Bavarois

15 Capítulo XIX


XIX

Minha garganta ardia de frio quando enfrentei o ar frio de St. Helens. Lágrimas preguiçosas de luz desciam e abençoavam o solo castigado pelo frio e pelo cinza, enchendo as nuvens plúmbeas de milhares de tons, alguns mais discretos e outros facilmente perceptíveis.

Há pouco mais de três dias, eu voltara aos meus afazeres comuns. Aquele segundo andar, onde eu passei um pouco menos de uma semana, viraram uma página de meu passado, um capítulo que eu gostaria de esquecer. Era, afinal, apenas mais uma coleção de horas que eu devia enterrar em alguma parte escura de minha memória.

Mamãe Irisa fora altamente compreensiva com minha volta ao primeiro andar, e a alegria de terem a mim, Cora Baker, “a sobrevivente do senhor Sunderland”, foi uma surpresa imensa. Todas as empregadas me parabenizaram, perguntaram como era lá em cima, como era o comportamento do senhor Sunderland... Se ele era mesmo tão assustador quanto parecia.

Eu respondia pacientemente a tudo, e percebi que mamãe guardara estrito segredo sobre meu vestido rasgado, meus cabelos em desalinho e as lágrimas de ódio. Senti que a amava muito mais do que quando a deixei.

Como pude sentir ressentimento dela? Como pude sequer desconfiar dela?

Irisa Baker era uma mulher gentil. Tão gentil que foi capaz de me acolher como uma filha e me tratar docemente como tal. A mãe que eu nunca tive.

Como ousei trocá-la por aquela atração indizível e até inexplicável que eu senti, um dia, por Mitchell Sunderland?

Nunca mais cometeria aquele erro! Prometi isso a mim mesma.

Agora, eu compreendia o porquê de mamãe sumir, às vezes, e eu não encontrá-la em lugar nenhum. Ela estava no segundo andar, atendendo a alguma ordem do “jovenzinho”, que eu insultava até a quinta geração em meus pensamentos. Não o vi mais, depois daquela noite infame, e desejava poder continuar assim por mais cinco anos... Talvez para sempre.

Mamãe, estranhamente, parecia tensa. Sempre me abraçava, nos momentos mais estranhos, e dizia o quanto gostava de mim. O quanto eu era sua preciosa filha, e que ninguém tiraria aqueles laços de nós.

Eu concordava, acariciando seu rosto de boneca de luxo, mas sentia o profundo medo que ela ocultava. Não sei do que ela e Mitchell Sunderland tanto conversavam, mas certamente não era um assunto agradável.

Naquela tarde do terceiro dia, eu me prontifiquei, na ausência de candidatas disponíveis, para fazer algumas pequenas compras na cidade.

Mamãe Irisa não gostou da idéia, mas acabou permitindo que eu fosse.

O mercado mais próximo era, infelizmente, um pouco distante dali. Então, eu precisaria ser breve, rápida e certeira. Porque precisávamos daquelas compras para fazer o jantar do nosso senhor.

Rosnei mais uma praga para aquele homem de pele translúcida como as bonecas de porcelana que preenchiam aquele seu quarto doentio. Nunca haveriam palavras para expressar o tamanho do ódio que eu sentia por ele desde que aquelas suas atitudes traíram toda minha confiança.

Tentei acalmar minha ira passiva estendendo minhas mãos, tentando pegar alguns pingos de orvalho, e sorria quando os sentia escorregar por meus dedos, causando-me uma sensação de cócegas.

Quando meu riso cessou, uma carruagem negra parou diante de mim, surpreendendo-me. Os cavalos deixaram escapar um relincho, enquanto o cocheiro me encarou de cima a baixo, aparentemente, surpreso como eu (ou talvez até mais). A carruagem tinha uma aparência estranhamente gótica, com as cortinas de veludo escarlate. Um pentagrama e um hexagrama dourado marcava a porta do veículo.

