Bavarois
51 Capítulo LXII
LXII
Um tortuoso caminho. Dificilmente o rumo dos pensamentos de alguém é um “livro aberto”, algo fácil de se traçar. Ainda mais quando estes pensamentos estão tomados por alguém que não deveria estar ali.
- Você...?
- Não está mais me reconhecendo, Mitch? – ela sorriu.
Possivelmente, se eu fosse Mitchell, também jamais iria querer acreditar, nem que meus olhos estivessem claramente me mostrando tal cena. Se fosse comigo, se eu visse, talvez, meu pai ou minha mãe vivos, também ficaria exatamente assim: estática. Porque a realidade, tal qual os pensamentos, também é feita de sinuosos e tortuosos caminhos.
Alheia àquele momento, Victoria Barrington parecia ter sua mente muito longe dali. Ela via o futuro; aquele onde ela finalmente subia à superfície e encarcerava para sempre aquele que um dia foi o objeto de sua obsessão.
Ela via o futuro que estava ali, dando-se de presente para ela.
Senti-me uma criatura inútil. Se agora Mitchell e Emma estavam ali embaixo (mesmo que ainda fosse difícil de acreditar), era porque eu fui descuidada. E aquela, por mais que dissessem o contrário, era a toca do lobo, incrustada de más recordações, tanto para aquela falsa mademoiselle quanto para ele.
- Barrington?!... – Emma Shelser foi mais rápida em reconhecê-la. Ou talvez, pensasse que, sussurrando seu nome, ela seria como um fantasma a se dissipar como éter no ar.
Mas era uma mera ilusão, e eu podia claramente concordar com isso.
Isso é impossível, diziam aqueles orbes de alfazema que eu tanto conhecia.
Porém, enquanto eu achava que ele ficaria preso naquele estado de catatonia assustada para sempre, mais uma vez, lord Sunderland surpreendeu-me encarando-me de uma forma tão diferente que estremeci.
Tive a impressão de já tê-lo visto olhando assim para mim, mas não podia forçar a mente e tentar lembrar-me quando e porquê com aquele torpor que comandava meu corpo e obrigava-me a semicerrar meus olhos enfraquecidos.
- Victoria... Foi você quem...?
Finalmente, como se esperasse aquela pergunta, ela riu, adquirindo aquele ar macabro que parecia sair diretamente do Inferno.
- Você ou eu conto tudo que ficamos fazendo por aqui, Cora? – perguntou-me, encarando-me como se eu também fosse um “objeto”, mesmo sem a marca.
As provas estavam todas ali. Só um cego não as veria.
A faca ensangüentada, os braços feridos, o ferro em brasa esperando um corpo onde aderir e fazer arder até o último poro, até mesmo a testa de onde também vertia sangue, como aquelas paredes úmidas que pingavam um orvalho que mais parecia piche. Tudo estava ali, pronto para ser visto e transformado em uma única idéia, numa linha reta de compreensão.
Uma compreensão com aquela força esmagadora, porém, e eu bem sabia disso, não podia ser absorvida tão facilmente. Ao menos, não com um nível considerável de negação. E ninguém escaparia disso.
- Mas como isso...? – Emma continuava em choque, cobrindo a boca com as mãos. – Victoria Barrington não deveria estar...
- “Morta”? De fato, eu quase morri. – ela sorriu. – Mitch, conte para elas. Para Emma Shelser e para a senhorita Cora... Conte a nossa noite.
Mitchell fechou os olhos com força, como se fugisse de uma revoada de más recordações. Mais uma vez, vi-me impotente quando minha maior vontade era rodeá-lo em meus braços e absorver, por osmose, por qualquer coisa, toda e qualquer má lembrança que pudesse ter, carregar todos seus pesadelos; mas, principalmente, minha maior vontade naquele momento era partir o pescoço daquela mulher de vermelho, uma “viúva negra” legítima.
O silêncio pairou como uma andorinha num mar azul em contos-de-fada, enquanto o crepitar das brasas que aqueciam exponencialmente o metal continuava fazendo-se ouvir, impedindo, ao menos, aquele som agudo que atravessava os tímpanos, parecer uma tortura de época.
