Balaur e a Gema do Dragão [Conto]
2 Capítulo 1
Parecia uma sirene, mas era apenas um pedaço de madeira batendo contra o fundo de uma panela.
Essa era a forma que usavam para acordar todos no prédio, normalmente o mais novo da companhia era encarregado por soar essa sirene, mas dessa vez foi diferente. O líder foi o responsável por acordar todos. A companhia era um grupo de homens e mulheres, de idades diferentes que se alojavam em um prédio abandonado, que fora usado para outros fins antes dos dragões chegarem. Agora estava vazio, adaptado para moradia. Por fora ainda parecia abandonado, coberto por vinhas e trepadeiras. A natureza havia recobrado seu espaço sobre a selva de pedra, pintando-a de verde.
A companhia, assim como diversas outras espalhadas pelo mundo, tem como objetivo ajudar a proteger territórios humanos. Proteger das investidas e ataques dos dragões, algumas vezes deixando animais à mostra apenas para que as criaturas aladas se alimentem ao invés de atacar.
Os raios dourados de sol atravessavam o espaço vago da janela, iluminando o quarto e atingindo o rosto de Clara. Que abruptamente despertava, levantando-se de seu colchonete. Esfregou os olhos dourados, cansados e pesados de sono. Apenas imaginando o estado de seus cabelos de mel, bagunçados e armados como a juba de um leão. As vestes amarrotadas, e o som repetitivo da sirene tocando em seu ouvido. Levantou-se rápido, buscando a jaqueta de couro cozido com a mão e a vestindo. Com a outra alcançou a machete de lâmina reta, prendendo-a ao cinto. Não havia porta em seu quarto, ou sequer outros móveis além do colchonete que dormia. E esse mesmo vazio era sentido pelos outros cômodos do prédio.
— O que será que houve? — se perguntou ao passar pela porta.
Ela desceu do 4º andar, passando por corredores vazios e com sinais de natureza, escadarias vazias, e o único som além da sirene que ouvia eram os dos passos dos outros. Quando alcançou o segundo andar, encontrou com um rapaz. Muito mais novo que ela, talvez com um pouco mais de 12 anos, enquanto ela com o auge dos seus 22. O garoto vestia-se como ela, roupas de pano sob calça e jaqueta de couro. Diferente dela, ele tinha um cutelo na cintura.
— Tony! — ela exclamou, abraçando o garoto e bagunçando seus cabelos.
— Ai! Ai! Clara! Para! — resmungou tentando desvencilhar dela.
— Hahaha.— riu.
— Sabe o que houve? — ele estava mais tranquilo, agora que se afastou dela.
— Não sei, vamos descobrir.
O alarme continuou a tocar, e parou apenas quando todos os 30 moradores daquele prédio se encontraram no hall de entrada. O líder estava em fronte a todos, com a panela e um pedaço de madeira na mão, batendo repetidamente. Diferente dos demais, o líder era o único completamente armado, ao invés de apenas uma arma branca na cintura. Mas suas roupas ainda eram de couro, porém um pouco mais pomposas.
— Finalmente todos estão aqui. — disse ele com seu vozeirão.
Ele é um homem com quase dois metros de altura, pele enrugada e uma enorme cicatriz em sua bochecha esquerda. Ela começa em seu olho esquerdo e termina apenas abaixo da mandíbula, rasgando uma parte de sua face em uma marca terrível. Ele já havia contado a história daquela cicatriz. Conseguiu em uma batalha contra um dragão anos atrás. Com uma barba completa no rosto, com falhas onde a marca distorcida da ferida antiga.
— O que houve? — disse um rapaz, com uma expressão e voz de sono.
— Já vou explicar. — o líder impôs sua voz. — Recebi uma mensagem. E ela gelou minha espinha.
— O que foi? — dessa vez foi Clara quem falou.
— O Arsenal do Dário foi invadido. — ele continuou. — E de acordo com a mensagem, o corpo do Dário foi encontrado em quatro lugares diferentes. Seja o que for que invadiu, matou todos.
— Todos? O Arsenal não era protegido, pelo que? Trinta pessoas? — Clara indagou, surpresa como todos.
— Exatamente. Suspeitam que foi uma fera, alguma criatura dracônica. Talvez um draco-leão.
— Draco-leão? Não há muitos naquela região. — comentou uma garota de cabelos dourados.
Todos ficaram em silêncio conforme o líder terminou de explicar o acontecido, em base com o que havia recebido naquela mensagem. Foram informados que todos os 30 membros do Arsenal de Dário estavam mortos, e de uma maneira terrível. Fora um massacre como não se era visto há anos. Acabou gerando uma breve discussão sobre que tipo de criaturas poderiam ter causado aquilo, mas ninguém conseguiu chegar a uma conclusão. Alguns chutavam uma espécie, outros outra espécie. A única certeza é que não foi um dragão de verdade, se fosse, não haveriam dúvidas.
