Batman contra os fantasmas do passado
4 Surpresas da escuridão
Notas iniciais
Alfred subia calmamente as escadas da mansão, carregando uma bandeja com água, e alguns comprimidos. Os acontecimentos recentes haviam deixado o imenso local extremamente vazio, mas ao mesmo tempo, soturno, depressivo, angustiante. E principalmente, cinza... Ao passar pelas diversas portas, chegou ao quarto de seu patrão, ou filho adotivo. Cuidadoso, abriu a porta, e demorou alguns instantes para que sua vista se acostumasse com a negritude do local.
– Mestre Bruce...?
Mas o quarto estava vazio. Como ele suspeitara.
A Bat-caverna estava mais escura que o normal, a única luz no recinto vinha do grande computador. E na frente dele havia um Bruce Wayne apenas de calça preta, com seu peitoral, tronco, e braços enfaixados. Estava um pouco pálido, olheiras profundas, mas o seu semblante era sempre o mesmo. Um semblante forjado pelo aço da noite. O semblante de uma lenda noturna que nunca dorme. Uma gárgula eterna sobre a grande cidade.
Nas telas do computador, havia algumas imagens do lugar eclodido. No centro do local, uma pequena caixa transparente, e dentro dela alguns pedaços da parede. Ele próprio havia decidido procurar meticulosamente cada centímetro quadrado daquele local, mas em vão. Não existiam digitais, e o único bandido preso no prédio havia cometido suicídio, logo após acordar. Coringa havia sido seletivo dessa vez.
– Está muito cedo para sair do repouso, não acha? – perguntou Alfred, surgindo da escuridão com a bandeja.
– Não há tempo para repouso, Alfred.
– E se continuar assim, não haverá tempo para capturar ninguém, Mestre Bruce. Você precisa se cuidar. Sei que é forte e resistente, mas desde que...
– Não continue, eu sei o que aconteceu. – retrucou Bruce, pragmático.
O mordomo colocou a bandeja em cima de uma mesa. – Suponho que ainda não tenho o encontrado, caso contrário...
– ... Eu não estaria aqui.
Alfred sabia que seu patrão era cabeça dura demais, ainda mais depois da morte do filho. No seu interior, perguntava-se o que o Vigilante faria dessa vez. Desde quando ele acordara, depois da explosão, havia algo diferente em seus olhos. Uma determinação fria, alheia aos acontecimentos externos. Seu olhar parecia vidrado, como se não enxergasse o presente, mas o futuro, apenas no momento em que ele encontraria o assassino do jovem Robin.
– ... Para onde está indo, senhor?
Nesse momento, Bruce caminhava para a grande cápsula que abrigava um de seus uniformes. Após a cápsula abrir, ele ficou parado, apenas observando. – Fazer justiça, Alfred. Fazer justiça.
– Mas, seus ferimentos ainda não sararam.
– E nunca sararão.
– Então acho melhor guardar esses remédios... – sempre com parcimônia, o mordomo pegou a bandeja, e se dirigiu novamente para a escuridão, para a saída.
Após ouvir o barulho da grande porta deslizar e fechar, Bruce fechou a cápsula que abrigava sua roupa. Ficou alguns instantes parados, com os punhos cerrados. Havia algo dentro dele que se remexia. Olhou para a cápsula ao lado, a qual abrigava a roupa de Damian. Caminhou até ela e abriu-a. Logo retirando o uniforme de dentro. A cápsula fechou e ele andou lentamente até uma cadeira, com os punhos fechados sobre o tecido da roupa. Sentou-se, olhando para o R na roupa. Cenas antigas, memórias vivas começavam a ser projetadas na mente dele. O Cavaleiro das Trevas sempre andou lado a lado com a morte, mas quem era prejudicado estava à sua volta. Justiça e paz, isso era a resposta para tudo. Aproximou a roupa do rosto e fechou os olhos, inspirando fundo. Talvez o cheiro dele ainda estivesse ali, ou não. Não era a mesma roupa que ele estava usando quando explodiu, mas o que importava era a memória ali contida. Missões juntos, jantares, festas chatas, treinos, motivações, repreensões e... aquele sorriso insano. A última imagem de seu filho não poderia ser pior. Apertou os olhos, sentindo seu peito se derreter em dor. Muitos poderiam olhar e estranhar. Mas aquele ali não era o Batman, o Cavaleiro das Trevas que tinha seu rosto forjado no aço frio da noite e da justiça. Não era a lenda noturna que voava por entre os prédios. Não era os dois olhos brancos que nasciam na escuridão. Era apenas o Bruce. Bruce Wayne, o homem rico que havia acabado de perder seu filho. O homem que tinha sentimentos. O homem que podia rir, chorar, fazer piadas, e até arriscar algumas partidas de baseball.
