Bavarois

13 Capítulo XVI


XVI

Noite do quarto dia de cárcere.

Não vi Mitchell durante toda a tarde. Na verdade, desde que o abandonei na biblioteca, nesta mesma manhã, não o vi mais. Nem no almoço, nem por toda a parte da tarde e nem mesmo no jantar. Não sei se ele comeu em outro lugar diferente do meu ou se está sem se alimentar até agora.

Na verdade, não sei nada sobre ele. De muitas formas. Desde o encontro com aquele misterioso Shelser, simplesmente desapareceu das minhas vistas.

Eu mesma ainda me sinto apreensiva, ao pensar nisso.

Ainda agora esta observando o papel em que escrevi, com a caligrafia apressada, aquela inscrição nas costas do senhor Sunderland.

“Malos Spiritus Sigillent – Contenção de Maus Espíritos”.

Naquela manhã, o senhor Edward Shelser, aquela figura de negro tão assustadora, me disse que, antigamente, marcar o corpo dos pecadores e criminosos era uma prática comum. Disse-me, até mesmo, que as costas humanas têm um significado especial, e que eu não devia ignorá-lo.

Tudo aquilo, enquanto olhava aquele papel, passou em minha mente com tanta rapidez que me entontecia, de vez em quando, a ponto de sentar-me na cama, para não cair ou qualquer coisa do tipo, fazia uma espécie de sentido que eu esforçava para compreender, mas parecia ilógico demais. Talvez, assustador demais.

Teria mesmo Shelser marcado as costas de Mitchell? Foi ele quem fez aquilo? E, se por acaso não havia sido... Quem foi, então?

E, mais importante: por que diabos alguém faria aquilo com outra pessoa?

Edward Shelser já devia passar (e muito) dos quarenta anos. Mitchell tinha apenas vinte e dois. Era ilógico alguém que recém saíra da infância tivesse aquele tipo de rixa com um homem maduro. A ponto de precisar ser... “Marcado”. Seja por vingança ou por diferença de poderes.

Por mais que fosse louco, excêntrico, misterioso e muito, muito ironicamente sádico... Mitchell Sunderland não era uma má pessoa. Eu não acreditava que ele havia matado Victoria, assim como não acreditava que foi ele quem começou essa possível rixa com o senhor Shelser.

Ele foi bondoso comigo, nunca me ergueu a mão. Apenas brincou com seu poder, me fazia coisas chatas propositalmente... Mas nunca, jamais, ergueu sua mão para mim (e nem para ninguém, que eu saiba), ao contrário de outras histórias que eu ouço por aí, de empregadas e ladies que são espancadas por seus lords.

Também, eu precisava reconhecer que ele não tentou me violar nenhuma vez. Encarava-me, às vezes, intrigado, como que pensando sozinho, e seus olhos pareciam sonhadores, extremamente distantes da realidade, eu sei... Mas nunca me desejou violentamente a ponto de obrigar-me a aceitar suas investidas.

Além disso... Lá no fundo, eu sentia que ele era uma pessoa solitária e incompreendida. Alguma coisa deixou-o assim.

Não é que ele fosse naturalmente psicopata e cretino.

Então, eu realmente não entendia. Não entendia porquê ele era daquele jeito, se tinha algo a ver com o senhor Shelser, e qual era o papel de minha mamãe nisso tudo. Sabia que tinha muitas cartas, mas não conseguia pô-las na ordem certa. E, muito menos, saber quantas outras faltavam para tudo fazer sentido.

Ouvi o ranger da porta se abrindo (eu odiava esse som. Sempre fazia-me pensar em Victoria!) e, assustada, divisei Mitchell ali.

Que déjà-vu..., pensei, temendo que ele despencasse outra vez na minha frente, como na noite passada.

- Senhor Mitchell? O que está fazendo aqui a essa hora? – ergui uma sobrancelha, desconfiada. Se ele não me deixava mesmo dormir em seu quarto, não devia invadir o meu.

- Eu estive pensando, Cora... Já nos conhecemos há quatro dias, correto? – ele me perguntou. Seu tom de voz era incrivelmente neutro.

- ...Correto. – imediatamente, meus instintos indicaram “perigo”.

- E, nesses quatro dias, nós gastamos dois e meio sem fazer nada, correto?

- Ah... E-eu...

- Por isso, fiquei pensando por um bom tempo nisso, hoje. – deu mais um passo na minha direção. – Está na hora de estreitarmos os nossos laços um pouco mais, não acha?

Nunca entendia Mitchell Sunderland, quando ele virava aquela pessoa louca que era. Eu o conheci quando ele estava nesse modo, convivi com ele neste modo... Apenas ontem, quando tombou numa febre terrível, é que deixou de lado, só um pouco, aqueles atos grotescos.

Mas ali estava ele, mais uma vez, agindo como um animal louco.

Quando percebi, aquele corpo translúcido de aparência estranhamente frágil, mesmo tendo os traços característicos de um homem, me rendeu em seu aperto de aço. Eu me perguntei de onde ele tinha tanta força. Sem nenhuma explicação para seu ato, ele simplesmente me jogou na cama onde esteve naquela manhã.

Sem nenhuma palavra, ficou por cima de mim. Não tinha os olhos afogueados de desejo; eram os olhos cor-de-lavanda mais frios que eu já vira. Eram calculistas. Sabiam perfeitamente o que estavam fazendo, não era, sob nenhuma circunstância, um capricho movido por desejo.

- Mas o que você... Mitchell Sunderland, me solte!... – eu bradei, contorcendo-me debaixo de seu corpo.

Em resposta, ele apenas prendeu mais meus pulsos.

