Bad Reputation
13 Chapter 10
Notas iniciais
O teto parecia uma obra de arte a ser contemplada. Os olhos esverdeados passearam por ela horas a fio. Milhões de pensamentos passavam na mente ao mesmo tempo. Não sabia há quanto tempo estava acordado, mas sabia que era desde bem cedo. Seu corpo acabou se acostumando com os horários do acampamento e mesmo que pudesse dormir até tarde, acabava acordando cedo.
Sua primeira noite em uma casa que não fosse a de Jeffrey ou o acampamento fora consideravelmente boa, tirando as vezes que acordou pela madrugada, pois havia sonhado com Bruce. Eram sonhos felizes. Não havia ameaças nele, apenas Bruce. E isso já era o suficiente para ser um sonho bom.
Oliver permaneceu na cama, fitando as ripas do forro do teto. Conseguiu contemplar a mudança de tons nas paredes de acordo com as horas que passavam e o sol erguia-se no céu. Ele permaneceu olhando o teto e pensando. Pensando bastante.
Havia um sorriso estampado em seus pensamentos, o mesmo sorriso com o qual havia sonhado durante toda a noite. Era o motivo daquele sorriso. Sabia disso porque era direcionado a si. O sorriso se alargava, dando a sensação de felicidade. A barba que o cercava era um ponto crucial para o conjunto daquela beleza. Depois, ele pode ver os olhos acinzentados. Tão intensos e profundos. Aos poucos, podia vislumbrar todo aquele rosto belo. E ver naqueles lábios, seu apelido ser chamado.
Era a cena que Oliver insistia em repetir em sua mente. Não conseguia identificar se ela fazia parte de alguma memória ou se era alguma idealização, mas não importava. Ele continuava a repeti-la em sua mente como em um ciclo vicioso, até que seus ouvidos captaram algum barulho vindo da cozinha.
Pareciam panelas sendo reviradas. A torneira também parecia estar aberta. Não demorou até que ele sentisse o cheiro de café da manhã adentrar em seu quarto e fazer seu estômago roncar de fome. Então, decidiu se levantar. Pegou a calça de moletom e a vestiu, logo em seguida fez o mesmo com a regata cavada, ignorando o vento frio que soprava da janela e arrepiava sua pele.
Caminhou descalço pelo ambiente, notando que a casa permanecia silenciosa, apesar dos barulhos na cozinha. Ainda parecia estar afogada em escuridão, ainda mais no corredor. Seguiu até o banheiro, empurrando a porta com a ponta dos dedos e a fechou em seguida. Encarou seu reflexo no espelho, novamente. A mancha estava quase imperceptível, o que era bom. Seu aspecto parecia mais descansado e saudável. A liberdade era um bom remédio, afinal de contas.
Abrindo a torneira, ele sentiu a água gelada tocar os dedos afinados e resfriá-los. Fez uma concha com as palmas e jogou água no rosto, mesmo que não estivesse sonolento. Depois, lavou a boca e, por fim, passou os dedos molhados nos fios aloirados, ajeitando-os.
Quando chegou a cozinha, encontrou a irmã terminando de colocar o café sobre a pequena mesa no canto da cozinha, onde George estava sentado. Ela ainda estava de camisola curta, e os cabelos bagunçados. Ele estava sem camisa, apenas com um short cumprido, os cabelos ainda mais desgrenhados do que o costume. Oliver hesitou um pouco em se aproximar, mas Lisa o avistou na entrada.
— Hm, que bom que já acordou. Venha comer! — chamou-o, acenando com a mão. Puxou a atenção do marido, que ergueu o olhar até o rapaz.
Oliver observou a mesa com café, leite a biscoitos. Não era muita coisa, mas estava tão acostumado ao que davam na fraternidade, que ao olhar aquelas opções, sentiu-se em um hotel de luxo. Juntou-se a mesa, que fazia a cozinha parecer ainda menor do que já era.
— Hoje você tem serviço comunitário. — Lisa informou, se aproximando e colocando a mão sobre o seu ombro.
— Imaginei que sim. — Oliver anuiu, servindo um pouco de café no copo. — Aonde?
Lisa fez uma careta.
— Nos papéis só diz os dias e os horários. — ela deu de ombros ao receber o olhar confuso de Oliver. — Alguém deve vir te buscar, ou não sei.
Sem entender, Oliver virou para tomar um gole do café, quase queimando a boca. Lisa o estendeu os papéis dos serviços que ditavam seus serviços, ele passou o olhar e notou que ela estava certa. Focando na data atual, ele percebeu que já estava quase na hora do serviço.
Pela primeira vez, George lhe dirigiu a palavra naquele dia, chamando-o com um estalo de língua. Oliver ergueu o olhar dos papéis, dando atenção.
— O que aconteceu? — ele perguntou, apontando para o rosto de Oliver.
O garoto comprimiu os lábios.
— Briga no acampamento. — respondeu, pegando dois biscoitos. — Por causa do dormitório.
— Espero que você o tenha deixado pior. — comentou sério, sem olhar mais para Oliver.
— Bem... — gaguejou. — Ele tinha mais amigos.
