Bavarois

4 Capítulo III / Capítulo IV


III

A escuridão desse lugar só pode ser comparada com as trevas do próprio Inferno. Elas escondem em seu ventre uma coleção de bonecos. Seus olhos vítreos seguem-me, me encaram por onde quer que eu me mova, dentro daquele mínimo espaço, e suas peles de porcelana translúcida são a única companhia que tenho, tudo em que posso tocar.

Seus lábios delicados nunca proferiram nenhuma palavra. Nunca me confortaram, nem sequer me ofenderam. Elas são entidades neutras. São apenas ratos escondidos na escuridão, apenas observando os fatos.

Eu estou preso neste cubículo miserável que mais parece uma gruta. É úmido e tem um cheiro horrível. Deste teto engolido pelas trevas, pendem correntes que mais parecem ganchos, como nas gravuras de torturas medievais. Eu as odeio. Quando elas aderem à minha pele, dói. Dói muito. Há um grande ralo de esgoto no canto esquerdo deste cubículo. Ele exala um cheiro horrível; no início, eu sempre ficava enjoado daquele cheiro. Às vezes, vomitava. Agora, não me incomoda mais tanto...

Há quantos dias estava sem comer?...

Da última vez que ele apareceu aqui, me machucou, como sempre. Eu odeio aquele homem. Mas, dessa vez, não sei o que me deu... Eu reagi. Gritei com ele. Mordi sua mão com força. Até mesmo senti gosto de sangue.

Ele me espancou, cheio de ódio, e fugiu. Não voltou mais.

Mas também não me trouxe mais comida. Nem água. Nem luz. Absolutamente nada. Ele deixou-me sozinho com as bonecas.

Tentei bater na porta. Depois, tentei espancá-la também. Gritei. Implorei por ajuda. Foi a primeira vez em cinco anos (da última vez que contei, eu estava aqui há três. O tempo perde totalmente sua utilidade quando você é uma criança enjaulada) que me portei como um verdadeiro animal.

...Eu estava morrendo de sede.

Tentei beber minha urina, mas não tive coragem. E não queria passar tanta sede a ponto de adquiri-la...

As bonecas me observavam. Eu odeio bonecas. Eu odeio essa escuridão.

De repente, a porta fez um barulho. Eu ergui meus olhos, assustado. Uma onda de adrenalina derramou-se, como uma cachoeira, e despertou todos os meus sentidos imediatamente.

E, de repente, a luz de velas. Uma pessoa entrando naquele recinto silencioso.

- Irisa!... Irisa!... – gemi, a voz rouca e fraca. Assim que reconheci aquela figura, automaticamente, meus olhos encheram-se de lágrimas.

- Jovenzinho... – ela me sorriu.

Eu a amava! Aquele seu cabelo de cobre líquido, seus olhos verdes gentis, aquela pele tão branca quanto a minha... Seu colo de mãe... Suas palavras gentis... Ela não era uma boneca.

Ela me amava. Ela não era uma boneca.

- Trouxe comida, jovenzinho. Está com fome, não? – sorriu-me mais, mostrando a bandeja com um pequeno prato de empregados cheio de comida.

Ela não era, de forma alguma, uma boneca.

IV

Abraços e mais abraços.

As empregadas, sem exceção, estavam compadecidas de minha condição horrenda de “dama de companhia forçada” do senhor Sunderland. Algumas me davam tapinhas amigáveis, todas me abraçavam, e outras pediam para que eu fosse forte. E, depois de me consolar, elas faziam o mesmo com mamãe Irisa.

Eu não tinha coragem de olhar para mamãe. Nem podia imaginar o tamanho de sua raiva, e, ainda sim, de sua tristeza.

Quando eu tinha 12 anos, fui achada num beco estreito e de cheiro ruim por ela, a Irisa Baker dos cabelos de fogo e do olhar gentil. Desde então, ela tem agido como minha mãe. Ela me cuidou, me alimentou, me consolava quando eu tinha pesadelos... Ela foi a mãe que eu nunca tive.

E, de repente, sem mais nem menos, por causa de um capricho infantil, eu estava sendo “tirada” dela. E não gostei nada disso.

