Bakumatsu
18 As Regras do Jogo
Notas iniciais
O breu noturno havia sobrepujado o sol radiante da tarde, já havia algumas horas, e o bosque próximo à Kagoshima estava silencioso e, mais uma vez, congelante. A noite que havia passado também havia sido igualmente fria e silenciosa. O brilho das estrelas era encoberto por espessas nuvens de chuva, que haviam chegado no final da tarde e ainda pairavam sobre toda a região, sem precipitar uma única gota d'água.
Saitoh caminhou alguns metros bosque adentro, sem perder de vista o amarelado com que as luzes da cabana banhavam a paisagem logo atrás dele. Caminhou um pouco apenas para deixar toda aquela luminosidade e para que pudesse, na escuridão do bosque à sua frente, lançar seus pensamentos sem que eles fossem ofuscados. Com a mão direita, afastou o casaco negro que cobria suas vestes e encontrou o bolso de seu hakama, de onde retirou um maço de cigarros e uma caixa de fósforos. Levou o maço até a boca e, com os lábios, segurou um dos cigarros, depositando o maço novamente no bolso de sua calça. Acendeu o cigarro e tragou, deixando que a fumaça saísse lentamente por suas narinas e pelo canto esquerdo da boca pequena.
O espadachim encostou-se em um tronco longo de um velho ipê e correu seu olhar para os céus, procurando vislumbrar as flores amarelas nos galhos acima de sua cabeça. Para seu azar, o outono gelado do sul do Japão já havia arrancado todas as folhas e as secado no chão do bosque. O que ele conseguiu distinguir com a pouca luz que vinha em direção à arvore, foram os galhos secos e alguns morcegos que passavam velozmente de um lado para o outro, afim de encontrar alimento em alguma árvore frutífera da região. Por uma fração de segundos, Saitoh se sentiu ameaçado pela presença de outra pessoa que vinha em sua direção. O outro, porém, revelou sua identidade antes que Saitoh se colocasse em posição de batalha.
– Em que está pensando, Saitoh? — Questionou a voz jovem e firme do outro. — Por acaso está pensando em uma possível derrota na batalha?
– Hum... — Saitoh deu de ombros. — A derrota na batalha de amanhã não é, sequer, uma infeliz possibilidade, Matsumo. Nosso adversário não possui a habilidade necessária para nos parar agora... Nós o manipulamos extremamente bem e, mesmo agora que ele sabe que temos o Battousai a nosso lado, ele vem se movimentando como prevíamos. Duvido que ele desista porque acredita que tem tudo sob seu controle...
– Temos algo a nosso favor. Você vai vencer amanhã, desde que consiga prever como Aoshi vai dispor suas peças. É exatamente como sempre gostaríamos que fosse... Como em uma partida de shogi, não é?
Matsumo sorriu. De fato, Saitoh havia conseguido manipular Aoshi conforme suas necessidades. A analogia à partida de shogi era cabível, e ele sabia que para vencer, haviam duas ou três peças que não deveriam se cruzar no tabuleiro. Por outro lado, tinha em mente cada jogada de seu adversário e sabia exatamente o que deveria fazer.
Saitoh tragou mais uma vez seu cigarro. A fumaça que ele baforava de tempos em tempos bailava no ar gélido do bosque e empestiava o lugar com um cheiro forte de tabaco. Ao perceber que um terceiro personagem juntara-se a eles, Matsumo deu as costas à Saitoh e retornou para a cabana. Saitoh sorriu para a escuridão à sua frente, saudando o espadachim que acabara de chegar.
– Senhor Himura. — Disse pausadamente e com o sorriso ainda na face. Mais uma tragada no cigarro, e ele continuou. — Os homens estão prontos?
– Nosso novo soldado já está na cabana, com os demais. — Respondeu, seco e com a cara fechada, Kenshin Himura.
Saitoh soltou novamente a fumaça que havia em seu pulmão, arqueando levemente o rosto para cima e baforando o jato de fumaça para o alto, para que não atingisse Kenshin. O Battousai deu dois passos para trás e encostou-se nos restos de um carvalho antigo. Ele parecia perturbado com algo e Saitoh lhe dirigiu a palavra, enquanto apagava o cigarro pressionando a ponta em brasa contra o tronco do ipê:
– O que lhe incomoda?
