Bavarois
10 Capítulo XIII
XIII
Mamãe torceu o pano branco no balde de água gelada que tinha aos seus pés. O som do líquido esbaldando-se nas bordas metálicas parecia-me uma canção de ninar. Meus nervos estavam muito atentos, por demais à flor da pele, e há anos eu já não estava mais acostumada com este tipo de situação.
Quando eu lhe disse, lá embaixo, na cozinha, que nosso senhor estava com febre, ela pôs a mão sobre os lábios, surpresa. Mas pareceu entender mais do que eu e, no segundo seguinte, já estava trabalhando, procurando água gelada, procurando remédios, tudo que acalmasse o sistema imunológico de Mitchell.
Eu senti, naquele momento, um triste abismo entre nós.
Não só porque ela tinha aquele segredo macabro nas costas, aquele pentagrama e aquele hexagrama sobrepostos um ao outro, nem mesmo só porque ela tinha uma estranha frase em latim inscrita e que, provavelmente, sabia o que significava, enquanto eu não.
Na verdade, também senti um imenso abismo de inveja e ressentimento por ela compreender Mitchell Sunderland tão melhor que eu.
Por mais que estivesse trabalhando certo, eu sentia que, por baixo de toda aquela altivez, ela estava esmagada pelo peso da verdade. Eu descobrira o segredo que ela escondeu de mim por cinco anos, possivelmente, para meu próprio bem. Eu desobedeci suas ordens e me envolvi com o dono daquela casa... Eu simplesmente era culpada, de todas as formas.
E, mesmo assim, ela ainda se preocupava comigo. Ainda estava surpresa por eu saber daquilo. Ainda tinha o susto de ver meu rosto sério, uma Cora Baker desconhecida para si.
E eu ainda sentia ressentimento dela...
Achei-me um terrível monstro, na verdade. Quis até mesmo me matar. Mas logo afastei a idéia: matar-me era uma alternativa que eu não podia usar.
Não depois de tanto sacrifício da mamãe Irisa em me salvar daquele beco escuro, cinco anos atrás. Nem do que aconteceu antes daquele dia, com os sacrifícios alheios, principalmente o de minha própria dignidade.
Assim que tirou o excesso de água fria, ela colocou o pano outra vez sobre a testa pálida de Mitchell. O mesmo deixou escapar um suspiro.
- O que vai querer comer, senhor?
- Não quero nada...
- Como não? Você precisa comer! Não pode ficar de estômago vazio depois de tombar diante de uma febre dessas, jovenzinho! – mamãe disse, com aquele seu espírito maternal tão fervoroso.
“Jovenzinho”... Um título tão íntimo para uma governanta e seu senhor.
Encostei-me mais contra a parede, apenas observando-os. Era um clima harmonioso. Muito, muito íntimo. Como se aquelas duas pessoas de marcas iguais nas costas tivesse sofrido juntas alguma coisa e, agora, estavam seguras. Estavam ali, curando uma as feridas da outra.
Concluí que nunca haveria espaço para mim naquele círculo. Eu era “inocente”. Não sabia de metade das coisas que aconteciam.
- Mas eu não estou com fome, Irisa... – e ele também parecia igualmente em paz, chamando-a até de “Irisa”, não de “senhorita Baker”, como fez quando estávamos na sala de jantar, três (ou já quatro?) dias atrás.
- Jovenzinho... Não seja teimoso. – mamãe voltou a insistir.
Mitchell resmungou, aparentemente, dando-se por vencido, afinal, diante das insistências de mamãe. – Quero uma sopa, então...
- Uma sopa. – ela sorriu. – Pode me esperar um pouco, então, jovenzinho?
Parecia até que eles estavam esquecidos de minha presença, falando daquele jeito tão harmonioso...
- Você sabe que esperei durante dez anos, Irisa. Posso, então, esperar alguns minutos por uma sopa... – ele sorriu.
Mamãe pareceu receosa ao olhar para mim, encostada na parede, muito longe de “minha” cama. Como se, por algum motivo, Mitchell tivesse falado demais e ela temesse que eu descobrisse algo a partir disso.
