Bavarois
16 Capítulo XX
XX
Depois de meu encontro com Edward Shelser, meu estômago não parou mais de dar voltas. Mesmo quando estava voltando do mercado, mesmo com aquela brisa gelada que cortava o tumulto das ruazinhas de St. Helens lambendo minha face, eu ainda tinha o cheiro almiscarado da carruagem do senhor Shelser em minhas narinas. Ainda tinha seus olhos de felino cravados no meu.
E, mais do que isso, parecia-me que todas aquelas estranhas lembranças que eu tanto bloqueava, aquelas onde o cheiro de madeira queimando e de sangue salgado eram os principais componentes, onde o vermelho e o preto eram as cores mais avistadas, tal qual o segundo andar, exclusivo de Mitchell... Onde tudo aquilo era presente, eram meus companheiros eternos.
A conversa com o senhor Shelser me abalou de um jeito que mamãe Irisa achou que eu estivesse com pressão baixa, devido a minha palidez.
Mamãe Irisa era uma ótima governanta: ela nunca deixava uma moça trabalhar se visse que ela estava doente. E comigo foi a mesma coisa: ela me liberou dos serviços, me pediu para deitar-me e descansar.
- Não é preciso, mamãe... É só uma tontura, isso passa... – eu lhe disse, tentando convencê-la daquilo.
- Por favor, Cora... Por favor, descanse. – ela me pediu, entretanto, pondo suas mãos delicadas em meus ombros. – Você está com um rosto péssimo. Vá descansar, eu lhe peço...
Sem poder ir contra aquele pedido tão desesperado, eu deixei-me arrastar da cozinha, e andei pelos corredores lúgubres da mansão Sunderland, querendo refrescar a mente antes de deitar-me por um longo período em minha cama, na área dedicada aos quartos de empregada.
Quase que desesperadamente, eu massageava minhas têmporas, subitamente invadida por uma espécie de fotofobia, um incomodo horrível por estar respirando, por estar viva, ali, naquela casa...
Era quase como se alguma parte de mim achasse que eu devia ter morrido naquele dia, naquele dia em que eu decidi separar minha vida por uma linha.
“Não!”, eu repetia para mim própria, em pensamentos. “Não posso me deixar abater por isso!”
Eu parei de caminhar. Achei que minha cabeça fosse explodir.
Estava, atualmente, com medo do senhor Edward Shelser. Eu tinha medo daquele mundo estranho no qual eu havia me envolvido, naquele emaranhado de mistérios, de segredos de família...
Tudo aquilo fazia parte de um mundo intocável para mim, mas que lentamente estava se abrindo. E eu tinha medo do que encontraria do outro lado daquela porta.
Fui colhida, repentinamente, por um ar frio que passava pela fresta da grande janela à minha frente. Agradecendo ao ar frio, encostei meu dedo em sua superfície transparente, gelada. Eu me lembro que, no primeiro dia em que encontrei Mitchell Sunderland, eu também estava assim, desenhando na janela.
Não contive um sorriso. Aqueles tempos, apesar de tudo, mesmo com meu ódio, ainda tinham um quê de sagrados. Algo em mim os aproveitou.
- Cora!... – assustada por aquela repentina voz chamando meu nome, senti minhas pernas bambearem, à medida que virava a cabeça.
Eu vi Mitchell Sunderland vindo até mim. Era ele mesmo!
Era ele, com seus cabelos dourados como o trigo, aqueles olhos azuis e profundos, azuis como a superfície plácida de um lago. Eu vi a sua pele translúcida que brilhava um pouco no sol abafado pelas nuvens de chuva eterna de St. Helens, aquela pele que para mim parecia a de uma criatura sobrenatural.
Vi sua capa vermelha de lord farfalhando no chão limpo da mansão. Eu vi tudo, eu reconheci aquela figura alta e perfeita. E irritante.
- Mi... Senhor Sunderland?! – imediatamente, encolhi-me. A raiva e a amargura martelavam ao mesmo tempo o meu peito, fazendo-o doer.
- Ah... Graças aos céus você está bem! – ele sorriu ou foi impressão minha?