Ao fim da explicação, o líder seguiu até sua sala, Clara o seguiu, conduzindo um grupo seleto de caçadores, todos indicados pelo próprio. A sala deste era pequena, com uma única mesa em seu centro e uma poltrona rasgada atrás desta. Um suporte de madeira para seu armamento. Onde haviam algumas espadas, aljavas e arcos rústicos. E do outro lado da sala, referente ao suporte, um grande cofre de ferro, enferrujado e sujo. Ele sentou-se em sua poltrona, apoiou seus cotovelos sobre a mesa e o queixo sobre suas mãos. Fitou os 6 caçadores em frente com seu único olho bom, terminando com Clara, que estava disposta mais próxima a ele.
— Quero que vocês preparem suas coisas. — ele disse, quebrando o silêncio. — Vocês irão caçar os responsáveis por isso.
— Mas não foram só animais? — disse um rapaz. Negro com a cabeça raspada.
— Sim, Douglas, foram animais. — sua voz soou, e foi como se tivesse algo a mais. E isso deixou todos atentos, curiosos.
— Mas animais não estouram um cofre de ferro e vasculham seu interior. — continuou o líder. — Acredito que alguém, humano, tenha levado algumas criaturas para lá e aproveitado a confusão para roubar o conteúdo do cofre.
— Alguém? Caralho. — foi a vez de Rafael se pronunciar. Loiro, olhos azuis e de altura mediana.
— Preferi ocultar esse fato dos demais, pra não causar confusão. Vocês lembram da última vez que houve suspeitas disso, certo? Humanos criando essas criaturas. — relembrou o líder, com um pesar na voz.
A simples lembrança de uma tragédia passada calou todos ali. Todos sabiam o que havia acontecido, e ninguém queria sequer pensar a respeito.
— Preciso que vocês investiguem e cacem o responsável. Preciso saber o que está acontecendo. — ele recostou corpo na poltrona. — Conto com vocês. Vão.
A ordem foi simples e objetiva. Todos despertaram do breve transe das lembranças, e partiram. Rafael tomou a frente, e combinou o horário. Em 20 minutos, na frente do prédio. Era o tempo necessário para que pegassem o equipamento necessário. Clara foi imediatamente até a sala do Arsenal, onde os armamentos ficavam estocados, podendo apenas ser retirado para missões, ou em caso de ataque. Atravessou um corredor antes de chegar a sala. Dentro dela, encontrou Tony, novamente. Ele estava sentado sobre um longo banco de madeira, com o cutelo sobre suas coxas, afiando-o com uma pequena pedra. Os bancos eram dispostos paralelamente, sempre em frente a armários de ferro, enferrujados e a maioria sequer possuía alguma tranca. Eram nomeados, com o equipamento de cada caçador naquela companhia.
— Hey, Tony. — disse ela, abrindo seu armário e puxando um arco composto. Uma relíquia.
— Ah.. Clara. — ele estava focado, e demorou a notar o chamado.
— Você não cansa de afiar ele não? — ela perguntou, agora puxando a aljava, prendendo-a sobre o ombro.
— Claro que não! Nunca se sabe quando terei de usá-lo. — ele tentava parecer mais firme e velho do que era.
Ninguém na companhia permitia que o garoto lutasse, entrasse em combate. Mesmo quando era levado em missões, apenas observava e aprendia. Quando a ação começava, deixavam-no para trás. E isso o deixa completamente frustrado, detestando quando é tratado como uma criança. E Clara adorava fazer isso, tratá-lo como a criança que é, para que não perdesse o que sobra de sua infância. Antes de deixar a sala, bagunçou os cabelos do menino, que levantou e a ameaçou, mas tudo o que ela fez foi rir e correr.
Após o arsenal, era a vez dos suprimentos. Nunca se sabe quanto tempo passaria em uma caçada, no melhor dos casos duraria apenas algumas horas, mas há caçadas que duram semanas. Dessa vez atravessou o corredor. Passou por diversas portas abertas, onde outros membros almoçavam, ou ajeitavam suas roupas e equipamentos, alcançando as escadas ao fim deste. Chegou ao segundo andar, e após algumas portas entrou em uma a direita. Rafael passou por ela, com uma mochila enorme em suas costas. Lá, ela encontrou uma mochila grande. A sala era grande, com suporte para várias outras mochilas. Equipamentos, cordas, armadilhas, e outros pequenos apetrechos para a caça. E os 20 minutos seriam usados para isso, encher a mochila de equipamentos e então suprimentos, comidas simples e não perecíveis para a missão. Ou seja, enlatados.
