Correram pelo que pareceram ser horas, mas sequer completou uma.
O ar quente ainda os incomodava, mesmo que esse não estivesse mais ali. Estavam distantes do fogo, dos dragões, mas suas pernas não conseguiam parar. Os músculos doíam, fisgadas incomodavam. Os pés latejavam, panturrilhas ardiam. E eles não paravam. Correram até alcançarem uma cidade. Quando a selva verde ficou para trás, e a de pedra se impôs em seu caminho, eles suspiraram aliviados. Diferente da que viviam, essa estava completamente destruída. Não havia natureza embrenhada no concreto, apenas marcas de incêndio. Queimaduras no asfalto, nas calçadas, e marcas do mesmo derretido.

Conforme foram caminhando cidade adentro, perceberam que ela não era grandiosa. Apenas as ruínas de uma cidade outrora grande, que fora sendo consumida pela natureza aos poucos, com exceção de seu centro. Onde as marcas do fogo de dragão não deixavam a vida vegetal se aproximar. Como uma cicatriz no mundo.

Além de destroços, prédios, casas, tudo tombado ao relento, haviam corpos carbonizados. Ou o que restou deles, ossos negros como carvão de uma vida que se perdeu há tanto tempo. Eles vagaram por algumas ruas, todos em silêncio. Os únicos sons eram os gemidos de dor dos gêmeos. E foi assim até encontrarem o resto de uma construção, não se sabe se era uma casa, ou um prédio, uma loja, qualquer coisa. Apenas havia um cômodo inteiro, coberto por escombros e móveis quebrados. Rafael conduziu os gêmeos, ambos feridos, até o fundo do cômodo, onde ambos sentaram-se. E sem cerimônia, retiraram suas mochilas e começaram a procurar algo dentro destas.

Clara acompanhou os dois menores, que ainda trêmulos e incrédulos com a situação de quase morte. Ela também notara a aproximação dos dois, desde que a novata chegou à companhia, mandada pela Ordem, Doug foi o membro que mais se aproximou dela. Os dois estavam juntos, em silêncio. Ela abraçada ao braço dele, e ele segurando o dela. Um usando o outro como um amuleto para não perder a calma.

— Eles tão bem? — perguntou Clara, em um cochicho para Rafael.

— Vão viver. — foi direto, grosseiro. — E eles? — apontou com o queixo para os menores, que agora sentavam juntos.

— Com medo. — ela olhou para eles, sobre o ombro. — Mas não os culpo.

— Verdade. — respondeu ele. — Eu culpo eles. — e então encarou os gêmeos.

Os gêmeos estavam feridos, com hematomas pelo corpo. As colunas de ambos estavam doloridas, sangue escorrendo pelo braço de Daniel. Já Dave reclamava de dor a cada movimento, enquanto ajudava o irmão a enfaixar o braço. A tentativa era apenas impedir que sangrasse, pois aquele membro já era.

Rafael encarava os dois furioso, a atitude deles custou muito. Quase a vida do grupo, e a deles. E era uma atitude impensada, e isso apenas irritava o loiro. Era para ser uma missão perfeita, sem baixas, sem ferimentos, sem problemas. Esse problema, por culpa dos dois inconsequentes, iria atrapalhar sua subida no rank da Companhia. E ele não perdoaria os dois por isso. E tentar voltar, com ambos vivos, pelo menos poderia lhe dar algum crédito e não cair tanto na lista. Eles não iriam atrapalhar seu sonho.

— Pega leve. — ela pegou no braço de Rafael. — Nem todos são como nós.

E o rapaz ignorou o apelo. Bateu o pé, aproximando-se dos gêmeos.

— Vocês são burros? — vociferou indignado. — Ou se esforçam muito?

Os gêmeos fitavam Rafael, ambos, meio aturdidos com a agressividade.

— Quê? — ambos falavam em um uníssono.

— Vocês arriscaram a vida do grupo inteiro, e olha o estado que estão? — continuou.

Todos passaram a olhar o trio, principalmente Rafael. Doug e Tanya ainda nervosos com a situação, o medo ainda estava em seu organismo e ver aquela cena não ajudava. Clara sabia, mas não conseguiria impedir o rapaz.

— Vocês são inconsequentes. Vocês não me ouviram? Eu falei pra vocês recuarem! Vocês não conseguem seguir ordens. — ele estava quase rugindo.

Tanya comentou baixinho com Doug, que para ele parecer um dragão só faltava soltar fogo. Ambos riram baixinho, como um cochicho. Mas ninguém ali notou.

— Se fosse apenas a vida de vocês em risco, eu não me importaria! — controlava para não gritar. Seu punho fechado forte, firme. — Mas não foi o caso! A minha vida! A vida da Clara, do Doug e da Tanya estavam em risco!

Os gêmeos não sabiam exatamente como reagir. Daniel ouvia tudo com uma expressão de deboche, Dave com uma feição neutra. E isso apenas irritava mais Rafael.

— Rafael! — Clara se impôs, calando o loiro.

— Chega. Isso não vai levar a nada. Eles erraram, quase morreram. Nós quase morremos. Você gritar não vai resolver nada! Amanhã, quando voltarmos pra base você fala isso tudo no relatório. — ela falava calmamente. Pelo menos tentava. — E o líder vai lidar com eles.

— Voltar? — Rafael disse, virando-se para ela. — Não vamos voltar. Não me importo se esses merdas foram burros o suficiente pra atacar um dragão, nossa missão continua.

— Mas...

— Sem "mas". — ele a interrompeu. — Ajude eles, pra que não atrapalhem.

