Por mais que eu queira

Que o passado não exista

Ele ainda existe

E por mais que eu queira sentir que pertenço a esse lugar

Me sinto tão assustada quanto você

Evanescence — Lost in Paradise

X

Quando ela acordou novamente, não sabendo quanto tempo havia se passado, percebeu que a única luz do quarto havia sido extinta. Olhou em volta e percebeu que estava novamente na cama não tão confortável e que ainda usava o vestido longo — tão longo que ultrapassava seus pés — com o tecido tão leve contra sua pele.

Foi até a maçaneta e a girou, espantada ao ver que estava trancada. O que aconteceu antes veio a sua mente, assim como a face de Malfoy. "Surpresa, Granger" ele havia dito. E que surpresa, de longe não uma das mais agradáveis. Hermione tinha certeza do porquê estar ali. Ele a daria em troca de uma nova confiança para com o Lorde das Trevas, sem dúvidas. Ela precisava fugir, e agora.

No momento que ela correu até a janela, na esperança de a abrir e pular, um pequeno dragão de papel voou até ele, pousando em seu ombro. Confusa, ela o desdobrou, não sabendo muito bem de onde ele havia vindo já que o cômodo todo não parecia ter nenhuma entrada de ar.

"Granger, fico feliz em saber que está acordada. Sei que tem muitas dúvidas em sua mente e acredite, eu também tenho muitas na minha. Venha até a sala para que possamos ter uma conversa civilizada, porém eu não prometo nada."

Não precisava pensar muito para saber quem havia escrito aquele bilhete. O dragão de papel se dissolveu em cinzas e caiu ao chão. Sabia que ir até a sala seria como se entregar para um covil de lobos, mas não tinha muita escolha. Poderia continuar com o plano de fugir pela janela mas as chances da mesma estar trancada assim como a porta era enorme. Além, onde essa casa ou cabana ficava? Não poderia dar-se o luxo de se perder.

Foi até a maçaneta de novo, dessa vez, a porta não estava mais trancada. O corredor também era feito com madeira, que parecia ser bastante antiga. Viu uma escada e seus pés faziam a mesma ranger a cada passo. Desceu para um cômodo muito maior com sofás de veludo marrom. A lareira estava acesa. Prendeu a respiração quando viu Malfoy a examinando com os olhos cinzas. O mais estranho, era que ele parecia... apavorado.

– Boa noite — sua voz tremeu e ela percebeu que sua garganta estava seca demais — Recebi o seu bilhete.

Não queria demonstrar que estava com medo, embora estivesse apavorada. Ele estava vestido todo de preto, assim como um Comensal da Morte. Olhando em volta, apreensiva, ela procurou alguma saída. Ficou decepcionada quando percebeu que todas as janelas estavam com cadeados e a única porta — também feita de madeira podre — estava logo atrás do corpo de Malfoy.

– Não há saída, procure o quanto quiser — a voz dele era fria e a cortava — E também não precisa esconder seu medo Granger, é patético.

– Por que me trouxe aqui? O que quer comigo? — as perguntas saíram da sua boca. Hermione percebeu ele sorrindo com o canto dos lábios, e sabia que ele sabia que no momento que ela pisasse aquela sala, as perguntas iriam fluir. O fato parecia o divertir como um dos programas de comédias trouxas — Você não pode ganhar nada comigo, Malfoy, no momento em que a Ordem souber que eu estou desaparecida...

Ele riu alto. Hermione o olhou com raiva pura.

– A Ordem já deve ter percebido isso dias atrás, quando você não retornou. Você poe muita fé neles, Granger. Acha que eles arriscariam os poucos membros que sobraram apenas para a sangue-ruim, princesa da Grifinória? — o sorriso dele mostrava os caninos pontudos. Ela percebeu, também, que ele estava com uma barba rala. Sua aparência era a mais cansada o que ela havia visto nele desde o sexto ano — Além disso, eles nunca iriam descobrir esse lugar, você está presa aqui. Assim como eu.