- Boa sorte, Cora... Vai precisar. – uma delas dizia, afagando meus cabelos.

Apesar de estar sendo cercada, meu olhar vagava entre duas pessoas: minha mãe e Angeline. Os olhos negros da mesma estavam baixados, escurecidos de culpa. Eu imaginei que ela ainda achava que, por causa de seu pedido para que eu a acompanhasse (no fim, fui tão inútil que até me separei dela), eu estava agora naquela situação.

Aproximei-me de Angeline, esquecendo-me das pessoas ao meu redor. Toquei em seu ombro, e ela me encarou.

- Perdão, Cora... A culpa foi...

- Foi de qualquer um, menos sua. – respondi, não deixando-a terminar a frase. Minha companheira Angeline tinha o péssimo hábito de achar-se responsável por tudo. Não queria que ela sugasse a culpa para si por aquele incidente.

Deixei que ela me abraçasse e pedisse desculpas mais uma vez, e confortei-a igualmente. Mas meus pensamentos, naquele instante, estavam voltados para outro lugar, totalmente diferente.

Eu ouvi mamãe Irisa pedir para se retirar um pouco, que precisava cuidar das minhas coisas, que seriam levadas para cima. Engoli em seco. Aquela idéia de me mudar do quarto de minha mãe, onde tínhamos uma cama de solteiro para cada uma, ainda me apavorava.

Ela, então, fez um sinal, e olhou de relance para mim.

Começou a tocar em seu cabelo, e encaracolá-los ainda mais, girando o dedo. Eu entreabri os lábios, surpresa.

Quando Irisa fazia isso, era porque queria falar comigo em particular. Aquele era nosso sinal secreto que inventamos há muito tempo atrás.

Eu pedi licença, um pouco depois, e segui pelo mesmo lugar por onde ela havia saído. Por sorte, encontrei-a na janela. Aquela mesma onde eu estava desenhando, naquela manhã. O hialino orvalho da manhã ainda preenchia a janela de gotículas, e aqueles meus riscos sem sentido estavam visíveis.

- Mamãe Irisa... – sussurrei. Precisava ser cautelosa naquele momento.

Ela estava de costas, e não ousou sequer mover-se quando chamei. Seus ombros estavam caídos, rendidos sob o peso daquela manhã tortuosa. Nunca sua silhueta pareceu-me tão... Humana.

Ela sempre foi como uma deusa para mim. Uma santa. Alguém a quem eu devia toda minha vida.

Eu odiei, naquele instante, com toda minha alma, Mitchell Sunderland.

Ele deixou minha mãe naquele instante. Ele era o mal em pessoa.

- Acho que esse é o seu último almoço conosco, não? – ela perguntou-me, ainda de costas. Mexia em seus pequenos cachos ainda, absorta.

Aproximei-me mais, com medo de tocá-la. Achei que ela fosse quebrar; assim como meu senhor, às vezes, naquele momento, ela estava insuportavelmente frágil. Como uma boneca de porcelana.

- No jantar, você já estará com o nosso senhor, não é? – continuou.

Sacudi minha cabeça veementemente, como se isso fosse suficiente para dissipar toda aquela idéia absurda, como se, com isso, tudo fosse embora, e eu pudesse voltar à minha rotina de empregada comum numa mansão imensa e sem vida de um herdeiro de uma das Quatro Famílias.

- Isso não é uma despedida, mamãe... – tentei consolá-la da melhor forma que podia: tentando ver alguma coisa positiva ali. – Eu ainda irei encontrá-la pelos corredores. E, quando tiver chance, sempre virei falar com a senhorita.

Irisa sacudiu, delicadamente, o rosto. E, então, virou-se para mim.

Nunca, em toda minha vida ali, eu lembrava de ter visto aqueles olhos pálidos, do verde de um livro envelhecido, tão apagados. Era quase como se eles estivessem cobertos por uma sombra de morte.

Desta vez, ela quem se aproximou de mim. Tocou em meu braço, e sorriu com muito esforço.

- Lembra-se da Victoria?

E como não lembraria? Victoria Barrington, uma mulher perfeita.

