Bavarois
14 Capítulo XVII / Capítulo XVIII
XVII
Enquanto fechava minha camisa, sentia os olhos estranhamente ardentes. Achei que fosse um cisco. Eu desejei que fosse um cisco.
Cora Baker sumiu diante de mim, numa rajada de frio e vermelho. O aroma de seus cabelos penetrou uma última vez em mim, e eu não ouvi ou senti mais nada. Como se meu corpo estivesse anestesiado por algum forte remédio dos Bursnell.
...Eu acho que merecia aquilo, afinal.
Foi inocência minha. Eu comecei a achar que podia ter uma chance, só uma pequena chance, mas não. Isso não era destinado a mim.
Eu era uma garrafa que aprisionava os “maus espíritos”. Eu era uma coisa “marcada”.
“No entanto, o Corvo solitário
Não teve outro vocábulo,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.”
Sussurrei, distraidamente, as estrofes seguintes do poema de Poe. Achei-o, naquele momento, tão irônico quanto a própria situação.
De onde eu tirei a idéia de que poderia ser... Nem que fosse só um pouco...?
Foi um erro meu envolvê-la. Aquela menina tão bondosa. Foi tudo uma ilusão feliz, algo imbecil, que agora esfacelava diante de meus olhos.
“Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: ‘Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora’.”
Foi apenas um desejo infeliz, aquele que eu tinha em relação àquela menina de cabelos acobreados. Foi apenas uma sombra qualquer a que eu vi em seus olhos da cor dos troncos dos pinheiros.
Foi só uma ilusão. E, agora, eu havia dado um fim nisso. Com essas mãos que tanto pecaram em outros tempos.
Desejei que fosse um cisco em meu olho. Porque ele começava, estranhamente, a querer verter lágrimas.
“E o Corvo disse: ‘Nunca mais’.”
Maldito cisco... Maldita Cora Baker...
XVIII
A textura daquela comida de cheiro insuportavelmente (para o meu desacostumado olfato, ao menos) doce, mesmo depois da terceira mordida, parecia-me mais a de uma pedra. Quando eu engolia aquele bolo disforme e já mastigado, ela descia com tanta força que eu sentia ganas de vomitar.
Já estava ali há muitos anos. Anos apenas vendo a luz tênue da vela que Irisa trazia, quando vinha escondida me alimentar, quando eu passava dias sem nada para comer ou beber.
- Irisa...? – chamei-a. Ela estava distraída, arrancando um fio solto do avental branco de empregada.
- Sim, jovenzinho? – sorriu-me.
Eu também sorri, automaticamente. Aquela moça, Irisa Baker, era a única que tinha coragem de vir até mim. Uma jovem e corajosa empregada, era isso que eu achava. Ninguém em sã consciência ia contra as ordens daquela pessoa que me trancafiou aqui, quando eu tinha cinco anos.
Não sei se lá fora está claro ou escuro. Há tantos anos eu não vejo o sol ou sinto o vento úmido lamber gentilmente meu rosto...
Sei que, de acordo com minhas parcas contas (e com a confirmação de Irisa), hoje é meu aniversário.
Estou fazendo nove anos. E não me sinto feliz.
- Qual era o nome deste doce mesmo...? – perguntei, enfim, enchendo minha boca com mais um pouco de comida. Qualquer coisa servia, mesmo sendo algo tão doce... Mesmo.
- Isso é um bavarois, jovem Mitchell. – ela sorriu-me.
Encostando minha cabeça em seu ombro, aquela mulher de cabelos acobreados que pareciam ter vida e brilho próprios afagou meus cabelos. Eu não enxergava muita coisa. A luz daquela única vela era frágil demais, efêmera demais, e qualquer respiração mais forte poderia apagá-la.
Perscrutei minha prisão: cheia de bonecas de porcelana, cheia daquele cheiro de esgoto... Todas as bonecas estavam olhando minha sobremesa de aniversário, meu único presente. Todas estavam olhando minha face, meu corpo pálido e inerte... Todas sempre observando.
- Um bavarois? Isso é bem doce. Do que é feito? – perguntei, ao perceber que havia ficado em silêncio um pouco por causa de minhas divagações e ilusões de perseguição (ficar trancafiado muitos anos num lugar tão apertado e escuro causava essas coisas na mente dos outros, acho...).
- Chocolate, leite, gelatina, um pouco de doce de leite, ovos... – a cada ingrediente, ela esticava um de seus dedos longos de pianista que nunca foi. – É uma sobremesa bem exótica, na realidade. É ruim?
- Não, não. É muito gostoso...! – assenti. – Mas é estranho. Bavarois sempre descem assim, desse jeito estranho, pelo estômago?
- É porque o senhor está sem comer a muitos dias e isso é doce demais, jovenzinho. Perdoe-me, a culpa é toda minha... Eu devia ter feito algo salgado para oferecer-lhe... – Irisa sussurrou-me, desta vez fazendo um suave carinho em meu rosto.
Eu baixei meus olhos.
- Você é um bavarois, Irisa?
Ela riu. Eu sabia que ela iria fazer isso. – Ah... Acho que não, jovenzinho...
- É que você é diferente das outras pessoas, né? Elas parecem com aquela lavagem monocromática que me servem normalmente. – comecei, tentando achar as palavras certas para que ela entendesse minha comparação. – Por outro lado, você é doce, é exótica, tem cores tão maravilhosas como esta sobremesa... E desce estranho pelo meu estômago, mesmo assim... Como um bavarois, né?
Irisa riu ainda mais. Mas, enquanto ria, ela estranhamente me abraçou. De uma maneira tão forte e intensa que meus olhos encheram-se automaticamente de água. Eu senti uma imensa dor vindo dela.
- ...Irisa? Você está me machucando. – disse, querendo abraçá-la, mas temendo parti-la em duas se fizesse isso.
- Eles não sabem, jovem Mitchell... Eles não sabem o que estão perdendo, aquela sua família Sunderland... – ela me dizia, delicadamente, no ouvido. Eu sentia suas lágrimas molhando meu ombro, aderindo às minhas vestes. – Eles não têm idéia do filho maravilhoso que possuem...
- É que, pra eles... Eu sou como essa lavagem monocromática.
- Mas, para mim, o senhor sim é um bavarois. Não eu. O senhor é o bavarois mais colorido e delicioso do mundo.
- E isso é bom...? – afinal, pensei, mesmo sendo uma suposta sobremesa deliciosa, minha família (ou algo assim) ainda sim tinha me posto ali, naquele pedaço de inferno. Por vontade própria.
- Nem imagina o quanto... – ela me respondeu.
E eu nunca entendi o que Irisa quis dizer.
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