Lágrimas começaram a deslizar pelo seu rosto. Ele faria justiça. Com certeza faria. Mas só depois de aliviar o peso insuportável que havia escondido por tantos dias em seu peito. E elas vieram impetuosas, poderosas, impassíveis. Trouxeram consigo lágrimas antigas, de feridas antigas, com dores bem atuais, de rasgos bem abertos.
“Amanhã o Batman fará justiça, Bruce. Hoje você só precisa chorar.”
Após passar o dia todo treinando, tentando melhorar seu corpo quebrado o melhor possível, Bruce mal pôde esperar o começo da noite. Pouco antes do Sol se pôr, lá estava ele, em cima do último prédio antes de adentrar o cais.
Observava uma das cartas que não havia sido destruída na explosão. Um lembrete concreto do que havia acontecido, pois às vezes a ficha não caía, e tudo não parecia passar de uma grande piada. Mas a piada era verdadeira. Um lembrete de que ele deveria fazer justiça.
O bar era frequentado por ladrões, matadores de aluguel, caçadores de recompensas, mercenários, e de toda a escória que Gotham poderia produzir. As luzes pendiam do teto alto, o que deixava lá em cima, além das luzes, uma escuridão total. Geralmente eles estavam bebendo, jogando sinuca, fumando, vendendo drogas ou rindo de algum golpe bem-sucedido. Mas hoje havia algo diferente no semblante de todos. Ninguém estava jogando sinuca ou sorrindo. Conversavam as cochichos, com os olhos bem atentos. A morte de Robin já havia percorrido todo o submundo de Gotham. Quem ousaria cometer algum delito em tal situação? Seria suicídio confrontar o Batman. Eles tinham duas opções: achar que o Cavaleiro estava debilitado demais para agir, ou... Achar que o Cavaleiro estava furioso demais para permanecer parado. Consequentemente, muitos ali já haviam recebido alguns hematomas do Morcego. Agir, ao menos de noite, não era uma opção.
Apesar da tensão no ar, todos pareciam querer disfarçar isso. Eles não estavam fazendo nada contra os cidadãos da cidade, então não deveriam temer. Batman não era um justiceiro, apenas varria a sujeira para debaixo do tapete. Mas havia algo mais. Algo que fazia o medo crepitar dentro deles, sutil, silencioso, destrutivo. Mas ninguém tinha coragem de revelar, e muitos rezavam para que nada acontecesse. Um homem careca, de jaqueta, levantou-se e foi até o balcão do bar. Pediu um copo grande de cerveja. Em alguns segundos o barman, ou só o cara que servia as bebidas, pousou um copo grande na mesa, cheio, gelado. Ao segurar a asa do copo, o objeto simplesmente explodiu, derramando o líquido em todas as direções.
O ladrão sentiu que seu coração ia sair pela boca, mas não se mexeu, apenas fechou os olhos. Alguns instantes se passaram, e sentiu uma dor aguda na sua mão. Provavelmente havia se cortado com o vidro. Mas, quando abriu os olhos, sentia que tudo estava perdido, pois o que havia explodido o copo, e rasgado a palma da sua mão, era um batarangue. O objeto com o formato de morcego estava lá, fincado na madeira do balcão. Virou-se lentamente para o restante dos homens. Todos estavam tensos, tensos demais, silenciosos, como se o barulho pudesse acelerar a contagem regressiva de uma bomba. Sem mais nada a fazer, o homem sujo de cerveja balbuciou.
– Ele... está aqui...
Como um estouro da boiada, ou um tiro que precede uma maratona, foi o efeito da frase dele. Todos se levantaram de suas mesas, e logo retiraram pistolas das jaquetas. Outros puxaram facas, canivetes, garrafas quebradas e outros, os tacos de bilhar que estavam em cima da mesa. Olhavam para o teto, para a escuridão além das luzes. Tiros às cegas, acertaram uma grande parte do local. Estavam desesperados demais para que pudessem deixar algo acontecer. Eles precisavam parar o Batman a qualquer custo.