— Então para que tem braços desse tamanho?
Oliver não respondeu e George não pareceu fazer questão, afinal nem olhava para ele, permaneceu comendo de cabeça baixa. Um pouco desconcertado, Oliver olhou ao redor, focando em Lisa, que se reaproximava.
— George, o leite de Lea está no fim! Você precisa ir comprar mais. — alertou, puxando a atenção dele. — Aproveite e compre pão, estamos sem.
O homem anuiu, se levantando. Conforme o homem foi deixando a cozinha, Lisa preparou um café com leite e tomou um pouco. Oliver a observou em silêncio.
Não se lembrava muito do rosto de sua mãe, mas tinha certeza que Lisa era bem parecida com ela. Embora, em suas memórias falhas, os cabelos de sua mãe fossem mais escuros. Contudo, toda vez que Lisa sorria, Oliver tinha a sensação de estar com sua mãe novamente.
De repente, eles escutaram um choro agoniado. Oliver virou-se para a irmã, que suspirava pesado, pois sabia que se tratava de Lea. Ela se ergueu, mas antes de abandonar o ambiente, se dirigiu a Oliver.
— Está pronto? Já está quase na hora! — anunciou, apontando especialmente para os pés descalços dele.
Mesmo contragosto, ele se levantou, ainda terminando de engolir os biscoitos. Passou por George, já vestido e indo em direção da porta, mas não falou nada. Foi até o quarto e procurou pelos coturnos do acampamento, achando-as embaixo da cama e as calçando.
Não sabia exatamente que roupa usar. Ou melhor, não sabia nada. Ginger não lhe dera nenhuma informação além daqueles papéis, que não diziam nada, senão datas e horários. Estava se sentindo apático com toda aquela situação. Ainda mais por estar numa casa diferente, com pessoas diferentes.
Sua irmã não era ninguém desconhecida, claro. Se sentia à vontade quando estava com ela e Lea. Entretanto, quando George estava entre eles, Oliver tinha a sensação de que era um inquilino que não pagava o aluguel. Talvez porque sua experiência com homens e figuras paternas, não fosse a melhor. Talvez fosse somente questão de costume. E ele teria de se acostumar, pois era o único lugar que tinha para ficar.
Já pronto, ele deixou o quarto, sentindo-se estranho. O fato de ter usado um uniforme por tanto tempo, o deixava com aquela sensação ao usar uma roupa diferente.
Quando estava chegando a sala, observou Lea e Lisa juntas na janela, então retornou a cozinha para roubar mais um biscoito. Sua irmã estava distraindo a filha enquanto o marido não voltava com o alimento preferido da garota. Ambas olhavam para o lado de fora, observando a rua. Lisa apontava os carros que passavam, perguntando-a se era o carro do pai e tentando enganá-la. A garota sempre negava e dava risadas gostosas. Lisa acabava de escutar a tentativa de descrição do carro de George, quando notou a viatura se aproximando de sua casa.
— Oliver! Está na hora! — gritou da janela, ainda olhando para o veículo. Notou a beleza do homem que dirigia e arqueou as sobrancelhas. Quando escutou os passos do irmão próximos, virou-se a ele com um sorriso malicioso. – Hmm! Acho que quero cometer um crime e ir presa...
Ele estava segurando a maçaneta, mas parou antes de girá-la. Franziu o cenho diante daquele comentário.
— Como assim? Por quê? — questionou confuso.
Ela deu uma gargalhada maliciosa, voltando a olhar o homem pela janela.
— Da onde tiraram um oficial tão lindo? — suspirou.
Oliver olhou para o chão por um segundo, analisando as palavras. A suposição de quem deveria se tratar fazia seu coração acelerar. Ele hesitou por um breve instante e decidiu matar a dúvida, abrindo logo a porta. Nesse momento, suas pernas bambearam.
Quando seu olhar reencontrou o de Bruce, seu corpo arrepiou-se inteiro. Era a primeira vez que o via em semanas e ainda assim, mesmo destinado a superá-lo, notou todas as sensações de antes presentes.
Parecia que tudo havia sido em vão. Todos os pensamentos determinados, todas as lembranças das ameaças. Pois assim que seus olhos encontraram os dele, Oliver sentiu todo o antigo nervosismo e euforia.
Ele permanecia belo, como sempre. Estava fardado com o uniforme da polícia local e segurava o volante com uma das mãos, enquanto a outra estava apoiada na janela da porta. Oliver compreendia o motivo de sua irmã, mesmo sendo casada, suspirar pela beleza dele. Entretanto, Oliver não suspirava só por aquilo.
Seu olhar permaneceu em Bruce conforme de aproximava. Era impossível desviar, por mais que tentasse. Assim como era impossível de impedir que seu coração se agitasse com aquela presença, ou que a esperança de retomar intimidade com ele não se fizesse presente. E por mais que Oliver estivesse decidido a esquecer e superar Bruce, a esperança de uma reaproximação entre eles pulsava como um segundo coração em seu peito. Entretanto, quando encostou na viatura e sentiu o olhar de Bruce, notou que ele o olhava com uma indiferença marcante, fazendo-o crer que aquela expectativa de alguns segundos era apenas infantilidade.
