Bad Reputation
12 Chapter 9.2
Notas iniciais
Oliver pôs a mochila nas costas enquanto abandonava seu quarto, suas lembranças e seu pai para trás. Ele passou um último olhar pela casa, observando toda a destruição daquele lugar. Lembrou-se de sua mãe caminhando por aquela casa e chamando seu nome. Era tudo tão arrumado e tudo tão perfeito. Oliver não conseguia explicar como as ruínas tornaram-se tão costumeiras em sua vida.
Sua mente, em um ato automático, se despediu daquele lugar, imaginando-o em chamas. Seria misericórdia atear fogo àquela casa no estado em que se encontrava. De preferência, com Jeffrey dentro. Não sabia se seria capaz de esquecer tudo o que passou naquela casa, mas aquele adeus era necessário. Às vezes, para seguir em frente, é preciso voltar atrás, mesmo que para se despedir.
Tocou a maçaneta da porta, girando e a abrindo, mas antes que pudesse sair escutou Jeffrey se aproximar novamente.
— Sabe de uma coisa, Vincent? — indagou.
Oliver parou, reconhecendo o fato de ser chamado pelo sobrenome. Jeffrey fazia isso quando queria demonstrar desprezo, por não ter dado-lhe seu sobrenome. Chamá-lo de Vincent indicava a ausência de qualquer familiaridade entre eles.
— Deveria ter sido você a morrer no lugar de sua mãe. Ela era doce, era gentil e era minha. Ela merecia viver, você não. — continuou, escarrando aquela voz rouca e alcoolizada. — E a vida está te mostrando isso aos poucos. Todos estarão te abandonando, até que acredite que o único lugar plausível para alguém como você, é na cova como um indigente.
Oliver mordeu o lábio inferior e saiu sem delongas, fechando a porta atrás de si com força. Tentou ignorar aquelas palavras, mas acabaram doendo mais do que ele gostaria. Ele fechou os olhos enquanto a voz de Jeffrey continuava a repetir as frases. As palavras machucavam o âmago de Oliver, mas ele sabia que havia um fundo de verdade nelas. Afinal, ele lidava com o abandono desde sempre.
A buzina do carro o obrigou a esquecer aquilo. Ele olhou para trás, vendo sua irmã dentro do carro o encarando com o cenho franzido. Por uma última vez, ele olhou para a casa e então, seguiu adiante. Abriu a porta e se sentou no banco do carona, recebendo o olhar curioso de Lisa.
— Pelo visto, não foi nada agradável. — ela comentou, contemplando o semblante pesaroso dele.
— Acredite, foi mais agradável do que qualquer outra vez. — respondeu, suspirando. Assim, sentiu a mão dela tocar sem ombro em auxilio.
Ela deu partida no carro, ainda observando o irmão pelo retrovisor interno. Oliver parecia remoer algo dentro de si, provavelmente algo que Jeffrey havia dito. Lisa nunca chegou a conhecer o homem pessoalmente, nem mesmo quando a mãe contou a novidade. Porém, olhando para Oliver e toda a bagagem de sofrimento que ele carregava por conta de Jeffrey, ela decidiu que não queria conhecê-lo mesmo.
O caminho até sua casa começou silencioso, até porque Lea parecia ter cochilado no banco de trás. Lisa meneou em reprovação ao vê-la quieta, pois saberia que se ela dormisse naquele momento, ficaria a noite toda acordada. Então, para tentar animar a filha e o irmão, ela abriu os lábios.
— Tem certeza que não quer uma festa de aniversário? Atrasado, eu sei, mas... — insistiu no assunto, abrindo um sorriso em direção a ele, que olhava pela janela.
Lea escutou a conversa e logo agitou-se no banco.
— A gente pode fazer da Mulher Maravilha? — Lea perguntou, arrancando uma risada da mãe.
— Eu agradeço, Lisa, mas eu não quero. — respondeu curto, notando a expressão desentendida dela. — Meu aniversário foi num momento ruim, não tenho nada para comemorar.
— Quer falar sobre esse momento?
Ele meneou, desviando o olhar para a rua. Se lembrou que o momento citado, era a superação da partida de Bruce.
— Não.
— Sabe que guardar tudo para si mesmo não ajuda, não é?
Oliver não respondeu, apenas permaneceu olhando pela janela. Lisa se conformou, suspirando baixo e retornando o olhar para a estrada.
O silêncio pairou sobre eles novamente e Oliver acabou percebendo que estava ansioso para a chegada em sua nova casa.
