Batman contra os fantasmas do passado
5 Além da borda
Notas iniciais
Suas costelas pareciam perfurar seus pulmões, que ardiam pela falta de ar. Não sabia quanto tempo estava nadando. Achava que era um tempo infinito, e justamente por isso tinha certeza que estava apenas há alguns segundos submerso.
Dormência.
Quando você exige demais do seu corpo, a dor deixa seus músculos dormentes. Isso diminuía significantemente todas as suas habilidades de fuga. Seus dedos às vezes se moviam para onde ele não queria. Não sentia seu corpo totalmente, e isso apenas dificultava seus movimentos.
Em uma sequência cronometrada, podia sentir a água turvando-se atrás de si, sendo empurrada por algo grande. Não duvidava que no próximo segundo suas pernas fossem abocanhadas. Um lugar para apoiar-se e emergir parecia algo tão irreal quanto sair dali vivo.
A lenda de Gotham agora não passava de algo parecido como um rato fugindo de um gato, ou um gato fugindo de um cachorro, ou ainda mais, um cachorro fugindo da carrocinha. Definitivamente, essa não era a melhor aventura dele, e talvez, ele pensou, fosse a última. Há muito tempo ele se esforçou para ser o pilar de Gotham, o pilar principal, aquele que sustenta a construção. Mas mesmo o mais forte pilar, não é indestrutível. Já fez inúmeras promessas na calada da noite, em prédios altos, para a cidade que tanto amava. Talvez isso fosse como um relacionamento amoroso adolescente. Você ama alguém com todo seu entendimento, mas a tal pessoa sempre acaba te deixando em cacos.
Não importa o que ele fizesse, não importa o quanto lutasse, tudo sempre voltava para assombrá-lo. Sentia-se num disco arranhado. Dava seu sangue para proteger as pessoas de um vilão perturbado, mas depois de algum tempo ele voltaria. Sentia que estava varrendo a poeira para debaixo do tapete. E em meio a toda aquela água gelada, ele percebeu que sempre se sentiu assim.
Mas ele não podia ultrapassar a linha. Não podia se tornar o mesmo monstro que aquele assassino no beco quando tinha apenas oito anos. Ele não podia ultrapassar a linha que o transformaria de herói a monstro em um único segundo. O tempo exato para puxar o gatilho contra algum desses doentes. Mas então, o que fazer? O pilar estava sendo destruído. Aos poucos, pedaços iam se soltando... Sua força estava acabando, enquanto ondas e mais ondas de corrupção simplesmente vinham com força impetuosa contra o paredão com o morcego no peito.
Promessas para uma cidade. Promessas para uma vida. Promessas para a paz vindouro, mas que agora parecia tão utópica quanto achar que o Coringa um dia poderia se ajeitar e virar uma pessoa boa. É Bruce... o cansaço mental é sempre implacável. Sentia-se afogando, sentia como se estivesse correndo em círculos. Isso nunca ia acabar, iria morrer, de forma violenta ou de velhice, tanto faz, mas o crime em Gotham nunca iria acabar. Talvez tivesse escolhido a coisa errada a amar, ou a mais difícil. Por quê isso era algo tão fundo? Já perdera tantos amores tentando proteger esse amor. Já derramara tantas lágrimas nas sombras enquanto tentava trazer a luz. E pra quê? Qual motivo? Sua lenda poderia ser onipotente e onipresente, mas por trás de tudo, por trás da grande e densa muralha de sombras e músculos havia um espírito tão fino quanto cristal. Um cristal que já estava cheio de rachaduras.
Suas mãos tocaram em algo sólido, e erguendo-as, segurou com força a borda do chão. Em um único movimento emergiu, os dentes cerrados. Tentando respirar como se estivesse aprendendo ainda. Por muito tempo sua alma sentia o peso das almas que ele protegia, mas parecia que agora até sua carne estava sentindo esse peso. Enfiou a mão direita no cinto e retirou um objeto redondo e fino, um pouco menor que a palma de sua mão e o apertando, viu aquilo brilhar um azul claro e tecnológico. Nesse momento duas enormes mãos emergiam da água escura. Sem pensar duas vezes, jogou o objeto perto de onde uma cabeça enorme emergia. O barulho foi igual ao que se ouve perto de fios de alta-tensão. Pequenos lampejos dançaram na superfície da água, iluminando o grande corpo da criatura que tremia. Tremia muito. O cheiro de carne queimada se misturou ao cheiro do esgoto e Batman sentiu seu estômago revirar, mas a sensação não foi maior que a necessidade urgente e primitiva de fuga.