– Aoshi me incomoda... — Himura respondeu, ainda seco.
– Ele é mesmo intrigante. Amanhã o faremos pagar pelo que fez a minha irmã e aos seus amigos...
Saitoh tomava extremo cuidado ao mencionar o passado de Kenshin. Ele sabia que o episódio em Kyoto fora decisivo para que o Battousai retornasse a ativa. Ele já havia escutado histórias da batalha de Himura contra Jin-e, e sabia que fazer simples menção à figura da bela Kaoru Kamiya poderia fazer com que o espírito do Battousai partisse, e isso não era nada interessante. Pelo menos por enquanto.
– Eramos parceiros, eu e Aoshi... — Comentou Saitoh, afim de mudar o rumo da conversa. — Você sabia?
– O plano de tomada do poder... Foi planejado por vocês, não é? — Kenshin interessou-se.
– Mais ou menos...
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Ibusuki — Proximidades de Kagoshima.
14 meses antes...
O outono havia começado a alguns meses, e logo chegaria ao fim. As noites eram congelantes e os dias ensolarados e belos, ainda que nenhuma planta estivesse florida.
Saitoh apeou o cavalo próximo a uma enorme mansão em uma área mais retirada da cidade. No portão da casa, dois homens armados barravam a entrada de qualquer um que não fosse convidado. Os homens eram fortes e ambos estavam munidos com armas de fogo. Vestiam uniformes do exército japonês e guardavam, de prontidão inabalável, o portão de bronze que ostentava o símbolo do governo banhado à ouro, bem no centro.
Caminhando trôpego, como se estivesse bêbado, Saitoh dirigiu-se ao portão da casa. Quando estava a uns quatro ou cinco metros do destino, foi bloqueado por dois pares de braços fortes, que o derrubaram no chão.
– Bêbado maldito! Vá para sua casa espancar sua mulher, ou algo do tipo... Não temos nada para você aqui! — Zombou um deles, enquanto dava às costas ao homem aparentemente bêbado.
O outro, que permaneceu parado em frente à Saitoh, não teve tempo de gritar ou disparar a arma. Saitoh ergueu-se do chão com um salto e, sacando a katana que trazia horizontalmente dependurada nas costas, golpeou-o no peito. A lâmina impecavelmente afiada da espada abriu um enorme corte de mais ou menos seis centímetros de profundidade no peito do rapaz e seu corpo desfalecido girou no ar, fazendo jorrar um pouco de sangue na direção do outro guarda.
Ao sentir o líquido rubro e quente atingir seu braço esquerdo, o outro rapidamente girou na direção do homem que ele havia ajudado e derrubar. O suposto bêbado havia se atirado contra ele em uma velocidade impressionante e encontrava-se abaixado a meio metro dele, com a lâmina ensanguentada apontada para seu peito. Antes que o guarda pudesse reagir, ou esboçar qualquer grito ou barulho mais alto, Saitoh estocou o homem com sua katana na altura do pulmão enquanto, com a mão esquerda, golpeava o braço direito dele para que a arma de fogo não disparasse acidentalmente. Depois, enquanto o braço esquerdo silenciava o guarda, o direito girava, calma e vigorosamente, a espada que havia atravessado o homem. O sangue que o guarda expelia pela boca escorria por entre os dedos de Saitoh enquando ele observava sorridente o desespero do guarda que se afogava no próprio sangue.
– Errado meu caro... Vocês TÊM algo que eu quero dentro daquela casa.
Alguns minutos depois, Saitoh adentrava à mansão completamente ensanguentado e, de maneira silenciosa, caminhava escadaria acima. Como todos os empregados da casa estavam dormindo, Saitoh não teve problemas para chegar despercebido até o quarto do governante, abrindo a porta e entrando lentamente.
O homem estava deitado em sua cama e dormia calmamente. Saitoh aproximou-se da vítima porém, quando estava prestes a decapitar o homem, ouviu uma voz suave, que lhe dirigia a palavra:
– Eu não faria isso...
