Batman contra os fantasmas do passado
3 O preço do voo do Morcego
Notas iniciais
Logo acima do restaurante, Batman estava na ponta da sacada, visualizando o edifício distante com um binóculo de apenas uma lente. Após guardar o equipamento, mediu a distância de onde estava até o prédio vizinho. Era bem mais alto, então ele teria que escalar um pouco. Deu alguns passos para trás e tirou uma pequena pistola da parte de trás da cintura. Logo ele correu. Sua roupa pesada não o impedia de ser ágil e veloz. Afinal, era para isso que ele treinava tão arduamente. Ao chegar na ponta da sacada, pulou. E enquanto atravessava o vazio, apontou a pistola para a sacada do prédio e disparou. Uma corda negra foi projetada para o alto e subiu balançando e se esticando, e em sua ponta, um gancho se abriu em três pontas que se prendeu firmemente e logo em seguida Batman encostou os pés na parede. Subiu rapidamente e de um pulo já estava em cima do prédio.
Correu enquanto a corda voltava sibilando para dentro da pistola e a guardava na cintura novamente. Continuou pulando entre os prédios cada vez mais altos. Os carros e pessoas trafegavam lá embaixo, sem ter a mínima noção medíocre que a alma da noite de Gotham trabalhava incessantemente. Após alguns minutos, ele chegou no último edifício. À sua frente estava o grande prédio, todas as suas janelas estavam acesas. Ouviu o barulho distante de sirenes e ao olhar para trás, viu várias viaturas policiais. Ele devia chegar lá antes delas. Precisava ver pessoalmente o que tinha ali. Retirou novamente a pistola do bolso, depois retirou um pequeno cilindro do cinto. Juntou os dois e apontou para o topo do prédio. Atirou e enquanto a corda serpenteava no ar e sibilava, ele prendia a arma em uma viga no canto do prédio. Logo a corda se esticou, vibrando por alguns segundos. Enfiou a mão no cinto novamente e retirou dois objetos metálicos, um pouco curvos. Juntou os dois na corda, formando um cilindro. Girou, e ele começou a vibrar. Correu enquanto arrastava o cilindro vibrante pela corda e se jogou no vazio. O cilindro agora corria pela corda com rapidez, enquanto ele se segurava com apenas uma mão. Por um instante olhou para baixo. Carros e mais carros. Aquela era a cidade que ele tanto amava, e protegia. Perguntava-se se algum dia o crime ia acabar ali. Às vezes ele se sentia tão cansado...
A corda que antes estava firme, foi cortada por um projétil de bala que veio da janela mais alta do prédio. Ele mal teve tempo de pensar, e foi jogado para a frente. Com apenas um segundo para agir, fechou bem as mãos e os ferros pontudos e curvos surgiram em seus antebraços. E com isso, os cravou na parede do prédio, no momento em que seu corpo atingiu a parede com força bruta. Olhou para o alto com os olhos cerrados, e duas janelas acima, surgiu um homem encapuzado com uma metralhadora, que logo apontou para ele e começou a atirar. Ágil, o cavaleiro das trevas desprendeu seu braço esquerdo, o girando para trás até que seu corpo mudasse de posição, ficando de costas para a parede e cravou novamente o braço na parede. As balas pipocavam na parede bem perto do seu corpo. Em um movimento improvisado, se jogou para o lado, e esticou os braços, quebrando uma janela. Se segurou no parapeito da janela e com um pulo, se jogou para dentro, ouvindo algumas balas zunirem no seu ouvido.
Entrou no local rolando e logo se pôs de pé. Havia vários empregados da empresa amordaçados e amarrados no chão. O olhar deles exprimia medo e tensão. Ao verem o mascarado, logo começaram a se contorcer, mas ele não tinha tempo para livrá-los agora. Ouviu as sirenes vindas da rua lá embaixo.
– Vocês já serão libertos.
