Bakumatsu
3 O Convite das Sombras
Notas iniciais
Kenshin lançou um olhar fulminante à Yamagata. Se ele havia percebido aquilo apenas de olhar o bilhete rapidamente, Yamagata deveria saber do sequestro com uma antecedência ainda maior. Em resposta a fitada inquisitora de Kenshin, o velho chefe de polícia abaixou a cabeça, fechou os olhos calmamente e respirou fundo, sob o forte sol que brilhava naquela tarde.
Após alguns minutos de conversa, acertou-se que os três homens iriam se reencontrar mais tarde para uma conversa muito séria, segundo o velho Yamagata. Kenshin e Sano já tinham em mente do que se tratava essa conversa, mas aceitaram o convite assim mesmo. Partiram, Kenshin e Sanosuke, pelo caminho de volta, totalmente em silêncio. Estavam concentradíssimos no que haviam presenciado naquela tarde.
– Sano... Eu acho bom a Kaoru não...
– Saber de nada. — Concluiu Sanosuke — eu concordo. Na situação dela não é nada bom que fique se preocupando com coisas como estas. Afinal de contas, o Yamagata irá cuidar desse problema, não é mesmo? — Sanosuke forçou um sorriso, enquanto coçava a nuca com a mão esquerda.
_ Espero que sim Sano. Eu espero que sim...
Kenshin sabia, no fundo, o mesmo que o amigo também sabia. Yamagata estava em Kyoto por um motivo bem específico. Eles sabiam muito bem que motivo era esse, mais nenhum dos dois tocou no assunto durante o caminho de volta para casa.
Todos os acontecimentos da tarde transcorreram normalmente. O Almoço foi um sucesso, Kenshin lavou as louças, Sano dormiu um pouquinho, Yahiko e Kaoru brigaram a tarde toda, como sempre. Um pouco mais tarde Sanosuke voltou à sua casa avisando a Kenshin que estaria no local e horário marcados. Pouco depois de Sanosuke sair, Yahiko também saiu para ver Tsubame.
No início da noite, Kenshin deixou o dojo com a desculpa de ir até a casa de Sanosuke para combinar os acontecimentos do dia seguinte. De fato, Kenshin foi até a casa do amigo. De lá eles foram ao encontro de Yamagata no local marcado.
O Akabeko de Tae havia se transformado em um restaurante enorme com vários funcionários e ambientes. Em um canto mais separado e pouco iluminado, Yamagata aguardava os dois convidados, com uma garrafa de sakê caprichosamente colocada sobre a mesa com três copos. Depois que os dois tomaram assento à mesa, alguns segundos de silêncio trataram de deixar o clima ainda mais tenso naquela parte do restaurante.
– E então Senhor Yamagata, o que há de tão importante no que aconteceu na casa do governador e que você não podia ter nos contado mais cedo? — Indagou Kenshin.
– O fato, Kenshin, é que este sequestro não é um acontecimento isolado, como você já deve imaginar. Coisas como essa vem acontecendo por todo o Japão, e o espaço de tempo entre os evento têm diminuído em uma velocidade ca vez maior. Aquele selo estranho é a marca de alguém que nós ainda não sabemos quem é. Ele foi encontrado em alguns dos lugares onde esses crimes foram executados.
– E vocês não tem nem idéia de quem possa estar por trás disso? — Perguntou Sanosuke.
_ De fato, não. Temos certeza de que são um grupo extremista que age contra o governo Meiji. Por enquanto nenhum político de influência maior foi raptado, mas nós tememos pela segurança deles. As primeiras abduções não deixavam sinal, mas os eventos estão se repetindo e ficando cada vez mais violentos. Pelo visto, os sequestradores possuem uma habilidade impressionante com a espada e por isso eu vim até aqui hoje Kenshin. Eu vim aqui para ped...
– Para pedir ajuda para o Kenshin e para mim? — Interrompeu Sanosuke, um pouco alterado. — Pois saiba que nós não temos nada a ver com isso e que eu não participarei disto que você está tramando!
Dizendo isso, Sanosuke levantou-se da mesa vermelho de raiva. Parou por uns segundo e depois olhou dentro dos olhos de Yamagata, cerrando os punhos com violência, esmigalhando o copo de sakê que segurava.