Contrariada, ela se aproximou dos gêmeos. Mas acabou acatando a ordem. E fora assim o resto daquele dia. Já era tarde, e a noite não demorou a chegar. E com a noite, a atitude repugnante dos gêmeos. Todos sentavam-se envolta de uma pequena fogueira, criada ali dentro mesmo. E pequena para que não chamasse a atenção, e apenas desse a mínima visão.

E as conversas voltavam. Clara mantinha-se quieta, comendo e preocupada com o destino daquela missão. Rafael também em silêncio, porém suas preocupações eram um pouco diferentes. Já os gêmeos conversavam entre si, rindo da quase morte e do gripo de apavoro do dragão após os disparos.

— Não sei como vocês conseguem rir disso. — falava Doug. Sempre pensava nos dragões com temor.

— É fácil! Nós não somos cagões como você. — disse Daniel. — Você tem cara de quem tinha medo dos Olhos Vermelhos. — completou Dave.

— Vocês não?! — exclamava genuinamente surpreso.

— É história pra assustar criancinhas! — Nós nunca nos assustamos com isso. — responderam os gêmeos.

— Olhos vermelhos... ? — Tanya perguntava com a voz baixa.

— Nunca ouviu? — disse Doug.

Tanya respondeu que não, apenas movendo a cabeça e o rapaz se prontificou para contar.

— Um amigo do irmão do meu pai contou essa história, disse que o avô desse amigo conhecia alguém que presenciou o monstro dos Olhos Vermelhos.— começou ele. — A lenda diz que uma vila, na época da Grande guerra, foi varrida do mapa. Lá viviam um povo muito bondoso, que ajudava vários andarilhos com suprimentos. Um dia, um andarilho passou por lá para passar a noite e repor os suprimentos ou algo assim.

A garota olhava para ele, com os olhos atentos. Estava curiosa e deixando-se envolver na história. Ou talvez apenas admirada em ver o garoto animado contando-a.

— Esse andarilho chegou lá, era de noite. Quando ele chegou na vila, via todas as luzes apagadas. Não havia aquela fogueira central como sempre. E conforme foi entrando, foi encontrando rastros de sangue. Logo os rastros viraram pessoas mortas. Estraçalhadas.

— Como aquelas que vimos hoje. — No Arsenal do Dário. — interromperam os gêmeos.

— É... — o garoto parou, lembrou da cena terrível que viu. E assim como a garota, balançou a cabeça pra afastar esse pensamento.

— Continuando. Quando ele chegou na casa do líder daquela vila, viu apenas um par de olhos vermelhos reluzindo na escuridão. Ele disse que aquele par de olhos o encarou por segundos, minutos, horas, ele não sabe dizer. Mas quando os olhos pararam, ele sentiu como se sua vida tivesse diminuído. Estava escuro, ele não conseguiu ver nada além dos olhos.

— Não teve nenhum sobrevivente? — perguntou a garota, apertando os braços.

— Não. O demônio dos olhos vermelhos matou todos. — ele olhou para a garota, e acariciou sua face. Ela sorriu.

— Tentaram caçar ele. — disse Dave. — Mas ninguém voltou vivo. — completou Daniel.

— Ninguém voltou. — pela primeira vez Rafael falava algo. — Todos que foram, nunca voltaram. Mas atribuíram a morte aos dragões e o olhos vermelhos virou uma lenda. Contada pra assustar criancinhas.

E foi assim que a noite terminou, com uma história de terror.
O dia seguinte começou da mesma forma, porém recuperando-se do horror do dia passado. E liderados por Rafael, voltaram a buscar rastros daquele monstro que atacou o arsenal do Dário. A busca demorou, tendo que recuperar o caminho deixado pra trás, mas após algumas horas conseguiram localizar os rastros.

Tanya, Doug permaneciam no fim do grupo, juntos aos cochichos. Os gêmeos Dave e Daniel reclamavam daqueles cochichos e implicavam com o garoto, que conseguia ignorar as provocações. Sua atenção não estava mais neles. Já Rafael e Clara seguiam na frente, em silêncio. Buscando os rastros.

O cenário era floresta, mais aberta que a do dia anterior e sem rastros de civilização. Pela primeira vez, estavam em uma legítima área florestal. Natureza e apenas natureza. Fauna e alguns pássaros cantando. Cruzaram com uma cobra, que Daniel fez questão de matar. O susto fez com que os dois no fundo se abraçassem, e dali em diante eram risadas.

Tudo parecia correr bem, o rastro estava cada vez mais claro e firme, até que alcançaram uma nova cidade. Era uma outra cidade com restos de natureza e alguns chamuscados. Muitos mortos cremados, e marcas de corpos gravados no asfalto. Era fácil de perceber, era só olhar a silhueta de um corpo claro, enquanto o redor estava queimado. Um diferencial, era o enorme esqueleto de um dragão, caído sobre um prédio, que já não estava mais inteiro. Provavelmente o corpo deste o destruiu.

— Uau. — falava Doug. — Será que foi da grande guerra esse?

— Foi sim. Nós vivemos perto do território de uma das primeiras batalhas. — falava Clara, com um sorriso. Ela gostava de ver o garoto animado, sem o terror que costumava ter.

Talvez a companhia tenha acalmado seu coração.
O grupo caminhava atrás de Rafael, que dessa vez tomou uma maior distância. Andando à uma dúzia de metros na frente.

— Não era aqui que tinha. — iniciou Dave. — Uma sede da companhia? — completou Daniel.

— Sim. — respondeu Clara. — Uma das primeiras bases foram feitas aqui. Quando esse território era protegido pela Ordem, mas... tem muitos anos isso.

— CORRAM! — gritou Rafael, voltando correndo em direção ao grupo.