A raiva que entrou dentro dela pareceu querer explodir. Ela sentiu vontade de chorar em frustração. Mas não era apenas pelo o que ele havia dito, mas também por ser Draco Malfoy quem estava com a vantagem sobre ela. O sorriso irritante, que ela havia convivido durante seis anos, estava de volta, depois de um longo tempo. Um tempo em que a Ordem havia caçado sua família e o caçado. E agora ele estava aqui, na sua frente, e esse fato a fez se sentir com nojo.

Ela correu até ele e o empurrou com toda sua força, finalmente o sorriso em seu rosto indo embora, dando lugar ao ódio e a raiva. O peso de seu corpo fez com que um lampião caísse de uma pequena mesa, quebrando aos cacos. O olhar que Malfoy lhe deua fez tremer um pouco, não sabendo mais se era da raiva em si ou... do medo. Medo. Deuses.

– Nunca mais me toque de novo, sangue-ruim — ele pegou seu braço com força e Hermione repeliu um grito de dor quando ele o girou — Está me entendendo? Você não tem o direito de me tocar. E agora, você vai ficar no seu quarto até aprender a se comportar.

Ele deu dois gritos, como "Antom e Atus". Duas criaturas pegaram Hermione pelas pernas. Eram elfos domésticos. Ela gritou quando eles pegaram nas feridas causadas pelas correntes e a arrastavam pelas escadas, a levando até o quarto. Ela gritava coisas para Malfoy, que a olhava impassível, de pé no meio da sala. Ela viu ele se virar e ir embora, como se nada tivesse acontecido.

Foi jogada no seu quarto. Um dos elfos disse baixinho "o jantar é as onze" antes de sumir ao lado do outro. Hermione abraçou as pernas contra seu peito e deixou poucas lágrimas caírem, não querendo as limpar. O único abraço que tinha agora era o dela mesma. Olhou em volta e viu uma caixinha de fósforos no chão. Ligou o lampião novamente, deixando a luz entrar no quarto.

Sentiu uma fina rajada de vento em sua nuca e se virou. Um pequeno buraco da parede. Prendeu a respiração e correu até ele, quase tropeçando em seu vestido. Espiou o lado de fora, vendo várias árvores um pouco longe. Então, essa cabana ficava em uma clareira. As árvores eram densas, com troncos caídos e a grama verde escura, como se estivesse a ponto de secar e ficar morta. Hermione então, viu Malfoy. Ele havia saído da cabana. Estava prestes a parar de espiar, mas a curiosidade falou mais forte quando ele colocou as mãos na cabeça e se ajoelhou ao chão, girando em confusão. O loiro começou a socar a grama e, embora ela não conseguisse ouvir nada, sabia que ele estava gritando.

Parando de olhar, Hermione ficou de costas contra parede. Não estava mais chorando. Sabia que ele tinha a salvado, mas por que? Que lugar era esse? E principalmente, por que Malfoy havia dito que ela estava presa aqui, assim como ele?

X

Nada na Ordem parecia normal desde que Hermione havia desaparecido. Gina gritou com Kingsley dizendo "Você tem ideia como Harry vai ficar quando souber? Como Ron vai ficar?". Mas ele não disse mais nada. Minerva insistiu para mandarem uma equipe de busca, mas ele retrucou dizendo que não havia pessoas o suficiente e que a maior concentração agora eram as Horcruxes.

– Então me deixem ir! — Gina exclamou, frustrada — Já passei da idade de ficar dentro dessa maldita casa velha.

– Gina, você não pode estar falando sério... — Arthur Weasley disse, passando a mão nas costas da filha de maneira confortante — Hermione é forte o suficiente, sabe se cuidar. É capaz de qualquer momento ela voltar sã e salva para nós.

A porta escolheu esse momento para abrir. O coração da ruiva se apertou ainda mais quando viu Harry e Ron entraram. Ambos pareciam exaustos. Ela viu sua mãe com o canto do olho correr até eles e perguntarem se estavam bem, os abraçarem forte e os levar até a cozinha.

Ela deu um olhar para seu pai como se dissesse "eu cuido disso, ok?".

Ela correu atrás dos dois e viu os outros membros da Ordem a olhando apreensivos. Gina sabia que eles não queriam que ela os contassem o que havia acontecido com Hermione, mas não havia outra maneira. Eles precisavam saber. Tinham o direito de saber.

