Bavarois

24 Capítulo XXX


XXX

Só depois, quando eu percebi exatamente o que estava fazendo, foi que tudo adquiriu um ar de sonho distante.

- ...Prepare o oval bastion, sim?

- Senhor?

- Ponha algumas velas a mais e veja se a limpeza está em dia, só isso.

- Alguma visita, meu senhor?

- Eu e milady Shelser ocuparemos o salão por toda a tarde e parte da noite, na impossibilidade de ocuparmos os jardins.

- Entendo... Imediatamente, senhor.

O eco de nossos passos nos acompanhou pelos corredores do segundo andar, o exclusivo do lord Sunderland, enquanto atravessávamos as paredes nuas, as chamas bruxuleantes das velas. O brilho de suas luzes douradas só inquietava ainda mais a escuridão que derramava-se calmamente, graças ao sol totalmente recoberto pelas nuvens escuras do céu.

O rumor da chuva que não dava tréguas serpenteava em meus ouvidos, quando Mitchell abriu a porta de seu quarto. Com um suspiro contido, auscultei a escuridão do quarto dele, quando entrei e ouvi o som da porta se fechando atrás de mim.

Não mudara nada, desde a última vez em que entrei. Eu ficava pensando se Emma, quando falou que queria ser esposa dele, estava mesmo preparada para uma vida dentro daquela peça imensa, porém tenebrosa.

Na verdade, perguntava-me como Mitchell podia agüentar viver entre aquelas quatro paredes. E, de repente, me pegava lembrando de sua narração, e chegava à apenas uma conclusão: era natural. Ele cresceu dentro de paredes bem menores, dentro de um lugar muito mais fétido e assustador. Mas, ainda sim, cercado dos mesmos olhares cegos de porcelana daquelas criaturinhas que preenchiam as inúmeras prateleiras espalhadas por todo o lugar. Era muito natural para ele, portanto. E também muito triste.

- As bonecas não vão te devorar, Cora. – ouviu-o dizer, num tom irônico. – Não precisa ficar olhando ao seu redor como se esse fosse o quarto do demônio.

Imediatamente envergonhada por ter feito aquilo, tentei corrigir-me:

- Não... Não, eu não acho que seja o quarto do demônio. Eu só... Bem, é difícil não ficar indiferente a este lugar. Ele é tão... Diferente.

- Diferente, certo... – ele riu para si mesmo. Eufemismos nunca foram meu forte, afinal. – Tem medo delas ou é só estranheza mesmo?

Vendo que não tinha jeito mesmo, deixei que Mitchell vencesse, encolhendo os ombros. – Elas são medonhas demais...

- Medonhas. – ele apenas repetiu. – Certo.

Dirigi-me, com passos hesitantes, ao banheiro, antes que a situação ficasse ainda mais constrangedora do que já era (se é que isso é possível). De repente, o peso daquela situação caiu em meus ombros: eu já não estava assim tão confiante quanto estava antes. Definitivamente, não era apenas perguntar-lhe “por que você falou que eu iria te acompanhar para a Emma, se ela não tem ciência que eu sei sobre a sua marca? Não deveria ser exatamente o contrário, que eu não devia te acompanhar?”, sabendo que, para isso, teria que banhá-lo.

O banheiro era muito mais seguro que o quarto, a verdade seja dita. Esquentar a água e encher a banheira de sais foi relativamente simples, e demorou bem menos do que eu previa. Uma pena, eu estava considerando aquilo um ritual estranho para reunir coragem.

- Você está totalmente encharcada, boneca. Não quer banhar-se comigo? – distraída, levei um grande susto ao ouvir sua voz bem perto de mim.

- ARGH! Mitchell, pelo menos avise quando estiver atrás das pessoas desse jeito! – reclamei, pondo a mão sobre o peito. – E não, não quero tomar banho com você! Nem pensar! – emendei, sentindo o rosto esquentar involuntariamente.

- Certeza? – incrível como ele sabia ser irritante quando queria.

