Não quero ficar pra baixo dessa vez

Afogar minha vontade de voar

Aqui na escuridão, eu conheço eu mesma

Não me prenda antes que eu me liberte

Deixe-me ir

– Lithium — Evanescence.

X

Não foi exatamente uma viagem. Apenas a sensação de aparatar com uma pequena dor no quadril. E então, de repente, a cabana estava a vista. Andaram lado a lado para evitar que porventura o laço invisível entre os dois gerassem dor. Depois, apenas abriram a porta da frente em silêncio e se sentaram, em lados diferentes, no sofá.

Algo pulou no sofá entre eles. Steve os olhava com os olhos grandes e Hermione sorriu, o puxando para o colo.

– Fiquei preocupada com você, garotão — disse, acariciando o cão carinhosamente. Notou que o loiro a olhava pelo cantos dos olhos — O que foi?

– É estranho você se preocupar com um bicho, deveria se preocupar mais com a possibilidade de seu pescoço ser cortado durante a noite — ele deu em ombros.

– E quem iria cortar? — a morena bufou — Você?

– Talvez.

– Não teria estômago para me matar. Ficaria com medo de ficar sozinho de novo, tenho certeza. Faz parte da natureza humana querer companhia — Hermione respondeu de maneira inteligente e decidiu ignorar totalmente quando ele olhou para o outro lado — Iria cair... naquela sua rotina, antes de eu chegar.

Os olhos cinzentos se viraram para ela em uma mistura de raiva e orgulho ferido. Obviamente em algum momento daquele dia, ela teria que o irritar de alguma maneira. Hermione Granger não conseguia manter sua boca calada. Assim, seus ouvidos de encheriam de coisas idiotas e inúteis que novamente iriam fazer seu sangue borbulhar em ódio.

– Está dizendo que não consigo viver sem você, Granger? Escute bem, eu fiz isso minha vida inteira. Detestei você. E posso continuar a fazer isso com o maior prazer do mundo. Não preciso da sua presença inútil, do seu cheiro de sangue sujo ou de suas frases que misturam em mim uma vontade de rir e vomitar. Vou ignorar você de agora em diante, se é esse o seu desejo.

E então o loiro saiu da sala incrivelmente rápido, como se o ar o queimasse. Hermione ergueu uma sobrancelha e sentiu novamente aquele enformigamento que indicava que a distância entre os dois, se aumentasse, causaria dor. Escutou o som da porta bater e então, depois de uns momentos, o som do violino. Ele estava tocando uma melodia rápida e ela conseguia imaginar ele apertando as cordas com força.

– Ele vai voltar, Steve — disse para o cãozinho em seu colo — E eu vou provar que estou certa mais uma vez.

Ela então se levantou, caminhando em passos lentos para seu quarto. Abriu a porta e usou um fósforo para ligar a lanterna a óleo. Odiava como tudo em Barton Hollow era tão antigo. Quando a luz iluminou o cômodo, deu um pulo para trás percebendo que já havia alguém ali. Imogen sorriu com seu rosto fantasmagórico, um sorriso esculpido em pedra.

– Mil perdões, não queria assusta-lá — disse, sentada na cama — Apenas trouxe roupas novas. Creio que aqueles vestidos já estavam um tanto quanto enjoativos.

A morena colocou seus olhos em três vestidos. Eram lindos. O preto chamou sua atenção por causa das pedras de brilhante em sua extensão. Porém, eram todos longos e antigos. Pesados e desconfortáveis. Mas Imogen não parecia ser o tipo de jovem que aceitava presentes de volta.

– Eu agradeço — tentou sorrir — Mas não sou o tipo de garota que se preocupa com roupas.

– Não me parece ser o tipo de garota que se preocupa com a aparência em geral. Alguém deve tomar conta disso por você, alguma servente, presumo — Imogen a olhou de cima a baixo. Hermione sentiu vontade de gritar que não existiam mais serventes e que era rude chamar alguém de feia tão abertamente, mas decidiu ficar calada — Meus corvos poderiam tomar conta disso.