– E então Daphne Greengrass me deu um soco, ela é forte demais para uma garota — Ron contava animadamente e Gina revirou os olhos por causa do irmão — Harry estava lutando com Zabini, mas parecia estar indo muito bem até que a Greengrass mais nova apareceu, ela tem um bom feitiço de estonamento aquela lá.

Harry olhava distraído para suas mãos, enquanto Ron continuava a contar para Minerva e Kingsley como eles haviam conseguindo sair da casa do pai de Luna. A loira, aliás, parecia ser a única interessada na história. Gina sabia que Luna, na verdade, estava apenas escondendo aquele medo da reação dos garotos quando soubessem que a melhor amiga deles — e interesse romântico de Ron — havia desaparecido.

– Hermione está desaparecida — Gina disse rapidamente, interrompendo o irmão.

Ron finalmente havia parado de falar e ficou pálido, se virando para irmã, finalmente a notando no cômodo. Harry ficou tenso e parou de mexer as mãos em seu colo. O moreno se levantou e foi até a namorada, que o olhou com os olhos azuis sem expressão definida.

– Como assim, ela está desaparecida? — a voz dele era rouca.

E então tudo saiu da boca de Gina, como ela começou a chorar, finalmente depois de esconder aquilo por muito tempo. Kingsley olhava para os jovens com pena embutida, não querendo mostrar que até mesmo ele estava desesperado.

– Inferno sangrento! — Ron gritou — Ela deveria estar aqui, sã e salva! Por que diabos tiveram essa ideia, hã? Hermione não pode se arriscar muito. Vocês sabem o que pode estar acontecendo com ela? Tem? Não, eu... — ele mexeu nos cabelos — Eu não posso acreditar nisso. Não posso.

E então o ruivo subiu as escadas e momentos depois, eles escutarem a porta bater com uma força desnecessária. Gina olhou para Harry e foi até ele, para o abraçar, mostrar que estava sentindo a mesma dor que ele já que afinal, Hermione era sua melhor amiga. O coração dela doeu quando ele se esquivou.

– Agora não, Gina — ele balançou a cabeça — Não estou com cabeça para você nesse momento.

E então ele também subiu as escadas e novamente, uma porta bateu. Gina olhou para os membros da Ordem que a olhavam com pena. A ruiva secou as lágrimas com a manga da camiseta e respirou fundo. Nunca havia se sentido mais humilhada em sua vida.

– Eu preciso ir — disse e viu sua mãe se levantar, então, ergueu uma mão para a interromper — Eu só quero ficar sozinha.

E então, foi a vez dela de subir as escadas.

X

O relógio badalou onze vezes, fazendo Hermione acordar. Novamente, a luz do lampião estava fraca, mas não tinha motivos para ela acender outro fósforo. Naquele momento, ela desejou sua varinha com toda sua vontade possível. Piscou os olhos várias vezes e viu outro dragão de papel a sua frente. Estendendo a mão, o pegou e viu a caligrafia fina de Malfoy. "O jantar está servido" era tudo o que dizia. A palavra jantar a fez perceber que estava com fome e por isso, ela desceu as escadas.

Uma luz mais forte vinha da porta aberta da esquerda. Ela andou até lá, meio receosa pela reação do loiro quando a visse. Ele estava sentado em uma longa mesa de madeira preta e batia os dedos finos e pálidos impacientemente. Seu olhar cinza encontrou os seus castanhos, que dessa vez, não se abalaram. Aquele choque inicial de ser Draco Malfoy a pessoa que a trouxe ali havia ido embora.

Os dois elfos puxaram a cadeira para ela se sentar. Hermione não controlou o "obrigada" que saiu de sua boca, fazendo o loiro do outro lado da mesa levantar uma sobrancelha em questionamento. Ela olhou para a comida em sua frente. Purê, ensopado, e um bolo salgado que a fez ficar com água na boca. Mas o olhar do homem vindo do outro lado a fez se sentir no pior jantar da sua vida.