- Absoluta. – resmunguei, preferindo prestar atenção a coisas mais importantes (qualquer uma era mais importante que encará-lo), como checar a temperatura da água com a mão.

Dando de ombros, ele apenas riu. – Vou me despir. Se quiser assistir, boneca...

Corando até o último fio de cabelo (que certamente é tão vermelho quanto o meu rosto, agora), eu me virei na direção oposta à da banheira. Podia ouvir o farfalhar do tecido úmido, mas até mesmo este som era abafado pelas batidas descompassadas do meu coração. Sim, eu estava morrendo de vergonha, como previ.

Apenas quando ouvi-o entrar na água é que pude ter coragem de olhá-lo outra vez. Respirando profundamente, olhei ao redor, como quem busca qualquer coisa para se distrair.

- Já que você toma banho sozinho... Eu vou... Vou pegar a toalha. – disse, tentando não tropeçar nas palavras.

- Como quiser. – e eu tive vontade de pular em seu pescoço, porque vi que ele estava se divertindo muito com aquilo.

Enquanto pegava a toalha (um exercício que eu, propositalmente, prolonguei), repassei mentalmente os tópicos que queria discutir. Não que aquela fosse a situação ideal, nem nada, mas era de suma importância que eu soubesse daquilo. Se Mitchell cooperasse e pudesse me contar a verdade, já seria meio caminho andado. Eu saberia de coisas que nem o próprio diário de Victoria Barrington pôde dizer.

Era estranho, na verdade. Eu lembrava que, no dia de sua morte, era uma gélida manhã do início de Março, quando o céu desfazia-se em cinzas insignificantes e os pedaços granulados de orvalho e gotas da chuva da noite anterior ainda estavam dançando no chão. Victoria parara de escrever no diário precisamente no dia 03 de Março. Depois disso, o que se seguia era uma coleção de páginas em branco. Nenhum acontecimento, nenhuma marcação. Ele virou um caderno tão morto quanto.

Pelo tempo que contei, ela ficara dois meses com Mitchell. Acho que Victoria preferiu omitir o porquê dele tê-la escolhido, se é que sabia, porque não achei isso em nenhuma das anotações pessoais espalhadas pelo caderno. O que eu sei é que ela descobriu tão rápido quanto eu que as coisas não iam bem com o senhor Sunderland, nem com as pessoas que o rodeavam.

- Ei, Cora...?

Ao perceber que Mitchell me chamara, eu rapidamente me virei, esquecendo-me até de que ele estava numa banheira.

- Ah, pois não...?! – entretanto, assim que o vi, voltei a virar o rosto, se possível, corando ainda mais (droga, por que eu escolhi esse momento mesmo para falar com ele?).

- Você está parada aí há horas, olhando para o nada. Tudo bem? – ouvi-o perguntar, e tive a certeza de que ele, provavelmente, estava erguendo a sobrancelha, naquela sua expressão de sempre, quando desconfiado.

- S-sim, tudo bem... Eu só...

- Se está tudo bem, me ajude aqui, boneca.

Perplexa, tive de virar-me, apenas para ver-lhe o sorriso torto que me dignava quando tinha planos para mim.

- Ajudar no quê...? – devolvi-lhe o olhar desconfiado de antes, apenas para ouvi-lo rir quando fiz isso.

Acho que pus mais emoção do que devia...

- Não vou te devorar, idiota. Apenas lave minhas costas. Não alcanço.

Se não alcança, o que fez sobre isso em todos estes anos, banhando-se sozinho, seu você-quem-é-o-idiota?!, eu fuzilei-o com os olhos, mentalmente pensando nisto. É claro que jamais o diria em voz alta, mas creio que o meu olhar foi mais do que o suficiente, porque ele recomeçou a rir. Sem dúvidas, concluí, era de propósito, apenas para me provocar (como sempre).

Aproximei-me da banheira, tentando convencer meu coração a voltar ao seu ritmo normal antes que a mansão inteira o ouvisse.