Os tiros cessaram. Expectativa. O corpo dele devia ter caído, se tivesse sido atingido. Olhos atentos, pupilas dilatadas, gargantas secas, corações explodindo, a adrenalina gelando o sangue, e o medo movendo suas almas.
– Ali está ele! – um berro rouco rompeu o silêncio, e quem o emitiu apontava para dois olhos brancos e insanos na escuridão lá no alto.
E novamente atiraram, mas os olhos sumiram, para um segundo depois, uma grande massa escura surgir caindo em cima de uma mesa de bilhar. Com o peso da roupa, que de uma determinada altura poderia quebrar o teto de carros, o efeito foi parecido na mesa de bilhar. Uma grande cratera surgiu onde Batman pousou. E todos ficaram parados, apenas o encarando de olhos vidrados.
– O que quer de nós? – um dos criminosos gritou, furioso.
A situação do local era tensa. No mínimo quarenta homens fechavam um círculo em volta do Morcego. E ele permanecia lá, parado, silencioso, frio. O rosto baixo, fazendo as sombras esconderem seu rosto contra a luz branca que vinha do teto. A capa cobria grande parte do seu corpo. Batman naturalmente já tinha uma grande estatura, mas a roupa dava um porte muito maior a ele. A impressão que se tinha era de que ele era um monte de chumbo. Doloroso, impenetrável, imparável, impossível de se defender.
– Eu quero o medo.
A voz, não era a mesma do Batman. A voz que irrompeu o ar da sala estava estranhamente distorcida. Havia algo mais sobrenatural nela, rouca, demoníaca. Como se ele tivesse ido ao inferno e voltado para obter vingança. E mal eles entenderam a gravidade dessa palavra, barulhos agudos foram ouvidos do lado de fora. Barulho de centenas de asas batendo. O barulho de morcegos. Poucos segundos depois, um turbilhão de morcegos invadiram o bar, quebrando as janelas e fazendo seus sons agudos e típicos. O pânico estava sendo instaurado. Eles não sabiam se se defendiam das criaturas, ou do invocador delas. Atiravam para o alto, ou batiam no ar com suas armas brancas. Alguns eram mordidos pelos morcegos. Preocupados demais com as doenças que os morcegos poderiam passar, não perceberam o Cavaleiro de Gotham planando por entre o caos, até cair com os pés nas costas de um assassino, fazendo ele se chocar, da cintura pra cima, no balcão. E agachado, ainda em cima do homem, ele falou, o mais soturno possível.
– Eu quero o caos.
A voz assustadora conseguiu se distinguir dos demais sons. Ergueu-se, e com impulso, pulou para trás, ficando de cabeça para baixo, e caiu em pé no chão, bem a tempo de desviar do golpe de dois homens que já se aproximavam do balcão.
– Eu quero o pavor.
Retirando uma pistola do cinto, mirou no pé de uma mesa, e atirou. A corda negro logo se enrolou no pé da mesa. Batman abaixou-se e com força, jogou a mesa para o lado. Alguns caíram por causa da corda, mas a mesa voou alguns metros derrubando mais dois. Apertou outro botão, e a pistola se soltou da corda, e quando a guardava, um criminoso chegou por trás e desferiu um golpe em sua cabeça, fazendo o taco de bilhar quebrar. Batman parou, virou-se de costas, olhou para ele. Os dois se entreolharam por alguns instantes, e um soco potente atingiu o nariz – agora sangrento – do homem.
– Você está louco! Não fomos nós que matamos ele!
Misturando a vários homens caídos, havia vários cadáveres de morcegos pelo chão. E os que ainda estavam em pé, misturavam-se com as outras dezenas de morcegos que ainda o assolavam. E, tarde demais, começaram a investir contra o Cavaleiro. Vários de uma vez, mas não eram páreos para ele. A roupa protegia bem seus machucados. Golpes, golpes, e mais golpes. Socos, chutes, e até voadoras. E vários outros estavam no chão. Muitos se contorciam no chão, outros apenas fingiam estarem desmaiados.
– Eu quero vingança.