- Eu te matei. Senti o florete perfurar a caixa torácica. – ele meneou a cabeça, como se ainda acreditasse estar diante de um espectro. – Como você...?
- E por que você fez aquilo?
- Porque foi uma “ordem”.
- Uma ordem... – e eu senti aquela faca apertar com mais força minha garganta, a ponto de eu temer engolir a saliva. – Sim, uma ordem de seu “mestre”...
Num gesto que já me era conhecido, “Lydia Usher”, ainda com a faca apontada para o ponto mais próximo de minha aorta, tocou na mão enluvada, e com um movimento ligeiramente ágil, jogou aquela peça incômoda ao chão. A luva preencheu-se do sangue daquela poça que se formava debaixo de meus braços como uma esponja cheia de água.
- E, diga-me... Edward Shelser fez assim? – ergueu as costas da mão. – Mostrou-lhe a marca da soberania e... Ordenou-lhe me matar?
Tanto Emma quanto Mitchell, em maior ou menos grau, ficaram extremamente perturbados quando aquele pentagrama e hexagrama sobrepostos, sem nenhuma inscrição, porém com uma força muito maior que qualquer frase em latim, desenhou-se à luz alabastrina das chamas.
Não era difícil retirar dez anos de uma lavagem cerebral intensa, na qual todos os dias, como a águia de Zeus, ao invés de ter seus órgãos retirados, uma voz sussurrava incessantemente aos ouvidos que “um objeto não deve ter vontade própria”, e principalmente, “que eles próprios eram objetos”. Podia parecer uma idéia absurda, mas, dia a mais ou a menos, tais idéias aderiam como aquelas marcas de fogo em suas costas.
E, por isso, por saberem do símbolo da autoridade, e de suas próprias e eternas condições de “objeto”, de simples “propriedades”, não importava o lugar, o dia, absolutamente nada... Devia ser ainda mais assustador ver aquela mulher de olhar gélido sustentar a mão pálida e o poder que exalava agora.
- Por que você tem...?!
Como se estivesse assistindo a um filme nostálgico e interessantíssimo, aquela lady em vermelho apenas sorriu, deslizando a faca em meu rosto, em desenhos invisíveis e perigosos.
- Eu comecei a pesquisar sobre tudo isso depois da primeira febre de Mitchell em minha presença. Quando vi aquelas marcas em suas costas, fiquei com medo. E muito, muito curiosa. Por isso, comecei a pensar que, afinal, seu comportamento não era de todo inexplicável. Não era simples excentricidade...
Chicoteada por minhas próprias memórias, eu também me lembrei disso.
De como tive exatamente a mesma reação quando vi aquelas marcas, o símbolo da “escravidão” encoberta de cicatrizes de maus-tratos, ironicamente, numa situação extremamente semelhante.
- Depois, dotada de obstinação, continuei procurando. Visitei todos os locais possíveis: livrarias, bibliotecas, até nas cidades vizinhas... – suspirou, encarando, provavelmente, seu próprio reflexo na faca afiada. – Dediquei todo meu tempo livre a desvendar as verdades que nunca saíram da boca de lord Sunderland. Aos poucos, tudo começou a fazer sentido... Sondei, sem que percebessem, as pessoas das Quatro Famílias. Uma a uma, elas começaram a mostrar um comportamento-padrão de “cobrir fatos indizíveis”.
Uma das poucas certezas que encontrei, depois daquela de que a dor era real após a primeira facada no braço, foi aquela: eu e Victoria não éramos tão diferentes.
Capturadas por um destino em comum, por desgraças bastante próximas, que nos transformaram invariavelmente; jogadas como peças de xadrez naquela mansão sem vida e acolhidas pela aura de mistério insondável do senhor da mansão.
Então, se éramos assim tão semelhantes em muitos pontos, onde ela escorregou e eu não, sendo esse o motivo de sua ira...?