Saitoh virou-se e observou o dono da voz.
– Aoshi Shinomori... — Falou, em um tom um pouco mais elevado. — Desde quando você faz segurança pessoal, hein Aoshi?
– Tempos difíceis, Saitoh... Protejo quem pagar mais, sempre fui assim...
– Besteira! — Saitoh alterou-se. Com o barulho das palavras de Saitoh, o velho homem que estava dormindo despertou.
– Você tem razão. Estou recebendo para proteger este homem, mas só aceitei pois queria saber quem estava atacando o governo...
Saitoh caminhou até Aoshi, que estava sentado em uma poltrona ao lado da janela. De braços cruzados e sem pôr-se em posição de batalha, Aoshi continuou:
– Quatro desaparecimentos em dez dias, é um número preocupante. Aparentemente o exército não pode fazer a proteção de seus próprios governantes, não é? — Indagou, com um sorriso no canto dos lábios.
– Acabei de matar dois soldados patéticos lá na frente. — Saitoh disse, apontando pela janela em direção ao portão principal da propriedade.
– Está vendo senhor Kazuma? — Aoshi riu, enquanto se levantava e caminhava em direção a cama do velho homem. — Se tivesse colocado vinte soldados, como insistiu, já teríamos vinte e um corpos aqui. Fiz bem em dispensar todos aqueles homens inocentes não é?
O homem franziu a testa.
– ESTOU LHE PAGANDO MUITO BEM AOSHI!! PARE DE CONVERSAR COM ESSE ASSASSINO E ACABE COM ELE!! — O velho se desesperou, sua voz forte e trêmula era cheia de ódio e desdém.
Aoshi pareceu ignorar as palavras de seu contratante. Apenas permaneceu em frente à Saitoh, inclinou a cabeça levemente para a direita e estreitou o olhar.
– Não intendi o porquê desses sequestro todos...
– Quando uma fruta está podre, temos que retirá-la de perto das outras. Ou ela estraga todo o resto. — Saitoh respondeu, firme.
– Ainda não entendi. — Aoshi arqueou uma sombrancelha.
– Para que o poder volte para as mãos dos espadachins, é necessário que quem detêm o poder seja retirado de seu cargo. — Saitoh comentou, enfatizando a palavra "retirado".
– Hun... Acho que entendi! — Aoshi sorriu. — Você pretende dissolver o governo Meiji com essa meia dúzia de assassinatos? Antes que você termine de preencher sua lista, uma nova já terá se formado!
Saitoh parou por um momento. Aoshi não era mercenário, e ele sabia disso. Estava ali naquele quarto apenas por mera curiosidade...
– Façamos de minha missão nossa disputa particular, então... — Saitoh comentou, esperando despertar algum interesse em Aoshi.
– O quê quer dizer com isso?
– Você acredita mesmo em almofadinhas como este? — Saitoh apontou o indicador ensanguentado na direção de Kazuma. — Acredita que eles tem o poder para administrar nosso país? Que são fortes e que representam o poder do povo? — Aoshi desviou seu olhar para a janela, como se estivesse realmente considerando as palavras de Saitoh.
– Não importa o que me motiva, Saitoh. Por mais estúpido que eu possa parecer, compartilho em parte com o que você diz... — Aoshi caminhou até a janela, observou a lua cheia que brilhava forte e depois se dirigiu até a porta do quarto.
– Vou pensar no que me disse, Saitoh... Adeus senhor Kazuma, adeus... — Comentou Aoshi enquanto saía do quarto.
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– Depois dessa noite... — Continuou Saitoh. — Dividimos convenientemente a lista de "coelhos" a serem caçados, e prometemos jamais interferir no trabalho um do outro. E desde então tem sido assim...
– Humpf... Você acha mesmo que Aoshi é uma de suas marionetes? Se ele seguiu suas instruções até aqui, é porque lhe foi conveniente. — Comentou, decepcionado, Kenshin.
– Nos foi conveniente... — Corrigiu, Saitoh.
– Amanhã... — Disse Kenshin, enquanto caminhava em direção à cabana onde passaria a noite. — Amanhã descobriremos quem manipulou quem, senhor Hajime...
CONTINUA!!!
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