Atlas. Como o grande titã ele se sentia. O peso estava grande, sua carne gritava por descanso. Mas cambaleando, assim ele começou a andar, logo entrando por um corredor escuro e redondo. Uma luz vermelha iluminava o centro. Passou por lá, com a mão se apoiando na parede.
— Ba... t... man! – uma voz monstruosa invadiu o corredor atrás dele. Era possível sentir o esforço e o ódio que a criatura fez para poder falar. E Killer Croc estava novamente de pé, uma fina camada de fumaça fluindo de sua pele.
Não havia mais saída. A porta no lugar espaçoso além do corredor estava trancada com grades grossas. Se virou para a criatura, inspirando fundo, como se assim pudesse aliviar sua dor, e colocar cada nervo no seu lugar. Como se aquilo fosse o combustível para que seu corpo trabalhasse bem. Ele era o Batman, estava acostumado a sempre ir além do limite. A criatura novamente rugiu – ou seja lá qual barulho ela tenha feito – e correu cega contra ele. Killer Croc saiu do corredor.

Batman também correu, enquanto traçava algum plano. Em poucos segundos os dois se encontraram, mas as garras cortaram o ar, pois Batman se jogou no chão, deslizando entre as pernas dele, agarrando o pedaço de calça que a criatura vestia, e puxando com força, ergueu-se do chão, deu um pulo e cravou as lâminas dos seus antebraços nas costas da criatura. Já que não podia estar por baixo, que ficasse por cima. A pele escamosa dele era dura, mas não impenetrável. Garras enormes tatearam o ar, tentando agarrá-lo. Por pouco conseguiram, mas à beira de uma morte dolorosa, os sentidos de qualquer pessoa se expandem de uma forma grotesca.
Domine a dor.
Retirando a mão direita, fazendo um chuc ao arrancar as lâminas da carne, começou a esmurrar o ouvido direito dele. A criatura cambaleou um pouco, dando uns passos para a frente. Em um segundo, ele já estava envolvendo o pescoço da criatura com as pernas, sentando-se em sua nuca, enquanto apontava uma pistola para a grades da única porta dali. O local era do tamanho de um salão redondo. No seu centro havia uma grande plataforma, onde os dois estavam, e nos lados havia mais água corrente. Se Batman caísse ali, seria impossível nadar contra a corrente e sendo jogado dentro de um túnel submerso, morreria. Atirou a pistola e uma linha grossa voou até enrolar em uma grande. Batman puxou com força, fazendo Killer Croc se desequilibrar um pouco e dar alguns passos para a frente. Deu algumas voltas com a corda no pescoço da criatura, enquanto abria as pernas e deslizava um pouco para trás. Ouviu um clic, e a arma travou. Se deixou cair no chão e rolou para trás, apalpando o bolso, procurando algo que pudesse usar. Caiu sobre os joelhos, o cansaço quase mortal o espancou. Sentia que se fizesse mais algum esforço, morreria. Seus pulmões pareciam querer explodir. A criatura se virou, e se jogou contra ele, recebendo um puxão pelo pescoço, enquanto Batman se jogou pra trás. Seu último movimento. A grade na porta entortou, e mais uns dois puxões e ela quebraria como um graveto. A mão dele encontrou algo, seus olhos pesados se fecharam, e por um lapso de sua mente, ele não estava mais ali.
Rostos, sorrisos, vozes. Amigos de capa, ou apenas pessoas que agradeciam por não terem sido estupradas, espancadas, mortas. Depois o que se ouvia era gritos, pedidos, amigos mortos, sangue contra a parede, hematomas... e Damian. Abriu os olhos, e as mãos da criatura estavam quase agarrando seu corpo. Era possível sentir o hálito fétido da criatura, a saliva em sua boca, os olhos insanos. A mão trêmula e pesada. Ele então apontou o objeto que conseguiu encontrar. Não era muita coisa, apena uma pequena faca.