Entrou na viatura, sentando-se no banco de trás, ainda olhando para o homem, sem acreditar na indiferença daquele olhar. Bruce apenas rolou os olhos para ele, como se fosse um completo desconhecido. E isso foi um tanto chocante para Oliver, que apesar de tudo, ainda esperava algo a mais dele.
Bruce acenou para a mulher na janela e deu partida na viatura. Respirou fundo, olhando pelo retrovisor interno o garoto conhecido. Conseguia notar que ele estava nervoso, mas não podia discordar, afinal também estava. Quando soube que teria de buscar os rapazes em suas respectivas casas, e que um deles seria Oliver, seu coração pareceu bater dentro de sua própria cabeça.
Não costumava fazer aquele serviço, mas como algumas viaturas estavam em revisão, Bruce foi encarregado de buscar os meliantes até o tutor de serviços comunitários e depois buscá-los.
Achou que encontrar com Oliver, depois de tudo, poderia ser uma tarefa fácil, mas foi exatamente o contrário. Quando o viu sair pela porta e lhe reconhecer, quis abrir um sorriso imenso, mas por algum motivo, foi incapaz. Tudo o que conseguiu fazer, foi olhar através dele, como se ele fosse apenas mais um rapaz no fundo da viatura e não o Cherry Bomb que acelerava seu coração. E ter de tratá-lo daquela maneira o doía, mas ele o fez. Fez acreditando ser a escolha certa, sem saber o quanto feria Oliver.
Era inegável a falta que um sentia do outro. Mesmo que tivessem guardado ou tentado esquecer o sentimento, ambos traziam a saudade no olhar. Pois se tudo estivesse bem entre eles, estariam conversando e trocando provocações, mas tudo o que restava entre eles era a tensão de estarem no mesmo ambiente se evitando.
Bruce não conseguia mentir para si mesmo, nem mesmo se forçasse. Sentia falta de chamar Oliver de Cherry Bomb e receber aquele olhar desafiador de volta. Também não poda fingir que não se lembrava do beijo, afinal era a única coisa que ele não foi capaz de esquecer, durante todas aquelas semanas. Aquele beijo, mesmo que dado no momento errado, mexia com Bruce, mas ele continuava a fingir que não. Até porque, quando via o olhar de Oliver pelo retrovisor, não conseguia mais reconhecer o olhar do seu Cherry Bomb. Tudo o que conseguia ver, era um garoto com uma expressão vazia e de olhar triste.
Entretanto, Bruce tinha noção de que era o motivo daquilo. Depois de tudo o que disse e das ameaças, não era para menos que Oliver estivesse daquele jeito. E isso machucava Bruce. Estava sempre querendo poupá-lo de todo o sofrimento e toda dor, para no fim das contas, ser alguém que fez o mesmo. A última coisa que Bruce queria se tornar para Oliver, era alguém como todos os outros. Porém, ao ver aquele olhar no reflexo do pequeno espelho, chegava a conclusão de que havia se tornado nada mais do que aquilo.
E o pior de tudo, não era saber que era o culpado por aquele olhar vazio e chateado. O pior era ser incapaz de dizer a ele que sentia muito e que se arrependia. Bruce tinha essa vontade, era fato, mas era incapaz de expressá-la. Sempre que olhava para Oliver e por mais que sentisse falta dele, escolhia evitá-lo, pois assim seria mais fácil. Ou pelo menos, deveria.
O caminho foi cursado através do silêncio. Oliver permanecia olhar através da janela, revezando com olhadas no retrovisor para fitar o rosto de Bruce, que fazia o mesmo. Ambos estavam desconfortáveis com a situação. Bruce mais do que Oliver, e isso era notório, contando todas as vezes que ele esfregou o próprio rosto e respirou fundo, tentando manter a concentração.
Havia inúmeras coisas que Bruce pensou em dizer para ele durante o caminho, mas não foi capaz nem mesmo de perguntar se estava bem. Achava que esse era o melhor caminho, depois de tudo. Talvez dessa maneira, ele conseguisse poupar Oliver de muita coisa, até de si mesmo.
Por um momento, se perguntou sobre o que ele estaria pensando. Certamente, pensava sobre aquela situação constrangedora, afinal mesmo que sua expressão parecesse uma incógnita, Bruce conseguia notar uma sombra de decepção em seu olhar. Bruce imaginou que seria pela sua atitude, mas decidiu ignorar. Era o melhor que faria.
Cruzaram boa parte da cidade para recolher os outros dois rapazes. Ambos eram conhecidos do acampamento, Oliver soube assim que entraram no carro. Pareciam ser irmãos, pois estavam juntos no mesmo endereço. A presença dos dois encheu o veículo com murmurinhos entre eles, o que fez Oliver se sentir melhor, pois não estava mais naquela atmosfera pesada junto de Bruce.
