Bavarois

3 Capítulo II


II

- Venha, querida. Não precisa ter medo.

A voz rouquenha do senhor Sunderland era como uma melodia arranhada. Causava um mal-estar tão grande em mim que eu tinha a ligeira impressão de que, se não controlasse meu estômago logo, iria vomitar.

Eu estava na sala de jantar. Justamente onde minha mãe me proibiu de ir.

Como o resto da casa, aquela era uma peça estranha. A mansão Sunderland não era mergulhada em sombras, como se podia comparar, por exemplo, a casas do mesmo estilo dos romances tolinhos que eu afanava da biblioteca dele. Ao contrário, as cortinas estavam perpetuamente abertas, o sol entrava e iluminava tudo, mesmo que ele fosse precário, escondido nas pesadas nuvens de chuva.

Entretanto, era o próprio ambiente. Nenhum quadro, nenhuma vela, nada. Era um ambiente nu, cheirando a comida recém-preparada, vinho e ausência. Talvez, fosse a sala de jantar mais estreita e abafada que conhecia, ou talvez, fosse só seu nervosismo que roubava todo o ar.

Mitchell Sunderland estava placidamente sentado na cadeira reservada ao “patriarca” de uma família. Tinha os cotovelos sobre a mesa, as mãos apoiando seu queixo.

Naquele instante, sua figura adquiriu um caráter efêmero, como se ele não fosse deste mundo. Estava quase que envolto em um halo de luz impossível; e eu percebi, naquele instante, que aquilo era mais um efeito daquela sua beleza delicada como a de uma criança (mesmo que ele tivesse traços masculinos), hipnotizante.

- Não ouviu o que eu disse? Pode vir. – repetiu, num tom de enfado.

- Hum... Senhor, eu não acho que...

Eu estava tentando encontrar qualquer espécie de desculpa que o fizesse ver o quanto eu estava perdida. Se minha mãe visse-me ali, com ele, eu estava morta. Meu estômago deu voltas mais uma vez só de pensar.

- Deixe de perder tempo e sente-se aqui agora.

Uma empregada sentar na mesma mesa que o seu senhor é um ato impensável. Nunca ouvi falar de uma que o tenha feito.

E, definitivamente, eu não queria ser a primeira...

Hesitante, aproximei-me de seu lugar à mesa. A mesma era imensa, e eu pensava que fosse um capricho de gente rica ter uma mesa dessas quando você é sozinho na sua casa. E, mesmo quando havia mais pessoas, não era um lar que comportasse todo este número absurdo. Mamãe Irisa contou-me que era apenas um casal e dois irmãos.

Eu sempre ficava intrigada quando ouvia isso, condição que não mudou em todos estes anos. Como uma família normal de quatro pessoas reduz-se exponencialmente a uma apenas? Mais parecia uma versão caucasiana bizarra da música dos Dez Negrinhos.

Mitchell Sunderland tinha um duvidoso esplendor, mesmo tendo uma aparência frágil de alguém enfermo. Quando ele estava em cima de mim, há pouco tempo atrás, eu pude sentir um aroma suave, e não sei se era de sua pele ou se era algum eflúvio perfume daquelas terras exóticas orientais.

Peguei-me repentinamente pensando se ele não usara esta sua aparência e esta sua natural atração para escapar impune de toda a redução repentina da família Sunderland.

Não! Eu estava, atualmente, pensando-o como um assassino!

Por isso não gosto muito de observar as pessoas ou mesmo deixar minha imaginação fluir. Isso sempre acontece! Logo, eu estou formulando uma outra imagem, como num espelho, desta mesma pessoa que observo.

Meu senhor Sunderland não é um assassino, creio. Pelo menos, não tenho provas disso. Por isso, achei melhor sacudir a cabeça e parar de pensar naquilo.

- Quer parar de olhar para a comida com esta cara de cão sarnento? Sente-se.

Graças aos céus, a voz dele, mesmo tendo pronunciado aquelas palavras tão detestáveis, acordou-me.

