Bavarois
50 Capítulo LXI
LXI
Possivelmente, se a chuva torrencial não estivesse ainda caindo, talvez já estivesse amanhecendo. As manhãs de St. Helens nunca eram incríveis ou belas; em verdade, o clima desta parte da Inglaterra é extremamente fechado. A neve e a chuva são duas constantes na maioria esmagadora do ano. Eu tinha a impressão de que se passaram horas, mas não poderia afirmar com certeza.
Tudo que eu sabia era que, de repente, o cond Shelser virou-se, como se tivesse escutado alguma coisa, enquanto aquela sala que mais parecia uma gruta fétida era banhada em uma luz vermelha e poeirenta, como uma imitação cretina de um crepúsculo.
- Vic, poderia esperar um pouco?
Victoria Barrington, que já tinha em mãos o ferro em brasa, e já tinha até mesmo aberto meu vestido na parte de trás, respirou profundamente, como se aquele homem assustador tivesse tirado-lhe uma diversão preciosa.
- O que é agora, Ed?... – resmungou.
- Acho que ouvi algo. – sorriu. – Ratinhos invasores.
Não sabia do que falavam, e também não me importava muito. Apesar de minha inércia inicial, agora, mesmo que minha mente estivesse enevoada de possibilidades de um possível desmaio, eu ainda sim procurava desesperadamente um modo de me livrar daquelas correntes. Eram fortes demais, porém; algum deles devia ter a chave, mas com os tornozelos e pulsos presos, não tinha nenhuma chance de me mexer e pegá-las. Dois contra um era uma batalha perdida e um desperdício completo de forças que me seriam necessárias mais tarde.
Porém, eu não devia subestimar o treinamento militar de Edward Shelser. Se ele ouvira alguma coisa é porque, certamente, nem que fosse um rato miserável, algo estava se movendo naqueles subterrâneos.
- Então, vá logo ou eu não conseguirei resistir à tentação. – ela sorriu. Aquele sorriso de lady delicada que me fazia ter ainda mais medo de “Lydia Usher”.
- Não me demoro. – ele afagou-lhe rapidamente os cabelos, e saiu.
Tão logo ele deixou o lugar, mais uma lufada do ar “de fora” lambeu meu rosto, dando-me um pouco mais de motivação e clareza mental, quem sabe. Era uma angústia inexplicável, aquela de ver a liberdade tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe. Um sentimento que ia devorando aos poucos.
Desviei dos olhos azulados de Victoria Barrington, ainda tendo a sensação de que eles eram a sua arma de succubus, e que iam me sugar para algum Inferno que eu desejei quando criança, mas que agora do qual eu queria distância. Mas, invariavelmente, eu estava cercada de olhos: um conjunto de incontáveis pontos tênues e brancos, brilhando como pequenos arco-íris na superfície de um diamante, indicavam os olhos cegos e perfeitos de uma legião de bonecas.
Cegas, neutras e perfeitas. Peguei-me imaginando, sem sequer ter controle sobre o fluxo desesperado de pensamentos, em como devia ser passar dois anos, dez anos, quantos fossem, apenas tendo aquele tipo de companhia. Eu ainda tinha um humano, mesmo um humano louco como Victoria.
Mas e Emma, e Mitchell, que não tiveram ninguém?...
- Está quietinha, Cora. – ela comentou, encerrando aquele fluxo doentio que já me dava enxaquecas. – Está pensando?
- ...Em algumas coisas. – sussurrei, surpresa com minha voz enfraquecida. Pensei que aquela perda gradativa de consciência fosse devido ao sangue que eu ainda ouvia escorrer de meus braços e testa e bater com força, em forma de pingos incontáveis, no chão.
- Quer conversar sobre isso?
Encarei Victoria como se ela fosse uma estranha.
Ela e aquele Mitchell que eu conheci nos primeiros dias de convivência eram semelhantes demais. Mudavam com uma facilidade incrível, de água para vinho, e me deixavam totalmente confusa.
Percebendo, talvez, aquela confusão estampada no rosto, ela sorriu.
- Ficar tantos anos aqui embaixo é tedioso, oras. – como se fosse algo natural, ela deu de ombros.
Também arrisquei um sorriso, ironicamente. Lembrei-me de ter ouvido, em algum lugar, a infame frase “se está no inferno, abrace o Diabo”, e de como, por muito tempo, antes de ser encontrada por Irisa Baker, eu acreditava piamente nela.
- Por que você... Responderia o que eu quero...?
- Cora, Cora. Você faz perguntas óbvias demais. – suspirou. – Porque eu estou te dando a honra da última conversa.
...Não que ela estivesse errada, afinal.
- O que você ganharia sendo o “Rei”, Victoria? Uma pessoa como você dificilmente faria isso, a ponto de forjar a própria morte, porque estava entediada.
- Outra pergunta óbvia!...
O cheiro de perfume que ela e sua toilette exótica exalavam, algo tão doce que me fazia ter ânsias de vômito quando se misturava com o cheiro de podridão, foi ficando cada vez mais impregnado em mim, enquanto se aproximava de meu rosto e, mais uma vez, acariciou-o com aquela mão enluvada.
