Bater de Asas
14 14. Cidade onde o sol não toca.
Notas iniciais
Logo que abri os olhos, o sol havia quase sumido, parecia ser sempre noite nessa cidade... Uma cidade onde parecia ser de noite o tempo todo. A temperatura despencou me fazendo encolher entre minhas asas, tentando não ser notada.
A carruagem voltou a velocidade normal e ao longe se via essa cidade escura, pelos meus anos de estudos apenas lendo, meus livros diziam que era a cidade do sub mundo, apesar de ser na superfície.
Ela era bonita mas... O clima era estranho.
Cubro-me com uma lona que havia em cima da carruagem, devido ao frio, mas também por eu ser um ponto branco naquele lugar. Olhei um segundo para a madeira em baixo de mim, pensando se Zack estaria bem... Ou pelo menos vivo.
Não demorou muito para passarmos a ponte e chegarmos perto do rio, onde me deparei com as "pessoas" do local.
Havia um casal... "Diferente" se casando perto do rio. A noiva parecia não estar viva, o noivo estava no mesmo estado que ela.
A noiva fez meu coração acelerar, mas percebi algo diferente neles, eles sorriam muito, além disso, parecia ser o dia mais feliz para eles, apesar da aparência, era apenas um casal se casando.
Passando pelas ruas até o castelo, vi que a vida dos cidadãos era normal, crianças correndo, casais comendo juntos, velhinhos fazendo compras, o diferente era apenas a aparência, me pergunto porque não vejo deles na capital...
O castelo era enorme, haviam guardas no portão, esses de todos eram oque mais me apavoraram.
Abaixei-me na lona para não ser percebida e tapei minha boca.
— Guarda 1: A encomenda está viva?
— Guarda 2: está sim, se não estivesse eu já estaria morto.
— Guarda 3: levem ele logo para dentro, o Rei quer ver ele.
Aperto minha mão sobre meu peito ao escutar que ele estava vivo, mas não poderia sair de lá agora.
Esperei eles levarem a carruagem ao curral, escutei guardarem os cavalos, e irem embora. Levantei o mais rápido, peguei meu arco e olhei minha adaga recém-ganhada, não queria usar ela hoje... Mas se necessário o faria.
Desci e verifiquei se havia mais alguém, mas pareciam todos terem ido para suas casas. O curral não ficava longe do castelo, então andei até às paredes que pareciam ser do salão principal e voei até uma janela alta.
— Zack...
A visão me fez tremer, o sangue ferver. Coloquei minha mão na janela olhando a sena de Zack ajoelhado no chão.
Ele parecia estar meio dopado ainda, mas não tirou o sorriso do rosto. Correntes prendiam seus braços e pernas. Ao lado dele aqueles mesmos guardas do portão, mas na frente de Zack havia uma figura desconhecida.
Alguém dos cabelos brancos e asas destruídas, todos no salão tinham total respeito ou apenas temem-lhe, deve ser o Rei...
Empurrei a janela levemente para ter uma pequena fresta, onde escutaria a conversa, vejo Zack mudar seu rosto.
— Quem diria que te veria de novo pai.
O homem em sua frente que era seu pai, não falava, apenas o olhava com olhos de raiva e rancor.
— Você é meu único filho capaz de subir ao trono, e você vai.
Então o Rei abaixa a frente de Zack, sorrindo perto de seu rosto.
— Há, mas você vai subir ao trono.
Rosto se Zack se fechou e logo a áurea escura começou a subir de seu corpo, os guardas o seguraram a tempo, os caninos grandes e seus olhos vermelhos, nada daquilo me assustava mais, o rei que apenas fechou o sorriso e voltou a sentar em seu trono.
Logo que ele senta, a frase dita da boca dele me faz levantar.
— Tragam o ferro quente.
Os guardas das laterais acenaram com a cabeça em concordância, e logo buscaram um ferro quente com um símbolo de chifres na ponta, aquilo brilhava vermelho fervente.
O Rei levantou a própria blusa mostrando em seu peito o mesmo símbolo. A calma de Zack se foi junto com a minha, ele começa a se debater em vão.
— Oque faço?...
Se eu atirar com certeza eu morro, ou pior matam o Zack.
— Morrer...
