Bavarois

9 Capítulo XII


XII

Com muito esforço, joguei Mitchell na cama daquele mesmo quarto, de bruços, e respirei forçadamente, tentando recuperar o fôlego. Mesmo que ele estivesse ali do lado, erguê-lo e colocar seu corpo febril ali não foi uma tarefa fácil.

Assim que recuperei um pouco do meu fôlego e força, voltei-me para ele.

Pude sentir um estranho aperto no peito. Sua silhueta, naquele instante, não me inspirou nenhum ódio, nenhum sentimento negativo. Pelo contrário; ele parecia uma criança. Um verdadeiro menino inocente, sofrendo injustamente. Alguma coisa em mim quis confortá-lo desesperadamente, a ponto de deixar meu coração estranhamente palpitante.

O arfar doloroso de Mitchell Sunderland fazia meu próprio corpo doer em resposta. Seu rosto estava tão corado... Ainda mais que ele era muito branco. Era fácil demais perceber o tamanho de sua febre.

Joguei as cobertas no chão, deixando a cama apenas com os lençóis de baixo. E, então, respirando fundo, soube que devia tirar a camisa dele, para aliviar um pouco aquela febre, enquanto pegava água fria lá no primeiro andar.

Prendendo a respiração, comecei a deslizar a camisa de linho dele. O suor de seu corpo prendia-a em alguns lugares, e eu me perguntei a quanto tempo ele estava escondendo este mal estar.

Lembro-me que ele sussurrou, antes de cair, “nós saímos hoje”. Será mesmo que tem alguma relação com aquele pequeno (acho) passeio?

Ninguém pega um resfriado destes simplesmente assim, em algumas horas!

Assim que a camisa dele foi definitivamente tirada, eu prendi a respiração. Meu susto foi o maior que já tomara até então.

As costas dele estavam brilhantes de suor, o que as fazia ainda mais brancas do que eram. Mitchell só podia ser um fantasma: nem mesmo um albino podia ter aquela palidez de espectro. Qualquer donzela da alta sociedade teria inveja dele, se pudesse vê-lo daquele jeito.

Por mais que tivesse uma aparência quase que frágil, de criança enferma, ele ainda tinha traços masculinos característicos de seu sexo e idade. E suas costas e braços mostravam claramente isso; elas me deixaram até mesmo um pouco perturbada. Acho até que corei como ele...

Mas a inveja de donzelas pararia logo ali. O que não podia dizer o mesmo de meu espanto.

Mitchell Sunderland tinha as costas marcadas de estranhos riscos. Eles aderiam à pele, em nuances daquele mesmo branco leitoso, e deixavam-na com uma aparência angustiante. Aquilo era... Aquelas eram marcas de chicote. Inconfundíveis marcas de chicote! Ele estava totalmente coberto de cicatrizes assustadoras de chicote!

Meu coração comprimiu-se ainda mais ao ver aquilo. Quase como uma dor física. Imediatamente, comecei a imaginar de onde vinham aquelas marcas horríveis.

Que tipo de vida este homem teve?...

Não, mas meu espanto não parou ali. Aliás, bom se fosse apenas aquilo o motivo de minha exclamação. Não era. Era ela.

A marca...

Duas vezes três linhas imensas e negras, formando um triângulo de ponta para cima e um outro triângulo de ponta para baixo, eqüilaterais. Sobrepostas a estes grandes triângulos estavam cinco linhas retas, também pretas. Dois estranhos círculos inscritos nesta imagem, de mesma distância, deixavam um breve espaço para letras pequenas e de aparência gótica.

Eu estremeci de imediato.

Sem tirar ou pôr, eram um pentagrama e um hexagrama!

Não podendo conter aquele estranho pânico salpicado de curiosidade, eu baixei meus olhos acastanhados para ler as inscrições que circundavam a figura maldita que preenchia, na mesma proporção das cicatrizes de chicote, o corpo daquele homem misterioso e loiro.

Malos Spiritus Sigillent.

Imediatamente, fiz um sinal da cruz trêmulo, às pressas. Aquilo me soava como um símbolo demoníaco! Um hexagrama e um pentagrama, circundados por estranhas letras em latim!

Meu Deus, então era isso que Mitchell tanto escondia das serviçais?

Era por isso que não deixava ninguém ver seu corpo? Por isso tomava banho e se vestia sozinho? Por isso só usava roupas compridas?

Repentinamente, tudo na vida do senhor Sunderland pareceu-me podre e imperfeito. Totalmente distorcido, como se uma imensa conspiração estivesse me engolindo, como se aqueles olhos das bonecas de porcelana de seu quarto, repentinamente, saltassem dos rostos delicados delas e viessem correndo me observar, me rodearem, me contarem tudo que viam.

Senti medo, aquele foi meu primeiro reflexo.

E, depois, uma súbita vontade de protegê-lo. Não sei porquê ou como aquilo surgiu, mas eu me surpreendi não lutando contra aquele sentimento caloroso.

- Você... Viu...?

Estremeci assim que ouvi a voz dele. Estava mais rouca e fraca do que o normal, como se ele estivesse morrendo.

- As suas costas? – sussurrei de volta, mesmo sabendo que era perigoso engatar uma conversa com um enfermo derretendo de febre. Eu devia estar providenciando água gelada para sua testa, na verdade, e ajuda médica.

- É... – meu peito doía ao vê-lo assim. Nunca Mitchell Sunderland pareceu-me tão frágil, tão efêmero.

Afirmei, com um aceno delicado.