– Não me interesso em ficar bonita — disse rapidamente — Sem ofenças.

– Mulheres não ficam bonitas para si mesmas. Mulheres ficam bonitas para atrair os homens as suas jaulas — Imogen riu, soando mais como um eco. Se aproximando, com seus passos não fazendo ruído algum, ergueu a cabeça da morena — E seu homem precisa de um incentivo.

E então ela sentiu vontade de gritar que Malfoy não era de forma alguma seu homem. Mas novamente, Imogen já sabia disso. Provavelmente queria a testar, ou não estaria ali.

– Vou usar um dos vestidos — falou finalmente.

– Excelente. Hoje é uma noite adorável para usar o negro. É uma cor que demonstra tantos sentimentos — Imogen coçou o queixo e então, ergueu seus olhos dourados para Hermione — Diga-me, Srta. Granger, conhece os pecados capitais?

Respirou fundo.

– Sim, na verdade, eu sei muitas coisas — riu nervosamente, roçando seus dedos uns contra os outros em seu colo — Me chamavam de a bruxa mais brilhante da minha idade e os pecados capitais são muito conhecidos e...

– Não foi isso que eu perguntei, embora aprecie pessoas inteligentes. Elas são incrivelmente irritantes quando tentam desviar meus assuntos — A mulher de cabelos negros ergueu uma sobrancelha — Então sabe, com toda certeza, o que é a luxúria. O prazer carnal, a vontade de seduzir um homem para sua cama, não sabe Srta.Granger? Deixe-me contar uma história. Um casal veio aqui, a cinquenta anos atrás. Uma mulher linda que pregava a luxúria acima de tudo e um homem que acabou se encantando por ela. Eu, me encantei por ele e peguei a luxúria para mim. Quando eu o toquei verdadeiramente, ele queimou e ela se tornou uma alma vagante de Barton Hollow. Um dos corvos. Um de meus servos. Ela morreu na beira do desejo.

– Está me falando que...?

– Não existe luxúria sem amor. Ela não o amava, o desejava. Eu o amei antes de o desejar, e o tive... mas minha maldição o tirou de mim — Imogen contou, solenemente — Se ele a deseja, se ele toca essa melodia no violino, é porque a quer. Apenas não percebeu isso ainda. Tenha uma boa madrugada, Srta. Granger.

E então ela sumiu em um sopro de ar, deixando Hermione parada no mesmo lugar. Suspirando, tirou os sapatos e caminhou até a cama. Foi então, quando esticou os dedos para tocar o cobertor de lã, que sentiu uma dor ardente. Gritou e de longe, ouviu o grito de Malfoy no andar de cima. Se levantou em um pulo e cambaleando, tentou subir as escadas. A dor era alucinante, quase tirando sua percepção de onde estava e para onde estava indo.

Felizmente, ele havia abrido a porta. Estava com uma expressão de dor tão profunda quanto a dela e isso fez a morena se sentir um pouquinho melhor. Quase se arrastando, sentido as pernas tremerem, pegou o braço dele e desmoronou no chão. A dor finalmente estava indo embora, porém, deixava uma lembrança. Não podiam se afastar mais. Cômodo. O mesmo cômodo.

– Que merda foi essa? — ele rosnou, tentando pegar fôlego. Se levantou e caminhou em volta.

– Minha cama...estava indo dormir — decidiu não contar sobre a visita de Imogen — Mas parece que estávamos muito longe.

– Você acha?! — ele zombou, passando a mão pelo cabelo platinado — E agora o que, Granger, você vai ter que dormir no sofá?! Não, é melhor que durma no chão. Não quero acordar sentindo essa porcaria de dor novamente.

– Não seria bom se eu ficasse lá em baixo. E não haja como se essa dor fosse culpa minha, porque não é. Eu não pedi por isso — Hermione finalmente conseguiu se levantar, escorando-se na parede de madeira — Acho melhor eu dormir aqui.

– Já está tentando dormir comigo? — ele riu seco — Não estou interessado.