- Eu estou te deixando morar sob meu teto há cinco anos. E tenho te tratado muito bem por quatro dias. – sussurrou-me, friamente, no meu ouvido. – Não acha que o mínimo que pode me fazer é ficar quietinha e pagar-me essa gentileza com a única coisa que uma mulher tem?

- Você é...!

Mitchell mordeu meu pescoço, antes que eu falasse qualquer coisa. Senti-me uma heroína tolinha de livros sobrenaturais. Ele era tão pálido e misterioso como um vampiro. Mas a sua mordida, ao contrário do que diziam os livros, doía. E não sugou-me sangue algum... Apenas doeu, apenas me assustou mais.

Eu me perguntava como aquilo aconteceu. Simplesmente, em questão de segundos, aquele homem estava sobre mim, exigindo meu corpo.

Como...? E, mais importante: por que eu?

Será que Victoria também sofreu um abuso semelhante...?

Repentinamente, toda aquela estranha admiração tímida que eu tive por Mitchell Sunderland desapareceu, bem diante de mim. Tudo que eu era um animal louco, um homem sem escrúpulos com uma marca bizarra nas costas e os olhos psicopatas mais gélidos que eu já vira.

Aquilo só podia ser um sonho. Eu desejava acordar e vê-lo cozinhando de febre, inerte e “gentil”, como estava na outra noite.

Mas, enquanto não acordava, aquele estranho Mitchell Sunderland tentava abrir meu vestido. Eu me debati mais, tentei chutá-lo em suas partes baixas, mas como se soubesse que eu tentaria isso, suas pernas prenderam as minhas. Infelizmente, eu estava rendida sobre ele.

A sua respiração batia em meu pescoço, e meu corpo ficou estranhamente quente, reagindo instintivamente em busca de proteção. Eu desejava poder ter mais força, poder socar aquele rosto tão efêmero e de olhos claros.

De onde possuía tanta força?...

Ouvi o som de meu vestido rasgando, e meus olhos encheram-se de lágrimas. Eu iria mesmo ser violentada, assim, sem nem saber o motivo?

- Mitchell, por favor, pare!... – implorei. Senti-me humilhada por compreender as pobres mulheres que imploravam inutilmente, simplesmente porque não tinham mais poder para fazer outra coisa.

Ele me brindou com um daqueles seus sorrisos tortos.

E, então, sussurrou em meu ouvido, enquanto eu sentia, em pânico, sua mão descendo por dentro de meu vestido.

Naquela rígida postura,

Com o gesto severo – o triste pensamento

Sorriu-me ali por um momento,

E eu disse: ‘Ó tu que das noturnas plagas

Vens, embora a cabeça nua tragas,

Sem topete, não és ave medrosa,

Debati-me ainda mais, estranhamente invadida por um enjôo de medo. Aquele homem louco não parecia sentir prazer sádico algum em estar me violando daquele jeito! Simplesmente sussurrava aquele poema, maquinalmente, que eu percebi ser “O Corvo”, de Edgar Alan Poe.

- Solte-me, droga!...

Dize os teus nomes senhoriais:

Como te chamas tu na grande noite umbrosa?’

E o Corvo disse: ‘Nunca mais’.

Eu sabia que Mitchell amava poesias, mas aquilo era ridículo. Parecia até uma cena antológica de algum livro.

Por sorte, senti que ele afrouxou, nunca saberei se propositalmente ou não, o aperto em meu pulso. Imediatamente, tomei a única atitude que consegui, com uma mão livre.

E o som de um tapa reverberou no quarto.

De imediato, cobri-me, o vestido rasgado, os olhos marejados de lágrimas. A raiva e a vergonha me dominavam, e eu, por um breve instante, senti falta de minhas velhas companheiras. Há quantos anos não as sentia?...

Mitchell ficou imóvel. Não me tocou mais, ao menos.

- Você me bateu. – ele disse, entre a incredulidade e a diversão.

- ...Você é louco! É totalmente doente! – gemi, encolhendo-me e temendo que ele reagisse outra vez. – O que deu em você, hein?!

- Acho que quis me divertir... – sussurrou, soltando meu outro pulso. – Mas parece que nem para gritar e chorar você serve, boneca.

Quando percebi, as lágrimas saíam sozinhas.

- Vá embora, Cora Baker. Eu dispenso os seus serviços a partir de hoje. – erguendo-se, como se não houvesse acontecido nada, ele ajeitava sua camisa. Eu fiquei incrédula, ainda deitada, não conseguindo me mexer. – Não quero mais te ver, entendeu? Nunca mais.

Talvez porque viu que eu não iria me mexer tão cedo, Mitchell agarrou meu pulso de novo e me puxou com tanta força da cama que eu achei que ele iria deslocar meu ombro.

Praticamente jogou-me na direção da porta, enquanto desviava o olhar de mim. Pude sentir uma enorme parede de gelo formar-se entre nós, mais surpresa do que raivosa.

- Vamos logo, eu não a quero mais no segundo andar. Volte à sua vidinha idiota lá embaixo. – resmungou.

- Você... – sussurrei, mas parei assim que percebi. Não adiantaria nada argumentar com o meu superior hierárquico.

Eu não acreditei que ele estava me desdenhando assim...

Parecia irreal.

E mesmo quando deixei o quarto, às pressas... Mesmo quando finalmente abandonava aquele andar cheio de cortinas vermelhas, cheio de ausências e do frio da noite e daquelas palavras... Eu ainda não acreditava que Mitchell Sunderland estava realmente fazendo aquilo.

Que fosse um sonho. Só um sonho imbecil.

Porque eu não desejava odiá-lo com tanta força como estava fazendo.