Bavarois
11 Capítulo XIV
XIV
Manhã do quarto dia de cárcere.
Mitchell Sunderland está dormindo como uma pedra. Mamãe Irisa chegou com a sopa, e foi uma tortura só para acordá-lo. Eu pedi para mamãe ir dormir depois daquilo, porque parecia muito cansada. Não falamos mais sobre a marca ou derivados, e ela me tratou normalmente. Eu também. Também não pareceu querer falar nada sobre ele estar deitado no meu colo.
Nosso senhor comeu muito pouco da sopa. Aparentemente, não tinha tanta fome assim, talvez por causa da garganta. Eu o deixei dormir em meu colo outra vez, e só quando vi que ele estava suficientemente descansado, ergui delicadamente sua cabeça e a pus no travesseiro que, sem dúvidas, era mais macio que meu colo.
Não dormi direito (de novo) naquela noite.
Passei algumas poucas horas descansando no divã da biblioteca, e assim que abri os olhos, depois de um princípio de pesadelo envolvendo sombras negras que precipitavam-se sobre mim, todas elas sussurrando a passagem de “Noite de Reis”, acordei para não mais sentir sono.
Passei a procurar saber por meus próprios métodos o que aquela inscrição significava. Inclusive, o pentagrama e o hexagrama.
Por lógica, deduzi que “Spiritus” era “Espírito” em latim. Anotei num pequeno papel, que logo depois iria queimar, sem deixar provas. Em seguida, procurei por “Malos”. Tinha a ligeira impressão, pelas minhas observações católicas de sermões em latim original, que significaria “Mal”, mas resolvi confirmar.
Mitchell tinha uma verdadeira biblioteca mágica. Foi difícil achar um livro de latim, mas quando o consegui, realmente, confirmei que “Malos” era isso mesmo. Anotei, percebendo “Espíritos Maus”, já que a frase estava no plural.
“Sigillent” foi mais difícil. Por aproximação, achei “Sigilla”. Logo, no mesmo local onde achei aquele livro de latim, achei mais outros, e trouxe-os para a mesa onde Mitchell sentava, procurando as formas verbais da palavra. Achei as de “Sigilla”, e uma enorme lista apresentou-se a mim. Na forma do Subjuntivo, achei na terceira pessoa do plural, finalmente, “Sigillent”. Anotei o significado.
E surpreendi-me, como não podia deixar de ser.
Por vários motivos. O primeiro: eu era um gênio! Procurei sozinha e achei tudo sozinha! Estava orgulhosa de minha pesquisa frenética (xeretar os livros de nosso senhor, desde pequena, era mesmo um bônus ótimo para saber mais ou menos onde procurar).
E, por segundo, do significado da frase. Um pentagrama e um hexagrama sobrepostos, com os dizeres “Contenção de Maus Espíritos”.
- Mas o que significa...? – e, agora, estava mais confusa do que nunca.
- ...Oh, mas é uma senhorita.
Ao ouvir aquela voz desconhecida, eu gelei. De imediato, escondi o papel na parte de trás do avental, engolindo em seco, como uma criança pega por algum adulto fazendo algo que não devia.
Surpreendi-me ao perceber um senhor parado à porta. Tinha cabelos um pouco abaixo do ombro, negros, com alguns fios brancos despontando e anunciando a idade um pouco avançada. Uma fita vermelha prendia as madeixas num rabo que caía pelo ombro esquerdo. Depois de passar quatro dias naquele segundo andar da mansão Sunderland, ver o vermelho já começava a me enojar, de alguma forma.
Os olhos daquele homem tinham uma aparência felina, talvez até aquela fenda característica da pupila, e eram tão negros quanto os cabelos. Na verdade, a pele dele também era um pouco clara, como se esperava de um lord. O rosto era simétrico, deixando pender um queixo fino. Sua face parecia-me também a de um gato, por algum motivo estranho.
Ele tinha um estranho sorriso torto. Mais perturbador do que o de Mitchell, para ser sincera. Vestia roupas pretas e de detalhes vermelhos, um brasão dourado de sua família com detalhes em pedras de rubi, que brilhava a luz das velas e do pouco sol que adentrava pelas janelas. A bengala dele, com um apoio também dourado, fazia o mesmo, na verdade.
- Ah...! – eu pus as mãos sobre o peito, num gesto propositalmente afetado de susto por aquela aparição repentina. Será que todas as pessoas dali não sabiam aparecer normalmente?
- Perdoe-me se a assustei, donzela. – ele reverenciou-me, num gesto igualmente afetado e polido. – Mas confesso também ter-me surpreendido com sua presença aqui.
- Ah... E-eu sou... Eu sou Cora Baker... A acompa... Digo, a empregada do senhor Sunderland... – aquele homem me inspirava um certo medo.
Aproximando-se de mim (enquanto eu me perguntava como um estranho podia simplesmente entrar na mansão alheia assim, sem ser apresentado ou permitido, nem nada do tipo), me analisando friamente enquanto o fazia, eu pude notar mais dele. As mãos estavam cobertas por uma fina luva branca de cavalheiro. Ele parecia uma espécie de tuxedo.
Prendi, entretanto, a respiração, quando vi em seu peito aquele brasão de família. Pude sentir o gosto de bile na boca.
- Isso são... Um hexagrama e um pentagrama, senhor...?
- Eu sou Edward Shelser, senhorita Cora. – ele reverenciou-me outra vez. – Patriarca de uma das Quatro Famílias, os Shelser.
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