Meu rosto corou sozinho, eu não tive controle sobre essa ação. Mas, aparentemente, ele parecia tão satisfeito por “eu estar bem” que sequer percebeu isso. Respirei fundo, aproveitando essa distração, e acalmando meus hormônios.
- O... O que o senhor está fazendo...?
Ele sacudiu a cabeça. Parecia apressado e angustiado.
- Eu quero pedir desculpas. Quero conversar. Quero fazer muitas coisas. – respondeu-me. O tom rouquenho de sua voz deixava claro que, pelo visto, sua gripe sarara totalmente. – Mas não podemos fazer isso aqui.
- Co... Como...?! – quando vi, ele agarrara meu pulso.
- Venha comigo, por favor.
Rendida sobre a força daquele aperto, eu me resignei a segui-lo. Mas, antes disso, ameacei bater nele, pedi para que me soltasse, xinguei-o várias vezes. Nada daquilo, porém, demoveu Mitchell Sunderland da sua decisão de me arrastar sabe-se lá para onde.
Era incrível! Ele aparecia do nada na minha vida, sempre. E tomava as decisões assim, do nada, também. Eu não conseguia acompanhar seu raciocínio...
Ele tenta me violentar, há alguns dias atrás. Estava sério, me mandou embora, de volta para o primeiro andar, para minha “vidinha normal”. E, de repente, estava preocupado, daquele mesmo jeito que demonstrava agora, vindo até mim, como se tivesse esquecido totalmente aquela noite.
Talvez, Mitchell tivesse um irmão gêmeo bizarro e escondido, que era bonzinho, enquanto ele era aquela criatura má e sem escrúpulos.
Ou, talvez, ele fosse possuído por demônios mesmo... Explicaria a sua tatuagem, essa teoria.
Não! Besteira. Ele era totalmente excêntrico e louco mesmo!
Entramos por uma porta de aparência gótica e assustadora, que eu reconheci na mesma hora. E, no segundo seguinte, um ar familiar abafou meu nariz.
O cheiro de livros empoeirados e solidão cortante invadiu-me, com uma certa nostalgia. A biblioteca de Mitchell Sunderland. Eu tive bons e maus momentos ali dentro. Fachos de luz escapavam por entre as cortinas entreabertas, iluminando parcamente a montanha de livros que despontavam de todas as prateleiras.
Eu nunca entendia aquela obsessão por livros e por poemas, por qualquer coisa escrita, que Mitchell tinha, mas admirava-o por isso. Também confesso que adoro esse tipo de coisa.
Em situações normais, eu imaginava que todos aqueles livros eram universos por eles próprios. Eram como uma necrópole silenciosa, bem diante de meus olhos. Eram universos imensos, personagens vivos, tudo aquilo inexplorado, esquecidos para sempre em prateleiras acumulando a poeira das décadas. Milhares de páginas abandonadas, almas sem dono. Tudo como um oceano de escuridão.
Mas, naquela biblioteca em especial, eu não sentia isso. Na realidade, eu podia ver de longe o tamanho do esmero que Mitchell Sunderland dedicava àquele lugar. Ele realmente amava aqueles livros.
Devia ter lido cada uma daquelas obras com uma atenção especial, saboreando cada página. Devia ter memorizado muitos trechos (ele era bom nisso). Devia ter passado anos de sua vida ali dentro, lendo, mergulhando num mundo só dele.
Era uma sensação estranha de aconchego que eu sentia quando entrava naquela biblioteca. Por isso, eu a detestava, ao mesmo tempo em que a adorava.
- Por que me trouxe aqui...?! – eu perguntei, encostada à porta, assim que me livrei daquele doce contentamento por estar de volta àquele lugar.
Mitchell passou a mão pelos cabelos loiros, com aquele seu rosto e seu eterno sorriso irônico, enquanto se sentava sobre a mesa da escrivaninha.
- Eu fui um idiota. – declarou, simplesmente.
Imediatamente, as minhas lembranças foram as daquela noite. Do som de meu vestido rasgando, das minhas lágrimas de desespero... Da força do corpo dele sobre o meu, e de como seus olhos não esboçavam reação alguma, como se estivesse fazendo tudo aquilo automaticamente.