Eu estava muito envergonhada, mas, de repente, pareceu que toda a minha vergonha passou, tão logo me ajoelhei ao lado dele. Aquela onda de calor que irradiava e parecia sair pelos poros, quase como se meus hormônios estivessem travando uma verdadeira guerra santa... Tudo cessou.

Eu fui tomada de uma estranha surpresa, uma sensação muito nostálgica que eu já sentira tantas outras vezes.

Senti uma estranha chicotada fria no estômago ao ver os contornos, por entre a espuma da água, da grande marca que ele ostentava nas costas. O pentagrama e o hexagrama sobrepostos, os dizeres “Malos Spiritus Sigillent” em letras góticas perfeitas. E, por cima disso tudo, as incontáveis cicatrizes de chibatadas.

Sempre quando eu olhava ou lembrava de suas costas, minha dor era quase física. Entretanto, por mais que fosse assim, a minha dor mais iria se aproximar da dele. Eu jamais poderia imaginar de verdade quão doloroso devia ser ter aquilo. E, ao que me consta, Victoria demonstrou o mesmo tipo de sentimento, pelo que li em seu diário até então.

Provavelmente, eu devo ter feito papel de idiota e ficado olhando fixamente para ele, porque senti a mão de Mitchell pegar a minha e guiá-la até os ombros.

- Olha, a gente esfrega essa parte aqui... – apontou, como se eu fosse alguma espécie de retardada incurável. – ...Usando os sais especiais e as mãos, sabe, e não com os olhos.

Sem realmente ouvir as suas provocações, apenas assenti. – Dói...?

Ouvi seu suspiro, como que embebido em suas próprias lembranças. Era meio solitário... Eu poderia curar seu corpo, mas jamais alcançaria a sua alma. Suas lembranças e sua dor eram algo apenas dele, e eu jamais alcançaria isso. Sinceramente, eu me entristecia.

- Quando alguém toca, formiga um pouco. Acho que foi porquê, quando eles me marcaram, infeccionou. Eu quase morri e tudo o mais... Foi bastante estranho. Acho que nunca sarou direito.

Assenti, pensando no quanto eu estava errada. Lá no começo, no que parecia ser muito, muito tempo atrás (mas talvez tivesse se passado apenas um pouco mais de um mês), eu o considerava alguma espécie de espírito maligno. Como a marca nas suas costas dizia.

Era uma criatura inumana, saída dos meus pesadelos mais profundos e criada especialmente para me atormentar. Era essa a imagem que eu tinha de Mitchell Sunderland, até perceber aquela sua humanidade torta e tão frágil quanto a sua estranha aparência etérea através daquela marca em suas costas.

Eu tive medo de tocá-lo naquele momento. Tanto que apenas encostava levemente em sua pele, como se ele fosse feito de uma porcelana ainda mais rara que aquelas bonecas que enchiam seu quarto.

- Como você fazia para as mulheres não perceberem? Digo... Você se desnudava, correto? – não que falar sobre isso não me causasse vergonha, mas a curiosidade foi maior.

Ao vê-lo rir daquele jeito, imaginei que viria coisa. – É só fazer tudo com as velas apagadas. E sair antes do sol nascer.

Como esperava, era uma resposta bem típica...

- Ah, não diga... – resmunguei, concentrando-me em esfregar suas costas, pondo um pouco mais de força naquilo (propositalmente, admito).

- Mas... Se fosse com você, Cora, então, eu não ia precisar de nada disso. E, sabe, isso nunca me aconteceu antes.

Eu ainda tilintava um pouco de frio por causa das roupas e da pele úmida da tempestade copiosa que se derramava do lado de fora, mas quando ouvi aquilo, naquele tom rouquenho de sua voz, engoli em seco, com o corpo esquentando exponencialmente. Imediatamente, foi como se meu cérebro, pela vergonha, tivesse regredido aos quatro anos, e eu não fosse capaz de fazer as coisas mais básicas, como respirar ou continuar o que estava fazendo com o mínimo de coordenação motora necessária.