Eu fiquei agradecida, por um lado. Por outro, detestei-o.

Toda minha admiração inicial por uma pessoa tão rara, para ser sincera, desapareceu assim que ele abriu a boca. Aquele homem era uma víbora, um perigoso predador. Foi essa minha primeira impressão.

Puxei uma cadeira, engolindo uma estranha bola em minha garganta que identifiquei como sendo tudo aquilo que eu queria dizer e meu status social de empregada de sua família me proibia terminantemente.

- O que diabos está fazendo? – ele me olhou, erguendo uma sobrancelha loira, como se eu fosse... Não sei explicar, uma retardada.

- Estou... Estou me sentando, senhor... – sussurrei calmamente, mantendo uma calculada distância a cada sílaba. Fazer isso me ajudava a manter a calma, porque senão, eu certamente esqueceria nossa diferença hierárquica e pularia em cima daquele pescoço translúcido de cisne.

- Mas não é para você sentar aí, onde só membros das Quatro Famílias sentam!

- Ah... – engoli em seco de novo. Homem irritante! – Perdão, senhor. Então, onde devo sentar-me?

Temi que ele fosse dizer “no chão”, ou qualquer coisa do gênero.

Aqueles seus olhos violáceos eram perigosos, e perscrutavam todo o lugar iluminado pela efêmera luz da manhã, como que procurando, com um prazer sádico, um lugar para mim.

- Aqui, Cora Baker. – ele sorriu, enfim. – Bem aqui.

E deu três tapinhas em sua perna.

Eu congelei. Lancei-lhe um olhar desesperado, sem querer, e vi que ele alargou o seu sorriso sádico.

Repentinamente, o cheiro daquele homem tornou-se o cheiro de sangue, de excrementos, e seus olhos clareados pareceram talhados em pedra e madeira, num esgar de uma rua coberta de neve e sujeira, onde uma menina estava agonizando silenciosamente. Eu me vi transportada outra vez para aquele dia, quando Irisa Baker me encontrou.

Talvez porque o medo que sentia naquele dia fosse, em suma, o mesmo que eu estava sentindo agora.

Sacudi a cabeça de novo e sentei-me rapidamente em seu colo, não pensando em nada, como se ficar ali fosse me salvar, de alguma forma, daquelas visões.

No mesmo instante, compreendi o meu erro.

A mão quente e sorrateira de Mitchell Sunderland insinuou-se pela minha perna mais uma vez, e então, circundou minha cintura, apertando-me contra ele. Seu sorriso foi de pura satisfação por ter visto meu rosto, mistura de nojo e surpresa.

Mesmo por debaixo de minha própria roupa, minha pele percebeu que o contato contra aquele tecido das vestes dele era macio. Eu fiquei intrigada, porque as roupas dos nobres pareciam tão pesadas e incomodas, vistas de longe. Era uma surpresa (desagradável, naquele caso) ver o quão leve era aquele tecido.

- E então? Está esperando o quê? – ele perguntou, e sua voz de enfado não combinava com aqueles olhos de caçador.

- Co-como...? – eu estava totalmente sem jeito.

Minha perna já esteve naquela cintura, eu já estive debaixo de seu corpo e, agora, sentei em seu colo. Nem mesmo a mais infame das mulheres da vida faz isso em menos de quinze minutos. Foi totalmente contra meus princípios.

- Vai me dar comida na boca ou não? – e então, ele passou o outro braço pela minha cintura, me segurando como se fosse uma boneca.

Sua mão, agilmente, deixou minha cintura apenas para pegar um prato delicado (e, aparentemente, caríssimo) com desenhos entrelaçados numa uma paleta estonteante de ciano que pareciam mais aqueles que os chineses faziam em eras antigas. O mesmo continha algumas frutas frescas, de bom aroma.

Ele deixou o prato em meu colo e puxou um cacho de uvas. E então, colocou-o em minhas mãos trêmulas.

- Que garotinha inútil. – resmungou. – Agora que eu te fiz o favor de pôr no seu colo, me dê na boca, sim?