– Ora, desculpe se eu acabei com seu plano imbecil de me ignorar sendo que estamos presos nessa maldita cabana, Malfoy! — Hermione exclamou, erguendo os braços — Não sabia que poderia agir de maneira tão infantil. Sabe muito bem que se eu for lá em baixo, a chance da dor voltar aumenta. Precisamos agir com lógica.

– O pouco de lógica que nos resta — Draco rosnou — Está bem, mas durma no chão. Não vou compartilhar a cama com você e muito menos te oferecer. Essa ideia de merda foi sua, e já que não podemos usar magia nessa bosta de lugar, o problema é totalmente seu.

A voz dele deixava claro que não haveria discussão sobre o assunto, então ela apenas assentiu. Poderia brigar a noite inteira, mas sabia que não iria dar em nada. Além disso, estava dolorida e com uma dor de cabeça que parecia somente aumentar. Se discutir com Malfoy por causa da cama, poderia explodir finalmente. Suspirou mais uma vez, cada vez mais, parecia perder sua verdadeira personalidade.

Caminhou calmamente até a estante, olhando o títulos dos livros. Suspirando, se sentou no chão com qualquer um, não se dando eu luxo de olhar a capa.

– Sinto falta de ler — falou em voz alta.

– Não sei se percebeu — Malfoy começou — Mas esse lugar está cheio de livros.

– Claro que percebi. Mas metade dos livros são sobre magia negra e a outra metade, histórias de romances antigos ou coisas do tipo. Gosto realmente de ler, mas de preferência livros bons — não sabia porque se deu ao luxo de explicar — Livros escolares, por exemplo. Sempre há novas coisas para aprender. Coisas úteis.

– Magia negra útil, Granger — ele deu em ombros, sentado na cama. A olhava, estudando seu rosto e então, ela se sentiu incrivelmente desconfortável — Principalmente quando estamos no meio de uma guerra.

– Talvez. Mas nem tanto. A Ordem não usa magia negra — ergueu o queixo orgulhosamente — E você, Malfoy, gosta de livros?

– Não.

– Mentiroso! — ela o acusou, mas o loiro a olhou sem emoção, apenas com uma sobrancelha erguida — Eu sempre o via na biblioteca em Hogwarts.

– Hogwarts era uma escola. Uma escola chata, velha, fedida com gente tão chata, velha e fedida quanto — Malfoy desdenhou — Mas mesmo assim uma escola. E, como você sabe, já que eles são a razão de sua existência, escolas tem exames. Eu não ia na biblioteca por prazer.

– Bem, você tinha que tentar ter as mesmas notas que eu… devia ser muito difícil, realmente — ela fechou o livro que segurava e se levantou, para o colocar na estante novamente — Ou, apenas tem vergonha de revelar que é um rato de biblioteca assim como eu.

– Eu não sei o ponto dessa conversa — Draco rosnou — Já que é passado e somos adultos agora. Isso se você, Granger, não cresceu mentalmente de maneira completa.

– Eu cresci mentalmente antes de todo mundo. Principalmente de você — a morena suspirou, passando a mão pelos cabelos — É melhor aceitar isso mais cedo ou mais tarde antes que comece a doer. Agora, se me da licença, vou tomar banho. No seu banheiro, uhn, para garantir que a dor não volte.

Draco não comentou mais nada depois disso, mas ela jurou que o ouviu resmungar algo sob a respiração. Algo incoerente, porém, já que ela não conseguiu identificar suas palavras. Suspirando, caminhou até a portinha, a fechando.

X

Era a primeira reunião da Ordem depois do acidente com Rebastian. O mesmo se encontrava sentado em uma das cadeiras de madeira escuras, olhando em volta curioso. Não era como a reunião dos Comensais. As luzes estavam ligadas, não havia um ser que deixou de ser humano no fim da mesa e a mulher Weasley estava fazendo comida para todos. Havia até mesmo algumas crianças, embora ele não quis deixar ser incomodado pelos sons irritantes que elas faziam.

Remus Lupin não havia mudado tanto, além de sua aparência sempre cansada. Ao seu lado, sua esposa — Tonks, talvez? Não se importava — segurava sua mão de maneira confortante. Sabia porque o homem se sentia tão desconfortável ali. Por causa dele. Esse fato o fez sorrir arrogantemente.