_ Eu não faço mais isso! Vocês do governo tem que aprender a se virar sozinhos! façam seu trabalho uma vez na vida! Kenshin pode ajudar você, velho inútil, mas eu estou fora! Agora eu sou apenas mais um trabalhador normal, o Guerreiro Zanza morreu junto com os conflitos no Japão. Nunca mais me procure, Yamagata. NUNCA MAIS!
Kenshin ficou gelado, quase tanto quanto Yamagata. As palavras de Sanosuke eram duras mas cheias de verdades e a ira do amigo era totalmente justificável. Kenshin concordava com tudo que ele dissera. Mesmo que quisesse, não poderia se envolver mais em nenhuma batalha. Ele iria ser pai e seu filho precisaria dele. Além do mais, ele já não era o mesmo, nem tinha a certeza de que poderia vencer os sequestradores com sua espada... Tinha que concordar com Sanosuke e por isso levantou-se também, um pouco mais brando que o irritado Sanosuke.
– Me desculpe senhor Yamagata, mas dessa vez nós não poderemos aceitar seu pedido. Posso dizer ao senhor apenas que o corte no peito de Yayo não provém de nenhuma técnica que eu conheça. O que indica um inimigo poderoso, desconhecido e, por isso, muito perigoso. Espero que você consiga resolver esse problema de forma breve e, se possível, sem violência. Adeus, Aritomo.
Yamagata olhou bem para Kenshin. Ele já esperava uma resposta parecida com aquela que recebera. Agradeceu a Kenshin pela informação e pela paciência do amigo levantando-se e curvando seu corpo, respeitosamente. Permaneceu na posição até que ambos os amigos deixassem sua presença, depois voltou a sentar-se enquanto, com pesar aparente, sorvia o sakê que havia em seu copo.
Kenshin e Sano deixaram o Akabeko e voltaram juntos pela rua principal. Um silêncio mórbido tomou conta dos dois. Ambos sabiam que haviam feito a coisa certa. Tinham a certeza de que não podiam mais encarar batalhas como aquela que Yamagata lhes oferecera. Seguiram assim, em silêncio, até o ponto onde tomariam rumos diferentes. Sano iria para sua casa e Kenshin voltaria para o dojo, cumprimentaram-se e marcaram de se encontrar na manhã seguinte na casa de Kenshin, para um novo almoço juntos.
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Kenshin vinha seguindo calmamente pela rua principal, agora deserta graças ao horário avançado em que se encontrava. O selo da cobra latejava em sua cabeça. O ruivo fez mais um esforço para tentar lembrar da marca porém, a exemplo das outras tentativas, nada surgiu em sua mente. De todos os símbolos de tropas e organizações de samurais que ele conhecia, com certeza nunca havia visto aquela marca. Tratou de esquecer aquilo, pois tinha coisas mais importantes para pensar.
Quando estava próximo do dojo, Kenshin sentiu-se observado. Seus instintos o levaram a dar uma enorme volta, afim de levar seu observador o mais longe possível de sua casa. O novo caminho era iluminado pela grande e brilhante lua cheia que clareava a noite naquela ocasião. Kenshin decidiu levar seu observador um pouco mais longe e adentrou em um bosque mais escuro que existia no novo e enorme caminho que ele havia tomado para ir até o dojo. Esperava que a visão da floresta fosse afugentar a pessoa que o seguia.
Conforme ia adentrando à floresta, o cenário ficava cada vez mais sombrio. Kenshin andou guiado, pela pouca luz que se fazia presente através das frestas nas copas das árvores, até que a lua deitou-se, caprichosa, atrás de uma nuvem espessa. Naquele exato momento em que a floresta havia ficado completamente negra, Kenshin ouviu uma voz ecoar na escuridão:
– Kenshin Himura. O famoso Hitokiri Battousai...
– Quem está aí? — Perguntou, inexplicávelmente assustado, Kenshin.
– Meu nome não é importante... Você fez bem em não aceitar o pedido de ajuda do velho Yamagata. O "grupinho de homens da lei" do velho não terá vez nessa batalha. Ao contrário de você, com certeza!
– Do que você está falando? — Perguntou, agora um pouco trêmulo, Kenshin.
– Você sabe do que eu estou falando... Sim! Os sequestros e assassinatos tem a ver com o que estou tentando lhe contar. Eles são a reta final de um plano que levou anos para ser arquitetado. Outros traços de nosso plano são invisíveis aos olhos turvos de Yamagata ou de qualquer um de seus patéticos recrutas.
– Recrutas? — Kenshin indagou, um pouco confuso.