Pela segunda vez, engoli em seco. A luz da manhã iluminava-nos de uma forma que as cortinas, um pouco cerradas, faziam aparecer sombras em seu rosto, que assemelhavam-se a uma misteriosa mortalha natural. Eu soube, naquele momento, que ele estava me usando como um brinquedinho.

Como se fosse uma criança solitária.

E, ao mesmo tempo, eu o detestei ainda mais; por sua aparência efêmera que me transmitia pena, simpatia até, e por ele me transmitir exatamente isso, quando estávamos numa situação típica de um gato que brinca com sua vítima, um pobre e desavisado rato, antes de devorá-lo.

Provavelmente, este nojo irritado estampou-se em meu rosto, porque ele sorriu, satisfeito, quando lhe dei a primeira uva na boca.

E, então, enquanto mastigava, pegou o pequenino sino de ouro de cima da mesa. Tocou-o, e seu som delicado, como o canto de uma ninfa, penetrou nos meus ouvidos como uma tortura de época.

O sino...

- Senhor Sunderland? O que deseja? – o sino que chamava minha mãe...

A governanta, ironicamente minha mãe, Irisa Baker, adentrou o recinto. E me viu no colo de nosso senhor.

Eu pude ver em seus olhos o tamanho de sua surpresa. E, igualmente, sua raiva, logo que aqueles segundos fizeram-na absorver a informação.

Estremeci nos braços pálidos de Mitchell Sunderland. E ele deve ter sentido isso, porque me estreitou ainda mais, como que divertido com aquela situação altamente embaraçosa que acabara de criar.

- Se-senhor... Por favor... – eu sussurrei. Queria poder socá-lo naquele instante, realmente.

- Senhorita Baker. – frisou o sobrenome de minha mãe adotiva, como que para deixar claro que sabia de nosso parentesco, da raiva dela por eu estar ali, e estivesse jogando exatamente por causa disso. – Quem é essa empregada?

- ...Cora, senhor. – respondeu minha mãe. Suas mãos apertaram-se uma na outra. Esse era seu reflexo quando ela não podia baixar os olhos para controlar a raiva, frente ao nosso senhor ou alguém respeitável.

- Cora do quê? – maldito! Ele estava divertindo-se com aquilo!

- ...Cora Baker, senhor.

Mitchell Sunderland, então, tocou em meu queixo, puxando-o para olhar meu rosto. A mesma coisa que ele fez lá, quando estávamos caídos perto da escada. Seus olhos me inspiravam, primariamente, medo.

- E o que ela faz? – sorriu, sádico.

- Ajuda na cozinha e com as roupas, principalmente, senhor. – eu senti pena de minha mãe. Mesmo temerosa de seu castigo, que certamente viria, eu tive pena. Ela me protegeu tanto, justo para eu não parar ali, e agora...

- Ela faz serviços externos?

- ...Faz, senhor.

Seus cabelos loiros e sedosos balançaram um pouco devido a uma brisa mais forte que entrou pelas janelas. Eu senti o cheiro deles, e prendi a respiração. Não que fosse ruim, mas aquele aroma, por algum motivo, me fazia tremer.

- Minha cara governanta, senhorita Baker... – Mitchell pôs seu rosto em meu colo. Tudo em minha anatomia parou, exceto meu punho, que eu tive de controlar para não voar em seu rosto efêmero. – Retire a senhorita Cora dos afazeres da cozinha.

- Meu senhor...?! – mamãe parecia tão ou até mais surpresa que eu. Não saberia dizer se pelo que ele acabou de fazer ou pelo que acabou de dizer.

- A senhorita Cora, de hoje em diante, irá ficar somente comigo. Será minha... Dama de companhia, creio.

Eu e mamãe estremecemos ao mesmo tempo.

- Mas, meu senhor...

- E estamos conversados. – ele finalizou, sorrindo, antes de estender o prato mais uma vez para mim. – E agora, minha bonequinha... Dê-me mais uvas.