Baile de Pai e Filha
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Espero que gostem...
E vamos ver o que espera para essa Ruivinha!
—Liz! Anda, filha! O seu café da manhã está na mesa.
— Tô indo, papai!
Dez minutos se passam e nada da garota descer!
— Lizzy! O café!
— OK!
Mais dez minutos e já famosa falta de paciência do líder da MCRT começa a aparecer:
— Elizabeth! Eu estou te mandando descer agora!
Passos são ouvidos no corredor. Ao que parece a menina está aprontando algo. Mas nada de descer.
—Shepard! Eu. Quero. Você. Aqui. Em Baixo. AGORA!
Era como se eletrocutasse a menina. Bastava gritar o primeiro sobrenome da filha adotiva que ela descia igual a um raio as escadas, seguida por seu cachorro e por sua gatinha.
— Cheguei! — Ela diz fazendo a famosa cena de abrir os braços como se fosse uma estrela do cinema saudando o público. — Bom dia, papai! – A, já não tão baixinha assim, garota dá um beijo de bom dia no rosto do pai e se dirige, não para sua cadeira de costume à mesa, mas ao lixo onde joga um papel todo amassado.
— Que é isso?
— O que?
— Elizabeth, não teste minha paciência...
— Papel – ela diz respirando fundo.
— Que papel – Sobrancelha levantada. Se a menina não soltasse a verdade logo, ele não controlaria a paciência.
— Nada de importante. – Ela olha para a cara do pai e pelo que vê, resolve que tem que se explicar. – É só o folheto do “Baile de Pai e Filha” e como eu sei que o senhor não gosta dessas coisas eu tô jogando fora.
— Você quer ir?
— Eu não sei dançar e o senhor não vai gostar das músicas. Melhor não!
— Tem certeza?
— Sim! O que tem de café da manhã?
— Você está atrasada. Deveria te deixar sem café!
— Sabia que o café da manhã é a refeição mais importante? E se eu não comer logo pela manhã e, levando em consideração, que hoje eu tenho aula de educação física antes do intervalo do almoço, eu posso não ter forças suficientes para chegar até ao almoço e posso desmaiar ao praticar um exercício... e o senhor sabe qual é o procedimento da Escola para os casos em que os alunos passam mal? – Ela tinha uma sobrancelha levantada, os braços cruzados e o encarava com toda a confiança possível.
Ele só podia respirar fundo e fazer a única pergunta que interessava no momento, além de xingar mentalmente a genética da garota, ela tinha que ser tão parecida com tia?
— Não, Elizabeth. Não sei. Qual é? – Diz com um suspiro frustrado.
— Eles ligam para os pais para que eles busquem os filhos e os encaminhem para o hospital mais próximo... isso significa que, se eu não tomar o meu café da manhã, eu vou desmaiar na educação física e, assim que eu passar mal, a coordenadora vai te ligar para me buscar, o que vai resultar em você tendo que sair de uma provável investigação para tomar conta da sua filha. Não soa justo com a equipe, né?
— Com a equipe?! Não soa justo comigo! Porque eu não tenho culpa se você é a senhorita dorminhoca e não consegue acordar na hora certa! Então coma logo porque eu tenho que trabalhar e você – ele diz fazendo cosquinha na garota – tem que ir pra escola.
— Pai, para!! Por favor! Cosquinha não! Eu vou comer!
E, por breves cinco minutos a casa fica em silêncio. Coisa rara desde que a pequena e seu cachorro se mudaram para lá. E, somando ao fato de que agora a família era formada, também, por uma temperamental gata ruiva, silêncio e quietude eram exceções a todas as regras. Mas ele não ligava. Melhor assim do que viver naquele luto permanente.
Quando a filha acabou o café, ela foi fazer as tarefas que lhe eram determinadas todas as manhãs. Elizabeth queria continuar com o Ice nos seus calcanhares e com a Ginger[1] (depois de muito pensar, foi esse o nome que sobrou para a gata)? Pois, então, era ela a responsável por tratá-los e levá-los para um passeio todas as manhãs antes da escola.
Tudo pronto. Todos os objetos da escola na mochila. Eles finalmente poderiam sair. Lizzy se despede dos bichinhos e rumam para o carro. E ele vai até o lixo e paga o folheto amassado, uma ideia tinha se formado.
Ele deveria deixar a porta trancada como vinha fazendo desde que Lizzy havia se mudado para lá, mas algo, talvez seu infalível instinto, lhe disse que hoje era para deixar somente fechada, pois alguém poderia fazer uma breve visita.
