nome do senhor Shelser com tanta ira, e talvez incredulidade, que eu me senti particularmente chocada.

Acho até mesmo, não sei porquê, que havia uma pontinha de pânico ali...

Era irracional! Mitchell não tinha medo de nada (acho). Não tinha lógica pensar que ele teria daquele homem, por mais que ele fosse assustador mesmo.

Edward Shelser endireitou sua coluna, parando de me olhar e de me considerar uma parte do recinto, mas voltou a cravar os olhos em mim quando Mitchell aproximou-se.

Ele passou a mão pelos meus ombros, me trazendo mais para perto de si.

- Ele fez alguma coisa com você, Cora? – perguntou-me, baixinho, perto de meu ouvido.

- N-não... O senhor Shelser foi bastante polido, na verdade... – sussurrei-lhe de volta, mesmo sabendo que aquela resposta não iria acalmá-lo muito.

Em situações normais, eu ficaria envergonhada, talvez incomodada com aquele contato, mas naquele momento, senti que aquele homem tão pálido e estranho estava me protegendo de alguma coisa que nem eu compreendia. E eu o deixei fazer isso, talvez porque também algo em mim identificou uma ameaça.

- O que está fazendo aqui? – ele perguntou, a voz já menos rouquenha que ontem, por exemplo.

Resignei-me a ficar em silêncio. Aquele clima estava estranhamente tenso.

- Ora... Eu vim visitá-lo, Mitchell. Ouvi dizer que pegou outra gripe, e vim trazer meus sinceros desejos de melhora. – aquele homem de cabelos tão negros (mesmo que com os primeiros sinais da idade) sorriu, cordialmente. – Achei que não estivesse mais bravo comigo...

E por que Mitchell Sunderland estaria com aquela raiva passiva, tão óbvia que até o próprio odiado perguntava sobre? Estava aí mais um segredo entre eles que, talvez, eu jamais iria alcançar.

- Agradeço a visita e os cumprimentos. – ele rosnou. – É só isso?

- Vim conversar um pouco, Mitch. – “Mitch”?! É, nenhum dos ricaços daquela cidade tinha muito juízo... – Não deveria negar uma conversa para um pobre senhor.

Os olhos de alfazema dele pousaram em mim, logo depois que desviaram-se do contato com aqueles orbes de gato do senhor Shelser. Parecia-me que Mitchell estava tentando me dizer alguma coisa com eles... Alguma coisa séria, pelo jeito que eles me encararam.

Prendi minha respiração, repentinamente tocada por aqueles olhos tão perfeitos. Se me fosse permitido, eu ficaria observando-os por toda uma eternidade.

- Saia, Cora. – ele pediu, simplesmente.

E não me chamou de “boneca”, “bonequinha”, “sua idiota”, nem nada. Foi “Cora”, puro e simples, sem emoção ou ironia.

Percebendo a estranha seriedade da situação, abandonei a biblioteca no mesmo segundo (até sentindo um pouco de alívio com aquilo).

Eu abandonara Mitchell à própria sorte.