- Oh, Deus... – gemi, reconhecendo de imediato a marca.

De dentro da perfeita carruagem, como imaginei, Edward Shelser saiu. Vestia uma roupa pesada de inverno, com um chapéu de cavalheiro. Desta vez, suas luvas eram negras como o resto de sua vestimenta, e o lenço era branco, e não vermelho. O brasão de sua família reluzia nos poucos raios de sol que o céu lançava.

- Boa tarde, senhorita Baker. – ele curvou-se diante de mim, naquele seu cumprimento calculado.

- Boa tarde, senhor Shelser... – cumprimentei-o, temerosa. – Por que parou diante de uma simples empregada...?

- Está indo para onde, querida? – ignorando minha pergunta, ele devolveu-me outra, a qual obriguei-me a responder, por medo e por superioridade hierárquica.

- Ao mercado, senhor...

- Oh, o mercado. Fica no caminho que estou traçando. Que incrível coincidência! – seu tom era teatral, mas estranhamente calculado para que eu soubesse que não era coincidência nenhuma. – Queira entrar, senhorita Baker. Eu darei-lhe uma carona.

- Ah, mas senhor... Eu não creio que... – qualquer desculpa era suficiente. Eu só queria afastá-lo de mim.

- Oh, senhorita Baker... Não me faria essa desfeita, faria? – encarou-me de suas alturas, aqueles seus olhos negros lampejando o divertimento de ter eu, sua presa, em suas mãos.

Quando percebi, havia obrigado-me a entrar em sua carruagem, e ouvi suas ordens ao cocheiro para que fosse até o mercado próximo a mansão Sunderland.

Eu estava tensa, respirando com dificuldades, mas tentando ao máximo parecer segura de mim. Se Edward Shelser fosse um animal, certamente iria farejar de longe o cheiro de medo que emanava de meu corpo.

O espaço dentro daquela carruagem era estranhamente compacto, feito para que as duas pessoas que coubessem ali pudessem se olhar nos olhos, sem reservas, sem possibilidade de fuga.

Eu me senti incapaz de evitar que ele me perscrutasse, como fez da outra vez, com aquele sorriso estranhamente sinistro.

- E então, senhorita Baker? – repentinamente, a voz grave e máscula dele reverberou dolorosamente em meus tímpanos. Retesei-me.

- Ah? Senhor...? – devolvi-lhe, não entendendo realmente.

- Por que não está mais com o Mitch? Da última vez que fui lá, ele me disse que você não queria mais o cargo de “dama de companhia”. É verdade?

Quando foi que Edward Shelser apareceu na mansão Sunderland...?

Bom, não me interessava! Mitchell era um tremendo fofoqueiro! E, além disso, omitia grande parte da história. Não era eu quem não queria o papel de “dama de companhia”. Ele é que não me deu escolha, depois daquela violência!

- Bom... Aconteceram algumas coisas... – sussurrei, envergonhada e temerosa. Shelser tinha um estranho dom de me deixar com medo.

- Ora... Você era uma moça tão boazinha. Parecia tão bem no papel. – ele insistiu, com aquele seu tom compadecido.

- Ah, mas certamente o senhor Sunderland irá achar outra moça para trabalhar no meu lugar. E imagino que não demore muito para isso. – eu forcei um sorriso, tentando fazê-lo entender que não gostaria de continuar aquele assunto.

Edward Shelser ergueu um pouco as cortinas escarlates e pesadas da carruagem, olhando para a paisagem lá fora. Eu nada pude ver, e imaginava onde já estávamos. Meu estômago estava me traindo, dando voltas nervosas; será que já estávamos na frente do mercado? Porque, para mim, era como se muitos dias tivessem se passado. Dias muito tensos.

Então, ele endireitou-se, parecendo ainda mais alto do que já era. O cabelo preso por uma fita negra deslizou por seus ombros, caindo em suas costas. Eu acompanhei aquele trajeto, evitando seus olhos felinos a todo o custo.