E correu por entre as mesas até uma porta que dava para as escadarias. Abriu a porta com o ombro e começou a correr pelas escadas, em direção ao alto. No meio do caminho, um homem surgiu de uma porta, o mesmo que o metralhou. Logo mirou em Batman e disparou outra chuva de tiros. Batman, sem parar de correr, se jogou para fora da escada, se segurando no corrimão com a mão esquerda, pendendo no vazio e empurrando as pernas para cima com um impulso, voltou e acertou os pés no peito do criminoso, que voou para trás e bateu as costas com força contra a parede, ficando inconsciente.
Agora faltavam apenas mais dois lances de escada. Aliado do Coringa? Uma distração? Capaz. Logo chegou ao último andar e correu para a porta. Deu um salto, empurrando o ombro contra a porta que se abriu explodindo a fechadura. Batman olhou bem a tempo de ver que, ao abrir a porta, uma linha fina e branca que estava na maçaneta, puxou um pino que estava colado ao corpo de uma pessoa. Ele só teve tempo de ver que esse pino fazia parte de um conjunto de bombas amarradas ao corpo de...
E tudo explodiu. Uma explosão implacável e brutal, que jogou Batman porta à fora, passando por cima do corrimão da escada, e caindo, bateu o meio de suas costas no corrimão do andar inferior. Sem nenhuma reação, ele apenas caiu no vão entre as escadas do prédio, de costas para baixo. Caía em câmera lenta, e tudo que acabara de acontecer passava na mente dele. Ele não podia acreditar no que viu. Não podia ser...
Então ele atingiu o chão.
Uma voz distante em sua consciência o alertava para a dor que estava sentindo. Algumas costelas quebradas, talvez. Mas... ele agora apenas se recordava da pessoa que acabara de explodir à sua frente. Aquele corpo pequeno, aqueles olhos cheios de medo, aquele sorriso petrificado. Gás do riso... um riso psicótico e deformado. De todas as pessoas do mundo, aquele maldito palhaço não tinha o direito de fazer isso. Não ele. Não com ele...
Alguns segundos se passaram, e lá do alto, centenas de cartas de baralho começavam a cair lentamente do lugar que acabara de explodir. Algumas cartas estava intactas, e rodavam no ar. Outras estavam queimadas em grande parte, e outras tantas ainda ardiam em chamas. Logo cinzas, fuligem, e cartas queimadas cobriam o corpo de Batman. Cartas bem conhecidas. Cartas de coringas de baralho. Uma assinatura sem nome, cheia de soberba e que exclamava em grito triunfante “Eu. Fiz. Isso!”.
Aos poucos sua visão escureceu, mas sua memória estava bem viva. Os olhos cheios de medo de Damian Wayne, seu filho. Seu sorriso forçado e sem alma. A bomba em seu corpo. A explosão...
“Damian...”
Ele já havia perdido tantas coisas ao longo de sua vida... Tornou-se adulto aos oito anos, naquele beco tenebroso. Sua infância foi abreviada naquela mesma noite. Amigos morreram, a vida era tão efêmera. Sim, ele admitia. Mas por que ele? Por que toda vez que ele vestia aquela fantasia para proteger as pessoas, era ele que sempre tinha que pagar um alto preço? Um preço alto demais para qualquer um. Será que alguém realmente tinha a noção do peso que aquela capa produzia? Será que alguém tinha noção que enquanto o mascarado vagava pela noite leve como um morcego, suas costas pesavam com o peso das almas que dele haviam sido tiradas?
Será que alguém se atreveria a dividir o peso com ele? Já que muitos desejam sua glória. E naquele momento ele percebeu... que não existem super-heróis. Apenas pessoas que perderam coisas demais para continuarem parados...
Sentiu que seu coração havia se contorcido tanto que acabara de explodir.
– Não... – Qualquer um que chegasse ali naquele momento teria um choque ao ver uma mudança de espírito tão irracional. A respiração estava mais pesada, mais lenta. A escuridão veio novamente, dessa vez trazendo seu doce esquecimento, e pela primeira vez em toda sua vida noturna, o Cavaleiro de Gotham sentiu medo em adentrar trevas tão densas e sombrias.
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