Tudo o que estava prestes a acontecer, era novo. A casa nova, a família nova e a vida nova. Oliver sabia que era besteira começar a idealizar antes mesmo de tudo acontecer, mas era inevitável. Já se imaginava até procurando um emprego, mesmo que no balcão de algum bar, podendo ajudar com as despesas de sua nova família. Imaginava-se construindo uma vida inteira, conseguindo seguir em frente e deixar todo o sofrimento para trás. Imaginou que a felicidade poderia ser rotineira a partir dali, mas então, seu coração o fez lembrar a única coisa que lhe proporcionou felicidade até então. Ou melhor, a única pessoa.
Não tardaram a chegar ao bairro em que sua irmã residia. Um lugar simples, com casas singelas e simpáticas, sem muito luxo. E Oliver não procurava luxo ou coisa do tipo. Tudo o que ele esperava, era não sofrer mais. E, por muito tempo, era luxo demais esperar por isso.
Quando o carro estacionou diante de um jardim pequeno e verde, e seu pé encostou pela grama diante da casa onde recomeçaria sua vida, Oliver abriu um sorriso imenso, dizendo "olá" mentalmente para a residência a sua frente.
Era uma casa mediana, com um jardim verde vibrante na frente. Era de concreto pintado de branco, com duas janelas de madeira de cada lado e a porta do mesmo material entre elas. Por dentro, era ainda mais simpática, embora fosse apertada. Conseguia suportar três quartos, sendo um deles menores que os outros. A sala era a parte mais ampla, pois a cozinha e o único banheiro eram apertados. Nos fundos, uma pequena área de serviço junto com uma varanda, onde Lea costumava brincar. Apesar de pequena, era a casa mais aconchegante que Oliver havia conhecido. E estava feliz em ser acolhido nela.
Logo que entraram na sala e Oliver pode contemplar os quadros pendurados nas paredes, eles encontraram o esposo de Lisa. A filha se agitou nos braços da mãe, que a colocou no chão e a viu correr até o pai. George tinha a pele queimada de sol e repuxada em rugas. Era magro e alto. Seus cabelos desgrenhados e castanhos, uma barba espessa sobre as maxilas que o dava aspecto de morador de rua. Seus olhos eram estreitos, com as íris negras. O nariz adunco e retorcido de antigas lesões. Os lábios finos e rígidos. Sua aparência não era das melhores, isso era notório, mas Oliver não se importou. Estava grato demais para se importar com isso.
Lisa abriu um sorriso imenso ao ver o marido e ficou eufórica para apresentar o mais novo integrante da família. Puxou Oliver pelo pulso, empurrando-o pela sala até ficar diante do homem.
— George, querido! Este é o Oliver, o meu irmão! Ele...
O homem a interrompeu.
— Você demorou com meu carro, Lisa! Estou atrasado para o trabalho! — queixou-se, quebrando toda a expectativa da mulher e deixando Oliver desconfortável.
— Ah... — Lisa soltou Oliver e retirou as chaves de dentro do bolso. Seu marido pegou-a sem rodeios. — Desculpe pela demora.
George colocou a filha no chão, beijando seus cabelos loiros. Então, retornou para os dois, trazendo um sorriso cansado.
— Mais tarde nós conversamos, eu prometo! — ele tocou o rosto da esposa para depois beijar seus lábios de maneira breve. Depois, virou-se a Oliver. — Espero que seja um bom rapaz! Não quero me arrepender de te abrigar aqui!
Oliver engoliu a seco e olhou para a irmã, que acertou um tapa de brincadeira no marido.
— Ele é um bom menino! Pare de assustá-lo!
George alargou o sorriso e voltou a abraçar a mulher, despedindo-se dela. Quando se afastou, deu tapas leves no ombro de Oliver e saiu pela porta.
— Ele é um homem de poucas palavras, creio que tenha percebido isso. — ela comentou e riu quando Oliver anuiu mudo. — Ele trabalha de vigia numa fábrica e tem feito o turno noturno. Só chega pela madrugada!
Oliver concordou, observando Lea correr pela casa e desaparecer pelos corredores. Lisa enroscou os braços ao seu e o puxou.
— Venha! Vou te apresentar seu quarto! — anunciou, conduzindo-o aos puxões pelo corredor.
Conforme iam caminhando pela casa, ela ia dando as informações dos cômodos. No fim do corredor, ao lado do banheiro, ficava um quarto apertado, mas ainda maior que o antigo quarto dele. Havia uma cama encostada na parede com uma janela, um armário de madeira de duas portas e uma cômoda de seis gavetas com uma pequena televisão em cima.
— Eu sei que é apertado, mas...