Após os 20 minutos, estavam todos em frente ao prédio. E a visão de todos do exterior era nada mais do que de uma cidade desolada. Outros prédios e casas, construções menores e outras mais destruídas, restos do que um dia já fora uma grande cidade e muito movimentada, agora apenas as ruínas da antiga civilização.
Todos os seis escolhidos estavam ali. Douglas, o mais novo do grupo. Com seus 16 anos, cabeça raspada, negro e com um sorriso tão largo e contagiante, mesmo com seus dentes amarelados. Vestia a mesma roupa que todos, vestimentas de couro cozido, com a única diferença sendo o armamento. Esse tinha duas machetes na cintura, e um arco longo com uma grande aljava nas costas.
Diferente de Douglas, Rafael não é tão extrovertido ou sorridente. Tem sempre um semblante sério, com seus cabelos loiros caindo sobre o rosto, lateral raspada. Ele não possui uma arma a distância, como Clara ou Douglas, mas sim uma única lâmina nas costas, uma enorme espada feita de forma rústica. Sendo pesada demais e com um punho improvisado. Nada mais que um amontoado de tecidos enroscados para que a mão não se machuque. Por causa disso, Rafael é o maior do grupo, não de altura, com braços fortes e torneados, ombros largos. Forte e robusto.
Clara não era a única mulher no grupo, acompanhada de uma garota pequena e fechada. Cabelos castanho escuros, com a parte de trás bem curtinho, com duas mechas laterais longas, alcançando seus seios. Possuía um bom busto e um quadril estreito. Suas armas são as menores, com algumas facas. Um cinto repleto delas. Essa era Tanya. Os outros dois eram gêmeos. Daniel e Dave. Carecas, com quase 1,80 de altura. Dave era torneado e muito mais forte fisicamente que seu irmão, mas ainda menor que Rafael, que apesar de não ser tão alto, seu corpo fazia parecer. Daniel era esguio, com um rosto fino e bochechas fundas, como se estivesse passando fome. Dave com um grande machado nas costas e Daniel com duas machadinhas.
— Todos prontos? — disse Rafael, tomando a postura de líder da expedição.
— Sim. Aham. Claro. — a resposta soou em uníssono.
— Então vamos. — e ele seguiu em frente.
— Vocês acham que vai ser fácil? — perguntou Douglas, com uma insegurança na voz.
— Já vai amarelar? — disse Dave. — Cagão. — completou Daniel.
Os gêmeos eram estranhos, falavam completando a frase um do outro. A voz dos dois era parecida, exceto por Daniel ter a voz um pouco mais rasgada, mas ambos possuíam um timbre mais agudo que grave, em contraste com Rafael. Tanya manteve-se em silêncio e Clara apenas observou, assim como o loiro.
— Vocês não estão preocupados? — continuou o negro. — Seja quem for, foi capaz de matar todo Arsenal do Dário! Eles eram 30, nós somos só 6!
— Nós somos... — Dave começou. — ... os melhores caçadores da companhia. — Daniel completou.
— Então não precisa ter... — Daniel esbanjou um sorriso no rosto, mas foi a vez de Dave finalizar a frase. — ... medo, seu cagão.
— Vocês dois... argh — Doug levou as mãos a cabeça, e rosnou. — Vocês não conseguem falar normal não?
— Não. — os dois responderam juntos. — Você tem medo... — Dave iniciou, e Daniel completou. — ... da morte.
—E deveria. Se o pior acontecer... — Dave aproximou-se de Douglas por um lado, e Daniel ficou pelo outro. — ... você será o primeiro a morrer.
— Já chega, Dave, Daniel. Temos uma missão complicada e uma longa caminhada até o Arsenal, dá pra pararem de encher o saco do garoto? — Rafael se impôs, virando-se para o grupo que o seguia.
— Foi mal, foi mal capitão. — Daniel começou. — É divertido assustar ele. — completou Dave.
— E quanto a tu, Doug. — Rafael continuou, encarando agora o garoto. — Para de espalhar seu medo para o resto do grupo, nem começamos a missão e você já está se tremendo. Não precisa se preocupar, estamos em grupo, se for perigoso demais, nós recuamos e pedimos por reforço.
E isso fora o suficiente para calmar o garoto. Rafael podia não ser o mais habilidoso dos caçadores, mas era o mais racional e com um espírito de liderança que inspirava os demais. Por isso ninguém reclamou quando ele se impôs. A viagem iniciou um tanto conturbada, e nenhum deles imaginava o perigo que enfrentariam. Ninguém era capaz de julgar que essa missão mudaria a vida não só do grupo, mas como de toda a raça humana.
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