– A reunião pode começar, Kingsley? — Lupin perguntou, finalmente quebrando o silêncio — Preciso tomar minha poção daqui algumas horas.

– Na verdade, hoje não é lua cheia — Tonks o olhou feio — Acontece que o coitadinho do Teddy está começando a se cansar. Minha mãe não cala a boca, então não fico surpresa.

Kingsley assentiu com a cabeça, sorrindo. Mais pessoas entraram no cômodo, os jovens principalmente, entre eles, Pansy, que se sentou ao seu lado com um sorriso de lado. Rebastian viu como a garota Weasley se sentou no lado de Potter, como sempre. E de frente para Zabini, que levantou uma sobrancelha quando ela se aproximou.

Eram todos tão patéticos.

– Sinto muito se fazem todos tão desconfortáveis em sua própria casa — disse, se escorando no encosto e sorrindo de lado — Não era minha intenção.

– Oh, que isso, cara — um dos gêmeos falou.

– Essa casa nem é nossa — o outro completou.

– A nossa meio que se explodiu e sabe…

–... a obra não terminou — um deu em ombros — Você-sabe-quem contratou todos os pedreiros para fazer uma sauna pública no Beco Diagonal.

– Fred e George, isso aqui é uma reunião séria e é melhor nenhum dos dois incomodarem o Sr. Lestrange! Estão me ouvindo?! — Molly Weasley ralhou, colocando um prato de biscoitos no centro da mesa. A mulher se virou para ele com um sorriso calmo — Me desculpe. Esses dois são realmente mal educados. Sinta-se a vontade.

Sabia que ela não falava sério, eram apenas cordialidades. Kingsley finalmente começou a reunião. Rebastian falou quando era lhe mandado e o mesmo acontecia com todos. Potter era aquele que mais falava — duh — sempre dizendo o que pensava sobre os planos e quem era mais indicado a ir. Gina Weasley quase sempre concordava, o apoiando sempre. Era meloso demais para o irmão Lestrange. Ela não era como Pansy, que gritava palavrões ao alto de seus pulmões. Rebastian a achou incrivelmente nojenta.

Bem” pensou “Deve ser por isso que ela combina tão bem com Potter”.

A porta da cozinha se abriu com um estrondo e, sem camisa, mostrando todas suas tatuagens — incluindo a Marca Negra — Theodore Nott entrou totalmente bêbado. Segurava uma garrafa de Firewhiskey em sua mão. Cambaleava, fazendo o líquido vermelho se mexer junto com ele. Parecia totalmente fora de sí.

– Essa não! — ele exclamou, olhando para todos surpresos — Não me diga que eu perdi essa reunião tão divertida!

– Ah, Theo… — Pansy resmungou, se levantando.

– Não. Não precise se incomodar, Srta.Parkinson — Narcisa falou pela primeira vez naquela noite, olhando o garoto mais novo de cima a baixo com um olhar reprovador — O Sr.Nott vai conseguir achar sua própria cadeira.

Pansy se sentou novamente com o olhar que a mulher mais velha lhe deu. Rebastian pegou sua mão gelada por baixo da mesa, notando que suas unhas curtas estavam pintadas de preto. Ergueu seu olhar novamente para o garoto bêbado no cômodo, que agora estava andando soluçando — quando ele havia começado a chorar? — se escorando nas paredes para conseguir se sentar na única cadeira vazia.

– E-eu… — Theo tentou engolir o choro para falar, falhando miseravelmente — E-eu n-não consigo… m-mais…

– Sra.Malfoy, acho que ele precisa ir para a enfermaria. Está muito bêbado. Talvez uma poção ajude… — Gui Weasley sugeriu e ao seu lado, Fleur concordou com a cabeça — Posso o acompanhar se assim desejar.

– Não! Não! Enfermaria não! Agulhas, odeio agulhas, elas fincam. Gosto de coisas que fincam, mas agulhas não! — Theo gritou, erguendo as mãos. Blaise tentou fazer ele se sentar, mas o moreno fugiu de seu toque, como se o mesmo queimasse.

