Bakumatsu

19 Tenken vs. Hiten


Notas iniciais
No capítulo anterior: "– Depois dessa noite... - Continuou Saitoh. - Dividimos convenientemente a lista de 'coelhos' a serem caçados, e prometemos jamais interferir no trabalho um do outro. E desde então tem sido assim... – Humpf... Você acha mesmo que Aoshi é uma de suas marionetes? Se ele seguiu suas instruções até aqui, é porque lhe foi conveniente. - Comentou, decepcionado, Kenshin. – Nos foi conveniente... - Corrigiu, Saitoh. – Amanhã... - Disse Kenshin, enquanto caminhava em direção à cabana onde passaria a noite. - Amanhã descobriremos quem manipulou quem, senhor Hajime..."

O dia amanheceu cinzento e sombrio, cortesia das nuvens pesadas que pairavam sobre Kagoshima desde a noite anterior. Aoshi, desperto graças ao canto eufórico de um casal de pássaros que tentava, em vão, animar o dia escuro, levantou-se vagarosamente e dirigiu o olhar para a janela do quarto pequeno onde havia passado a noite. As nuvens escuras prenderam a atenção do espadachim, que tentava adivinhar quanto tempo demoraria para que toda aquela água caísse sobre o campo de batalha. Ficou estático até o momento em que a porta de seu aposento se abriu, dando passagem ao truculento mestre do estilo Hiten Mitsurugi.

Hiko, que adentrou sem nem mesmo anunciar-se batendo à porta, parou assim que viu o homem de cabelos negros e compridos sentado sobre a cama olhando através da janela do quarto.

– Bom dia mestre Hiko. — Recepcionou, em meio a um bocejo forçado, Aoshi.

– Bom dia Aoshi. — Respondeu Seijuuro.

Aoshi levantou-se vagarosamente e, após outro bocejo forçado, apoiou-se na janela, fixando seus atentos olhos azuis no céu negro daquela manhã. Depois de alguns segundos de silêncio, virou-se para Seijuuro, procurando quebrar o clima ansioso que, inevitavelmente, pairava no ar:

– Acha que chegaremos ao complexo antes dessa chuva?

– Talvez sim... Talvez não... De qualquer maneira, vim até aqui apenas para lhe dizer que os outros já estão de pé e sairemos assim que você estiver pronto.

– Ótimo. — Respondeu Aoshi. — Estão todos bastante nervosos não é mesmo? Sairemos assim que a chuva começar a cair. — Complementou sorrindo de maneira rasgada e bastante falsa.

Hiko assentiu com um gesto e depois se retirou.


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As nuvens escuras e os relâmpagos que, de tempos em tempos, riscavam o céu tempestuoso anunciavam que a chuva fraca que já caía sobre a cidade logo se transformaria em uma tempestade revoltosa e amedrontadora. O ar úmido e o som dos trovões despertou Saitoh Hajime, que calmamente pôs-se de pé e caminhou até a janela, afim de observar melhor a tormenta pela qual teria que passar antes de começar a batalha decisiva que estava agendada para aquela tarde. Pela dormência que dominava seu corpo e por sua visão meio turvada, Saitoh imaginou já estar próximo ao meio-dia, e balançou a cabeça como se estivesse se estapeando mentalmente por ter dormido tanto.

– Pelo menos os outros já devem estar prontos, e Aoshi já deve estar nos esperando. — Comentou consigo mesmo.

Rapidamente, esticou os braços e estralou os ossos do pescoço e costas, alongando os músculos. Depois, enquanto vestia seu traje para a batalha, ouviu três batidas suaves, seguidas do som da porta se abrindo lentamente. Entrando através da mesma, Matsumo Tokugawa, o filho bastardo e herdeiro do trono do ex-Shogun se apoiou em uma coluna de madeira maciça e mirou Saitoh através das lentes dos óculos discretos que utilizava. O outro ignorou a entrada do jovem e continuou a se vestir calmamente. Ao reparar na calma com que Hajime se vestia, o rapaz vestido com seu traje mais pomposo e com os cabelos delicadamente amarrados em um rabo de cavalo deu dois passos em direção à porta.