Totalmente alvoroçada, pus as mãos sobre meu colo, baixando minha cabeça. Eu realmente não sabia o que dizer. Parte de mim ficou feliz com aquilo (e eu achei isso extremamente vulgar, apesar de engraçado...), e a outra parte ficou muito, muito sem jeito (provavelmente, ela era quem estava me controlando). Eu queria dizer alguma coisa, acabar com aquele silêncio entrecortado do som da água, mas os lábios não se mexiam e minha voz não saía.

Não sei quanto tempo fiquei ali, daquele jeito, mais parecendo uma carola, mas pude ouvir a voz de Mitchell bem atrás de mim, de repente:

- Você está bem, boneca? Está doendo algum lugar ou o quê?

- AH!... – quando percebi, ele estava exatamente atrás de mim mesmo, com atoalha que eu lhe pegara antes enrolada em sua cintura. A pele branca era quase da mesma cor do mármore da banheira, e alguns pingos de água ainda escorriam do cabelo loiro. Eu prendi a respiração de imediato. – A-AH...!

- Que foi? Vai me dizer que não notou que ficou parada aí até agora? – ele ergueu uma sobrancelha, obviamente preocupado, como se eu fosse maluca.

- E-eu fiquei...? – engasguei. Incrível como eu ficava distraída demais e muito facilmente. Ainda ia me trazer problemas sérios essa mania.

- Ficou sim. Foi até estranho. Tem certeza de que está tudo bem?

- Claro... Está sim...

- Então, como eu ia dizendo, se fosse com você... Ia ser algo totalmente novo fazer essas coisas com as velas acesas.

“Essas coisas”... Eu corei ainda mais, já achando mesmo que iria morrer por falta de sangue no resto do corpo.

Apenas para piorar, Mitchell tocou em meu cabelo úmido, capturando uma mecha de cobre derretido em seus dedos, deslizando-a por entre eles. Ele parecia concentrado naquela tarefa, como se o meu cabelo fosse algo estranhamente precioso. Segurei, instintivamente, a respiração quando ele aproximou o rosto do meu.

Reconheci de imediato aquela cena. Era a típica “caçada” dele: seus lábios nunca partiam diretamente para os meus, como era de se esperar (e como eu lia em romancezinhos): eles traçavam um caminho secreto antes, como se estivessem apenas explorando, sem pressa. Começou em minha testa, como quase sempre o fazia, e foi descendo, muito devagar, muito calorosamente.

Quando ele chegou na minha boca, a mesma já estava entreaberta, não sei dizer se de surpresa ou de expectativa.

Vi-me subitamente erguida de onde estava ajoelhada, e agradeci aos céus por ele ter me prendido em seus braços, senão eu certamente teria despencado. Não havia mais força em minhas pernas para me sustentar. Não sei se era porquê, por debaixo do tecido úmido da minha roupa, eu estava mesmo sentindo o seu corpo sem nenhuma espécie de barreira, mas eu senti que aquele era definitivamente o beijo mais estranho, o lugar mais incomum e... A melhor sensação do mundo.

Quando ele me envolveu mais contra seu corpo, eu estremeci. Foi automático, e senti-me envergonhada por isso.

Ainda mais quando Mitchell percebeu este meu estremecimento e me largou, findando o beijo de repente.

- Ah... – ainda desnorteada, eu só pude sussurrar aquilo.

- Desculpe, querida. Eu não sou um homem de instintos animalescos e desenfreados. – ele disse, passando a mão pelos cabelos loiros. – Uso meu cérebro naturalmente privilegiado. E o mesmo me diz para pararmos com isso.

Senti-me uma cretina. Tentei consertar a situação, mas vi que eu havia cruzado uma linha que eu mesma tinha estipulado. E vi que também cruzei a de Mitchell. Era um acordo tácito: apenas beijos. Nada mais que isso.

Ele ultrapassou os limites que o próprio havia estabelecido, e isso o fez ficar... Não saberia dizer como estava Mitchell Sunderland naquele momento. De costas para mim, ele apenas passou a mão pelos cabelos e foi andando, saindo do banheiro. Provavelmente, estava irritado consigo mesmo. É, eu também estava brava com minha covardia, para ser sincera, mesmo que tivesse um bom motivo.