- É, eu sei! – rebati, quase que num rosnado furioso. – Me poupe do óbvio!
- Não, eu falo sério. – ele fez um sinal para que eu me aproximasse.
Na verdade, não tinha muitas escolhas. Ou ficava ali parada na porta, ou simplesmente me aproximava e me sentava no divã, por exemplo (que era onde ele queria que eu sentasse). Sair dali eu não podia. Porque era uma ordem (acho) de meu senhor permanecer ali, conversar com ele...
E porque, por algum motivo, eu não queria sair dali.
Alguma coisa em mim ainda tinha aquela estranha atração por aquela figura efêmera e tão permeada de mistérios. Um terreno obscuro, e não menos tentador. Como uma fruta proibida.
Eu sacudi a cabeça, incomodada com a comparação mental.
- Tudo bem, mas seja breve, Mitchell... – e, logo, eu já nem percebia que o chamava por seu primeiro nome de novo. – O que você quer comigo?
- Pedir o seu perdão, ora essa.
Erguendo-se da cadeira onde havia sentado, parecendo nervoso, ele andou na direção do divã onde eu me sentei, receosa, mas parou tão logo chegou ao fim da mesa. Sentou-se sobre ela, na extremidade esquerda, perto de mim. E, então, cravou seus olhos azuis sobre os meus.
Eu não imaginava que, naquele dia, iria reencontrar meu senhor. Porque, se eu soubesse disso, talvez tivesse me preparado mentalmente para aquele momento.
Encará-lo era sempre uma experiência nova. A cada nova troca de olhares nossa, eu percebia alguma particularidade.
Naquele instante, por exemplo, eu percebi que não havia nada. Nenhuma paixão, nenhum ódio. Seu olhar era neutro quando encarava as pessoas, como se ele tivesse medo de que alguém pudesse ler sua alma através daqueles orbes. Ali só havia o ciano. Azul profundo como o mar, escuro e angustiante como o índigo da noite e tão puro e cristalino como o celeste do céu.
Era um abismo para o qual eu tentava evitar olhar, mas que, por algum motivo, já não tinha mais controle sobre meu corpo, e não conseguia. São olhos não tão grandes nem tão pequenos e, sinceramente, nada têm de muito diferentes dos de outras pessoas que eu vejo por aí. A verdadeira peculiaridade dos olhos de Mitchell Sunderland, mais do que o profundo vórtice de tristeza que eles velavam, mais do que o tom indescritível de mesclas de azul, era aquilo. Seu poder.
Era o poder de fazer uma pessoa parar por dentro. Como se ele estivesse nos controlando. Eu nunca conseguia ficar irritada ou mesmo confusa com o que ele fazia quando o encarava daquele jeito.
- Cora, eu realmente sinto muito. – ele me disse, então, quebrando aquele tenso silêncio entre nós.
No segundo seguinte, ele estava ajoelhando-se diante de mim.
Eu engoli em seco, chocada. – Mi... Mitchell! O que está fazendo?! Levante-se, droga! Não se ajoelhe perante uma empregada...!
Infelizmente, não consegui evitar que minha face se colorisse de vermelho.
Aquele ato pegou-me totalmente desprevenida.
Ele adorava fazer aquilo. Adorava me confundir: ser aquela pessoa odiosa e cruel num dia e, no outro, repentinamente, mudar, virar um lord quase normal, alguém que despertava minha simpatia e outros tantos sentimentos que eu não sabia definir com clareza em mim.
- Para mim, você não é uma “boneca”, Cora. Nem uma “empregada”. É uma mulher, e eu estou tratando-a como tal. – ele continuou ajoelhado, baixando respeitosamente a cabeça.
- A-ah... Mas eu... – meu Deus, se eu soubesse que ele faria isso, teria fugido dele assim que nos encontramos lá embaixo!
(Ao menos, ele me fez esquecer totalmente das minhas lembranças desagradáveis com lord Shelser, mas preferi manter silêncio sobre isso).
- Eu pensei muito a respeito do que fiz há alguns dias atrás... E descobri que tomei as decisões erradas. Eu fui muito precipitado. No calor do momento, eu tomei uma decisão muito ruim, e fiz o clima entre nós piorar...