– Você e aquele inútil do Zanza nem deixaram o Yamagata terminar de falar, não é? Vocês não sabem da guerra? Yamagata sabe... Ele foi avisado por um dos nossos, pessoalmente. Ele foi avisado para ficar fora disso. Não contávamos, obviamente, com a coragem inacreditável dele para ignorar os nossos avisos. Por isso ele veio até aqui hoje... veio para recrutá-lo. Mas aparentemente você continua do nosso lado não é?
– Do seu lado? Que guerra é esta que você está falando?
– Você sabe da guerra, Battousai... você já esteve nela uma vez. Você sempre foi a personificação dela, e ela também era a sua razão de viver. Foi peça importante nela e o será novamente, pode ter certeza disso... Eu também vim até aqui para recrutá-lo, Himura. Afinal, você gostará de estar do lado forte quando o Bakumatsu voltar, não vai?
Kenshin tremeu de cima a baixo. A simples menção da palavra Bakumatsu fez seu sangue congelar e suas pernas tremerem. Ficou quieto por alguns segundos, pensando. Não conhecia a estranha voz, mas ela parecia conhecê-lo muito bem. Parecia conhecer o Battousai. Sentiu as pernas geladas e trêmulas, enquanto os mais diversos sentimentos o atacavam ferozmente enquanto ele relembrava os terrores vividos em seu passado sombrio. Procurou concentrar-se para não expor o incompreensível tremor que sentia aos olhos de seu interlocutor. Buscava em seu cérebro o jogo de palavras que poderiam dar um fim àquela estranha conversa. Finalmente as encontrou! Deu uma última firmada nas pernas e falou, ainda sem a habitual segurança nas palavras:
– Eu realmente não sei quem você é ou o que quer comigo. O Bakumatsu acabou já faz muito tempo! Os conflitos morreram e, com eles, morreu também o Battousai que você procura! A minha resposta para a sua pergunta é a mesma que já dei a Yamagata. NÃO! Vire-se, você também, com seus próprios problemas!
Kenshin não podia acreditar nas palavras grosseiras que acabavam de saltar de sua boca. Imaginou que o homem não gostaria nem um pouco de ser tratado com tamanha grosseria, pois parecia ele muito concentrado e tranquilo. Um tenebroso silêncio dominou a escura floresta. Kenshin sentiu as pernas ainda mais trêmulas. Após o interminável silêncio, o homem falou calmamente:
_ Himura... Você não entende, não é? Você simplesmente não tem escolha! Não pode escolher entre lutar ou não lutar. Esta escolha já foi feita por alguém, em seu nome. Esse alguém escolheu por você e, adivinhe só: Ele escolheu que você vai lutar! Talvez vocês dois não possuam uma ideologia tão parecida quanto ele imagina, não é? Você se arrepender, Battousai... Com toda a certeza eu lhe digo isso. VocÊ não pode fugir, não deve e não lhe será permitido ficar alheio a tudo isso...
Kenshin já estava certo de que o homem iria embora em breve, por isso o tremor acalmou em seu corpo. Alguns segundos se passaram antes que ele pudesse julgar o local seguro o suficiente para retomar a caminha até sua casa. Porém, antes de esboçar o primeiro passo em direção ao dojo Kamiya, sentiu uma fortíssima pontada no ombro direito. Dirigiu seu olhar para a origem da dor.
Atravessada em seu ombro, pode ver uma lâmina ensanguentada. Naquele exato momento a lua se levantou por detrás da nuvem e o sangue de Kenshin escorreu da lâmina. O ruivo sentiu o sangue gelar e um tremor ainda mais intenso percorreu seu corpo. Um entalhe feito na lâmina brilhava à pouca luz vertida pela lua naquele ponto da floresta. Um kanji conhecido de Kenshin se fazia presente na lâmina da espada que atravessara seu ombro. Caprichosamente entalhadas, as palavras "Isshin Shishi" passaram a transtornar com violência o raciocínio do ruivo.
Os dentes de Kenshin rangeram com força. Seus membros ficaram completamente paralisados. Não pela dor, que já era quase ausente, mas pela figura entalhada na lâmina e, a partir daquele momento, na mente do ex-espadachim. A voz estranha soou como um sussurro muito próximo de seu ouvido:
_ Lembre-se Battousai: Você não pode fugir. Uma vez Isshin Shishi, para sempre Isshin Shishi...
!!!! CONTINUA !!!!
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