- Vou ter um jantar de negócios aqui, amanhã. – ele me anunciou, ainda de costas para mim. Nunca ver aquelas estrelas macabras foi-me tão doloroso. – Acho que me exaltei por causa do nervosismo acumulado. Perdão.

Eu engoli em seco. O lord Sunderland estava sumindo de minhas vistas!

- Se... Se quiser me compensar por isso... – mesmo que eu não estivesse magoada nem nada, precisava daquela chance. – ...Então, responda-me algumas coisas, Mitchell!

Percebi que ele estava dirigindo-se para o quarto e ia procurar uma roupa. Por isso, por respeito ao meu coração (que ainda batia descompassado) e ao meu rosto que corara o suficiente naquela tarde, eu decidi encostar-me na porta, de costas para o quarto, e ficar assim, esperando ele estar apresentável outra vez.

- Que coisas? – ouvi-o perguntar-me, num tom claramente desconfiado.

- Estive pesquisando nas horas vagas, nestes dias, sabe... Pesquisando muitas e muitas coisas... E descobri, não faz muito, a marca nas costas da milady Shelser. É igual à sua, não é?

Uma estranha vertigem tomava conta de meu corpo. Provavelmente, eu estava tão nervosa que ia ter um ataque. Eu quase não consegui ouvir minha voz, mas soube que minha pergunta foi atrevida só pela tensão que o ambiente adquiriu magicamente após a última palavra.

- Não sei se eu estou sendo paranóica ou se tem algo a ver, mas... Eu ouvi isso da mamãe Irisa. Emma sumiu de St. Helens por dois anos, há algum tempo atrás. Confirmei essa história com outras pessoas, e todas disseram o mesmo: que ela alegou estar numa viagem no exterior, quando questionada sobre isso. – antes que Mitchell pudesse falar algo, eu emendei aquilo. Não queria que ele me interrompesse enquanto eu tinha aquele surto de coragem. – O que não faz sentido, já que eu não conheça nenhuma cultura do exterior que incite mademoiselles a quererem a todo custo praticar esgrima e pedirem desesperadamente um lord em casamento, como se ela fosse o homem.

Em meio às batidas do meu coração, pude ouvi-lo colocando a roupa. O som do tecido roçando em seu corpo me fez estremecer. Mitchell não estava falando nada, o que não era bom.

- Ou seja, nestes dois anos em que ela esteve sumida, presumo que tenha ganhado a marca que eu sem dúvidas vi em suas costas. – mesmo temerosa a respeito daquele silêncio, permaneci jogando fora minhas teorias, formulando uma estranha e complexa pergunta. – Essa mesma igual a sua e a da mamãe. Não faço idéia do que está escrito na dela, mas imagino que seja algo relacionado a algum pecado seu, igual à sua, que é diferente de Irisa Baker. Alguma coisa aconteceu com Emma Shelser nestes dois anos de “viagem”, porque todos também confirmaram que, antes, ela não tinha essas excentricidades que vem me mostrando ter.

Deus, por que ele não fala nada...?!, pensei, nervosamente. Geralmente, uma pessoa iria ir contra, iria concordar... Ao menos daria o ar de sua presença. Era como se eu estivesse falando com as bonecas, não com Mitchell.

Forcei-me a continuar, apesar do pânico que estava me tomando, subitamente:

- Presumo também que, devido a algumas coisas que vejo em vocês dois, ela esteve no mesmo lugar que você. Ou um muito parecido. Isso explica o porquê dessa amizade (ou qualquer coisa assim) entre vocês, que não parece algo de poucos anos. E, no caso de mamãe Irisa, explicaria o porquê de você tê-la tirado deste certo lugar na condição de empregada. Isso me faz pensar: onde diabos enfiariam uma mademoiselle, sem chamar a atenção com carruagens e malas, a ponto de todos perceberem que ela sumira do nada, literalmente? Emma não viajou coisa nenhuma. Ela esteve em St. Helens nesses dois anos incógnitos.

