Balaur e a Gema do Dragão [Conto]
3 Capítulo 2
Alguns agradeciam por terem pulado o almoço, enquanto outros praguejavam pela mesma refeição.
A visão de corpos mutilados por todo canto, o cheiro nojento de morte e fezes. Cadáveres que sequer haviam começado a decomposição e serviam de comida para abutres. A quantidade de sangue encontrada naquele salão fora maior que qualquer um deles já viu em sua vida, e a reação natural fora colocar todo o conteúdo estomacal para fora. Clara limpava a boca, sentindo o gosto amargo e o ardor na garganta após vomitar, compartilhando a sensação desgostosa com Douglas e Tanya, essa que estava de joelhos sobre uma poça de sangue. Tentava evitar o vômito, mas este continuava a sair ignorando suas ordens. Já o negro apenas lacrimejava como nunca, mas não de tristeza pelos mortos, mas pela dor que foi colocar todo seu almoço pra fora.
Rafael e os gêmeos permaneceram impassíveis, aquela visão e o cheiro não parecia incômoda-los. E se incomodasse, eles conseguiam disfarçar muito bem.
O loiro procurou nos corpos, descobrir qual dos pedaços pertencia a Dário e com sorte recuperar algum documento que estava consigo na hora da morte. Já os gêmeos foram direto para a outra sala, atravessando o corredor coberto por escombros e portas arrombadas. Ignoravam os corpos, pisando em restos de alguns coitados, e esguichando resto de fezes ao pisar sobre o intestino de um azarado, que teve sua barriga destroçada.
— Droga... — praguejou Doug. — ... eu não imaginava que estava tão ruim assim.
— Realmente... — Clara estava finalmente se recompondo. — Nada ia nos preparar pra isso.
— Parece que quem esteve aqui. — Daniel cortou a reclamação, seguido por Dave que completou. — Já foi embora tem tempo.
— O cofre estava vazio. — Dave tomou a liderança na explicação e Daniel finalizou. — E a sala coberta de mapas, armas e munições.
— De fogo? — perguntou Rafael, desistindo de procurar Dário. — Não sabia que havia dessas por aqui.
— Exatamente! — exclamou Daniel. — Mas não foram roubadas. — terminou Dave.
E aquela informação estranhou a todos. Era conhecimento geral entre os caçadores, que armas de fogo foram extintas há décadas. Deixaram de fazer parte do arsenal dos caçadores e dos membros da Ordem, quando perceberam que matar dragões com ela era mais arriscado que benéfico. Um disparo atraia outros dragões e uma batalha que já era difícil, se tornava mortal. Bem, pelo menos para os humanos. Clara e Rafael foram os mais astutos, e imediatamente entenderam que havia algo mais importante que armas extintas naquele cofre. Para ignorarem algo que valeria vidas no mercado negro. Um cartucho de qualquer arma de fogo era o suficiente para comprar mantimentos por um ano inteiro, e não só cartuchos, como armas foram deixadas para trás.
Um frio percorreu a espinha de Clara, que ao fitar Rafael, notara que o mesmo acontecia com ele. A missão havia acabado de se tornar ainda mais perigosa. E essa informação seria o suficiente para obrigar o líder da companhia há organizar um esquadrão maior, talvez todos os presentes lá, e assim resolver essa situação.
— Nós precisa- — Clara tentava falar, mas fora interrompida. Rafael fizera um gesto para que parasse.
— Seja o que for que tinha ali dentro, valia a vida desses trinta homens e mulheres. — Rafael forçava a voz. Clara notou a insegurança em sua voz. — Precisamos ir, logo.
— Rafael! — Clara se impôs. — Você tem certeza?
O olhar dela dizia tudo. Em uma troca de olhar ela reclamou de sua decisão, ele sabia que ela estava certa. Recuar e pedir por reforço era o correto. Assim como ela sabia que isso poderia fazê-los perder o rastro, e nunca encontrar sua caça.
— Tenho. — ele foi duro na resposta. — Se recomponham e vamos, temos uma caça pra ser abatida.
A contragosto, Clara obedeceu e seguiu Rafael para o lado de fora. Tanya e Douglas agradeceram mentalmente por não precisarem mais ficar ali dentro. Seus estômagos agradeciam profundamente por poderem respirar um ar mais límpido, sem a mistura de odores fortes que aquele local exalava. Os últimos a saírem foram os gêmeos, que se demoraram mais do que deveriam.