Agora havia pouco mais de dez homens em pé, assustados, atentos, chocados. Será que o justiceiro havia ultrapassado uma linha que ele nunca se permitiu ultrapassar? O barulho de morcegos estava se tornando ensurdecedor, mas Batman ouviu algo que chamou sua atenção. Virou-se, olhando para o fundo do bar, onde um grande cobertor branco cobria algo realmente grande. O barulho emitido era uma espécie de ronco de motor, ou algo parecido. Mas, era algo mais gutural. Uma máquina, talvez? Sem pensar duas vezes, aproximou-se do grande objeto, escondido na escuridão. Seria por isso que eles não queriam o Morcego aqui? Estavam planejando algo mortal?
Estendeu as mãos potentes e segurou o lençol. E puxou. Ainda com o lençol nas mãos, arrependeu-se amargamente de ter feito isso. O cheiro fétido de réptil logo foi sentido. Deu um passo para trás, mas no mesmo segundo, a criatura virou-se, jogando seu braço enorme contra o Cavaleiro, que foi jogado longe. Um rugido – ou seja lá o nome do barulho que tal criatura fazia – rasgou o ar como pedra bruta.
Killer Croc.
Mal havia tocado o chão, Batman girou o corpo, para se equilibrar com a mão fechada no chão. Antes que desse tempo para se levantar, a criatura gigante já veio correndo insanamente contra ele, pisando em alguns criminosos, jogando outros longe, fazendo mesas voarem. Parecia uma pedra rolando ladeira a baixo. Ainda rugindo de forma infernal, Killer Croc ergueu a mão direita, e desferiu um golpe horizontal em Batman. Mas não foi rápido o suficiente. Batman havia se agachado, para logo em seguida pegar impulso para um pulo, subindo pelo braço dele, e indo parar em sua cabeça. Enrolou suas pernas em volta do pescoço dele.
“Mas o que diabos essa criatura está fazendo aqui?”
Esse era o motivo de todos estarem tensos. Havia algo no bar que sem motivo algum poderia simplesmente comê-los, triturando seus ossos. Enfiando a mão no cinto novamente, retirou um pequeno spray. E o acionou contra os olhos da criatura. Uma espécie de espuma cobriu grande parte do rosto dele, que logo se solidificou. Cheio de fúria, como qualquer animal insano estaria ao ficar cego. Agarrou as pernas de Batman, e o arremessou com força máxima contra uma parede. O Morcego voou longe passando por entre os morcegos que ainda voavam pelo local, e o impacto fez seu corpo todo ser afligido por uma dor aguda. Caiu no chão, tossindo. Killer Croc se debatia, e quebrava tudo a sua volta, rugindo e berrando, tentando se livrar da gosma em seu rosto. Isso foi a salvação de Batman. Ficando de joelhos, retirou outro objeto de dentro do cinto. Uma bola pequena, e jogou no Crocodilo. Chamas envolveram o corpo da criatura. Um berro insano foi ouvido, e cansado de não obter resultados, cravou as próprias garras no rosto, rasgando a própria pele escamosa, e assim, retirando grande parte da gosma. A roupa, apenas uma calça – já que ele poderia ainda ter traços humanos – e uma espécie de camisa ardiam em chamas. Com os olhos brilhando escarlate, correu contra Batman. O segurou com ambas as mãos, mas não parou. Atravessou a parede do bar, indo para fora. E como se Batman fosse uma bola de baseball, o jogou longe. Muito longe.
“Eu preciso fazer algo, ou ele irá me matar...”
Caiu no chão, rolando algumas vezes. E então ele percebeu o que estava acontecendo. Killer Croc queria jogá-lo no rio. Sim, ele foi arremessado a apenas alguns metros do rio. As chamas no corpo da criatura animalesca haviam se dissipado, mas deixou queimaduras em sua pele. Batman se levantou, tentando enfiar a mão no cinto novamente, mas Killer Croc deu um salto e caiu em cima do Batman, mas sem atingi-lo. Batman havia ficado entre as pernas dele, e desequilibrado, caiu novamente no chão. Killer o segurou pela cintura, e novamente o jogou para longe. Dessa vez, Batman caiu como pedra na água, e afundou.
Afundando, afundando, afundando... Olhava para a superfície, e logo viu uma grande sombra, para no segundo seguinte, ver o corpo da criatura submergir.
“Pense, em algo. Agora...”
Olhou para o lado, e viu um grande buraco. O esgoto de Gotham. Sem pensar duas vezes, juntou toda a força que tinha, e se impulsionou para dentro dele. Sentia o grande animal atrás de si, nadando impetuosamente para dilacerá-lo.
“Na próxima vez irei ouvir Alfred.”
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