– Acho que será preciso sim, Sr.Weasley, e obrigada — Narcisa sorriu educadamente. Quando o ruivo e Theo sumiram, ela escondeu seu rosto entre as mãos — Que garoto tolo, tolo! Não consigo acreditar que ele fez isso. Peço desculpas a todos por esse incomodo.

– Jovens gostam de fazer loucuras — Tonks deu em ombros e Narcisa a olhou de maneira estranha — Mamãe me contou umas histórias de quando você era jovem e…

– Ninfadora, pare — Kingsley advertiu — Acho que a Sra.Malfoy está ciente de seu passado.

– Não me chame de Ninfadora! — Tonks exclamou, mudando seus cabelos para a cor rosa chiclete tão conhecida. Suspirando, se virou para a loira com um pequeno sorriso. Estendeu sua mão para a dela — Desculpe, devia saber o quão difícil deve estar sendo.

– Entendo, querida. Não se preocupe — Narcisa tentou sorrir — De qualquer maneira, irei conversar com o Sr.Nott mais tarde. Ele está sob minha responsabilidade afinal de contas. Podem prosseguir com a reunião, acho que não vamos ter mais interrupções.

Todos assentiram com a cabeça, embora ainda um tanto desconfortáveis com o que havia acontecido. Rebastian apenas observava, encontrando a situação inteira divertida.

Enquanto isso acontecia, na sala ao lado Theo era arrastado por Gui Weasley até uma maca. Resmungava tantos palavrões que Gui achou que seria até mesmo melhor colocar uma meia suja na boca do garoto. Madame Pomfrey entrou as pressas, segurando várias poções coloridas em seus braços. A mulher deu um olhar de desaprovação para o menino na maca.

– Esses jovens que entram no mundo da bebida — ela balançou a cabeça e cuidou de Theo em silêncio, o fazendo beber o líquido transparente a força — Pronto, isso deve resolver.

Theo começou a tossir e a piscar os olhos várias vezes. Em um pulo, se sentou na cama. Madame Pomfrey balançou a cabeça mais uma vez antes de sair da sala. Gui ficou cuidando o garoto, preparado caso ele quisesse vomitar, mesmo esta não sendo sua ideia de noite perfeita. A porta se abriu e Fleur entrou, com Victoire segurando sua perna.

– O que aconteceu? — Theo perguntou em uma voz fraca.

– Você estava bêbado demais. Tivemos que lhe dar uma poção para ficar sóbrio — Gui respondeu, dando em ombros. Theo continuou a olhar em volta.

– E acharam que eu não estava feliz bêbado? — ele bufou, jogando sua cabeça para trás no travesseiro — Eu sempre estou mais feliz bêbado.

Foi então que ele sentiu uma mão pequena contra sua perna coberta pelo lençol fino. Uma menininha loira, com cabelos quase prateados e olhos azuis brilhantes estava o cutucando de uma maneira irritante. Ou melhor, uma maneira tão irritante que somente crianças conseguiam chegar aquele nível. Ela estava lhe estendendo uma barra pequena de chocolate que já estava parcialmente mordida.

– Pega, pega! — Victoire exclamou, mexendo o chocolate.

Theo apenas ergueu uma sobrancelha.

– Victoire acha que chocolate vai fazerr você se sentirr melhorr — Fleur explicou, tentando sorrir com a situação um tanto, ahn, estranha — Ela acha suas tatuagens legais.

Theo finalmente pegou o chocolate.

– Obrigado, baixinha — ele bagunçou seu cabelo loiro — Eu posso fazer umas tatuagens em você quando crescer. E você foi a única que ficou do meu lado quando eu fiz aquela entrada triunfal ali atrás.

– Minha filha não vai ter nenhuma tatuagem, agradecido — Gui disse firmemente e Theo teve que segurar a vontade de rir. O ruivo mais velho se virou para a esposa — Não está na hora dela dormir? Achei que ela deveria estar cansada. Brincou o dia inteiro com Teddy.