— Está perfeito, Lisa. Não se preocupe. — ele sorriu em direção a ela, que se tranquilizou.
Ambos escutaram Lea gritar por fome e então, Lisa se dirigiu ao irmão uma última vez.
— Vá tomar um banho! Vou te emprestar algumas roupas antigas do George enquanto lavo as suas, acredito que devem estar com cheiro de guardado!
— Pior, estão em petição de miséria! — respondeu rindo, passando a mochila de seus ombros para a irmã.
— Há uma toalha no banheiro que você pode usar e eu vou separar as roupas! Bem, sinta-se à vontade na sua nova casa!
Ele sorriu imensamente.
— Lisa, obrigado de verdade! Eu nem sei o que seria de mim agora, caso você não aparecesse...
— Ei! — ela o interrompeu, o abraçando. — Não fiz mais do que minha obrigação como irmã! Se eu não te proteger, o espírito da mamãe volta e me mata! E estou muito feliz por ter você por perto!
Ele a apertou mais uma vez, agradecendo baixinho. Lea tornou a gritar pela mãe e Lisa foi obrigada a se afastar, mas antes de ir, alisou os cabelos do irmão e sorriu para ele. Oliver a observou se afastar e decidiu seguir seu conselho de tomar um banho.
Quando alcançou o banheiro, trancou-se nele. O silêncio do ambiente fez sua mente relaxar, assim como os seus músculos. Estava tão tenso pelas situações diferentes que enfrentou naquele dia, que apenas naquele momento, a sós, ele notou o peso sobre seu corpo.
Ainda estava com o uniforme do acampamento, pois fora dispensado logo após o almoço. E como não restaria mais nada naquele lugar, foi permitido a doação dos uniformes aos últimos membros restantes.
Começou retirando a camisa branca, jogando-a sobre o cesto de roupa embaixo da pia. Olhou o próprio tronco e notou que aquelas semanas no acampamento serviram para definir mais seus músculos, o que lhe trouxe um sorriso nos lábios. Depois, desamarrou as botinas e sentiu o toque gelado do chão contra seus pés. Puxou a calça junto da cueca pelas pernas abaixo e deu a elas o mesmo destino da camisa. Assim, pode finalmente desfrutar da ducha do chuveiro.
Estava tão acostumado com a água fria da fraternidade, que quando sentiu a ducha quente deslizar por seu corpo, um sorriso aliviado estampou seus lábios. Sua pele se arrepiou docemente, agradecendo o carinho gentil da água quente depois de tanta água gelada.
Parecia tosco, mas uma das coisas que Oliver estava mais ansioso para desfrutar quando fosse liberto, era tomar banho sozinho. Estar em um banheiro privado, tomando banho desacompanhado, era a melhor coisa que ele podia querer depois de tanto tempo dividindo os chuveiros. Ele poderia olhar em volta que não haveria ninguém, senão ele mesmo. Era tão satisfatório que Oliver imaginou que uma das definições de liberdade era poder tomar banho a sós.
Mergulhou o rosto embaixo d'água e quando o esfregou, sentiu os pelos faciais incomodarem seu toque. Já estavam grandes como uma barba, mas aquilo não o agradava, por isso decidiu retirá-la logo após o banho. Lavou os fios a contragosto e a presença deles acabou remetendo a imagem de alguém que ficava belo com eles.
Pensar em Bruce ainda era um ferimento aberto, contando que Oliver jamais parou de pensar sobre ele. Desde o dia em que partiu até aquele momento, não houve um dia sequer em que Oliver não pensou em Bruce. E cada pensamento doía, dilacerava. Porque era o que restava. Não havia mais nada, senão dor. Tudo o que conseguiu obter, depois de tudo, foi apenas dor. E mesmo assim, o sentimento permaneceu.
Oliver não conseguia entender o motivo daquela insistência. Sempre que alguém o magoava, ele conseguia seguir em frente. Estava acostumado a superar as pessoas e seus erros, por mais doloridos que fossem. No entanto, daquela vez parecia diferente. Ele mantinha aquele sentimento guardado. Talvez porque era o sentimento mais puro que algum dia já teve, embora o desconhecesse. Sabia que era difícil lidar com algo que não se conhece, mas sabia, também, que o caminho certo era deixar aquilo de lado. Até porque, o relacionamento entre ele e Bruce jamais voltaria a ser o mesmo. Assim como Bruce nunca mais o olharia com os mesmo olhos, ele também o olharia diferente. Nunca mais voltariam ter o mesmo grau de intimidade. Sequer conseguiriam se tornarem próximos de novo. E Oliver lidaria com aquilo, por mais que machucasse.