– Himura desapareceu. — Comentou, olhando para Saitoh por sobre o ombro direito.

– Eu cuido do Battousai. Prepare os cavalos, partiremos assim que eu voltar. — Ordenou Saitoh.

Matsumo fechou os olhos calmamente e se retirou da sala.

Após mais alguns minutos, Saitoh já se encontrava totalmente equipado: Seu discreto kimono azul-claro, marca registrada do Shinsengumi, não ofuscava a visão das duas imponentes katanas que haviam sido suspensas, uma de cada lado, em sua cintura fina. As espadas, por sua vez, eram adornadas com detalhes dourados no cabo e na baínha, e chamavam quase tanta atenção quanto os protetores vermelho-intenso que Saitoh havia firmemente fixado em ambos os pulsos. O Cabelo longo estava solto e caía sobre os olhos do espadachim, dando um ar ainda mais misterioso às feições discretas e inexpressivas do homem.

Saitoh saiu do quarto em silêncio, e assim permaneceu durante todo o percurso que fez até o templo, alguns metros a oeste da cabana. A chuva, que caía ainda de maneira fraca e espaçada, não incomodava Saitoh que, ao atingir seu destino, já estava completamente molhado. Observou atentamente o pequeno templo antes de subir os poucos lances de escada que o levariam ao local onde, imaginava ele, Battousai se preparava para a luta.

Saitoh sentiu que havia acertado no palpite assim que adentrou ao templo, pois um cheiro forte de almíscar e mistura de mais algumas ervas penetrou por suas narinas. Percorreu o salão principal do templo e atravessou o altar superior, deixando uma trilha de água por todo o caminho que passou até alcançar a varanda nos fundos. A vista do lugar era belíssima e seus olhos só despregaram-se do límpido lago que havia no cenário pois haviam finalmente encontrado aquilo que ele procurava.

Sentado sobre os calcanhares e com os olhos tranqüilamente fechados, Kenshin Himura meditava e se preparava para a batalha que viria, como um verdadeiro samurai. Seus cabelos rubros pareciam estar encharcados de sangue ou banhados por outro líquido vermelho pois brilhavam e chamavam atenção, mesmo estando presos de maneira displicente por uma fita de cetim branca. O kimono que vestia era negro e adornado com dragões da mesma cor, mas que reluziam à pouca luz daquela tarde, posto que eram feitos de um material diferente e, aparentemente, em alto relevo. Uma fita branca prendia o kimono na linha de cintura do espadachim, e havia sido apertada com vontade, pois franzia bastante o kimono àquela altura. Duas katanas de cabo totalmente brancos deitavam-se ao lado do espadachim que, mesmo obviamente notando a presença de Saitoh, não se moveu ou abriu os olhos. Hajime caminhou lentamente até Kenshin, parando a alguns metros, esperando que o outro lhe desse alguma atenção. Como se estivesse lendo a mente do ex-shinsen, Kenshin ergueu-se lentamente e virou-se para Saitoh, abrindo os olhos com extrema lentidão.

– Está tudo pronto? — Perguntou, enquanto fitava Saitoh com seus olhos dourados e vorazes.

– Está. — Respondeu o outro, seco e sem desviar o olhar.

– Podemos ir? — O ruivo questionou novamente.

– Assim que você estiver pronto... — Respondeu Saitoh, enquanto se virava e voltava, caminhando sobre a trilha de água que havia deixado no chão do templo.

Kenshin fechou novamente os olhos e abaixou a cabeça por alguns segundos. Depois, enquanto fixava as katanas por trás da faixa branca, ergueu seu olhar aos céus, tentando adivinhar quando aquelas gotículas transformariam-se na tormenta anunciada pela nuvens escuras.