- Tudo me levava apenas para uma direção: a família Shelser. Eu pesquisei até mesmo sobre a fundação de St. Helens... Não havia dúvidas de que os Shelser, desde estes tempos, estavam envolvidos até os ossos com rituais “indizíveis”. – ela continuou, naquele tom professoral de quando me recitou trechos de seu próprio diário. – O próprio brasão da família indica isso. É uma tradição remanescente, junto com as outras famílias... Então, eu fui falar com Edward. Um dia, fui até sua casa e joguei sobre sua mesa meu diário. E sentei-me, esperando que ele lesse até dar-se por satisfeito e perceber o que aconteceu.
Como num quebra-cabeça de milhares de peças, lentamente, mãos invisíveis iam guiando-as, fazendo-as finalmente adquirirem um ar de sentido, uma figura que se podia lentamente reconhecer.
- Quando ele terminou, encarou-me como se quisesse me matar. E eu sorri. Disse que não era minha intenção delatá-lo às autoridades, até porque ele tinha poder sobre estas mesmas autoridades. – continuou, divertindo-se com nossos rostos de pura descrença. – Então, acabamos por fazer um trato: ele me ignoraria, até que tivéssemos alguma coisa a ser dita. Fingiria que não sabia de nada daquilo. E eu dar-lhe-ia minha solene promessa de silêncio.
“Mitchell era uma alma alheia a estas coisas. Ele apenas queria libertar-se, lembrar-se enquanto se esquecia. Lamentável, porém compreensível. Por isso, não foi exatamente difícil fingir-me ser a mesma Victoria Barrington de sempre, enquanto eu e Edward Shelser estávamos, invariavelmente, mancomunados para sempre. Porém, certos imprevistos adiantaram-nos... O mais favorável de todos foi a morte de Sirius Shelser. Tenho que agradecê-la, lady Emma, foi um golpe de gênio. Com a morte do único herdeiro possível para aquela tradição, o futuro daqueles rituais secretos estava por um fio. Por isso, eu fiz uma proposta: minha submissão àquele destino em troca da cabeça de Mitchell Sunderland decorando minha mansão, outrora a dele, na impossibilidade de ter as cabeças do seu pai e de sua madrasta também. Entretanto, para ter o poder... Eu precisaria eliminar o meu ‘eu’ empregada. Victoria Barrington jamais poderia aspirar tamanha responsabilidade.”
Parecendo transitar entre a incredulidade e a ironia amarga, Mitchell deixou escapar um sorriso que me mortificou, e que, possivelmente, me perseguiria pelo resto de minha existência.
- E, então, o diário...
Emma também parecia ter compreendido, afinal. Chocada, ela não ousou pronunciar nada, mas percebia-se claramente em seu semblante o quanto aquilo perturbou. Talvez, desde a menção de “Sirius”, ela já estivesse assim.
- Sim, o diário. – “Lydia” alargou o sorriso.
Como se pudesse ser estourada com uma agulha, como um balão de ar, o ambiente preencheu-se de tensão, uma vez mais.
- Usando-me dele, dei a entender que Edward Shelser descobriu sobre ele e ficou irado. Você próprio ficou muito bravo quando soube, lembra? — ergueu a sobrancelha, irônica. – E, então, um cond louco veio até a mansão de sua “propriedade”, disposto a ver sangue.
Essa cena Mitchell conhecia muito bem. Só por seu rosto extremamente perturbado, eu soube que ele a conhecia e a detestava.
“Antes disso, porém, eu bebi um certo remédio diluído num vinho. Os Bursnell são muito bons em achar fármacos exóticos. É um certo remédio que faz cair em profundo sono quem o toma, diminuindo ao máximo as funções vitais, simulando um invólucro de morte perfeito. Depois, com um conhecimento mínimo de Medicina, Edward só precisou acertar-me em um lugar que parecesse um ponto vital. Quando ele pediu para que você terminasse o serviço, lembra-se, Mitch? Ele te disse onde devia cortar, lembra? Você estava tão nervoso, pobre criança, que sequer percebeu que aquilo não iria me matar, só me fazer sangrar bastante. Depois disso, foi fácil... Montar a cena perfeita, com você perturbado daquele jeito. Esconder meu corpo e enganar todos, todos mesmo, com a ilusão de que Victoria havia morrido tragicamente, e que o único e maior culpado era o lord da mansão Sunderland.”