E, apesar de tudo, ele estava decidido. Apesar de não sentir raiva, embora estivesse decepcionado. Apesar de não sentir medo, mesmo que tenha sido ameaçado. Apesar de saber que, provavelmente, não seria capaz de esquecer Bruce. Oliver estava decidido a seguir em frente e lidar com a ausência dele. Estava decidido que, de alguma maneira, tentaria esquecer, ao menos, o sentimento para com Bruce.
Talvez jamais fosse capaz de esquecer Bruce, tinha noção disso e não acharia ruim. Bruce foi a melhor pessoa que conheceu. Foi a pessoa que o estendeu a mão e o levantou do tombo, embora também tenha sido aquele a lhe dar outro tombo. Foi o único que lhe fez sorrir e manter a cabeça erguida enquanto todas as outras pessoas queriam fazer o oposto. Bruce foi o único a despertar em Oliver a felicidade e isso era impossível de ser apagado. Portanto, Oliver não ficaria frustrado por não conseguir esquecê-lo, mas estava preparado para que Bruce fosse apenas isso. Ele estava aprendendo a lidar com a ausência dele. E aprenderia que Bruce seria apenas uma boa lembrança.
Quando terminou o banho, ele agarrou a toalha pendurada no suporte à parede e se enxugou depressa para poder enrolá-la na cintura. Apoiou as mãos sobre a pia de porcelana e encarou seu reflexo no espelho. Era a primeira vez em semanas que contemplava um espelho. E ver o que ele transmitia como resposta, o causava arrepios.
Oliver fitou o próprio rosto. Os próprios olhos esverdeados. E como num filme de segundos, foi capaz de ver cada marca de agressão passar por ele e dar lugar a outra até restar somente aquela, desde sua maçã da bochecha até a sobrancelha. Mesmo que quase curada, aquela marca significava muito. Era a mancha que marcava o fim de uma história tão cheia de cicatrizes de um rapaz. Significava todo soco, todo chute, todo tapa. Toda agressão. Representava toda a desumanidade presente nos humanos. E contava a história de superação de um garoto que se descobriu gay aos doze anos e desde então, vem sido punido por isso. Aquela marca, apesar de ser o resultado de maldade, era Oliver, de alguma maneira.
Ele ignorou o reflexo e abriu o armário do espelho, podendo pegar um barbeador descartável. Aproveitou o creme de George, que não o usava há tempos, contando com a barba espessa em suas maxilas. Então, fitando de novo o reflexo, ele começou a retirar os pelos.
A cada tufo que soltava de sua pele, era possível contemplar o rosto antigo de Oliver. Além de dar-lhe um aspecto mais limpo, significava a liberdade dele. Conforme seu rosto se livrava dos pelos, ele sentia como se lembranças ruins abandonassem seu corpo. E assim que terminou, jogou a barba picotada fora e com elas, recordações indesejadas da Fraternidade Mau Elementos.
Quando reencontrou seu antigo reflexo diante do espelho, ele foi capaz de sorrir. Continuaria sendo o mesmo Oliver, mas sua vida nunca mais seria mesma. E nem poderia. Ter a passagem de Bruce em sua vida e desejar que ela retornasse ao mesmo que antes, era impossível.
Enrolado na toalha, ele deixou o banheiro e só então, percebeu que já havia anoitecido. Um cheiro de janta sendo preparada invadiu seu nariz e o fez perceber que estava com fome. Sem mais delongas, ele se adiantou até o quarto para se vestir.
Entrando naquele ambiente novo, Oliver sentiu-se acolhido pelo aconchego. Observou as roupas dobradas sobre a cama e retirou a toalha, colocando-a sobre o colchão para se trocar. Vestiu a boxer escura e por cima, uma calça de moletom preto, que ficava apertada em suas pernas grossas, pois George era bem mais magro que ele. Nesse momento, Lisa bateu os dedos na porta e se aproximou.
— Nossa, que rapagão forte! — comentou admirada, observando o tronco nu do irmão.
Oliver riu diante do comentário e vestiu a regata cinza e cavada, observando-a justa em seu tronco. Não reclamou pelas roupas estarem mais apertadas que o normal, ele não gostava mesmo de roupas largas.
Lea adentrou o quarto, inicialmente procurando pela mãe, mas quando observou Oliver, foi correndo até ele e pedindo seu colo. Oliver a suspendeu em seus braços e recebeu o agarro dela em seu pescoço com um sorriso. Ter um tio era algo completamente novo para ela, assim como era ter uma sobrinha para ele, mas ambos estavam gostando da ideia.