Ela tinha os olhos mais perigosos que eu jamais tinha visto. Eram olhos azuis, tão azuis quanto o céu da primavera, fresco e perfeito. Tinha cílios grandes, bochechas naturalmente rosadas e um cabelo acastanhado, meio loiro, comprido e sedoso. Podia, muito bem, ser uma lady, alguém da alta sociedade, se assim quisesse.

Porque, afinal, ela tinha a ambição em seus olhos. A dissimulação, a delicadeza, tudo morava lá. Todos podiam ver isso por aquele mar de ciano.

Ela era sempre gentil com todos, não sei se por interesse ou porque, mesmo sendo ambiciosa, também era uma boa alma. E, um dia, ela sumiu. A partir de então, eu só a via raramente.

Repentinamente, eu compreendi.

- Ela também foi uma “dama de companhia”? – não contive um sorriso incrédulo. Aquele infeliz não perdia tempo!

- Foi, sim. – minha mãe quedou-se em silêncio, algo frio, agudo. Eu não queria mais que ela ficasse olhando a janela; precisava que me falasse alguma coisa. Sempre quando ela ficava assim, alguma coisa ruim acontecia em seguida. – E lembra-se do que aconteceu pouco depois?

Eu lembrava, claro. Foi meu primeiro contato com a morte.

A polícia adentrou a mansão Sunderland e eu via pessoas entrando e saindo, médicos, autoridades, curiosos, muita gente... O corpo de Victoria estava inerte, estendido no chão, com uma grande poça escarlate ao seu redor. O sangue seco impregnava-se em seu vestido, em seus cabelos, entrava por cada poro seu, como que querendo voltar àquele corpo.

Impossível. Victoria estava morta.

Assassinato, disseram. E as empregadas só falavam disso. E de como o nosso senhor era o principal suspeito. Ele nunca foi preso, o caso foi fechado por falta de provas, mas todos sabiam quem era o assassino.

Mamãe Irisa me proibiu terminantemente de sair depois disso. Ela tinha medo que eu o encontrasse.

- Mamãe... Você tinha medo que eu me encontrasse com o senhor Sunderland... Porque sabia que ele iria me escolher, como fez com Victoria? – perguntei. E só então me dei conta do quanto era uma criança; eu não sabia de metade dos segredos e das histórias de todos ali.

Aquela mansão era um perigo!

- Ele pareceu sequer se importar quando eu disse que trouxera você da rua. Fiquei feliz naquele momento. – ela sorriu. Aquele seu sorriso triste me partia o coração. – Porque eu sabia que você chamaria a atenção dele.

Engoli em seco.

- Você sabia, mamãe...? Como saberia disso?

Irisa deslizou os dedos pálidos e compridos por meu braço, subindo-os. Chegou em meus ombros, passou a curva de meu pescoço, traçou o mesmo e, então, parou em meu rosto. Um suave carinho seu roçou-me nele.

- Porque você tem esses olhos.

- Olhos?... – às vezes, mamãe me dava medo. Era como se ela soubesse demais, e quisesse desesperadamente contar-me tudo, mas não podia.

- Você precisa ir agora, Cora. – ela sacudiu a cabeça, tirando a mão dali.

Imediatamente, um frio invadiu-me as entranhas.

Naquela tarde de chuva e nuvens escuras, Irisa Baker me olhou tão profundamente que ela, imediatamente, me pareceu tão ameaçadora quanto Mitchell Sunderland. Tinha os mesmos olhos auscultadores, do mesmo jeito que naquele dia, quando me encontrou.

Ela roubou minha respiração, minha atenção, tudo em mim. Permaneci imóvel, sem me atrever a respirar ou piscar os olhos, enquanto ela se virava, pronta para voltar aos seus afazeres.

Entretanto, antes disso, ela aproximou o rosto do meu, e então, deslizou os lábios para meu ouvido.

Do mesmo jeito que eu havia feito com ela há anos atrás...

- Mas, antes disso, vou lhe dar um conselho, Cora. Não cometa o mesmo erro de Victoria. – ela sussurrou. Sua voz estava rouca, ansiosa. Ela tinha mais medo do que eu por toda aquela situação, eu senti. – Não seja uma boneca.