Batman contra os fantasmas do passado
6 Quebra na rotina
Notas iniciais
“Gotham. A cidade gótica. Nunca uma cidade teve um nome tão certeiro. Claro que existe outro significado para o nome dela, um mais confiável. Mas eu prefiro esse. Me deixa alerta.”
O rapaz de uniforme colado ao corpo atlético, com um símbolo azul no peito, corria por cima dos prédios baixos e residenciais. Incrível como certas pessoas são adaptáveis. Nasceram para andar, mas aprenderam a voar. Dick era uma dessas pessoas. Desde pequeno, sempre viveu nas alturas. Quase nunca parado, mas sempre se balançando, se jogando, se equilibrando. Ele era um Grayson Voador, e isso ninguém poderia tirar dele. Só se arrancarem minhas pernas, pensou.
“Uma coisa eu aprendi com essa cidade. Não importa quem você seja, ou o que você seja. Muito menos quem ou o que você deseja se tornar. O espírito corrupto da cidade vai tentar te corromper de todas as formas.”
Passos firmes e certeiros, como se fossem feitos para grudar em qualquer superfície. Pulava entre os telhados como um gato. Mas um que buscava uma presa, um alvo. Mas ele precisava subir. Cada vez mais alto. Pois a presa voava. Pulou de um prédio direto para a escada externa do imóvel seguinte, e ainda pelo impulso da queda, girou as pernas juntas para a direita, até que seus pés apontassem para cima, e se empurrou em direção ao alto. Se encolhendo e rodando até os pés voltarem para baixo, pousou na grade da escada, e deu mais outro pulo. Segurou a grade de cima com a mão direita, erguendo-se mais uma vez com outro impulso e pousando na sacada. Parou e observou. Dali se via grande parte dos prédios. Sempre cheios de detalhes pontudos, que apontavam para o alto. Como se indicassem o céu.
Toda cidade tem um céu bonito. Um lugar alto para se admirar a paisagem. Mas não Gotham. Bonita, sim. Inspiradora, nunca. Gotham era uma cidade de vapor, escuridão e sujeira. Ela tem duas caras. De dia, é como uma cidade qualquer, mascarada. Mas quando a noite cai, as máscaras são retiradas, e Gotham é realmente Gotham. Uma cortesã velha que exibe suas cicatrizes sem vergonha alguma. Sem pudor. Sem dignidade. Talvez seja por isso que Bruce tente curar todas essas feridas, noite após noite. Uma salvação, ou ao menos uma tentativa. Gotham, tão pecadora e suja que a bondade não conseguiu salvá-la, então teve que enviar outro tipo de escuridão. Que tinha nome, sobrenome, inspirava medo e temor, e era dono de metade da cidade. Bruce Wayne.
O céu de Gotham mostrava toda a sua depressão, cansaço, desespero. Era um céu negro, com nuvens pesadas quase sempre. Impossível morar naquela cidade e não se contaminar com sua podridão. Aos poucos, sutilmente, a loucura se instaurava nas pessoas. Mesmo aquelas mais caladas, tinham vozes interiores que gritavam. Bocas deformadas que agonizavam, com gemidos, cobertas por lençóis chamados Rotina e Impotência. Gritavam “Justiça!”, “Paz!”, “Vida!”. Batman foi o único que ouviu isso de uma forma tão crua e brutal. Pois ele também tinha aquelas vozes dentro de si. O atormentavam todos os dias, desde os oito anos de idade. Bocas que foram acordadas pelos disparos dos tiros que mataram seus pais. Vendo por esse lado, era até entendível a vontade do Morcego de querer lutar até o fim, mesmo que não surtisse muito efeito. O remorso de tentar ser útil, pois não pôde proteger os pais. Mas isso era algo que nunca seria consumado, então Batman nunca iria parar de quitar a dívida todos os dias. Isso iria acabar com ele um dia. Mais cedo ou mais tarde.
Ao longe, Asa Noturna ouviu o barulho de asas.
“E não interessa qual o tamanho de sua força, nem as habilidades que você tem. A cidade sempre vai retribuir de uma forma muito mais dura.”
Sem demora, ele se virou e correu ao longo do prédio, se jogando no vazio lá embaixo, pernas juntas e esticadas, e braços abertos, em direção à avenida movimentada.
“E ela vai usar as formas mais bizarras de se fazer isso. Como por exemplo, harpias.”
Entre os prédios, duas mulheres com roupas tecnológicas de harpias, voavam carregando um homem pelos braços, que gritava e balançava as pernas, agarrado por garras metálicas. Dick caiu em direção a elas, em uma velocidade vertiginosa, fazendo seu cabelo tremer ao vento. Elas não perceberam o rapaz antes de sentir o homem ser violentamente arrancado de seus pés tecnológicos. Dick e o refém caíam.