No lado de fora, em uma busca rápida encontraram algo próximo a um buraco encontrado na parede externa, que ao olharem reconheceram como corredor interno, onde escombros sepultavam alguns mortos. No chão, sujando e marcando a grama, pegadas enormes indicavam um caminho. Não fora difícil de notar, já que os primeiros passos eram vermelhos sangue. E conforme seguiram, o sangue fora desaparecendo.
O Arsenal se encontrava em outra cidade, mais ao norte da companhia onde se abrigavam, nos limites da região ainda civilizada. Mais ao norte, para onde as pegadas levavam, era apenas floresta fechada. A selva de pedra a partir dali havia sido consumida totalmente pela verde, e árvores dividiam seu espaço com concreto e carros. Casas e prédios não existiam mais, tombados ao abandono e redecorados com raízes e ervas daninhas.
— Lembra o que o líder disse? — perguntou Doug para Tanya, que fez que sim com a cabeça.
— Não se preocupa, eu protejo vocês. — disse Clara, com um sorriso meigo.
Douglas corou, e ele agradeceu mentalmente por ser negro e ela não notá-lo envergonhado. Tanya por sua vez escondeu o rosto. Eles eram os mais novos do grupo, e haviam saído em expedições poucas vezes. E todas elas haviam sido no limite da antiga civilização. Sempre sendo instruídos para nunca abandonarem o cemitério de pedra, como chamavam a cidade, pois além dela o perigo era constante. E ninguém ali poderia culpá-los por terem medo. Nenhum deles teve o azar de cruzar com um grande dragão, já que há décadas esses não aparecem em grandes cidades assim. Apesar de volta e meia conseguirem ver algum voando ao longe.
Em minutos de caminhada a civilização foi deixada para trás, e a natureza os devorou. O plano aberto que possuíam, com o céu límpido sobre suas cabeças fora substituído por folhagens densas, de árvores que variavam de altura, mas a certeza era que elas cobriam quase toda a luz do sol. Ninguém ali podia reclamar de calor embaixo das árvores, já que a brisa soprava fresca e reconfortante no calor punitivo do sol. Ainda mais com suas vestes de couro, que esquentavam com o contato direto. Suspiros de alívio foram ouvidos dos mais novos, que batiam as jaquetas de couro como asas, aproveitando o frescor.
A paisagem mudou da água para o vinho, antes selva de pedra dominada pela natureza, agora a natureza se aproveitando do que restou da civilização antiga para construir suas raízes. Era comum olharem para cima e verem escombros de alguma antiga construção apoiada e sustentada por galhos grossos e fortes das árvores, ou troncos espessos abrirem caminho através da lataria de um antigo carro, e suas raízes torcerem a mesma lataria a seu bel prazer. O chão, outrora de asfalto rachado pelas marcas do tempo, agora coberto por folhas secas de estações passadas. O que tornava o trabalho de seguir os rastros ainda mais fácil. A ausência das folhagens no chão indicavam o caminho.
— Não parece que é apenas uma pessoa? — perguntou Dave. — Digo, criatura? — corrigiu Daniel.
— Talvez tenham passado pelo mesmo caminho. — cogitou Clara, já sabendo que aquilo era impossível.
— Mas só tinha um rastro de pegadas, não é? Aquelas com sangue. — foi a vez de Douglas falar, sempre com o temor em sua voz.
— Você tá certo, Doug. — disse Rafael. — Não foi um bando de draco-leões, foi apenas uma. E duvido que tenha sido um draco-leão.
— Por que você diz isso? — perguntou Doug, preocupado.
Rafael parou, e com ele todos os outros. Ele abaixou-se e colocou a mão sobre o rastro de pegadas, que esmagava as folhas secas e as arrastava.
— Você percebeu também, não foi Clara? — indagou o loiro.
— Sim... — ela respondeu, encolhendo os ombros. Sabia que aquilo assustaria os mais novos.
Era fácil tranquilizar os nervos quando a desculpa eram vários animais, mas ali era apenas um. E sequer precisavam explicar para os gêmeos, que não estavam surpresos com a revelação. Ao contrário de Doug, que estava no ápice de sua preocupação. Tanya estava diferente, seus olhos estavam abertos e sua atenção vidrada em um único ponto.
