Bakumatsu
4 Kenshin Himura: O Battousai!!
Notas iniciais
Kenshin respirou pesado... "Quem é você?", "Como sabe tanto sobre mim?". Esperou para que ele se pronunciasse novamente, mas isso não aconteceu. Sentiu-se livre de seu observador o suficiente para poder finalmente voltar para casa.
Retirou calmamente a espada cravada em seu ombro, rangeu os dentes mais uma vez demonstrando intensa dor, e ficou pensando no fim que deveria dar a ela. Resolveu que deixá-la ali, naquela floresta, realmente não seria o mais inteligente a fazer e por isso carregou-a consigo.
Caminhou alguns metros e parou. Apoiado sobre a espada, Kenshin sentiu-se subitamente fraco e atordoado, provavelmente pela perda de sangue causada pelo ferimento. Engoliu em seco e continuou seu caminho cambaleando e arrastando a espada, trilhando um fino rastro de sangue por onde passava.
Quando já beirava a saída da floresta, sentiu o rosto atingido por um pingo d'água. Parou novamente apoiado sobre a espada, ainda mais fraco e tonto, e ficou observando a chuva forte que caía sobre seu corpo por alguns poucos segundos. Pensou em Kaoru e em como ela deveria estar preocupada com o marido, por isso fez um esforço ainda maior e apressou o passo.
Regressou todo o caminho que havia feito para despistar seu perseguidor e finalmente virou na última esquina, chegando à rua do dojo. Pensou em como explicar a Kaoru seu ferimento e o porque de ter demorado tanto para chegar, porém seus pensamentos foram interrompidos quando distinguiu, ao longe, um corpo deitado na frente do dojo, no meio da chuva. Juntou a pouca força reservada a dar as explicações para Kaoru e começou a correr em direção àquele corpo caído em frente a sua casa.
Quando finalmente atingiu seu destino, Kenshin parou estarrecido. Em sua frente jazia o corpo da jovem Tsubame, namorada de Yahiko. Abaixo dela, uma enorme poça de sangue diluído em água. Kenshin adentrou correndo os portões do dojo, guiado pelo instinto e pelo pressentimento de que algo estava muito errado.
A cena presenciada lhe paralisou por completo. Jogado ao chão, já na parte do terreno que compreendia os limites do dojo, estava o corpo de Yahiko. Seu peito havia sido aberto por um poderoso golpe de espada. Pensou em verificar se o amigo ainda respirava porém, ao ver o pescoço do jovem retalhado brutalmente, seus pensamentos voltaram-se para Kaoru. Queria gritar de dor pela perda do garoto e de Tsubame também, porém não lhe saía da mente a imagem de sua esposa. "Como ela está?", "Meu filho... como está o meu filho?".
Firmou a espada em seu punho. Uma força desconhecida impulsionou Kenshin para uma corrida em direção à larga porta de entrada do galpão principal. Entrou correndo procurando por Kaoru porém, assim que deu o primeiro passo para dentro de sua casa sentiu uma dor extrema diretamente no coração. A dor aguda, que eles jamais havia experimentado antes, correu pela superfície de seu corpo parecendo lhe rasgar por inteiro. Em um único instante, sentiu como se todo o seu corpo fosse atravessado por uma centena de lâminas e sua alma se estilhaçasse por completo. Ainda que ninguém o tivesse atacado de forma física, tinha certeza de que sua alma jamais se recuperaria do golpe.
O tatame do dojo, iluminado apenas por uma lamparina sobre o altar principal, estava completamente tingido de vermelho. O chão totalmente tomado por sangue. À esquerda da porta, um jovem desconhecido morto com um golpe na cabeça, e ao centro, o corpo de Kaoru.
Kenshin sentiu a boca seca, enquanto seu coração disparava e parecia querer saltar violentamente para fora do peito. Haviam mais um ou dois corpos na sala, porém ele enxergava apenas o de Kaoru. Estava deitada no centro do salão principal com uma espada cravada no ventre. Próximo dela uma outra espada estava jogada no chão. Possivelmente esta outra deveria ter sido empunhada por ela, em um último esforço para defender-se e a seu filho também. Seus olhos estavam cheios de lágrimas:
– Kaoru... — Seu corpo tremia de agonia, ainda que não pudesse executar nenhum movimento em direção à falecida amada.