Retirando o lança-arpéu do bolso com a mão direita, se virou para cima, com as pernas encolhidas, enquanto segurava o colarinho do homem com a mão esquerda. Disparou, e a corda voou rápida, balançando no vazio, e pareceu uma eternidade antes de se enroscar no pé de uma grande placa que havia sido instalada abaixo do topo do prédio. Percebeu que já estava perto da avenida, virando-se novamente e jogando as pernas para frente, conseguiu tomar um impulso, ouvindo as harpias gritarem logo atrás dele. Quando a corda se esticou totalmente, se projetou para a direita, entrando em outra avenida. A corda tinha um limite, e ele percebeu que havia chegado ao fim. Sem hesitar, jogou o cara, que na verdade era um bandido, em uma janela do prédio logo ao lado. Asa Noturna estava caçando ele, e prestes a enviá-lo para a cadeia com algumas costelas quebradas, as harpias apareceram e o levaram. Sabe-se lá para onde. Mas Dick não ia deixar isso assim.
Com certeza, o criminoso havia quebrado no mínimo duas costelas com o impacto, isso poderia ser o suficiente para segurá-lo ali. Fez o lançador se desprender do cabo, e agora caía livremente em direção a um ônibus. Mas ainda no ar, sentiu seus braços serem agarrados.
“Dick, seu idiota.”
Em questão de milésimos, foi erguido no ar e jogado com força contra o para-brisa de um carro em movimento. Se chocou, rachando o vidro de forma bruta, e pela velocidade do veículo foi jogado para trás, caindo no chão enquanto o carro derrapava e batia na parede do prédio ao lado. Isso foi o suficiente para causar um alvoroço no trânsito. Dick rolou para a calçada, evitando ser atropelado por outro carro. Ergueu-se e olhou para o alto, vendo que as duas harpias se preparavam para atacá-lo. Os carros buzinavam e tentavam desviar dos outros. As pessoas corriam para longe. As harpias voaram em direção a ele, lado a lado, com os bicos metálicos de suas máscaras apontados para frente. Dick correu em direção ao prédio, pulou, deu alguns passos para cima na parede e se impulsionou para trás, atingido o pé direito em cheio no rosto de uma. A máscara se quebrou em vários pedaços metálicos, e antes mesmo que seu pé se afastasse da bochecha da mulher, a outra harpia já agarrava ele pela nuca, o jogando com força contra a parede.
Caiu no chão com um baque surdo, e girou novamente para o lado antes que a harpia pousasse em cima dele com força, pronta para estraçalhar sua carne. Se levantou, pegando os dois bastões na cintura, os girando nas mãos. Olhou para as duas, a atingida ainda estava no chão, tentando se erguer.
— Eu me chamo Asa Noturna, não Alpiste.
Observou-as bem. Armaduras caras, e elas não pareciam ser do tipo que tinha dinheiro para tal coisa. Capangas de alguém? Provavelmente alguém maluco. A armadura metálica cobria o tronco delas, e as pernas eram cobertas por penas metálicas. Os pés estavam dentro de três garras mortais, que formavam um pé de pássaro. A máscara dourada cobria seus rostos até o nariz, assim como o Batman. Exceto a que estava no chão. Agora era possível ver seu rosto machucado. Uma mulher loira e bonita. Enquanto a que estava correndo em direção a ele era morena. As asas nas costas brilhavam, afiadas. Mas de uma coisa ele tinha certeza. Elas tinham muita raiva. As unhas afiadas da morena passaram perto do peito dele, ele sabia que eram suficientes para fazer um belo rasgo.
Desviou, dando alguns passos para trás, e batendo com os bastões nos ombros dela. A harpia ergueu o pé direito e desferiu um chute contra a barriga dele. Asa desviou, curvando o corpo para o lado e atingindo o bastão na coxa dela, com força. Ela hesitou, e ele aproveitou esse momento para atingir a nuca dela. A mulher caiu desnorteada. As pessoas olhavam aquela cena, estáticos. A sirene da polícia já era ouvida ao longe. Era hora de sair dali.
Já no alto do prédio, longe daquele lugar, ele meditava, na ponta de um prédio público antigo.
— Menino prodígio?
Uma voz feminina e familiar soou em seu aparelho transmissor no ouvido. Ele sorriu.
— Estava me vigiando? Pensei que só fizesse isso quando eu estivesse no banho.
Era Barbara Gordon. Filha do comissário Gordon. Ex-Batgirl. Ficou presa em uma cadeira de rodas depois de levar um tiro do Coringa. Agora ela se chama O Oráculo. Uma hacker profissional, cujos conhecimentos e braços eram quase intermináveis.
— Eu disse Menino prodígio, não Menino irresistível. Está perto do Museu Olympus, não está?
Ele olhou em volta, até fitar o museu, longe. Muito longe.
— Relativamente perto.
— Ótimo. Voe direto para lá. Esse museu é novo, caro e famoso. Sua segurança é atualizada uma vez a cada dois meses. A roupa dos seguranças tem um dispositivo eletrônico, e qualquer tipo de rasgo aciona um alarme silencioso. Cinco seguranças, cinco alarmes acionados.
— Já entendi.
Asa já corria para o outro prédio. Harpias, museu grego... ele tinha a impressão de que iria descobrir qual era a conexão muito em breve.
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