— Você está dizendo que apenas uma pessoa fez aquilo tudo? — a voz de Doug estava exaltada, e ele gesticulava nervoso de braços abertos.
— Pessoa? — Dave riu. — Você é tão burro assim mesmo? — debochou Daniel.
— Não comecem. — repreendeu Rafael.
— Por que o O'Connor escalou esse medroso conosco? — Daniel reclamou. — O líder perdeu a razão nos botando com esse amador? — Dave completou.
— Não use o nome dele. — Rafael disse, furioso. — Você conhece as regras.
— Ele não está aqui para nos repreender. — Dave provocou. — E nós não iremos contar. — Daniel sorriu.
A discussão acalorava-se e não sabiam para quem olhar. Clara estava preocupada com o que poderia acontecer, fitando Rafael e esperando que ele não fizesse nada de errado. Doug não sabia o que fazer. Odiava as provocações dos gêmeos, mas sabia que tentar reagir apenas causaria problemas e o medo dos dois lhe travava. Já Tanya, continuava na mesma posição. Encarando alguma coisa no horizonte.
E fora preciso, Rafael estava com os punhos cerrados. A verdade é que ninguém ali gostava dos gêmeos. Eles eram agressivos e inconstantes. Assim como Clara e Rafael sabiam exatamente o motivo deles estarem ali. O que tinham de irritantes, tinham de letalidade. Podiam não ser os melhores caçadores, mas matavam melhor que qualquer um na companhia. Até que.
— Parem! — Tanya gritou.
Ninguém ali estava acostumado a ouvi-la. Ela mal falava, e quando o fazia era quase em sussurro. E agora ela de repente gritou. Sua voz era doce, e seu grito não era intimidador, nem se ela quisesse.
— Tanya? — Clara perguntou, tão surpresa quanto os outros.
Todos olharam para ela, e ela apenas apontou para frente. E enquanto perdiam-se em uma discussão sem sentido, com a voz elevada e esquecendo os conceitos de um caçador, de sempre fazer silêncio para não afastar sua presa. Mas aparentemente, talvez eles haviam se tornado a caça.
Os olhos de todos foram para frente, e viram o que Tanya estava encarando aterrorizada até então. Eles repararam primeiro nos dentes, grandes, afiados e saliva escorrendo por eles. A baba escorria pelos lábios grotescos e grossos, pingando após o queixo longo e disforme. As narinas grandes exalavam de forma intimidadora, e eles nem sequer haviam o visto por completo. Seus olhos subiram e encaram o par de olhos famintos, reluzindo em um dourado com a íris cortada. Membranas fechavam-se lateralmente, antes das pálpebras fecharem. O animal piscou e aquilo apenas aumentou o terror. Assim como Tanya, Doug travou. Não conseguia gritar, falar, se mover e duvidava se conseguia respirar.
A besta aproximava-se curvada. Com quase o tamanho de um antigo ônibus. Com as pequenas garras que projetavam-se de uma dobra em suas asas arranhando o chão, rasgando as folhas secas que quebravam-se em uma melodia infernal, misturada com a respiração bestial. As escamas que cobriam seu corpo tinham uma tonalidade das folhas secas no chão. Era um Wyvern. Apoiado nas garras de suas asas e com as patas traseiras, aproximando-se lentamente dos caçadores, que ainda não esbanjavam reação.
Rafael e Clara conseguiam manter alguma calma. O medo ainda os incomodava, mas conseguiam pensar racionalmente e tentavam formular alguma forma de escapar. A estrada em que estavam era estreita, e as árvores não dificultava uma fuga em grupo, teriam que se render a fila indiana e ninguém quer ficar por último. Além que sabiam bem o que acontecia caso tentassem. Foram instruídos que encontrar as feras aladas, correr nem sempre era a melhor opção. Essa sempre era rezar para que não estivessem com fome, e que você não pareça apetitoso.
Mas ela notou algo quando olhou para as asas da criatura.
— Rafael, as asas!
E ele olhou diretamente para elas. A besta estava com elas rasgadas, com exceção da armação óssea, todo o couro de suas asas estava destruído e aquilo fora o suficiente para ele saber. Ela não podia voar, e se não podia voar, não podia caçá-los. Correr se tornou uma opção.
— Por aqui! — guiou o loiro, passando por uma árvore, usando-a de escudo.