— Que folgada essa menina! Não pode dar a mão que ela já quer o colo! — Lisa se aproximou, apertando a cintura da filha em cócegas e a fazendo rir.
— Mamãe, eu posso namorar o Oliver? — perguntou, agitando-se nos braços dele, que riu diante da pergunta.
Ele apertou levemente o nariz da pequena, fazendo-a rir novamente.
— Lea, já conversamos sobre isso! — Lisa ralhou, embora carregasse um sorriso divertido.
— Mamãe falou que você gosta de garotos e por isso, não vai namorar uma garota como eu!
— Lea! — Lisa a repreendeu, colocando as mãos na cintura.
Oliver riu simpático, ajeitando a garota no colo.
— Está tudo bem, Lisa. — respondeu, direcionando um sorriso brincalhão para Lea, que o encarava. — Você é muito nova para pensar em namoro, não acha, mocinha?
Ela soltou o pescoço dele para cruzar os bracinhos, frustrada.
— Eu sei, mamãe falou isso também! — Lea fez um bico fofo. — Pra falar a verdade, eu só quero que você seja meu namorado de mentirinha...
Lisa se juntou a Oliver, na intenção de prestar atenção na conversa.
— De mentirinha? — Oliver esboçou um semblante pensativo. — Hm, acho que eu posso ser seu namorado de mentirinha! — ela tornou a agarrar seu pescoço, toda feliz. — Mas porque quer que eu seja seu namorado de mentirinha?
— Porque você é bonito e eu quero fazer inveja nas minhas amiguinhas da escola! — confessou.
Ambos, Lisa e Oliver, desataram a rir da resposta da menina, que não entendeu muito bem o motivo das risadas. A mãe dela teve de apoiar a mão nos lábios pela quantidade de gargalhadas.
Oliver continuou rindo, mas fixou o olhar nas duas, por um momento. Então, sentiu-se em uma verdadeira família. Rindo e sendo bem tratado. E como era bom se sentir parte de uma família.
— Tudo bem, eu vou ser seu namorado de mentirinha! — Oliver confirmou, fazendo a garotinha estender os braços para cima em comemoração.
Ela o abraçou em seguida e recebeu um beijo dele em seus cabelos. Assim que ele pôs Lea no chão para que ela pudesse ir atrás de seus brinquedos, Lisa tocou seu ombro.
— Vamos para a cozinha! A janta está quase pronta!
Oliver a seguiu pela casa até a cozinha, mas Lea decidiu voltar e pedir sua companhia, então sua mãe indicou que ele iria ajudar a fazer comida e Lea, conformada, retornou aos brinquedos.
— Desculpe ter contado a ela sobre você gostar de garotos. Ela cismou com essa história de querer namorar você. — Lisa revirou os olhos ao retornar para picar os legumes.
— Não se preocupe, Lisa. — respondeu, se voluntariando para arrumar a pia.
Lisa notou a alteração no tom dele e o observou em silêncio por um tempo, enquanto mexia com os legumes. Ele parecia estar divagando em pensamentos distantes. Talvez estivesse absorvendo todas aquelas informações, afinal era tudo novo para ele e o excesso de novidades podia sobrecarregá-lo.
— Deve ser tudo uma grande novidade para você, não é? — ela puxou assunto, mas ele apenas assentiu com a cabeça e continuou lavando os talheres. — Desculpa se é muita informação para você. Eu, o George e a Lea. Sei que é tudo muito novo, mas tudo o que eu queria, era te tirar daquele monstro.
Oliver suspirou, fechando a torneira.
— Vou me acostumar. Está tudo bem, Lisa. — respondeu incerto, apoiando as mãos sobre a bancada.
Não tinha certeza se estava tudo bem, se podia garantir àquilo. Claro que estava feliz e muito agradecido por ser recebido ali. Entretanto, sua mente trazia diversas lembranças de Bruce a todo momento, fazendo-o crer que, talvez, a tarefa de seguir em frente não seria tão fácil.
Lisa analisou seu rosto, notando que ele estava omitindo alguma coisa. Deixou os legumes de lado e foi até ele, apertando seu ombro.
— Tem certeza que está tudo bem?
Ele a olhou, comprimindo os lábios.
— O que fazemos quando gostamos muito de uma pessoa que nos magoou? — perguntou-a de súbito.
Lisa arqueou as sobrancelhas, sendo pega de surpresa pela pergunta. Tomou ar e levou a mão de seu ombro até seus cabelos, os acariciando.
— Superamos e seguimos em frente, meu anjo. É o máximo que dá para fazer.
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