– Teddy puxa os cabelos dela — Fleur disse, dando em ombros, como se isso explicasse tudo.

– Ah, então a baixinha tem um admirador — Theo sorriu ainda mais largamente. Victoire apenas o olhou confusa — Garotos puxam os cabelos das garotas que eles gostam.

– Teddy não gosta de mim, ele tira a cabeça das minhas bonecas — Victoire balançou a cabeça — E garotos são nojentos!

– Ótimo — Gui concordou — Continue pensando assim até os trinta anos.

Theo riu um pouco e observou os três saírem do cômodo. Ficou comendo seu chocolate, pensando em como aquele lugar era confortável da maneira mais esquisita. Poderia se sentir em casa se não estivesse tão quebrado por dentro. A razão de perder os sentidos. Ver a pessoa que amava com outra o quebrou por dentro, nada poderia o quebrar mais se começasse a se importar com os outros. Era ele contra o mundo. Somente ele.

X

O banheiro de Malfoy era maior que o do andar de baixo. Havia uma banheira gigante para começo de conversa. Os dois elfos domésticos trouxeram seus vestidos e roupas de baixo, assim como mais alguns produtos de higiene. Hermione agradeceu e disse que eles poderiam se retirar, já que ela gostaria de um pouco de privacidade. Quando já estava sozinha, se despiu e entrou na água quente. A sensação a relaxou de diversas formas. Bem, tirando o fato que estava separada apenas por uma parede de um homem o qual era seu pior inimigo. Ela estava nua. E ele poderia abrir a porta e a pegar naquele estado. Qual seria sua reação?

Balançou a cabeça. Não poderia pensar nessas coisas. Se lavou, fez sua higiene completamente e saiu da água, caminhando até a parede onde sua toalha estava pendurada. Quando a tocou, escutou o som de passos do outro lado e se sentiu observada. Já havia sentido isso na primeira vez que havia tomado banho na cabana, e então coisas estranhas aconteceram. O que poderia acontecer agora?

– Granger — ela escutou a voz abafada de Malfoy — Granger, por favor, abra a porta.

Olhou para a toalha em suas mãos. Algo em sua mente e pedia para abrir a porta da maneira que estava agora. No fundo, no poço de seus pensamentos. A voz de Imogen falando sobre lúxuria os encheu e em dois passos, havia girado a maçaneta.

Só percebeu o que havia feito quando os olhos cinzentos encontraram os seus. Deu dois passos para trás e abriu a boca, pronta para o mandar ir embora ou xingar a si mesma — tinha vontade de fazer os dois — mas não foi necessário. Malfoy usou sua de suas mãos para pegar seus braços e a outra, seu pulso, usando toda sua força para o torcer em direção ao chão. Hermione gritou de dor e iria usar toda sua força para o empurrar longe, mesmo sabendo que seria inútil. E, então, ele começou a caminhar, a empurrando contra a parede do quarto para onde havia a puxado. A morena tentou gritar de dor mais uma vez, mas então, algo cobriu a sua boca.

A boca dele. De maneira tão violenta, assim como ele havia a tratado. Violenta como as palavras que ele usava em suas discussões — mas ela não era santa, não mesmo, sempre o retrucou da mesma maneira — e foi isso que fez. Enquanto a mão de Draco estava em seu pulso e a outra cobria o seu seio desnudo, ele a beijava de maneira arrebatadora. Hermione gemeu, mas não de prazer. Mas de puro ódio com si mesma pela estupidez. Imogen sabia o tempo inteiro o que iria acontecer. E ela tinha suspeitas que a voz do fundo de sua mente pertencia a Rainha dos Corvos. Com toda a força que lhe restava, Hermione empurrou Draco para longe, o fazendo dar dois passos para trás. Obviamente não encontrou nada que mostrasse remorço, apenas olhos negros de desejo.

Sentiu o gosto de metal na boca. Passou os dedos em seus lábios. Estava sangrando.

– Por que fez isso? — perguntou em um sussurro. Ele não respondeu, apenas olhava o seu corpo — Você é um monstro, Malfoy. Sempre foi.