Você vai morrer, Bruce? Vai mesmo deixar algo tão banal acontecer?
A voz em sua cabeça não era dele, era mais deformada, causada pela frustração de décadas. Com um movimento de arremesso, no momento exato em que Killer Croc erguia o focinho para o alto, para dar o último puxão, romper de vez a grade e esmagar aquele maldito homem de preto, ele jogou a faca. O que veio a seguir foi uma mistura de medo, desespero, e um branco. A criatura parou seus movimentos, olhando estupidamente para o alto. Em um impulso suicida, Batman já estava em pé, retirando a faca dali, sentindo a lâmina passar pelos músculos macios. E enfiou de novo, e de novo, e de novo. Os dentes cerrados, os pensamentos querendo explodir sua cabeça. Killer Croc já havia caído para trás, sem movimentos, mas Batman estava em cima dele, esfaqueando. Como uma máquina no piloto automático. O sangue estranho da criatura correndo pelo chão liso e sujo.
Esfaqueando, esfaqueando, esfaqueando.
Lágrimas sutis começaram a rolar pela máscara dele. O que antes era um semblante de aço forjado pela noite, agora se transformou em algo mais fino que papel. A faca parou de penetrar, e ficou ali, cravada em um retalho de carne réptil. De joelhos, o peito subia e descia. O que se passava na mente dele nesse momento? Nem ele entendia. Suas mãos trêmulas encharcadas de sangue. Sua boca se contorceu, mas não o suficiente. Um lamurio alto de dor e angústia.
E então, Batman chorou.
Já era quase noite do dia seguinte quando o Cavaleiro das Trevas – um título um pouco inapropriado no momento – emergiu empurrando uma tampa de ferro redonda pro lado e saindo do esgoto no grande quintal de sua casa. A casa, como sempre, vazia. Cambaleou pela casa sem se importar em ser visto por alguém, e subiu as escadas.
— Senhor Bruce? – exclamou Alfred, em choque, por ver ele em tal situação. Era possível sentir a onda de depressão e angústia vinda da fantasia estragada de uma forma mórbida.
A pergunta não teve resposta.
Batman entrou no seu quarto e imediatamente retirou sua máscara, deixando-a cair no chão, e assim se jogou na cama, afundando o rosto no travesseiro macio. Não demorou muito para que os fantasmas o engolissem junto com o sono.
Bruce estava nu, e olhando para uma grande parede de vidro. Ele tocou aquilo com a ponta dos dedos, percebendo o quão fina era. Algo passou correndo detrás dele, ele sentiu. Virou-se, mas não havia nada, apenas o escuro. E então, uma luz vinda do céu como um holofote iluminou uma pequena área, mostrando o Coringa, sorrindo. Depois mais outro holofote, e ele viu Harley Quinn. Depois mais outro holofote, e ele viu Bane. Depois mais outro, e outro, e outro, e logo uma multidão de criminosos estavam bem à sua frente. Um sorriso ridículo estava estampado na cara de todos.
— O que foi, Batman? – disse uma voz única, de todos eles. — Não consegue ir adiante? Tem medo? Ou apenas é muito fraco?
Eles iam se esticando, e se curvando sobre eles. Muito pertos, e cada vez, mais perigosamente perto.
— Nós te ajudamos. – a voz bizarra falou. E logo todos estavam se empurrando contra ele. Ele por sua vez, foi empurrado contra a parede de vidro fina. Tentou gritar, mas não tinha espaço para sua voz. Não conseguia se mexer, e o vidro, começou a trincar, em seu barulho sutil. E logo se quebrou, fazendo com que todos o ultrapassassem e voassem como se jogados por uma explosão. Bruce caiu no chão, rolando. Tossiu, e se levantou. Mas ficou perplexo com a visão. Dezenas e mais dezenas de criminosos, no chão, mortos, cheios de sangue. Esfaqueados, decepados, esquartejados, torturados. E ele olhou para os braços, cheios de sangue, e viu que segurava uma faca suja de sangue.