– Vai ficar me vendo comer? — perguntou, enquanto se servia. Sua voz não tinha raiva, estava mais impassível do que nunca

. — Seus hábitos alimentares pouco me interessam — foi tudo que ele disse, porém, ele não tirou seu olhar dela por um minuto sequer.

Ela o olhou com certa curiosidade. Tentou pegar uma mordida do pedaço de bolo, mas parou na metade quando percebeu que ele ainda o olhava. Colocou o garfo com força contra o prato, fazendo um barulho ecoar pela sala de jantar antiga e um dos elfos — Atus — tremer e perguntar com uma vozinha fina "A comida está agradável, senhora?". Hermione lhe deu um sorriso gentil, antes de se virar para Malfoy com uma carranca.

– A comida está maravilhosa — disse, para o elfo e então se virou para o loiro — Porém a companhia é de longe uma das mais agradáveis. Seria ótimo se parasse de me... olhar.

– Não estou olhando você — disse ele, revirando os olhos — Estou observando suas ações.

– Minhas ações não são interessantes — Hermione falou, calmamente, como se fosse para uma criança. Afinal, por que Malfoy estava agindo de maneira tão estranha? — Nunca viu alguém comer? Não me diga que na enorme Mansão Malfoy vocês comiam em salas de jantar separadas.

– Embora meus pais não eram de longe os mais carinhosos, não, a gente comia em uma sala de jantar maior do que essa em que você está, Granger, embora seu cérebro de sangue-ruim... bem, vamos dizer que deve ser difícil para algo assim entrar em sua pequena mente — Draco rosnou — O fato é que eu não vejo uma pessoa a dois anos. Faz tempo desde a última vez que comi com alguém. Que falei com alguém. Sua companhia é desagradável. Consigo sentir o cheiro do seu sangue daqui e me deixa enjoado.

Hermione dessa fez, fincou a faca na mesa. Ele a olhou sem emoção e os elfos pularam, guinchando. Ela lançou um olhar de desculpa para os dois antes de se levantar, jogando o guardanapo em cima da mesa e erguendo o nariz arrebitado, orgulhosa. Malfoy ergueu uma sobrancelha, como se anotasse cada ação que ela fazia em um bloquinho invisível. Ele sabia exatamente o que ela iria fazer agora.

– Perdi a fome — foi tudo o que a morena disse, antes de sair da sala de jantar, seu vestido branco esvoaçando atrás dela, muito maior do que seu corpo pequeno.

Draco riu baixo. Ele sabia exatamente cada uma de suas ações. Durante anos, ele anotou cada uma delas... sim, ele fez isso. Conhecer o inimigo mais do que conhecia a si próprio e o melhor, não deixava ninguém saber nada sobre ele.

– Preparem um prato e levem para ela mais tarde — disse para os elfos que assentiram — E deixem esse bilhete com a bandeja.

Ele retirou uma pena das vestes, assim como um pergaminho e escreveu com sua caligrafia caprichada: "Bem vinda a Barton Hollow"

Notas finais
Estoy aqui cupcakes! Como eu disse, capítulos todos os finais de semana! E é carnaval! Gente, eu odeio carnaval. Aqui em casa meu vizinho ele... bem, ele invoca um trio elétrico inteiro e eu não consigo dormir, parece o inferno na terra. Muiiiito obrigada por todos aqueles comentários e favoritos. Eu quasse morri quando vi o número em apenas um capítulo. Vocês não tem nem ideia da minha felicidade, eu quase explodi (em ritmo da ragatanga) e por isso eu só tenho a agradecer a vocês. Vocês são fantasticos e cara, nem tenho palavras, sério. Bem, todos os capítulos tem um trecho de música no começo. É tipo o "soundtrack". Se vocês quiserem, escutem a música! Ajuda a entender os sentimentos dos personagens e o ritmo do capítulo ;) nada obrigatório, achei que seria uma ideia interessante afinal. O próximo cap a música vai ser Beijinho no Ombro. Porque Draco odeia as recalcadas. Ok, piada lixo, Ice. Piada lixo. Enfim, espero que tenham gostado desse segundo cap! Aguardem o próximo, pois é quando as tretas começam! Beeeeeeeeeeeeeijos sabor Icey :*