O animal se aproximava, agora apressadamente em seus passos desengonçados. Fora uma criatura feita para voar e não correr. Clara fez menção de correr, porém reparou que Doug e Tanya ainda jaziam parados, com as pernas trêmulas. Nunca haviam visto uma criatura dessa, que apenas admiravam voando ao longe, agora tão feroz e próxima. Ela os puxou a força, até que decidissem finalmente correr.
— Que correr o que? — disse Dave. — Nós somos caçadores. Vamos caçar essa coisa! — completou Daniel.
Dave retirou o machado das costas e o empunhou firmemente, acompanhado de Daniel que fez o mesmo com suas machadinhas. E correram. Mas não para longe do animal alado, mas em direção a este.
— Sem asas não podem voar! — proferiu Daniel. — Se não pode voar, pode ser abatido! — completou Dave, enfurecido.
— Idiotas! — vociferou Rafael. — Eles não são perigosos só voando!
A contragosto, o líder loiro correu em direção ao animal. Deixou que Clara cuidasse dos dois novatos, que apavorados não conseguiam sequer formular uma frase, apenas murmurando palavras de medo e terror. Incrédulos. Estavam abraçados, como se de alguma forma isso os reconfortasse. Rafael não queria lutar, era arriscado. Um dragão era um dragão, Wyvern ou não, o perigo não mudava.
Os gêmeos agiam em conjunto, atacando por dois lados diferentes. Um pela esquerda e o outro pela direita. E o animal não parecia se sentir encurralado. Pelo contrário, ele fitava-os como se decidisse quem comeria primeiro. Rugiu e mostrou os dentes. Mas isso não amedrontou a dupla careca. Dave fora primeiro, com seu enorme machado em uma tentativa de golpear a cabeça da fera. E ela revidou com uma cabeça, chocando-se contra o peitoral do rapaz, que sequer conseguiu completar sua investida. Seu corpo fora jogado três metros, até que se chocou contra o tronco robusto de uma árvore, e estilhaços de madeira voaram com o impacto.
Daniel aproveitou que a criatura focou seu irmão, e o atacou com ambas machadinhas em seu pescoço. A lâmina dessas feriram as escamas do animal, mas apenas o suficiente para um filete de sangue escorrer e enfurecer a besta. Que atacou com outra cabeçada, jogando o rapaz contra um carro tombado, equilibrado sobre as raízes de uma grande árvore, que balançou com o impacto. O corpo deste caiu sobre o chão, e fez força para se colocar de pé, e o grito de Rafael pedindo cuidado viera tarde demais. A lataria do carro balançou e tombou sobre seu corpo.
— DROGA! — gritou enfurecido. Ao invés de golpear a criatura, o loiro correu para Dave, que buscava forças para se levantar.
E o animal sequer se preocupava. Após acabar com um, voltou sua atenção para Rafael e Dave, que juntos começavam a caminhar para longe dali. Buscando proteção atrás da árvore.
Os passos da criatura vinham pesados e apressados, misturando ao som das folhagens sendo jogadas e amassadas. Os passos da dupla estavam lentos, Dave mal conseguia andar, sentia suas costas arderem em dor. E seu peito apertado com a incerteza do destino de seu irmão, ou apenas pela falta de ar. Talvez ambos. Rafael temia pela vida dos dois, olhava sobre o ombro para o animal, que se aproximava apressado como um leão faminto atrás de sua presa abatida. Louco para dar a primeira mordida e saborear de sua carne. Nervoso, o loiro forçou os passos e começou a arrastar Dave, que sequer lutava contra, ou mesmo fazia força para ajudar. Estava em choque. E a respiração vinha ao cangote de Rafael. A fera estava próxima e cada vez mais próxima, e o hálito quente e fedorento apenas o aterrorizava. Podia sentir a boca do animal vindo, os dentes rasgarem sua carne, os ossos serem esmagados pela força da mordida. E isso apenas em pensamento.
Ele se jogou no chão, puxando Dave consigo. E uma brisa passou sobre suas costas, e o som do estilhaçar de madeira o assustou. Olhando para cima, pôde ver a mandíbula da criatura, se movendo uniformemente com os dentes se desvencilhando do tronco de uma árvore. Foi por pouco. Mas agora não tinha mais chances, não havia tempo de levantar e correr. Não se desejasse carregar Dave consigo. E em milésimos teve que decidir se tentava salvar o companheiro, com a certeza que morreria junto a ele. Ou o abandonar e correr, carregando peso de sua morte nos ombros.