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— Você tem certeza de que não quer ir ao baile? — Ele perguntou pela terceira vez, ela parecia muito quieta, o que era incomum, pois estava sempre falando de algo que estudou ou que tinha acontecido durante a semana.
— Não... não ligo de ir... ou não ir.
— Então por que tão quieta?
— Não sei explicar...
— Tente.
— Pai, o senhor acredita em fantasmas?
Sutileza não era o forte dela. Nem o dele. Ele sabia de quem ela estava falando. O motivo da pergunta era o mesmo motivo pelo qual ele deixara a porta destrancada nesta manhã. Mas o que ele poderia dizer? Ainda não tinha a autorização para contar tudo para a garota. Até porque ela ainda não havia aparecido propriamente para ele. Era sempre um andar, o som dos saltos ecoando no corredor ou descendo as escadas para o porão; um pequeno bilhete sem assinatura destinado a ele; um presente para Liz em datas especiais ou em qualquer outro dia; a garrafa de Bourbon se esvaziando ou até mesmo o sofá desarrumado em algumas manhãs, mas nunca pessoalmente. Pensando melhor, a palavra “Fantasma” se aplicava bem à situação.
— Não, Liz. Eu não acredito. – Apesar de que ele lidava com os seus próprios fantasmas.
— Sei... – ela ficou cabisbaixa. – Devo ter sonhado... mas era tão real, ela ali. Foi diferente de sonhar com a mamãe ou com o papai.
De novo ela. O nome que nenhum dos dois dizia, somente o pronome. E ambos sabiam quem o outro mencionava.
— Acho que vou tirar aquelas fotos do seu quarto. Talvez você pare de sonhar assim. – Ele tinha a solução para o fantasma sumir. Mas não era essa. Se ela apareceu nesta noite, significava que algo estava para acontecer. Algo que não necessariamente envolvia os dois habitantes daquela casa em Alexandria. Mas também significava que ela voltaria. Aquela casa era o único local que ela poderia chamar de lar, então era ali que ela ficava quando estava no país. Chegava tarde da noite, passava um tempo no porão, subia as escadas, vigiava o sono da sobrinha. Algumas noites parava na porta do quarto dele, fazia menção de abri-la, — só o fez uma vez, ficou ali parada olhando para ele, no escuro. Depois descia, dormia no sofá. E, de manhã, fazia o café e saia, como se nunca estivesse estado ali. E esse estranho ritual se repetia por alguns dias. Até que ela sumia. Contudo, se ela estava de volta e dessa vez Liz a tinha visto, mesmo que meio dormindo, ele tinha que avisá-la. Deixaria um bilhete pregado na bancada de serviço no porão.
— NÃO! — a pequena gritou assustando-o – por favor, não faça isso, pai. Eu, é... eu devo ter sonhado mesmo. Mas não tire as fotos de lá.
Eram as poucas lembranças que ela tinha dos pais. As fotos. Como ela era pequena demais quando tudo aconteceu, aqueles porta retratos eram tudo que a ligava à sua real família. E, eram os maiores tesouros que ela tinha. Lógico que outras fotos, de sua nova família, foram adicionadas, mas as fotos de James e Heather com uma bebê no colo e de Jenny eram as preferidas, e ficam velando o seu sono toda noite. E ele sabia o quão doloroso seria tirá-las dali.
Gibbs olhou para sua filha e apenas balançou a cabeça concordando com o pedido.
— Obrigada. – Ela respondeu tímida. – Não vou mais tocar nesse assunto. É ruim para nós dois.
Ele nunca havia contado para Lizzy de que maneira ele conhecia a tia dela. Ele apenas contou que a conhecia e ponto final. Logo que ele efetivamente conseguiu a guarda da garota, todos da equipe fizeram uma grande festa de boas vindas. E, claro, Abby ficou responsável por contar todos os casos mais engraçados da equipe. E, entre um e outro, acabou por tocar naquele caso que ninguém queria falar. Mas não teve jeito. Quando o nome dela foi dito, a curiosidade de Liz cresceu e o assunto teve que ser encerrado sem explicações profundas, até porque ninguém ali sabia exatamente o que havia acontecido. Contudo, para não deixar Elizabeth totalmente sem histórias da tia, ele a levou ao mural dos agentes que se foram, e lá, de frente à foto de Jenny, ele contou como foi o primeiro dia da então novata Shepard na equipe dele e como ela saiu correndo da autópsia quando viu o que Ducky realmente fazia lá. Depois que ele terminou de contar, os dois ficaram ali, sentados no chão, olhando para a foto, e como se fizessem um pacto silencioso, desse dia em diante o nome dela nunca mais foi pronunciado, era somente ela. E assim as coisas ficaram. Contudo, ele sabia a verdade, Liz não. E ele temia como ela reagiria quando ou se ele pudesse contar tudo que realmente acontecera.