Minha primeira reação foi virar o rosto e negar aquela carícia venenosa, mas percebi, contra minha vontade, que já não tinha mais força para desperdiçar nem ânimo para pôr naquelas investidas. Cada vez mais pensar e ouvi-la falar ficava mais difícil; e se eu desmaiasse, temia não acordar nunca mais.
- Por que você acha que eu subiria outra vez com o nome de “Lydia Usher”? Por que pintei meu cabelo, por que mudei desse jeito minha aparência? Por que matei “a empregada Victoria Barrington”?
O “Rei” lembrou-me um jogo de xadrez.
Em verdade, e isso eu aprendi com mamãe Irisa, o “Rei” nunca é a peça mais importante do jogo. É a “Rainha”.
...Uma menina com nome de soberana.
- Você está... Usando o cond Shelser? – enfim, tive coragem de perguntar.
- Sabia que, se forçasse um pouco a mente, você saberia responder a própria pergunta óbvia. É uma criança muito inteligente. – ela acariciou-me os cabelos, brincando outra vez com uma mecha acobreada deles. – Sabe, Cora? O Shelser também está me usando, de certa forma. Mas nós fizemos um trato: nos ajudaríamos mutuamente. Eu levaria adiante a tradição mais antiga de St. Helens, uma tradição que somente as Quatro Famílias conhecem, enquanto ele me daria... O trono Sunderland. Simples assim.
Como se aquelas palavras fossem mãos invisíveis a me esbofetearem continuamente, uma onda de adrenalina precipitou-se, fazendo-me encará-la com um misto de ódio e horror.
- “Dar o trono Sunderland”?! Isso quer dizer... – gemi, incapaz de acreditar em minha própria conclusão. – Vocês vão... Matar o Mitchell...?!
Ela sorriu ainda mais. – Viu como você é esperta? Estou orgulhosa.
- ...Depois de tudo que fizeram com ele... Ainda vão querer... Matá-lo...?! – sussurrei, tentando controlar minha voz.
Era odioso demais. Doloroso demais.
Lágrimas de frustração derramaram-se, sem que eu as pudesse conter. Victoria percebeu isso e ergueu minha face para que eu encarasse-a, e eu só vi diante de mim um demônio cheio de sangue frio, vestindo uma pele de humana.
Aquilo não podia ser uma pessoa... Não podia!
- Ainda estamos em dúvida entre prendê-lo aqui pelo resto da sua vida idiota ou matá-lo de uma vez. – “Lydia” continuou, alheia à minha raiva. – Mas, sim, ele vai ter que sumir do mapa.
Alguma coisa abalava-se em mim. Se meu ódio fosse o suficiente para quebrar aquelas correntes, eu já o teria feito, e já teria esmagado a cabeça daquela mulher em minhas mãos. Mas tudo que pude fazer era chorar vergonhosamente, trincar os dentes e, com muita sorte, rezar para que meu olhar cheio de fúria fosse o suficiente para explodir-lhe o crânio.
- Não me olhe assim... – ela pediu, com um sorriso mortiço.
- Vá se danar!... – cuspi aquelas palavras, quase sufocando de ódio.
Victoria começou a rir quando eu pensei que ela iria me esfaquear de novo ou coisa pior. Ela riu como nunca, até curvar-se de riso.
Estremecendo diante daquela visão, eu fechei os olhos com força, tentando achar forças para suportar aquilo só mais um pouco. Só até eu achar alguma coisa... Porque, agora, eu não podia mais ficar parada.
...Eles iam matar Mitchell se eu não fizesse nada.
- Começo a entender o porquê do Mitch ter te escolhido! – ela exclamou, com os olhos cheios de lágrimas de tanto rir. – Minha nossa, fazia tempo que eu não ria assim! Isso foi demais, Cora! Demais!...
Estes monstros são loucos!, concluí, em pensamento.
- ...Sabe? Quando o Mitchell morrer (ou pelo menos, sumir do mapa) devido a um trágico acidente ou qualquer história que inventarmos, a pobre fortuna Sunderland ficará à deriva. Mas, para a surpresa geral, a família Shelser, que tem tantas dívidas com os pobres Sunderland, irá contatar uma parente distante para tomar conta da fortuna deles, para que ninguém ouse tocar nela. Essa parente irá cuidar dos negócios, do dinheiro, de todo o poder... – ela sorriu, tocando levemente em minha cabeça, como se eu fosse um cão. – Uma parente distante chamada “Lydia Usher”. O que você acha? É perfeito. Aqueles patriarcas babões nem poderão fazer nada para me deter. Eu terei o aval da Lei, dos Shelser em pessoa.
Continuando a acariciar minha cabeça, suspirou, como se a simples menção àquele futuro glorioso já lhe desse frissons de prazer.