“Aquele corpo que ficou em meu lugar foi coberto com um lençol. Por isso, poucos realmente viram o cadáver, de fato. Edward precaviu-se nesse sentido, tomando cuidado para que só quem ele quisesse o visse, alegando que o cadáver estava em lamentável estado para ser mostrado a qualquer um. Nem mesmo o legista viu esse corpo. Mas, de qualquer forma... Nós escolhemos uma menina de mais ou menos minha idade e compleição física, muito semelhante a mim, nas proximidades. Assassinamos e escondemos seu corpo para nos servir para aquele momento. Deu tão certo que eu própria fiquei desconfiada. Mas, não! Anos e anos se passaram, e ninguém disse nada. Você continuou com o estigma de assassino das sombras e eu consegui, ilesa, esconder-me nos subterrâneos da mansão Shelser, esperando pacientemente o dia em que você sairia de cena e eu entraria.”
- Bom... Não tão ilesa... – e, com um gesto displicente, puxou um pouco o decote de seu vestido.
Uma cicatriz que parecia o raio argênteo de uma tempestade, cheio de ramificações pequeninas e desenhadas a traço firme, encontrava seu lugar na derme daquela mulher assustadora. Possivelmente, a cicatriz de seu pseudo-assassinato.
- E, finalmente, aqui estamos: no ato final de nossa peça. Eu chamo essa cena de “o fim ou morte patética do bastardozinho Sunderland”.
Tão logo ela pronunciou aquelas palavras, senti meu rosto arder e percebi, tardiamente, que ela havia riscado uma breve marca da qual brotou sangue em minha bochecha. Um gesto rápido e envolto de sorrisos sádicos, mas que foi o suficiente para despertar tanto Mitchell quanto Emma daquele transe medonho.
- Saia de perto dela, Victoria! – rosnou.
- Ora, mas eu gosto dela... Cora tem o seu cheiro. – ela deu de ombros, tocando em meu rosto com a mão livre e nua. – Ele me traz boas lembranças.
- ...Eu disse para sair de perto dela. – repetiu.
- Você vai me obrigar? – sorriu.
- Usando a força, se assim for necessário.
Uma ansiedade incontrolável apossou-se de mim enquanto, impotente, eu assistia aquela batalha travada com palavras e olhares cortantes; e que, logo, transformar-se-ia em ações indeléveis.
- Por favor, não... – sussurrei, tão baixo que achei que ninguém fosse ouvir.
- Emma, vá até Irisa e pegue o florete. E proteja-se até lá com ele. – Mitchell disse, com um tom irreconhecível. – Seu pai não está aqui, mas também não está morto, nem desaparecido.
- Ma-mas e você...? – ela perguntou, entre o medo e a hesitação.
- Não vou precisar dele.
Dando um passo a frente, para minha angústia, Mitchell passou a mão pelos cabelos, não parecendo mais nem um pouco assustado.
- À Victoria eu vou dedicar a mesma dor de ter seu corpo esfaqueado, por ter feito isso com minha esposa. Aliás, com essa mesma faca que ela segura. Por isso, vá logo e pegue o florete antes que Shelser apareça e nos surpreenda.
Assentindo, Emma ainda teve um breve instante de hesitação, antes de desaparecer pelo mesmo corredor de onde veio.
- Vai me matar? – findando, enfim, o contato entre minha pele e o frio metálico da faca, “Lydia” riu. – Vamos ver quem consegue matar quem antes?
Não vi quando foi aquilo. Não saberia sequer dizer o que aconteceu.
Tudo que ouvi foi um disparo, um clarão que me fez suspender a respiração e estremecer como se eu estivesse debaixo de uma tempestade glacial, e o som de algo se alojando em carne.
- A arma de meu pai. O único tesouro que me restou do passado. – Victoria sorriu, apontando o revólver militar, de onde a fumaça de pólvora ainda saía, para um Mitchell curvado e com uma mão manchando-se de escarlate. – Bem mais útil que uma mísera faca, não acha?
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