Impressão minha ou Mitchell Sunderland... Também estava ficando vermelho?
- Por isso... – respirou profundamente. – Por isso, eu estou aqui, pedindo seu perdão, e lhe pedindo que aceite voltar a ser minha “dama de companhia”.
Alguém me acorde, isso só pode ser um sonho!
- Descobri que não é mandando-a embora da minha vida que eu iria protegê-la do “meu mundo”. – ele sussurrou-me, e eu senti a mão dele tocando na minha. – Por isso, eu a quero comigo outra vez. Quero poder protegê-la desse “meu mundo”, no qual eu a envolvi por puro capricho. A culpa é toda minha, e só posso pedir perdão eternamente por isso...
Eu não entendia metade do que Mitchell estava dizendo, mas ele parecia tão sincero, atropelando-se nas palavras.
Meu coração deu um salto, e eu achei que fosse chorar, por algum motivo. Alguém poderia dizer, quando eu saí da cozinha, que pouco tempo depois estaria sendo arrastada escadaria acima e, então, protagonizando uma cena de conto-de-fada, com aquele homem tão etéreo e estranho me pedindo perdão de joelhos?
Definitivamente, ninguém poderia dizer que isso acontece no mesmo dia em que a cabeça enevoa, e as lembranças de um passado estranho, repentinamente, batem em sua porta com toda a força.
É por isso que eu gostava de Mitchell: tudo nele era intenso. Era intenso, e depois, apagava-se aos poucos, como a sua própria aparência efêmera.
Eu imaginava que, se um dia ele casasse, a sua esposa seria a mulher mais feliz do mundo. Apesar dele ser um homem que demonstrava suas emoções de uma maneira estranha, muito peculiar, ele também sabia ser assim... Intenso. Uma paixão nata que nascia da sua alma. Daquele pedaço de “eu” que ninguém conseguiu alcançar, em todos os seus 22 anos.
- Você... Me perdoa, Cora...? – por fim, ele pousou os lábios em minha mão. Senti-me uma princesa quando ele beijou-a.
Corei violentamente, aliás.
- E-eu perdôo... Claro que não entendo o que te levou a fazer aquilo, mas... E-eu perdôo você... Sei que deve ter tido um motivo... Um motivo realmente...
Pedindo-me silêncio, repentinamente, os olhos dele faiscaram outra vez. Uma luz estranha, algo que eu nunca vira em seu olhar. Uma repentina cortina de nuvens espessas e negras desciam, tornavam seu olhar apagado.
- Se me permitir fazer isso, claro... Eu gostaria de confiar a você uma coisa muito importante minha.
Aquele era realmente o Mitchell Sunderland que eu conhecia?!
- Uma coisa importante...? E-e o que seria...? – realmente, eu estava tão envergonhada e assustada com aquele seu comportamento de príncipe encantado que havia esquecido totalmente de Edward Shelser.
Estendendo sua mão pálida para mim, ele ofereceu-se para me erguer do divã. Eu aceitei seu toque e, então, vi-me conduzida por aquele labirinto escuro, todo cerimonial, repleto de todas as cores, de todas as lombadas, de todos os tipos de letras e odores.
Era como se ele estivesse mesmo me levando para um mundo longe de tudo aquilo que eu conhecia, como se eu estivesse adentrando nas profundezas de sua alma, como se tudo aquilo fosse a vida daquele homem tão solitário e estranho...
Lá nas profundezas da enorme biblioteca que mais assemelhava-se a uma catedral ou algo do tipo, um instrumento musical estava banhado por tímidos raios do sol da tarde.
- Um piano...? – surpreendi-me. Era mesmo um piano de cauda. Eu nunca havia visto um pessoalmente. – De-desde quando ele está...?
- Sempre esteve. – Mitchell sorriu, largando minha mão. – Essa é uma parte secreta da biblioteca. Só eu entro aqui.
Era essa a coisa importante que ele queria me confiar...?
Se fosse, eu ficaria extremamente feliz.
- O senhor... Digo... Você sabe tocar? – perguntei, imaginando os dedos longos e pálidos de Mitchell nas teclas envelhecidas. De fato, aquelas mãos firmes eram mesmo semelhantes às mãos de pianistas.