Sem pensar duas vezes se levantou, puxando Dave pelos braços. O animal recuou e preparou a próxima mordida. E quando a morte certa passou pelos olhos do loiro, a besta grunhiu de dor. Um disparo silencioso acertou o rosto do animal, e fora tão próximo de seu olho que a autora do disparo praguejou. A pressa para fazer o disparo fez com que perdesse a precisão.
Clara estava de pé, com o arco empunho preparando a próxima flecha, quando a besta lhe encarou. Um frio percorreu sua espinha como poucas vezes antes, mas não podia se render ao medo. Destemida, atirou a próxima flecha, mirou novamente nos olhos. Mas fora evitado por um movimento rápido do animal. Que agora avançava contra ela, esquecendo Rafael e Dave. Que respiraram aliviados.
Ela preparou uma nova flecha, e disparou. Bateu contra suas escamas e foi ignorada. Ela travou, ela queria correr, mas não conseguia. A fera foi se aproximando e aproximando, ergueu o tronco e investiu com uma mordida. Ela ergueu os braços para se proteger, o que seria em vão. Ela sabia. Mas novamente um grito bestial soou. As árvores balançaram, as folhas caíram e ela, assim como Doug ficaram ensurdecidos. Quando Clara abriu os olhos, viu o garoto, tremendo com seu arco longo em mãos. Tanya ajoelhada ao seu lado, tampando os ouvidos. No olho da criatura, uma longa flecha estava presa e sangue escorria pelas suas escamas. A besta gritava de dor, desesperada.
— Doug! — ela exclamou, surpresa. — Você...
— Vamos fugir, vamos, por favor. — o garoto estava desesperado.
Ele a chamou, e a garota o acompanhou, Tanya fez o mesmo. Eles estavam prontos para a fuga, já haviam encontrado com os olhos, Rafael e Dave, e foi quando um som alto e ensurdecedor os alertou. Seguido por um grito bestial, e então o som se repetiu mais algumas vezes. Apenas Rafael tinha ouvido aquele som anteriormente. Eram disparos, disparos de arma de fogo. Voltaram as atenções para trás, e puderam ver Daniel, com o braço esquerdo coberto de sangue e parado, jogado ao lado do tronco. E em sua mão um revolver.
— HAHAHA! MORRA SEU DESGRAÇADO! — ele vociferava em frenesi.
A primeira leva de disparos acabou, e o careca tentava recarregar o revolver. Tinha dificuldades. A fera ainda estava viva, porém muito ferida e se movendo com sangue escorrendo por cada ferimento. Ela rugiu, mas não furiosa ou chorosa, mas como um chamado. O fez para o céu. E aquilo gelou a espinha de Clara. Ela nunca havia presenciado algo do gênero, como os outros ali, mas por alguma razão aquele chamado por ajuda apertou seu peito.
— SAI DAÍ! PORRA! — gritou Rafael, deixando Dave para trás.
O loiro correu para junto de Daniel, que ignorava o aviso. Ignorava qualquer alerta, qualquer bom senso. Estava em um frenesi, uma sede de vingança. Não se perdoaria se deixasse aquela besta fazê-lo de caça. Ódio queimava em seus olhos. E esse ódio acabaria levando-o a morte.
A fera estava acoada, recolhida e recuando lentamente. E qualquer um ali podia dizer que estava mais perigosa que nunca, todos menos Daniel.
Até que um grito irrompeu toda aquela situação. Um rugido que chacoalhou todas as árvores.
E não foi o único.
Outro rugido ecoou em seguida do primeiro, e a fera acoada respondeu.
— Rafael! — Clara gritou.
— Eu sei! — ele respondeu. — Pegue eles, e vamos sair daqui!
E logo o loiro puxou Daniel, que contra sua vontade, acompanhou. Se encontraram e rapidamente correram. Correram a tempo de sentirem uma lufada quente em suas costas. Uma luz vermelha os iluminou pelas costas, e sequer precisaram conferir. Foram chamas. Fogo, fogo de dragão que se espalhava rápido. Aquela região se tornaria um cemitério de cinzas, e eles fariam parte se não fossem rápidos.
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