Ele fez o retorno, já que o bairro era sem saída e nesse momento, Oliver olhou para o retrovisor interno, fazendo com que os olhares se encontrassem de maneira indireta. Nenhum de ambos conseguiria explicar a sensação que transitou entre aquele mero olhar, mas era algo forte. Era algo que mexeu com ambos, bem mais do que as outras vezes. Mas que acabou sendo ignorado, por ambas as partes.
Levando-os pela estrada principal, a viatura não tardou a parar diante de uma escola pública. A estrutura não era tão grande, mas seu muro era extenso e estava todo pichado. Ao lado do portão, outro oficial fardado esperava de braços cruzados, com algumas latas ao seu redor e rolos de pincéis encostados a parede. Os três rapazes olharam pela janela, já imaginando o trabalho que teriam. Então, Bruce manobrou e saiu do carro, junto deles.
Oliver acabava de fechar a porta quando reparou em Bruce passar por si e se desviar como se fosse um mero obstáculo. Um suspiro conformado escapou de seus lábios. Bruce não parecia somente ávido na tentativa de evitá-lo, mas não satisfeito, estava decidido a agir como se ele não existisse. E isso atingiu Oliver de maneira mais negativa ainda. Porque mesmo Bruce carregando a culpa sobre os ombros, resolveu agir como se ela não existisse e junto com ela, Oliver.
Ignorando o rapaz a sua traseira, Bruce abriu a parte traseira da viatura e retirou de lá um saco preto com alguns macacões de tecido grosso e negro. Recolheu três e entregou aos rapazes, um por um, para que vestissem sobre as roupas. Oliver pegou a roupa de suas mãos e tornou a perceber o olhar indiferente. Bruce parecia estar olhando através dele, como se fosse um pedaço ambulante de vidro.
Sem delongas, depois dos materiais entregues e enquanto os garotos vestiam os macacões, Bruce se despediu do oficial, marcando a hora que deveria retornar para buscá-los. Então, passando olhar discreto, uma última vez por Oliver, ele suspirou e entrou no carro.
Oliver fechou o zíper do macacão, olhando a viatura se afastar aos poucos. Não conseguia acreditar na atitude que Bruce tivera. Não esperava muito dele. Mas não esperava que seria tratado como invisível, como se nem estivesse ali. Era verdade que não tinha a mínima intenção de falar com ele, afinal não tinha motivos para fazê-lo, mas ser tratado daquela maneira o atingiu de maneira indescritível. Afinal, não era culpa sua toda aquela situação. Era culpa de Bruce e ele insistia em agir como se não fosse.
Sentindo-se aborrecido, ele adiantou-se até o oficial, que os aguardava um pouco impaciente. Não parecia contente em ter de supervisioná-los e por isso, apenas os indicou os materiais necessários.
— Lembrem-se, quanto mais rápido fizerem isso, mais cedo serão liberados. — resmungou, cruzando os braços e se escorando no portão da escola.
Oliver mergulhou o rolo na lata aberta e deu-se a pintar, junto com os outros dois, que conversavam animados. Sentiu-se excluído, mas não estranhou, já estava acostumado. Nunca fora alguém de muitos amigos e quando achou que havia conquistado um, ele lhe deu motivos e mais motivos para desacreditar naquilo.
Era um muro bem extenso, que os fazia suspirar de desânimo ao encará-lo. Por isso, dividiram-se em três partes. Oliver ficou com a do final, e os dois se dividiram entre o meio e o começo. Dessa maneira, iriam pintar áreas amplas que iriam se emendar e finalizar o serviço mais rápido.
O oficial os observava, bocejando de quando em quando. Caminhava ao longo da calçada, passando o olhar por eles e pelo trabalho. Notou que pareciam concentrados no que faziam e suspirou aliviado. Em geral, quando precisava supervisionar garotos mais novos, eles eram o que mais davam trabalho. Aos poucos, puxou assunto com eles, tentando não tornar aquilo tão massante como parecia.
A conversa, mesmo que breve, com o oficial ajudou os garotos a renderem mais. Embora Oliver respondesse de maneira curta, não achou ruim escutar as vozes. Precisava mesmo esvaziar a cabeça e conseguir esquecer Bruce, que parecia impossível. Tudo o que conseguia pensar era em como ele o tratou. Sabia que não deveria ter doído tanto, mas era difícil negar a esperança.
Por mais que estivesse decidido a seguir adiante sem Bruce, não dava para negar, que uma parte sua ainda tinha esperanças de que tudo fosse resolvido. Tinha expectativas de que as coisas pudessem se ajeitar e talvez, tudo voltasse ao normal. Poderia voltar a conversar com Bruce e ter sua presença em sua vida. Poder fazê-lo sorrir e sorrir para ele. Não dava parar negar, nem mesmo se forçasse. Entretanto, depois da experiência do reencontro com ele, como um choque de realidade, Oliver dispersou aquele tipo de esperança. E por fim, além de estar definitivamente decidido a superar Bruce, ele estava irritado com o homem.
Tentando prender sua atenção no trabalho, Oliver resolveu acelerar o ritmo. Olhou adiante e ainda parecia faltar muito. Os outros rapazes também não pareciam muito mais adiantados do que ele. Porém, conforme as horas foram avançando, o estômago de Oliver começou a reclamar pela necessidade do almoço. Por isso, se lembrou do acampamento, bem brevemente.