— Então... nada de baile? – Ele voltou ao assunto principal daquela manhã,
A garotinha fez uma cara de cansada e olhando pra ele com as sobrancelhas erguidas disse:
— Por que isso existe?
Ele foi pego de surpresa, de novo.
— Sinceramente, não sei.
— O senhor já foi em algum?
— Sim. Mas nunca como esse. — e era verdade, ele não teve tempo de levar Kelly em um baile desses. Mas sua primogênita sempre sonhou em ir, e sempre dizia que ele teria que levá-la usando a farda de gala dos Marines.
— Sei... e o que se faz? Além de dançar, é claro?
— Ele pensou por um momento. O que se faz em um baile de escola, se você só tem sete anos? Claramente nada do que ele fez nos bailes que ele foi quando estava no ensino médio em Sitllwater.
— Na verdade, só se dança mesmo.
— Chaaaatoooo. – Ela cantarolou desaminada. – Prefiro ficar em casa e jogar “Just Dance” com o Tim e a Abby. E ficar vendo o Tony se dar mal... – ela tinha um sorriso diabólico quando falou a última parte. Tony era o seu preferido, entre todos, mas ela adorava vê-lo levando uns tombos ou tropeçando nos próprios pés quando todos se reuniam para jogar. Claramente ninguém tocava no tópico com Ziva. Na última vez que jogaram, ela ficou tão brava por não ter conseguido fazer o moonwalk de Michael Jackson que acabou arremessando do joystick na parede. Então, em comum acordo, Ziva era a melhor dançarina, e ai de quem dissesse o contrário, era como mexer no café de um fuzileiro, você só faria isso, se quisesse morrer.
— Não te entendo. Você dança na frente da televisão, mas não quer dançar na escola.
— Esse é o problema. Dançar na escola...
— O que aconteceu lá.
— Nada... só não quero ir... – Mas ela tinha um olhar acusador no rosto. – Aliás, eu até danço em casa, mas e o senhor que nem dança!
— Por que dançaria na frente da televisão?
— Não é dançar na frente da TV, pai. É jogar um jogo onde o melhor dançarino vence.
— Você quis dizer a Ziva.
— Para o nosso bem, e o da TV e de todos os móveis da casa, sim, a Ziva.
— Então não é o melhor que vence! – Ele sorriu vitorioso para a filha.
— Diz isso para a Ziva e arque com o prejuízo das coisas quebradas, então.
Ele pensou na hipótese. Era melhor deixar a israelense pensar que ela ganhava. Se ele quisesse manter a sua casa inteira.
— Então quem vence?
— A Ziva, oras! Mas geralmente a Abby ou a Ellie. O Jimmy venceu na semana passada, Mas ele imitou o Elvis! – Ela jogou os braços pra cima em claro sinal de revolta.
— E por que tão revoltada?
— O Elvis tinha três passos e “Little Less Conversation” é muito melhor com o remix que fizeram para “Onze Homens e um Segredo”!
— Ah, aquele faroeste!
— PAI! – Ela estava horrorizada! – O filme do roubo do casino que o Tony vive falando!
— Não vi. – Ele tinha visto sim. Mas resolveu que seria uma boa hora de perturbar a pequena.
Ela lhe lançou um olhar que dizia tudo: “Por que não me surpreende”?
A escola já estava perto e ele tinha uma última pergunta a fazer antes de deixá-la e ir para o Estaleiro.
— Mas para encerrar a conversa, você gosta ou não de dançar?
— Eu gosto! Esqueceu que faço ballet?
Não, ele não tinha esquecido, até porque algumas das camisetas brancas que ele tanto adora colocar debaixo da camisa, agora estavam manchadas de rosa claro. A cor daquele tutu horrível que ela tem que usar nas apresentações. Mas era essa a resposta que ele queria ouvir. Ela gosta de dançar e ele precisava de ajuda.
Eles chegaram na porta e ela, muito preguiçosamente olhou para a entrada e murmurou:
— Hoje podia ser sexta-feira, né?
— Podia, mas não é. Agora vai. – Ele disse beijando o topo da cabeça dela.
— Tô indo. Tchau pai. Te amo!
— Te amo também. – e ele acompanhou com os olhos ela correr porta adentro para se encontrar com as amigas.
[1] Ginger é uma das formas como chamam as ruivas em inglês. Já que a gatinha é ruiva, nome melhor não tem!
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