As lágrimas rolaram e novas se formaram, fazendo jorrar um rio dos olhos do homem ruivo. Kenshin cravou a espada que trazia consigo no chão e permitiu-se desabar sobre os joelhos logo em seguida. Apoiava o corpo largado segurando-se ao cabo da espada e não tirava os olhos de sua amada Kaoru. Lembrou todos os bons momentos que teve com ela. Flashes de todo os almoços divertidos que tiveram. Todas as noites que passou ao seu lado, acordado, velando seu sono. De todos os desafios que já havia enfrentado para salvar-se por ela. Sua promessa de nunca mais matar havia sido mantida, em partes, graças ao apoio e a presença de sua alma-gêmea. Recordou-se de tudo que já tinha feito por ela, e de tudo que tinha planejado fazer para que ela fosse ainda mais feliz. Estava tudo arruinado. Todos seus sonhos haviam sido destruídos com a morte de seu amor. Pensou durante um segundo, em uma maneira de trocar de lugar com ela.
– Era eu quem deveria morrer pela espada. Não você... — Comentou, com os marejados orbes liláses mirados no corpo sem vida de Kaoru.
– Isso pode ser arranjado, Battousai...
A voz lhe soou completamente estranha. Voltou seus olhos para a origem das palavras. O homem alto, de cabelos curtos e negros, vestia um kimono azul claro e utilizava uma faixa branca na testa. Empunhava uma espada ensanguentada e sorria demonstrando certa superioridade. Atrás dele, na parede do dojo, Kenshin distinguiu as palavras "Aku Soku Zan" escritas com sangue.
– ShinSen... — Murmurou, curvando a cabeça para baixo.
– Exatamente! — O outro retrucou, com rasgado sorriso e voz poderosa. — O tempo não prejudicou sua memória, não é, Battousai?
Kenshin calou e, ainda chorando pela morte de Kaoru, fez as pontes necessárias:
"Sinsengumi... Eternos inimigos dos 'guerreiros da revolução'. Matariam Kaoru Apenas para me provocar? Claro! Os desgraçados nunca tiveram problemas em envolver inocentes em sua busca incansável por poder. Mas, se buscam meu sangue, terão a resposta à altura! O Battousai não terá o corpo retalhado por esse idiota vestido de azul! Jamais morrerei pela espada de um Lobo de Mibu..."
As lágrimas cessaram de repente. Kenshin levantou calmamente de olhos fechados. Os braços e pernas trêmulos deram lugar a pernas firmadas e punhos ferozmente cerrados. Estendeu seu braço direito e apanhou a espada cravada em sua frente. o tatame rasgou-se com facilidade, e algumas lascas de madeira saltaram do buraco, enquanto Himura removia a arma com violência do chão. Abriu, vagarosamente, os olhos e fitou seu interlocutor. Seus olhos brilhavam com um púrpura tão intenso que fizeram o rapaz vestido de azul recuar dois passos e se aproximar ainda mais do altar iluminado. Kenshin piscou calmamente, gelando a alma do outro que, àquela altura, já havia dado conta de que suas provocações haviam selado os destinos de ambos os samurais naquela sala. As palavras, fracas e espaças, foram trocadas por frases imperativas e não menos furiosas que seu olhar:
– Você!! Lobo... É o responsável por essa bagunça? — Kenshin apontou com a espada para os outros dois corpos sem vida jogados na beira do tatame. Sua voz ecoava forte pelo vasto salão de treinos do dojo Kamiya Kasshin.
– Eles? — O rapaz respondeu — Foram morto por essa vagabunda aqui. Sabe, Battousai... Acredito que ela tenha sido para mim um desafio maior do que você será, afinal... O tempo murcha as plantas e enferruja as engrenagens paradas, não é mesmo?
Kenshin não mudou seu olhar nem mesmo diante dos insultos tecidos pelo jovem espadachim contra sua esposa, como seria de se compreender. Ao contrário, ignorava o corpo da moça grávida no centro do tatame e fitava apenas o espadachim no outro canto da sala. Para ele, era como se a morte de Kaoru não representasse mais nada. Ao ver o leve e tímido sorriso no rosto do ruivo, o espadachim continuou:
– Agora que já provei do aperitivo... Vamos ao prato principal!!!
Dizendo isso, lançou-se sobre o Battousai em uma velocidade que impressionou até mesmo o hitokiri.
Kenshin apenas esperou. Esperou o último momento, quando o rapaz não pudesse mais voltar atrás e só então se moveu. O golpe frontal-superior desferido pelo jovem foi desviado por Kenshin com um leve movimento de sua cabeça para a direita. Quando percebeu que a lâmina do jovem não representava mais nenhum perigo, abaixou-se e atacou de baixo para cima, empurrando sua espada e atravessando a cabeça do outro a partir de seu queixo.