— Você limpou a cidade, Mestre Bruce. Está satisfeito? – era a voz de Alfred, e Bruce olhou para ele. O mordomo estava em pé em meio aos corpos, segurando uma bandeja nas mãos. Suas roupas estavam impecáveis, e muito limpas. — Você atravessou a linha. Matou todos. – e após terminar a frase, caiu para a frente, reto como uma árvore, de cara no chão. E então Bruce viu um de seus morcegos afiados cravado nas costas dele, e como se fluísse da ponta do objeto, a roupa do mordomo começou a se encher de sangue.
— HA! HA! HA! – uma risada mórbida rasgou o silêncio. Era o Coringa, ou melhor, a cabeça decapitada dele. — Muito bom, Batman! Você fez uma piada melhor que qualquer uma que eu pudesse fazer! E sabe qual foi?
Sangue. Todo o chão estava regado sangue, as paredes dos prédios estavam regados a sangue, árvores, carros, placas de sinalização. Os corpos começaram a se mover. Alguns se levantaram inteiros, outros se levantaram sendo apenas pernas, ou troncos, mas todas as cabeças que estavam no chão, disseram em uma só voz. — Você se tornou um de nós.
Seus olhos abriram com força, arregalados, pupilas dilatadas, e o corpo encharcado de suor. Respirava com violência. Mas logo percebeu que era apenas um sonho. Fechou os olhos e tentou se levantar, mas sentiu algo pesado em cima de si. Olhou e viu que era um corpo, o corpo de Damian. E entendeu que estava encharcado, mas não de suor. Toda sua cama estava cheia de sangue, e Damian olhava para o pai. — Por que deixou eles me matarem?
Bruce deu um grito, e acordou novamente, o coração saltando pela garganta, onde um grito agonizante morria. E dessa vez, ele estava em seu quarto, coberto de suor. Apenas suor.
— Hoje foi uma longa noite, eu sei.
A voz feminina deslizou suavemente pelo quarto, e Bruce olhou em sua direção. Mesmo no escuro, era possível ver a silhueta sentada na poltrona, com sua roupa colada e o cabelo longo e caído do lado do rosto.
— O que faz aqui? – a voz dele saiu estranha, e ela percebeu que ele estava lutando com uma variedade de sentimentos. Sentimentos pesados, e nada mais.
— Ele também era meu filho, caso não saiba. – ela se levantou, adquirindo uma postura séria e profissional. Apesar de uma tensão sexual ser normalmente formada em ocasiões assim, ali não havia espaço para diversão. Ela ligou a luz e olhou para ele, analisando e pensando. Por que ela estava o encarando assim? Será que ela sabia o que ele tinha feito? Agora ele se sentia incomodado em que olhassem para o rosto dele. O fantasma da paranoia havia se instalado em seus pensamentos. Sentia os mortos o julgando, sentia as paredes se apertando contra ele, sentia os quadros da mansão o criticando, sentia Deus e os anjos o condenando. Não podia fugir disso.
— Não preciso de sua ajuda. – ele disse, por fim.
Ela deu um sorriso de escárnio. — Você precisa de ajuda até para se levantar dessa cama.
Ele ficou calado, sabia que havia chegado ao fundo do poço da sua carreira. Ele mais do que ninguém sentia uma chama em seu peito, pedindo para ser alimentada, uma chama que atendia pelo nome de vingança.
— Descanse, e melhore. Ou não teremos nada além de mais um enterro. – ela desligou a luz, e saiu, fechando a porta, deixando Bruce novamente no escuro.
Seu corpo pedia por mais descanso, por mais inconsciência. Os pensamentos corriam pela sua mente como um jato de água sendo pressionado contra chumbo. Seu estômago roncava, mas nada desceria por sua garganta. Então, impotente de fazer outra coisa, deitou-se, torcendo para que os fantasmas o deixassem descansar, ao menos por aquele dia. Ao menos por aquela noite.
O símbolo de justiça brilhou contra o céu naquela noite, o morcego flutuando por entre as nuvens negras, mas nenhuma resposta foi obtida. Gordon, encostando no grande objeto luminoso, olhava para o símbolo, o olhar triste sob os óculos. Era uma barra pesada, até mesmo para o mascarado, pensou, enquanto acendia um cigarro e contemplava a noite.
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