Conseguia escutar os berros de Terrence ao fundo. Ver Roy caminhar em total silêncio e ser vítima de algumas azucrinações. Era capaz de ver Bruce rindo e retribuindo alguma investida sarcástica sua. Não sentia falta daquele reformatório, mas percebeu que não estava tão feliz quanto imaginou que estaria fora de lá. Ao menos, lá dentro, algumas coisas valiam a pena.
Da mesma maneira que, no acampamento, não poderiam ser dispensados até terminarem, ali a regra era a mesma. Precisavam render o trabalho para que fossem liberados. Não faltava muito, mas como estavam com fome e com os braços doloridos, pelos movimentos repetitivos, o rendimento caiu bastante.
Oliver estava bem próximo ao rapaz do meio quando notou que a lata estava vazia. Piscou algumas vezes, tentando pensar no que iria fazer e decidiu se direcionar ao garoto.
— Está com tinta ainda? — questionou, puxando a atenção dele.
O garoto abaixou o olhar para a própria lata e bufou.
— Falta bem pouco para esvaziar. — respondeu e virou para o outro, fazendo a mesma pergunta e obtendo a mesma resposta.
Eles olharam um para o outro, procurando por algum tipo de resposta, até que um dos rapazes perguntasse ao oficial, que resolveu checar as latas. Ao perceber que a quantidade não seria mesmo suficiente, ele passou o olhar no relógio, contando quanto tempo ainda faltava para Bruce retornar. Então, virou-se aos garotos.
— Terminem com o que falta! Vocês serão liberados em breve! — anunciou calmo, acenando com a cabeça.
Sem muitas escolhas, os rapazes assentiram e retornaram ao trabalho. O rapaz empurrou a lata com o pé, para que Oliver também utilizasse do resto, para finalizarem logo. Depois, voltou a conversar com o garoto a sua esquerda, reclamando da fome e da dor no braço. Oliver os observou em silêncio, esfregando os últimos resquícios de tinta no concreto, conseguindo um resultado bem mais claro que o original.
Estavam jogando as latas de tinta no lixo, quando avistaram a viatura se aproximando. Um suspiro de alívio escapou dos lábios deles diante do carro. Retiraram os macacões enquanto os oficiais ajeitavam os rolos de pintura na parte de traseira.
Oliver observou Bruce por um momento, terminando de retirar o macacão. Estava com raiva e chateado. Não conseguia esconder isso no semblante que estampava seu rosto. Dobrou o macacão e foi até ele, o entregar. Novamente, ele pareceu olhar através do corpo de Oliver, como se fosse invisível ou feito de vidro. O garoto balançou a cabeça e retorceu os lábios.
Depois de guardarem tudo, os garotos puderam adentrar na viatura para seguir até em casa. O oficial aproveitou a carona, e se sentou no banco ao lado do motorista. Foi então que Oliver negou, fechando a porta sem entrar. Bruce observou a ação através do retrovisor lateral e se virou na janela, observando o garoto se afastar. Deu partida e engatou a marcha ré, chegando até ele. Oliver virou o rosto em direção a Bruce, mas quem falou foi o outro oficial.
— Iremos te levar em casa, rapaz! — comentou.
Oliver permaneceu observando o rosto de Bruce, como se o desafiasse a olhar de volta, mas ele estava imóvel, olhando para frente. Sabendo que era em vão aquela encarada, ergueu o olhar até o outro guarda.
— Não vou para casa. — respondeu sério, retomando sua caminhada lenta.
— Mas e quanto a sua família? Não vai avisar? — insistiu em tom alto.
Bruce levou a mão até a testa, passando os dedos sobre a pele, parecendo impaciente.
Oliver não respondeu, apenas prosseguiu, passo por passo.
— Ei, garoto! — o oficial o chamou da outra janela.
— Ele não vai! Ele já disse! — Bruce o cortou alto, tornando a acelerar o carro e seguir adiante, sem Oliver.
Seu olhar pairou sobre o espelho novamente, fitando a silhueta diminuindo gradativamente, dando a sensação de que Oliver estava partindo. Partindo sem ele. E de fato estava.
De repente, Bruce freou bruscamente, fazendo as pessoas serem impulsionadas para frente e se assustarem.
— Droga, Rogers! O que houve? — o homem ao seu lado perguntou o que todos queriam saber. Olhou para Bruce e o encontrou com os olhos marejados.
— Estou fazendo tudo errado! Mais uma vez! — reclamou, batendo no volante com raiva, fazendo as pessoas o encararem confusas.
O tempo havia revirado de maneira drástica. O sol da tarde foi coberto por nuvens escuras e logo que anoiteceu, o vento frio e agressivo trouxe a chuva grossa, molhando todos os desavisados que caminhavam nas ruas.