- Aprendi em meio à minha educação para ser um lord. – sorriu-me, aproximando-se daquele piano, e fazendo um sinal para que eu fizesse o mesmo.
Timidamente, cheguei perto dali, e ousei tocar no piano de cauda.
A superfície amadeirada era fria, solitária. Era um belo espécime, provavelmente datado dos anos de 1700. Não devia ser daquele século. Era de uma cor estranha, um misto de dourado envelhecido com um degradê acobreado. Haviam desenhos de querubins e flores-de-lis em suas laterais. Aparentemente, seja lá por quem tenha sido encomendado, o havia sido sob medida.
- É lindo... – sussurrei, ainda encantada com o toque gélido.
Sentado naquele banquinho reservado ao tocador, ele passou a mão delicadamente pelas teclas esbranquiçadas, sem produzir um som. E então, repentinamente, sorriu-me.
- Você conhece essa melodia...?
Mitchell dedilhou algumas notas no piano. E eu senti meus olhos enchendo-se de água ao reconhecer aquela música nostálgica.
- Lacrimosa dies illa... – sussurrei no ritmo da canção, e percebi que minha voz tremia. – Essa é... A canção-de-ninar que a mamãe Irisa cantava quando eu não conseguia dormir...
Assentindo, aquele rapaz continuou dedilhando aquela música preciosa.
- Você sabia que... Essa letra é, na verdade, os versos 18 e 19, os versos esquecidos do “Dies Irae”, um cântico de igreja?
Tão concentrada que estava na música, neguei totalmente.
“Qua resurget ex favilla
Judicandus homo reus,
Huic ergo parce, Deus...
Pie Jesu, domine.”
Eu lembrava com maestria da voz doce de mamãe Irisa cantando para mim, me embalando no escuro daquele quarto que dividíamos. Ela cantava aqueles mesmos versos muitas vezes, naquele mesmo timbre delicado... Era impossível não se sentir embebido naquela música.
E, agora, enquanto Mitchell a tocava no piano, ela me pareceu ainda mais perfeita. Cantá-la, com os meus dotes não-tão-bons, me pareceu até uma afronta.
- A Irisa também cantava para mim, quando eu não conseguia dormir, por medo do escuro... Naquele lugar...
A melodia do piano continuou. Os dedos dele permaneceram, obstinados, tocando os acordes melodiosos, mesmo quando eu parara de cantar.
- A mamãe Irisa... Cantou pra você...?
- Aham. Eu ouvi essa canção-de-ninar pela primeira vez quando tinha oito anos. Foi amor ao primeiro canto, acho. – sorriu, um sorriso distante, como se ele estivesse repassando esse filme em sua cabeça, em algum lugar inalcançável para mim. – Imaginei que Irisa tivesse cantado pra você também.
Imediatamente, toda aquela sensação de estranheza voltou com força redobrada. Meu estômago insistiu em querer dar voltas de novo.
- Mitchell... Por que você...?
- É isso que eu queria dividir com você, Cora. – ele disse, finalizando a música. A última nota foi estranhamente aguda para mim, reverberando até a última célula do meu corpo. – As respostas. A história.
- Você vai... Dividir seu passado... Comigo...? – engoli em seco.
Eu realmente não esperava por isso!
- Se você me permitir. – e, mais uma vez, do jeito que eu esperava, Mitchell Sunderland sorriu-me daquele jeito mortiço e estranho.
O sorriso de alguém que tem uma história para contar, mas que a mesma não é nem um pouco agradável.
- Eu adoraria ouvi-lo dividir sua vida comigo, Mitchell. – assenti, apoiando-me na borda do piano, antes que eu acabasse desfalecendo de susto. Tentei recobrar minha respiração. E, de repente, uma idéia passou-me pela cabeça. – Mas, por favor, continue tocando... Continue tocando essa canção para mim.
Eu ouvi as notas iniciais da canção-de-ninar de mamãe Irisa outra vez penetrando tranqüilamente meus ouvidos.
E, agora, também ouviria a voz trancafiada de Mitchell Sunderland falando dele próprio.
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