Ficou lá, parado em baixo do rapaz, por alguns segundos. O oponente apoiava o corpo desfalecido sobre os ombros de Kenshin, que estava parado e com sua espada ainda atravessada na cabeça do inimigo. O Battousai virou-se vagarosamente de costas para o rapaz ainda embaixo de seu corpo morto enquanto girava a lâmina atravessada na cabeça do alvo. Um estalo leve ecoou no salão enquanto o crânio do homem de azul de partia e uma enorme quantidade de sangue começou a fluir em direção à Kenshin. Só então, o hitokiri puxou a espada para frente com violência extrema, abrindo o rosto de seu inimigo ao meio e fazendo jorrar seu sangue por toda parte. Abriu os olhos, vagaroso. Seus cabelos enxarcados de sangue tinham uma tonalidade vermelha intensa e seus olhos brilhavam de um púrpura ainda mais intenso do que antigamente, quando havia construído a fama que o tornou lenda entre todos os espadachins do Japão. Ele havia voltado. O espírito do Hitokiri Battousai havia finalmente readquirido o controle. Ele havia deixado para trás toda a vida de Kenshin Himura e agora era apenas o sanguinário assassino. Não demonstrava ódio, nem tristeza. Seus olhos, de íris dourada, não carregavam qualquer sentimento. Ódio, rancor, tristeza, amor... Todos os sentimentos humanos haviam abandonado o cerne do homem ruivo banhado no sangue de seu adversário. Ele voltara a ser, como antigamente, o frio assassino perfeito. Despojado de qualquer sentimento humano, Kenshin Himura havia voltado a ser somente a máquina de matar, a mais mortal e temida máquina de matar da história japonesa.
Dirigiu-se em silêncio até o altar e, com um leve toque de sua espada, despejou todo o óleo da lamparina e a derrubou em seguida, fazendo o fogo começar a se espalhar por todo o dojo. Passou novamente sobre o corpo de Kaoru sem demonstrar o menor sentimento por ela, provando que tudo que Kenshin era e sentia havia sido enterrado no exato momento em que o espírito assassino do Hitokiri havia retornado.
Caminhou dojo afora pensando em para onde iria agora. A chuva já havia diminuído um pouco, e as pequenas gotas de água diluíram o sangue que cobria Kenshin e se espalharam por todo o corpo do hitokiri. Inerte em seus pensamentos, ele não percebeu a presença de outro alguém parado na chuva do lado de fora do dojo. Seus pensamentos foram interrompidos pelo som de palmas. O som congratulado das vagarosas e vigorosas palmas retirou Kenshin de seu transe, ele virou para observar quem o congratulava.
– Parabéns, Battousai... Você passou em nosso teste! Demonstrou muita habilidade lá dentro. Ekiru era um dos nossos melhores homens... Agora que voltou para o nosso lado, temos uma chance ainda maior de vencê-los. Certamente acabaremos com o plano do Hebi.
A voz era, com certeza, a mesma que o havia interpelado na floresta. O mesmo que havia feito o ferimento em seu ombro, que por sinal ardia bastante ao toque da água gelada que ainda caía do céu. Lembrou das palavras desferidas pelo homem naquela floresta mas principalmente, lembrou-se do golpe covarde que havia levado dele. Aproximou-se, perguntando:
– Quer que eu trabalhe para o Shinsengumi? É isso que quer?
– Não, não... Oh... Não, não!! — O outro corrigiu com veemência, agitando os braços e sorrindo. — Ekiru era dos nossos. Ishin Shishi... Precisávamos de alguém que pudesse trazer você de volta, e ele foi o pobre escolhido. Pelo menos concluiu sua missão. Não é mesmo?
Kenshin aproximou-se bastante do homem, que recuou até encostar as costas em uma árvore que se encontrava atrás dele, amedrontado com o olhar faminto do ruivo.
– Não sou marionete de ninguém...
Então, com um movimento na Velocidade de Deus(Shin-Soku), Kenshin ergueu o homem e cravou a espada em sua garganta, empalando-o na velha árvore que enfeitava o quintal do dojo.
Virou-se e deixou o homem lá, pendurado na árvore há uns 15 centímetros do chão, suportado pela lâmina da katana entalhada que atravessara, também, o carvalho ancião. Conseguiu dar apenas mais alguns passos em direção a saída antes que sua visão ficasse turva e suas pernas começassem a fraquejar. As imagens foram ficando cada vez mais escuras até, finalmente, desaparecerem de sua vista quase ao mesmo tempo em que as pernas cansadas finalmente se rendiam à perda de sangue causada pelo ferimento e o faziam despencar inconsciente no chão molhado do terreno.
!!!! CONTINUA !!!!
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