Bruce notou a chuva quando ainda estava dentro do chuveiro, terminando o banho. O vento gelado que adentrou pelo basculante fez sua pele eriçar e o barulho dos pingos grossos da chuva em contato com o solo agradou seus ouvidos. Ele se molhou na ducha de casa, mas com aquele barulho de gotas frenéticas ao lado de fora, ele tinha a sensação de estar tomando banho de chuva.
Se lembrou de quando era menor e que adorava andar pela chuva quando voltava da escola, embora sua mãe reclamasse até seus ouvidos doerem. Sempre que chovia ele dispensava a carona do ônibus, só para sentir a água gelada molhando seu rosto e suas roupas. O problema era que todas as vezes ele terminava gripado, a ponto de sua mãe obrigar seu pai a lhe buscar, mesmo que de viatura, nos dias chuvosos.
Um sorriso brotou em seus lábios diante daquela lembrança, mas não tardou desaparecer. Ter aquele tipo de recordação o fazia, também, lembrar que estava sozinho. Não havia mais sua mãe para reclamar em seus ouvidos. Não havia mais seu pai para aparecer em seu colégio com a viatura e assustar seus colegas. Não havia mais Margot para rir daquelas lembranças. Sequer chegou a ter Pietro para escutar aquelas histórias. E estava perdendo a única esperança. Estava perdendo Oliver.
Ter tentado se esquecer dele durante toda aquelas semanas não significou nada perante todo o sentimento que teve desde que o reencontrou. Todo aquele fervor de olhar aquelas íris esverdeadas voltou. Todo o nervosismo de estar na presença dele, retornou. Aquelas sensações faziam o homem de vinte e oito anos se sentir com apenas dezoito. E, entretanto, ele continuava a negar aquilo.
Era verdade que não tinha coragem de dizer nada a ele, não depois de tudo, mas certamente não era a melhor escolha, não como achou que seria. Conseguiu notar no olhar de Oliver que ignorá-lo como se ele fosse ninguém, o magoou, ainda mais. Se era capaz de ver a chateação que o causou da primeira vez, naquele momento conseguia ter total noção do mal que fez a ele.
Conseguia ter total consciência de que estava agindo como um covarde. Se escondendo atrás de uma porta. Evitando contato visual. Fingindo que ele não estava presente. Ignorando-o. Eram ações covardes que Bruce jurou ser a solução, mas não passavam de uma camuflagem para o que ele estava sentindo e era incapaz de lidar.
Balançando a cabeça para esquecer-se daquele reencontro frustrante, Bruce desligou o chuveiro. Inclinou a cabeça para trás e respirou profundamente. Levou as mãos até o rosto e o amparou por alguns segundos. Permaneceu dentro do box até que seu corpo nu ficasse incomodado com o frio, então puxou a toalha pendurada e se enrolou.
O corpo forte fazia a toalha parecer pequena para secá-lo conforme escorregava por sua pele, deixando-a arrepiada. Quando secou o corpo, enrolou a cabeça no pano e o esfregou em seus cabelos e barba, os secando. Então, jogou a toalha úmida sobre a cama e pegou a cueca boxer clara, vestindo-a. Em seguida, vestiu a calça jeans azul escura, uma blusa preta de mangas curtas e uma jaqueta jeans clara por cima. Então, sentou-se sobre a cama para calçar o par de tênis.
Poderia aproveitar a folga do trabalho para relaxar e seu corpo cansado estava pedindo por isso, mas decidiu que iria sair para uma visita especial. Estava trabalhando sem parar e sentia-se um pouco imprudente por ter tomado aquela ação. Tinha certeza que se pedisse alguns dias de descanso, Martin não negaria, mas Bruce achou melhor insistir naquela árdua carga horária de trabalho, pois sua mente ficava mais tempo ocupada com outras coisas que não fossem Oliver ou Margot. Entretanto, Bruce decidiu que estava na hora de encarar a realidade com Margot, já que parecia covarde o suficiente para lidar com Oliver.
Atravessou a casa e escutou seus passos ecoarem por seus quartos vazios. Aquela casa era imensa quando só habitava Bruce, chegava a ser melancólico. Ele olhava ao redor e tudo o que via eram cômodos mais vazios do que o normal e por mais que estivessem bem arrumados, sentia-se no meio de uma bagunça gigante.
Pegou as chaves sobre a mesa da cozinha e notou algumas garrafas vazias de cerveja sobre a pia, indicando que estava bebendo bastante nos últimos dias. Aproveitou e as recolheu também, colocando dentro de uma sacola para jogar fora. Então, saiu de casa e trancou a porta frontal. Antes de ir para o carro, Bruce foi até a lata de lixo próxima a sua casa e depositou a sacola com as garrafas.
A chuva havia diminuído bastante o ritmo, reduzindo-se a uma pequena garoa gelada. Bruce abria o carro enquanto observava a rua de casa bem vazia, como se a chuva tivesse espantado todos para casa. Adentrou no carro e sem delongas, deu partida em direção ao cemitério.
Carregava uma pesada culpa nos ombros por não ter coragem de visitar o túmulo da mulher, assim como carregava a culpa de inúmeras outras coisas. Desde que foi expulso do velório dela, não voltou mais para olhar por sua lápide e lamentar sua morte. E era compreensível, mesmo que bem pouco. Uma parte sua não queria ter de lidar com a realidade e a outra parte se recusava acreditar que era aquela a realidade.