Mais farfalhar de roupas. Era como se o lord Sunderland estivesse apenas absorvendo as informações, absorto, sem dizer uma palavra. Isso me deu medo.

E, mesmo assim, forcei-me mais uma vez a prosseguir, encostando-me cada vez mais na parede gélida, como se ela fosse meu apoio.

- Então, pergunto: onde ela esteve? Porque esse lugar, eu sinto, é o mesmo onde você esteve, Mitchell. Onde diabos a pessoa que lhe fez isso, que tenho certeza ser a mesma que fez aquilo com ela, colocou vocês dois? Em que lugar desta cidade foi isso? Você nunca saiu de St. Helens... Nunca foi “isolado da sociedade vulgar em algum lugar do interior” ou coisa parecida. Você esteve aqui o tempo inteiro, desde os cinco anos. Assim como Emma.

Talvez aquela fosse a situação mais absurda na qual eu já havia me enfiado. Pude sentir o suor frio brotar de minhas têmporas, Estranhamente, mesmo com uma náusea nervosa e persistente, eu estava embriagada de coragem.

Eu precisava continuar, precisava forçar Mitchell a responder-me, ou pelo menos, a ter ciência de que eu já sabia de (quase) tudo. Eu realmente precisava ir além do que Victoria Barrington fora.

- Isso também me lembra... Quem matou Victoria? – uma calculada pausa, mas então lembrei-me da cena na biblioteca, no primeiro ou segundo dia de nossa convivência, quando ele me apresentou aquela sua faceta estranha. – Não, antes que você fale, não foi você, Mitchell. Pode ser que o mundo inteiro ache isso, mas eu sei que não foi você. Não mesmo. Foi uma outra pessoa que fez isso, por algum motivo que eu desconheço, e você acobertou-a. E está fazendo isso até hoje.

Parecia até que eu estava relendo todo o diário dela de novo, sentada em minha cama, apenas com uma tênue luz dourada de vela iluminando meu desespero. Eu realmente estava ultrapassando um ponto sem volta.

- Que motivos teriam para matarem Victoria? Foi porque ela chegou perto demais da verdade e decidiram apagá-la por isso? – quis acreditar que fosse isso. Era o mais provável, o mais lógico que consegui pensar. – Ou seja, a mesma pessoa que lhe fez isso foi quem a matou, não? Eu falei com as empregadas e puxei da memória aquele dia, e lembro-me de que não havia sinais de arrombamento ou coisa do tipo. Você deixou essa pessoa entrar, ou alguém que você sabe quem deixou.

Há quanto tempo eu já estava escorada naquela parede fria? Lá no fundo de minha mente, alguma vozinha irritante me disse que eu iria resfriar se não tomasse um banho, se não cuidasse de mim e esquecesse aquela implicância idiota com aquele mistério que, talvez, sequer existisse.

Mas eu forcei-me a prosseguir. Eu queria continuar aquilo!

- Quem matou Victoria o conhecia. E isso me faz pensar: por que fariam isso? Quem seria capaz de matá-la daquele jeito tão animalesco e fazê-lo reagir assim, gritando aos quatro ventos que foi você? Não é do seu feitio tomar os pecados alheios para você. Tem uma razão muito maior por trás disso, e eu quero saber qual é. – respirei profundamente. – E, então... Compense-me respondendo isso.

Ouvi os passos de Mitchell em seu quarto, e achei que ele ainda estivesse-o rondando, procurando suas roupas.

Para minha surpresa, entretanto, eu o vi totalmente vestido em roupas negras e pesadas, como sempre, e ele me encarava.

Nunca tinha visto aqueles olhos de alfazema tão intensos antes.

Num gesto rápido, Mitchell agarrou meu queixo, fixando-me contra a parede e me impedindo de fugir com a sua mão livre, que encostou-se bem próxima de mim. De suas alturas, ele inclinou o rosto, até aproximá-lo bastante do meu.

- O que diabos você... Está pensando?