Infelizmente, ou para a sorte dela, eu era alguém “inocente”. Nenhuma conclusão mirabolante cruzou minha cabeça. E deixei isso bem claro com o aceno de leve que fiz.
Mamãe Irisa compreendeu o gesto e ergueu-se.
- Então, vou providenciar a sopa, jovenzinho. – sorriu ainda mais. – Enquanto isso, você irá descansar, sem alterar-se, entendeu?
- Pode deixar. – ele sussurrou, ainda tonto, provavelmente.
Tenho certeza de que mamãe quis falar comigo. Ela chegou a parar, mesmo que por alguns milésimos de segundo, ali perto de mim. Ela chegou até mesmo a erguer um pouco seus olhos de um verde pálido e belo... Mas não ousou sequer entreabrir a boca, não proferiu nenhum som.
Simplesmente seguiu seu caminho. Resignando-se a ficar em silêncio. Aparentemente, deixando tudo nas mãos do nosso senhor e do meu possível bom senso (que eu achava ter, mas começava a duvidar, devido aos acontecimentos dos últimos dias).
- Ei, Cora...? – aquele homem tão inerte chamou-me, impedindo-me de ter qualquer outra espécie de pensamento.
De imediato, cheguei perto de sua cama. Talvez por ironia do destino, por qualquer outra coisa, mas eu estava agindo exatamente como uma “dama de companhia” agora. Talvez, até como uma boneca, coisa que ele tanto odiava e do que sempre me chamava para me irritar e enfatizar seu ódio: eu estava obediente e atendendo-o nas menores coisas.´
Nunca saberia explicar porque estava agindo assim. Mas olhá-lo daquele jeito, como uma criança desprotegida e jogada num mundo de víboras e crocodilos, numa selva desconhecida, ou qualquer coisa do tipo, despertou alguma simpatia protetora que eu não achei poder sentir por aquele ser irritante.
Como suspeitei, eu me vi invariavelmente atraída por aquela marca negra, por aqueles olhos claros e tristes.
Mitchell Sunderland já não tinha o tom de ameaça para mim.
Era apenas um espectro frágil, que uma brisa leve poderia levar para longe. E, nem por isso, a minha estranha admiração por sua figura diminuiu.
- Pois não, Mitchell? – e eu me perguntava quando falar o nome dele havia se tornado uma coisa natural.
- Tire esse travesseiro daí?
Sem entender, não hesitei em cumprir suas ordens. Ele era excêntrico até mesmo cozinhando de febre, afinal.
- Agora... Pode me dar um colo? – ergueu uma sobrancelha, como que esperando minha resposta com a máxima atenção.
Se me fosse perguntar isso há alguns minutos atrás, eu certamente teria ficado irritada com aquilo. Mas, de repente, quando ele desabou diante de mim, de muitas formas, aquela figura tão pálida e alta conseguiu conquistar alguma coisa em mim. Alguma coisa que o permitia aquela situação.
(E, além disso, eu já havia sentado no colo dele muitas vezes, mesmo que obrigada. E até já havíamos estado um em cima do outro, mesmo que também por um acidente infeliz...).
Com um breve sorriso, eu sentei ali onde devia ficar o travesseiro, e permiti que a cabeça dele encostasse-se a minhas pernas. Ele pareceu ajeitar-se sozinho, virando o rosto para a direita, para ter uma visão completa do quarto. E permanecemos em silêncio, enquanto eu pressionava o pano gelado contra sua testa, para que o mesmo não caísse.
- ...Não tem medo de pegar uma gripe também? – ele me perguntou, de repente, depois de alguns minutos calados.
- Meu sistema imunológico é forte, pelo menos. – eu sorri. Tenho certeza de que ele também achou graça daquela “medida de forças”.
Permiti-me respirar fundo, tentando formular a pergunta com clareza, para que Mitchell não se calasse nem perdesse a pouca confiança que tinha em mim.
- Ei, Mitchell... O que significa isso nas suas costas? Essa frase em latim?
Ele não respondeu. Calou-se mais uma vez, e eu fiquei surpresa com isso. E tão intrigada quanto; tanto que inclinei-me para ver-lhe a face, se estava irritado ou simplesmente temeroso.
...Estava dormindo.
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