Conforme dirigia em um trânsito mais calmo costumeiro da noite, ele tornou a se lembrar de quando era pequeno e que não tinha medo de ir ao cemitério durante a noite, diferente das outras crianças. Estava sempre tirando vantagem de seus amigos, pois tinha coragem de ir ao cemitério a noite, enquanto eles morriam de medo. Entretanto, agora era ele o medroso de encarar o cemitério. Sem se importar se era noite ou dia.
Depois de cruzar alguns quarteirões, Bruce foi capaz de ver a iluminação do cemitério. Não havia nenhum carro parado diante da entrada, talvez porque ele era o único que optava por visitar túmulos durante a noite. Conforme estacionou o carro, escutou crianças passarem correndo enquanto gritavam coisas pavorosas sobre o cemitério. Foi capaz de abrir um curto sorriso, mas apenas isso.
Permaneceu sentado dentro do veículo por segundos a fio enquanto encarava o portão de aço pintado de branco. Precisava ter coragem para enfrentar a triste realidade de que Margot se foi. Precisava enterrá-la de vez, ou acabaria enterrando a si mesmo. Por isso, decidiu sair logo do carro.
A iluminação não era das melhores, embora do lado fora pudesse convencer que era. Alguns pontos do lugar eram escurecidos, enquanto os iluminados eram em tons amarelados, que traziam um aspecto sinistro para o lugar. Bruce se sentiu em um filme de terror ao atravessar o terreno enlameado.
Seu olhar passou de lápide em lápide, mesmo sabendo a localização correta da de Margot. Por algum motivo, tinha certa curiosidade em ler aqueles nomes, ainda que não os conhecesse. Sua mente tentava adivinhar a história por trás daqueles nomes e datas, mas só conseguia acertar a sua, infelizmente.
Caminhou por algum tempo até conseguir avistar a sombra do túmulo dela. Ficou feliz por estar em um lugar iluminado. Margot merecia algo do tipo, mesmo que não significasse nada. Hesitante, Bruce foi até lá. Passo por passo. E o coração apertando mais em cada um deles. Nos últimos restantes, foi preciso fechar os olhos para que lágrimas não molhassem seu rosto.
Filha. Esposa. Mãe. As palavras marcadas na lápide machucavam o mais particular âmago de Bruce. Deveria haver um adjetivo redundante diante de cada palavra daquela. Margot era maravilhosa, em tudo o que fazia, e isso precisava ser registrado.
Ele aproximou-se da lápide, mordendo os lábios para segurar o pranto. Tocou o cimento frio e úmido, e afagou-o. Nesse momento, a garoa começou a se transformar em uma chuva fina, que molhava os cabelos e as roupas de Bruce. Ele olhou para cima, atribuindo aquela chuva ao pranto da mulher e ao seu. Daquela vez, não estava feliz em tomar banho de chuva.
— Me desculpe por não visitar você antes. — começou, fungando o nariz. — Tive a ideia idiota de me afogar no trabalho. Sabe que costumo tomar atitudes compulsivas e acabo me arrependendo depois.
Ele afundou as mãos nos bolsos frontais da calça, na tentativa de esquentá-las.
— Eu sei que eu deveria ter ficado contigo desde o início. Deveria estar ao seu lado em todos os seus momentos, mas... Eu não consegui. Não consegui enfrentar nada porque eu sou um covarde. — seus lábios tremeram e foi difícil conter as lágrimas, que se misturaram com as gotas de chuva que atingiam sua face. — Você deve estar decepcionada comigo, por ter me tornado esse tremendo covarde. E você sabe que eu não sou assim, eu só... Margot, eu não sei o que estou fazendo. Tudo o que sei fazer é magoar e falhar com as pessoas que gosto, assim como fiz com você...
De repente, Bruce interrompeu sua conversa ao escutar um barulho. Olhou para trás, procurando algo que não achou. Franziu o cenho diante daquilo e decidiu ignorar. Talvez fosse apenas um corvo ou um gato vadio. Entretanto, quando olhou para frente, foi capaz de ver um vulto se deslocar para frente. Uma sensação nervosa ardeu em seu interior e ele teve vontade de rir ao perceber que estava com um pouco de medo.
Forçou a vista, observando a silhueta nas sombras, logo à frente. Parecia estar parada, com a cabeça baixa. Não conseguindo identificar nada a partir daquela sombra, Bruce decidiu se aproximar. Com cuidado, ele se deslocou sem provocar som algum.
Conforme se aproximava, percebeu que se tratava de uma pessoa que viera fazer o mesmo que ele. Um suspiro de alívio quase escapou de sua boca, se ele não tivesse notado que conhecia aqueles ombros largos e cabelos espetados. Então, seu olhar deslizou até a lápide e quando leu o nome descrito na placa de mármore, prendeu a respiração.