– Eu não preciso da sua piedade — ele conseguiu dizer.

– Piedade? Não sinto piedade por você. Apenas nojo e ódio — Hermione não havia percebido, mas estava chorando — Como ousa me tocar assim? Como ousa… como ousa me beijar?!

– Eu nunca quis tocar você — Draco rosnou, passando a mão pelos cabelos e fechando os olhos como se estivesse com dor. Hermione apenas o observava, chorando, parada no lugar como uma estátua — E-eu… não quero lhe tocar.

– Assim como não queria me tocar agora?! — Hermione quase berrou, chorando ainda mais — Assim como não queria me tocar naquele beco?!

Draco, em um surto, finalmente explodindo toda sua raiva, jogou o lampião na parede, o fazendo quebrar em mil pedacinhos de vidro e o quarto ficar em total escuridão, apenas com a luz da lua vindo da janela. Hermione puxou o lençol vermelho da cama e se enrolou, cobrindo sua nudez, mesmo já sendo tarde demais. Correu para fora do quarto em meio a soluços. Não queria sentir mais dor, então, apenas se sentou na escada. Não havia ninguém para a confortar naquele momento difícil. Harry não estava ali para lhe dizer palavras calmantes, Ron não estava ali para a fazer rir mesmo a situação sendo difícil e Gina não estava ali para xingar a vida junto com ela. Hermione estava completamente sozinha e quebrada por dentro. Ao menos, queria se sentir quebrada e violada, mas esses pensamentos pareciam ir embora.

Se sentia amaldiçoada em ficar ali com seu inimigo e, ao mesmo tempo, sentir que seu ódio por ele, que tanto aclamava ainda arder como o fogo, ter se tornado cinzas.

– O que aconteceu comigo? — se perguntou em um sussurro, escondendo o rosto entre as mãos.

Havia lido em algum lugar que a mente prega peças e que as pessoas sentem o que elas veem. Assim, quando alguém diz que a cor preta é o branco, elas vão sentir o que a cor preta representa para elas, mesmo com a fala. Hermione sentia o que ela via e naquele momento, não era ódio. Era solidão. Era estar sentada em uma escadaria com a necessidade de alguém, no meio do escuro. Era ter conhecido seu inimigo tão bem, tanto quanto conhecia seus melhores amigos.

Foi então que escutou o som do violino.

Malfoy tocava uma melodia baixa, tão baixa que se ela tivesse ido para o andar de baixo, talvez não teria escutado. Sabia o que isso significava. Ele estava triste, provavelmente sentindo as mesmas coisas que ela. Hermione Granger nunca se sentiu tão culpada. Ambos haviam sido manipulados pelos sentidos, pela ilusão de Imogen, e sentiram aquilo que foram mandados a sentir. Lentamente, ela se levantou do degrau e apertando o lençol ainda mais contra seu corpo, voltou ao quarto.

A porta ainda estava aberta. Draco estava no centro, o violino no queixo, tocando tão lindamente. Ela sempre gostou de música clássica. Bethoven, por exemplo. Porém as composições do loiro eram tragicamente lindas. Poderiam fazer qualquer um chorar e se perguntar se estavam chorando de alegria ou de tristeza.

Tragicamente lindas, assim como os dois.

– Posso dormir aqui? — perguntou, hesitante.

Ele a olhou confuso e abaixou o instrumento, o deixando de lado. Se aproximou lentamente e se sentou na beira da cama, apoiando os cotovelos no joelho. Hermione viu como o cabelo claro cobriu o rosto com o movimento.

– Por que? — Draco perguntou com a voz rouca.

Hermione deu em ombros, sentindo as lágrimas voltarem aos olhos.

– Sinto dor quando não estou perto de você — disse por fim.

Ele não sorriu, mas assentiu com a cabeça. Hermione se aproximou ainda mais e então, rápido, ele a puxou para junto consigo na cama. A primeira coisa que sentiu foi a respiração dele contra o rosto e então, depois, sentiu seus lábios tocarem os seus pela segunda vez naquela noite. Não eram gentis, mas também, não eram violentos. Não tinham gosto de sangue, o que ela havia esperado por ter tido o lábio cortado. E então, ele puxou o lençol, a deixando nua mais uma vez.