- Sabe... Quando o meu filho mais velho, Sirius, estava vivo, ele era da polícia investigativa... E eu tive o prazer de acompanhar com ele um curioso caso das redondezas.

É mesmo. Fazia sentido, afinal, os Shelser eram os “guardiões da lei”.

- Permite-me perguntar que caso era esse? – eu insisti, achando ali a oportunidade perfeita de me distrair e evitar que ele continuasse falando de Mitchell ou dos meus dias com o mesmo.

- Foi em Eccleston. – ele sorriu-me.

Senti como se alguém houvesse me dado um soco no estômago. Há quantos anos não ouvia falar deste lugar?

- A... A cidade vizinha, senhor...? – sorri amarela.

- Foi um caso muito curioso. Muito mesmo. – os olhos negros de Edward Shelser cravaram-se em mim, como que analisando cada mínima reação minha. – Uma casa pegou fogo, misteriosamente. O incêndio foi criminoso, porque os investigadores perceberam na hora que aquilo não foi natural. Não houve nenhuma testemunha. Nenhum sobrevivente. Foi encontrado apenas o corpo carbonizado de um homem, cuja autópsia futura revelou já ter morrido quando o incêndio começou, mas os vizinhos juravam de pés juntos que uma criança também morava ali.

Estremeci. Acho que meu corpo nunca tremeu tanto, nem minha mente enevoou-se, a ponto de eu achar que iria desfalecer.

- Alguns metros adiante, encontramos uma foto perdida na neve. Era a foto preto-e-branco de uma família. Identificamos, graças a algumas características, o homem da foto como sendo o homem carbonizado. Havia, ao lado dele, uma mulher e uma criança. Tanto a mulher e a criança... Eram ruivas, de acordo com os relatos dos vizinhos. Mas, ora, a criança havia sumido, e até onde se sabia, a mulher havia falecido há anos! Evaporado totalmente, como se nunca houvesse existido!... – o seu tom teatral me fez ficar ainda mais enjoada, nervosa. – Sirius e os outros policiais e detetives não conseguiram, jamais, encontrar a criança perdida. E você sabe? Se aquela criança estiver viva... Ela deveria ter mais ou menos a sua idade, sabia? Quantos anos a senhorita tem? Dezessete? Dezoito?

Eu queria dizer alguma coisa. Qualquer coisa, talvez para provar a mim mesma que aquela conversa sem sentido de Edward Shelser não me perturbou.

Mas minhas mãos estavam tão apertadas, os punhos tão pressionados em meu colo, que eu achei que iria arrancar sangue de mim mesma a qualquer instante. Meu corpo estava duro feito rocha. Eu duvidava que estava respirando com qualquer espécie de normalidade.

- Estranho, não é? Porque ela não podia ser você, ora essa. – o senhor Shelser bateu em sua própria testa, como que se censurando pelo “erro”. – Afinal, você é uma Baker. Aquela família... A criança devia chamar-se Clayworth. É estranho, não é? As coincidências desse mundo.

Vomitar. Eu precisava vomitar. Ou, simplesmente, sair daquela carruagem.

- Oh... Chegamos ao mercado, senhorita Baker.

Edward Shelser abriu a porta da carruagem sem esforço, e uma golfada milagrosa do ar frio da tarde me envolveu. Eu quis chorar de alegria, louvar a todos os deuses e santos por me concederem a dádiva de desaparecer dali.

- Ah... – sussurrei, assim que saí, apressadamente, da carruagem negra. – Muitíssimo obrigada pela carona, senhor Shelser... Espero que não tenha sido um incômodo...

- De maneira alguma, senhorita Baker. – ele sorriu-me. Radiantemente. – Passei bons momentos ao seu lado, se me permite.

- Sim... Eu também. – vomitar. Eu queria vomitar.

- Até breve. – e ele fechou a porta, seguindo sua viagem.