Ao retornar à hospedaria, Kenshin encontrou os outros que o esperavam já totalmente equipados e sobre os cavalos que os levariam até o complexo militar da cidade. O local era a principal base do exército japonês e estava sendo utilizado por Yamagata para administrar todo o governo do país desde que a "guerra" contra Aoshi e Saitoh havia começado. Era de lá que ele controlava tudo e, provincialmente, seria lá que todas as batalhas iriam terminar. Na certa, Saitoh e sua trupe encontrariam algumas dúzias de soldados armados na vã tentativa de proteger o governante Yamagata e, por isso, precisavam estar preparados para todos os cenários de batalha possíveis.

Porém, qualquer ideia ou imagem formada pelos três espadachins que rumavam ao local não estaria nada próxima à pintura que encontraram assim que adentraram ao enorme portão do lugar. Os três homens, prontos para batalhar e retalhar alguns destacamentos militares de Yamagata, encontraram o lugar já completamente devastado. Haviam, pelo menos, cinquenta homens mortos no pátio do complexo. O sangue dos soldados mortos havia sido diluído pela chuva e, de um ponto de vista bastante depravado, parecia um verdadeiro "oceano de sangue". Saitoh apeou o cavalo e depois, com um golpe forte na anca do mesmo, o liberou para que fosse embora. Kenshin e o outro rapaz repetiram o ato e fitaram Saitoh, que não retirava o sorriso intenso da face.

Os três espadachins estavam, agora, de pé, no meio da chuva e parados, esperando que Saitoh se manifestasse. Do alto de sua montaria negra, quem falou primeiro foi Matsumo, o único que ainda conservava-se sobre o cavalo:

– Em quê está pensando, Saitoh? — Perguntou.

Saitoh virou-se para o jovem Tokugawa e fitou-o por alguns segundos, depois quebrou o silêncio:

– Estou imaginando o quanto Aoshi e seus comparsas devem ter se divertido sem a nossa presença. — Respondeu, finalmente desmanchando o sorriso que havia em sua face branca e molhada.

– Existem três pontos críticos em nossa investida, senhores. — Saitoh falou, virando-se para os outros dois. — Eu investigarei o prédio da ala oeste. Himura atacará o central, sobrando o prédio da ala leste.

O outro espadachim, debaixo de um chapéu largo que o protegia da chuva que àquele momento já havia engrossado um pouco, balançou a cabeça fracamente para baixo, demonstrando aceitar a missão de investir contra o prédio leste do complexo.

Matsumo não se moveu. Apeou o cavalo debaixo de um pequeno telhado próximo ao poço central do condomínio e acendeu um cigarro. Os outros rapazes trocaram rápidos olhares, como se estivessem se despedindo para sempre e, sem dizer uma única palavra, partiram, cada qual para o objetivo que lhes havia sido proposto.


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Hiko estava sentado sobre os calcanhares em frente a um altar muito belo, no centro do prédio leste. O som da chuva que caía sobre o telhado, deixando o ar mais limpo, úmido e misterioso, não incomodava o espadachim. Acomodado em frente a uma imagem de Buda, Hiko dava pequenos goles de sakê diretamente da pequena garrafa que havia carregado até o lugar. Esperava apagar o som dos gritos e hurros agonizantes dos homens de Yamagata, com os goles do líquido que, naquele dia, estava infinitamente mais amargo.

Franziu a testa por um momento, lembrando-se do sangue que jorrava graças as investidas de Aoshi, Sanosuke, Anji e de si próprio contra os soldados que defendiam o pátio. A lembrança de toda aquela carnificina, porém, foi rapidamente ofuscada pelas lembranças fortes de quando recebera a notícia de que seu discípulo estava morto, e de que fora Saitoh quem havia providenciado o incidente. Graças as palavras que havia acabado de trazer novamente à tona, Hiko pôde se lembrar de que fazia tudo aquilo para enfrentar Saitoh, e também para ajudar a conservar heróis como Kenshin e que, graças ao governo de Yamagata, haviam sido completamente apagados da história japonesa.