Beijos na mandíbula, no queixo, descendo para a clavícula, até os seios. Uma mão, massageando, a boca no outro. Hermione jogou a cabeça para trás, dando um gemido. Os beijos desceram cada vez mais, chegando a sua barriga e, gentilmente, ele abriu suas pernas. Sua língua encontrou seu centro, lambando, chupando. Se havia uma sensação de encontrar a escadaria para o céu, com certeza era essa, Hermione decidiu. Não era virgem, se havia algo que temia quando a guerra começou, era ser capturada e violentada. Com um trouxa, a perdeu. Mas isso não era fazer amor. Era apenas sexo. Lúxuria. Vontade de ser tocada para se sentir menos solitada.

Malfoy parou. Em algum momento entre os beijos quentes, havia perdido a camisa. Hermione passou as mãos, hesitantes, por seu peito. Ele não havia feito a barba, pelo menos, não muito bem. Era lindo, não negaria, e isso a fazia se sentir ainda pior. Algo bom, com alguém tão diferente. Passou suas mãos pequenas por seu rosto, enquanto ele a encarava em retorno. Sentados de frente par ao outro na cama, como se vissem pela primeira vez.

– Quando eu a salvei, Granger — ele disse calmamente, a voz um simples sussurro — Eu destruí a mim mesmo.


Não teve tempo para responder, já que ele colou seus lábios nos seus mais uma vez. Tiraram o que sobrou de tecido entre os dois e então, ele estava dentro dela. Hermione soltava gritos baixos, altos, e aumentavam a cada movimento. Draco fazia sons no fundo da garganta. Quando ambos chegaram a um orgasmo, em sintonia quase perfeita, ele saiu de cima dela. A morena ficou encarando o teto, não pensando nas consequências apenas por um breve período de tempo. Eles não se abraçaram, apenas se encararam antes dele virar suas costas para ela. Hermione apenas suspirou e fechou os olhos, sabendo que, pela primeira vez em muitas noites, iria dormir satisfeita mas que durante a manhã, a culpa chegaria com uma força arrebatadora.

Notas finais
Primeiro de tudo, eu sou péssima em smut. Sério. Eu sinto muito vergonha em escrever detalhes, então, gente, me perdoem se foi um tanto ruim. MAS E AI CUPCAKES, COMO ESTÃO!? Nossa, eu demorei para escrever esse daqui. Três dias escrevendo os 3 trechos, sério. O tempo é uma bosta para mim, mas espero que tenham gostado dessa finalmente agarração entre os dois. Espero que tenha sido realista, porque bem... quem já leu minhas fics anteriores sabe como geralmente o first kiss desse casal funciona. Eu não respondi os comentários desse último capítulo, maaas eu vou responder os desse! Yay! Eu tenho muto a agradecer, principalmente pelo apoio incrível que vocês sempre me dão ♥ vocês são tão amores que começam a me mimar e acreditem, vocês não querem que isso aconteça. Eu não me lembro se já agradeci! Sério, eu tenho péssimos problemas de memória e eu to com preguiça de voltar as notas anteriores. Obrigada Anne Lizzy Bastos pela recomendação maravilhosamente diva e também por seu apoio que significa muito para mim! ♥ Muito obrigada mesmo. Ah e quem quiser entrar no grupo do Whats pode vir falar comigo ok? Eu e as gurias vamos amar, sério. Acho que é isso... é. Acho que é. Ai minha memória. Enfim, espero ver vocês de novo no próximo porque vou trazer comida. Torta! PORQUE EU FAÇO QUINZE NO PRÓXIMO SÁBADO GENTE. TUTS TUTS TUTS QUERO VER TUTS TUTS E ESTÃO CONVIDADOS PARA MINHA FESTA! (mentira eu não vou fazer festa, mas shhh) Então é isso gente! Beeeeeeijos sabor Icey :*