Sua pose foi a de um homem derrotado. Deixou o rosto enterrar-se nos lençóis tão brancos quanto seu corpo, e eu ouvi um abafado gemido de insatisfação.

- Está com medo...? – perguntou-me, por fim, ainda com o rosto escondido.

- Um pouquinho. No início, deu mais medo. – tentei sorrir. Achei que ele queria que alguém lhe passasse um pouco de força naquele momento.

Mitchell assentiu, me encarando, como se estivesse ponderando sozinho.

- Quando eu era pequeno, vivi toda minha vida longe do sol. A ausência dele causou em mim uma deficiência de vitaminas A e E...

Ergui uma sobrancelha, dando-me por vencida. – Não entendi.

- Eu não tenho imunidade nenhuma à gripe, bonequinha idiota... – ele sorriu. Um riso cansado e muito pequeno.

- É por isso que você quase nunca sai de casa...? – arrisquei.

- É, sim... – ele me respondeu, sinceramente.

Peguei-me estando surpresa e, ao mesmo tempo, até um pouco saudosa. Era como se, de alguma forma, sempre estivemos assim, em paz conosco mesmo. Mesmo quando brigávamos, quando ele me humilhava, quando me deixava confusa... Eu me surpreendi pensando que, no fundo, não éramos assim tão diferentes.

Peguei-me gostando de Mitchell Sunderland. De alguma forma estranha e protetora, eu gostei dele naquele instante.

Talvez a doença nos faça cansar de mostrar uma fachada ao mundo que, em situações normais, nos esforçamos tanto para construir. Eu não sei direito o que aconteceu, mas o fato é que aquele homem tão sádico, tão cretino e misterioso estava inerte na minha cama, falando comigo de igual para igual... Até mesmo preocupado com o que eu acharia da situação dele.

Mesmo que ele tivesse aquela marca assustadora nas costas, eu não me importei. Na verdade, fiquei muito feliz de vê-la; um pedaço de Mitchell que ninguém nunca tocou agora estava ao meu alcance.

- Cora...? – ele me chamou, seus olhos de alfazema se fechando, dolorosos.

- Pois não, Mitchell? – devolvi-lhe, tocando de leve seu braço. Ele não esboçou reação palpável diante daquele meu toque.

- Chame a governanta? A Irisa, sim? – sussurrou. Era como se estivesse me implorando por aquele favor; como se os papéis estivessem, estranhamente, invertidos. Senti-me mal por aquilo.

- A mamãe Irisa...? – se ele já sabia daquele nosso parentesco arranjado, não havia motivos para escondê-lo mais. Mitchell não parecia querer se aproveitar dele agora.

- É. Ela sabe o que fazer nessas horas. Se quiser... Você pode ver para aprender. Enfim... – respirou pesadamente. – Por favor, chame-a, bonequinha...?

A mão dele arrastou-se, cansada, porém certeira, na direção da minha. Aquilo, definitivamente, era um pedido humilde. Não uma ordem grosseira e com aquele tom irônico que ele sempre tinha.

- Eu chamo. É claro que eu chamo... Você me espera um pouco?

- Todo o tempo que precisar. – e ele fechou os olhos.

Se eu pudesse parar um pouco e pensar com clareza, veria que, naqueles poucos minutos que passamos juntos, nossas almas e consciências uniram-se mais do que em todos aqueles três dias de convivência. Eu nunca me senti tão próxima de alguém, nem mesmo de mamãe Irisa... E tenho certeza que Mitchell também não agiu assim com ninguém antes.

Senti-me feliz, como se meu coração se alegrasse de ter só para mim um pedaço daquele homem frágil que ninguém mais podia conhecer.

Não importa se era aquela tatuagem, aquelas cicatrizes, ou a imensa dor que percebi em seu olhar... Ou mesmo sua voz gentil... Seus gestos calmos, que me lembravam até os de um príncipe... Eu tinha algo de Mitchell em mim, e ele também tinha algo meu nele.

Eu estava nas nuvens. Mesmo com pressa, descendo as escadas, procurando minha mãe adotiva às pressas, ainda sim, eu estava feliz.

Mas esta felicidade desapareceu, assim que divisei sua silhueta na cozinha.

Imaginei mesmo que, naquela hora, ela estivesse na cozinha, avaliando o trabalho das empregadas que já foram dormir, e trabalhando ela mesma caso alguma coisa estivesse fora dos eixos (apenas para brigar duplamente com a empregada incompetente, caso isso acontecesse).

Os cabelos cor-de-fogo de minha mãe sempre foram um mistério para mim. Eu sempre os venerei, adorava mexer neles quando era menor...

Mas, agora, aquele vestido e aquelas madeixas longas eram estranhas inimigas.

Elas me impediam de ver aquela mesma marca, aqueles mesmos pentagrama e hexagrama, a mesma inscrição estranha em latim.

Eu não tinha dúvidas sobre aquilo. Mamãe Irisa tinha uma igual!

Quando eu tinha treze anos, sem querer, a vi tirar a roupa para banhar-se, e ela deixou entrever um pouco daquela estranha tatuagem. Nunca perguntei nada sobre isso, e até tentei esquecer, mas a verdade é que aquele detalhe imperfeito de minha deusa-mamãe sempre me intrigou.

E, naquele instante, eu sabia mais um pouco sobre ele.

- Mamãe Irisa? – chamei-a, séria. Ela nunca me pareceu mais estranha antes.

- Cora? Meu Deus, é você mesma, Cora...?! – com um sorriso de orelha a orelha, aquela mulher correu até mim.

- “Malos Spiritus Sigillent”, mamãe.

Mas parou tão logo me ouviu dizer aquilo.