Morando na floresta essa palavra passou poucas vezes em minha mente, acreditei que morreria para lobos ou caçadores, ou até de uma doença, mas morrer por outras pessoas...
— Quem diria...
Enquanto eles rasgam a blusa nas costas e passam algo nas costas de Zack entre as asas, eu preparo meu arco. Mas vejo Zack fazer um movimento que eu já conhecia, ele cheirando o ar.
— Você sempre sabe...
Sussurro para mim mesma. Vejo os olhos dele olhando levemente para mim sem mexer a cabeça, e assim ele começa a se debater de novo. Eu e ele sabemos oque está para acontecer.
Junto toda a raiva e ansiedade acumulada e preparo uma flecha, sabia que não podia errar.
Assim quando o guarda chegou com o ferro incandescente perto de Zack a flecha foi disparada, acertando o pescoço do guarda, ele segura o próprio pescoço por alguns segundos, e logo caindo em seguida.
Os olhos de todos no salão de viraram para a pequena janela onde eu estou, e eu? Os encarava de volta.
Peguei minha adaga e apena voei em direção ao outro guarda, ele era maior que eu e talvez mais forte, mas eu estava rápida e estava indo de cima, assim cai em cima do segundo o acertando também no pescoço.
Com o braço ele tampou o pescoço e o outro ele me segurou, eu sabia que estava tirando a vida de uma pessoa... Mas na hora nem pensei e só terminei o serviço.
Levantei com a roupa antes branca, peguei a chave do guarda e abri as correntes de Zack.
Mas uma coisa notei, ninguém veio para cima de mim, o rei continuou em seu trono apenas olhando. E Zack com sua cabeça baixa e sem as correntes, continuou no mesmo lugar, muita provavelmente estou fazendo a pior escolha, mas não poderia ficar parada.
Levantei e com a adaga na mão andei apreensiva em direção do rei, sabia que iria morrer, mas Zack talvez tivesse uma hipótese de ficar vivo.
O rei continuou no mesmo lugar apenas me olhando, até que escuto a voz de Zack.
— Não faz isso...
Olho para trás e ele ainda em sua forma de demônio e de cabeça baixa.
— Deixa ela.
Sua voz calma me estremeceu, todos no salão olhavam espantados não para os corpos, mas para oque estava para ocorrer.
Fiquei imóvel olhando o rei, que levantou sua mão passando no rosto e limpou o sangue que havia espirrado do seu guarda.
— Quem é essa Zack?
Ele ignorava totalmente a situação de eu querer matar ele.
— Eu vivo na casa dela.
— Uma namorada então, quem diria em Zack.
— Venha até mim, garota.
Olhei para Zack, esperando uma aprovação, ou qualquer ação que fosse, ele não moveu nem mesmo o olhar.
Logo a adrenalina abaixou, e o medo apareceu. Andei até a frente dele, ele esticou a mão pedindo minha adaga.
Apenas fiz oque ele falou sem hesitar, pois, se nem Zack ousava atacar ele em sua forma alterada, quem sou eu. Dei a adaga em sua enorme mão.
E assim sinto essa mesma mão me levantar no ar, e meu ar sumir.
Seguro e arranho seus braços, mas ele nem se move, mesmo com os chutes. Na minha visão que estava começando a ficar embaçada vejo Zack em pé, mas não se aproximou.
— Zack... Vai embora.
Por um segundo senti raiva dele, ele deveria aproveitar e fugir, não deveria ter se apegado a mim, mas quem sou eu para falar isso, não conseguia ficar sem ele.
— Não... Não quero morrer.
Minha vontade de me sacrificar por ele passou ao pensar que ficaria sem ele, me apeguei naquele garoto, e percebo que ele também se apegou a mim quando vejo uma... Lágrima.
Mesmo de cabeça baixa, dava para ver, me senti feliz por um segundo, era importante para alguém mas... Vou perder essa pessoa...
— Vou... Perder.
Acredito que é essa a sensação de perder alguém que amamos... E ela dói...Quando tudo havia ficado escuro escuto uma voz.
— Eu subo ao trono.
Assim me senti cair no chão, a visão voltando lentamente.
— Ótima escolha meu filho.
Assim sinto a mão quente de Zack em meu rosto e um breve sorriso, e o breu tomando forma.
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