Perdido em suas lembranças, Hiko nem percebeu o som fraco da porta frontal do prédio leste se abrindo. Alguns segundos depois, porém, foi trazido de volta ao mundo dos vivos pelo som estrondoso de um golpe que , como resultado, lançou o corpo retalhado de Anji Yukuyama contra a grande porta da sala onde estava.

O corpo do monge fôra atirado contra a porta com força considerável, pois abriu a mesma e rolou até o meio do salão. O peito de Anji havia sido aberto por um golpe extremamente forte e que, com certeza, era fruto de uma técnica de battou muito apurada. Lembrou-se por um segundo do golpe poderoso que recebera de Kenshin, quando havia liberado o discípulo dos grilhões que construíam a relação mestre-aluno. Balançou a cabeça negativamente, lembrando-se que o ex-aluno estava morto e, portanto, sobrava uma última alternativa. Levantou-se calmamente e cumprimentou o algoz do monge corpulento:

– Boa tarde, Soujiro Seta.

– Mestre Hiko! Como descobriu tão rápido? — Retrucou o outro, passando pela porta semi-destruída.

– Você desapareceu sem deixar rastros, já há algum tempo. Aoshi deu você como morto mas, no fundo, você nunca esteve realmente do nosso lado, não é verdade? — Respondeu sorrindo, depois continuou com a expressão mais séria. — Se Anji não fosse tão descuidado, talvez tivesse sobrevivido um pouco mais... Não pense que vai ser fácil assim contra mim, Soujiro. Jamais se esqueça de que o shin-soku e as técnica de battou que você utiliza em seu estilo Tenken Ryuu, são pontos bem básicos do Mitsurugi Ryuu...

Antes de concluir seu pensamento, porém, Seijuuro foi obrigado a dar um passo estreito para a direita, desviando do primeiro golpe de Soujiro, e logo em seguida sacou a sakabattou que trazia consigo para defender o golpe frontal aplicado pelo espadachim que era seu adversário. Ainda com as lâminas de suas espadas cruzadas, Hiko estreitou o olhar e arqueou a cabeça levemente à direita:

– Me explique uma coisa, Soujiro. Porque mudou de lado? Estávamos indo tão bem... O que lhe fez virar um traidor?

Soujiro sorriu abertamente, como lhe era de costume, depois respondeu a pergunta do antigo mestre de Kenshin:

– Descobri algo que, se você também descobrisse, saberia que Aoshi não tem a menor chance de vencer...

– Do que está falando? — Perguntou, sem entender, Hiko.

– Eles tem algo que, a nível de batalha, não pode ser sobrepujado por nenhum dos espadachins de Aoshi... E talvez nem por ele mesmo.

–_ Nos traiu por acreditar que estava no time mais fraco?

– Se você descobrisse quem luta ao lado de Saitoh, também perceberia...

Hiko correu a lâmina de sua espada até próximo à guarda da espada de Soujiro e, com um movimento bastante forte, o fez recuar. Depois, enquanto guardava a espada na baínha e flexionava as duas pernas pronto para realmente iniciar a batalha, desafiou:

– Já percebi que não pretende me contar sobre este personagem novo de nossa história, não é mesmo? Tudo bem... Verei com meus próprios olhos, assim que passar por cima de você, traidor imundo!

E, dizendo isso, Hiko se lançou contra Soujiro com uma força e velocidade incríveis, fazendo aumentar ainda mais o sorriso no rosto do outro rapaz.

Embora estivesse extremamente feliz por poder colocar seu estilo Tenken contra o "pai" das técnicas do battou, o estilo Hiten Mitsurugi, o jovem e sorridente Soujiro Seta sabia que a verdadeira definição daquela guerra não sairia da batalha no prédio leste do complexo militar.

CONTINUA !!!

Notas finais
Não percam o próximo capítulo: A Queda de um Grande Guerreiro