- ...E, para o alívio do Edward, ainda vou dar continuidade àquilo que os Sunderland jogaram fora há tanto tempo. E tudo voltará a sua harmonia natural. Estamos nos ajudando mutuamente, viu? Nada de errado nisso.
- Foi para isso que... Forjou a própria morte?! – eu retesei o corpo. – Para isso se aproximou do cond Shelser?! Do Mitchell?!...
- Foi ele que me roubou. Eu esperei desde os tempos de Alrick Sunderland para ter aquele poder, e o mesmo me foi roubado por aquele moleque arrogante. – trincou os dentes, voltando a ter aquela feição de raiva que eu temia. – Tudo que eu estou fazendo é retomando o que me é por direito.
- Nada é seu! Você é só uma emprega...
Tocando-me no rosto quando eu achei que ia me bater, Victoria Barrington dignou-me um sorriso que misturava, para minha surpresa, sentimentos que iam desde a pena à ironia.
- Você também é só uma empregada. – continuou. – E, mesmo assim, ousou engravidar do Mitch e tentou casar-se com ele e dar herdeiros que dificultariam ainda mais meu reinado. Você sabe que eu não vou deixar isso acontecer. Mas, estou em dúvidas também quanto a isso: aborto essa criança agora ou a deixo nascer para matá-la diante dos seus olhos? Isso te daria... Nove meses de vida a mais.
...Por isso Edward Shelser ficou tão irado quando Mitchell disse que ia casar-se comigo? Sim, afinal, tudo começava a fazer sentido.
Eu ia responder-lhe, mesmo que fossem palavras inúteis que não mudaria em nada a idéia de Victoria. Uma pessoa com aquele nível de determinação, a ponto de forjar a própria morte, a ponto de usar tudo e todos ao seu redor, jamais seria parada apenas com palavras.
Porém, antes que eu fizesse, ouvi gritos que partiam do corredor, de muito longe, do outro lado daquela porta de arabescos assustadores e com um cheiro inconfundível de mofo. Eram gritos que chamavam por mim. Vozes que eu reconheceria, sem dúvidas, em qualquer lugar.
- Eram estes os ratinhos aos quais Ed se referia? – Victoria suspirou, como que acordada de um transe feliz. – Deus! Onde diabos ele se meteu?!
(Um alívio a mais saber que Edward, quem sabe, já tivesse sido interceptado e devidamente acabado pelos dois).
Os gritos continuavam me chamando.
...Mitchell e Emma estavam aqui?
Eu não sabia se gritava por eles ou se olhava o extremo desgosto de Victoria Barrington, mas antes que minha mente se decidisse, em meio ao turbilhão de sentimentos que me tomaram naquele instante, percebi o farfalhar de tecido do vestido dela, e vi sua mão baixar-se até a faca cheia de meu próprio sangue.
A ponta fria e metálica tocou delicadamente em minha garganta.
- Grite por eles. – ela disse, com uma voz fria e controlada que eu não mais reconheci. Parecia dona da situação. – Faça isso até eles acharem esse quarto.
Como uma criança a quem é permitido que vá comprar o doce favorito, mesmo sob um olhar reprovador e cortante, eu gritei o nome de Mitchell e, em seguida, o de Emma, e percebi o silêncio que seguiu-se depois disso.
Então, os passos ficaram cada vez mais próximos.
Eles gritaram por mim outra vez, e eu não queria mais gritar, queria que eles dessem meia volta e fossem embora, fugissem para bem longe, menos que viessem justamente para a toca do lobo.
Mas continuei os chamando, odiando a mim mesma por estar me importando com uma faca em meu pescoço.
- Cora!... – enfim, para minha alegria e desgraça, a voz de Emma soou bem ali, do outro lado da porta. – Você está aqui?!
- Emma! – eu a chamei, sacudindo as correntes que me prendiam, sem mover-me um centímetro a mais de onde estava.
- A porta está trancada... – ouvi-a dizer.
- Deixa que eu abro.
Tão logo Mitchell disse aquilo, ouvi um estrondoso som, a ponto de fazê-lo ecoar por cada pedaço da parede e reverberar por muito tempo em meus ouvidos. Provavelmente, ele estava batendo com o ombro na porta, na tentativa de arrombá-la. Victoria não se moveu em nenhum momento, os olhos fixos na porta, assim como eu, enquanto minhas preces tentavam tirá-los dali.
Estremeci de susto quando aquele pedaço de madeira caiu como um saco de batatas no chão, levantando uma nuvem poeirenta e acinzentada.
Só pelos rostos que vi em Mitchell e em Emma, percebi que eles estavam surpresos e estáticos por verem-me presa por correntes, como uma prisioneira medieval, com uma mulher estranha que, certamente, eles iriam reconhecer em breve, com uma faca manchada de sangue em meu pescoço, enquanto minha testa e meus braços vertiam o mesmo líquido escarlate.
- Bem-vindos, Mitchell Sunderland e Emma Shelser. – ela sorriu radiante, o mesmo sorriso cruel que dedicou a mim quando nos encontramos pela primeira vez ali dentro. – Chegaram em ótima hora.
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