"Amanda Vincent. A melhor mãe do mundo.", dizia a placa. Por mais que estivesse escuro, Bruce conseguiu ler as palavras e reconhecer aquele sobrenome. Tornou a olhar para o rapaz logo a sua frente e meneou, desacreditando que se tratava de Oliver. Até que a silhueta se virou e encarou-lhe na espreita. Bruce conseguiria reconhecer aqueles olhos esverdeados em qualquer lugar, por mais escuro que estivesse.
Eles se encararam por alguns segundos, sentindo a chuva ensopar a ambos. Havia toda uma troca de sentimentos naqueles olhares conectados, mas Oliver abaixou o olhar e então, deu o primeiro passo para se retirar do lugar, deixando Bruce para trás.
— Oliver... — Bruce chamou baixo quando ele passou por si.
Oliver o olhou, novamente, ao escutar seu nome, mas acabou por ignorar e seguir sua caminhada para fora do terreno. Bruce acompanhou-o com o olhar enquanto sua silhueta ia desaparecendo nas sombras aos poucos.
Um turbilhão de pensamentos atingiu a cabeça de Bruce naquele momento. Em todos eles, cogitava a ideia de ir atrás Oliver, pois era sentia que era sua última chance. Foi então que Bruce percebeu. A força que o mantinha vivo era Oliver. Quando quis morrer e se reencontrar com Margot, houve algo que o impediu. E esse algo, na verdade, era alguém. Era Oliver. Por isso, ele acelerou os passos, indo em direção a ele.
O chão estava escorregadio pela lama, o que o obrigou a se deslocar com cuidado, mas ele queria correr. Queria correr, porque sentia que se não encontrasse Oliver, nunca mais poderia tê-lo. Era a sua chance de consertar tudo e dizer a verdade para ele. Dizer que não queria tê-lo afastado quando se beijaram. Que não foi capaz de esquecê-lo.
Encontrou-o logo no portão e conseguiu impedi-lo de continuar, segurando em seu antebraço. Oliver levou o rosto para trás, fitando seu rosto e puxou o braço de volta, tentando se afastar.
— Oliver, por favor... — insistiu, mas ele acabou se soltando e escapando pelo portão.
Sem desistir, Bruce conseguiu alcançá-lo e puxá-lo pelos ombros. Quando ele tentou forçar novamente, o imprensou contra seu carro com força, deixando-o sem saída.
— Eu preciso falar com você, Oliver. — começou, sentindo a voz falhar em sua garganta.
— Agora você precisa falar comigo? — reclamou, tentando empurrá-lo para longe de seu corpo.
Bruce tentou mantê-lo firme, prendendo-o entre seu corpo e o carro, embora ele relutasse e fosse tão forte quanto.
— Oliver, por favor, eu só preciso que você me escute...
— Te escutar? Depois de tudo o que você me disse? Depois de fingir que eu não existo?
Oliver o encarou atônito e deu uma risada sem graça.
— Vai se foder, Bruce! — esbravejou para ele. — Você me ameaçou de morte! Disse que eu não iria querer saber do que você era capaz! Não satisfeito, você simplesmente me tratou como ninguém, como se a culpa fosse minha! Agiu como um covarde e agora você quer que eu te escute?
Bruce concordou, balançando a cabeça de maneira agitada. Então, segurou o rosto dele diante do seu, sentindo sua pele molhada e gelada.
— Eu sei! Eu sei! Me perdoa! — suplicou, mantendo os rostos próximos. — Me perdoa...
— Não, Bruce, você não sabe! — ele meneou bruscamente, tentando afastar o rosto. — Se você soubesse, não teria me tratado como me tratou! Você foi a única pessoa que eu consegui confiar e você fez exatamente como os outros! Só porque você não me bateu, não me estuprou, acha que o que você me disse não doeu? Quer saber, Bruce? Doeu até mais! Porque foi você. E você era a única parte de mim que eu gostava. Mas agora, você é uma parte que eu estou determinado a superar.
Ele apertou o rosto de Oliver, trazendo-o mais para perto. Meneava em sua direção, sentindo as lágrimas arderem em seus olhos.
— Não fala assim, por favor... — pediu com os lábios de trêmulos.
— Não falar assim? — Oliver arqueou as sobrancelhas. Sua voz começou a falhar, dando indício de pranto. — Me dê uma boa razão para isso, porque você só me deu inúmeras razões para esquecer você!
Bruce olhou em seus olhos e acariciou seu rosto com a ponta dos dedos. Oliver respirou fundo, sentindo o corpo se arrepiar diante do toque. Era preciso controle extremo para não ceder àquele olhar e beijar os lábios de Bruce, que estavam tão próximos aos seus.
Ao notar o silêncio dele diante do desafio, Oliver abaixou a cabeça, meneando em reprovação.
— Está vendo? Você não é capaz de me dar uma boa razão para perdoar você! – Oliver fungou, tentando controlar o choro. — É muito fácil vir atrás de mim agora que você está sozinho, mas quer saber uma coisa, Bruce? Você não vai me usar para esquecer sua esposa! Não vai! – terminou, conseguindo afastar o rosto dele do seu e então, o corpo.
— Não, Cherry Bomb, não é... – Bruce tentou insistir, segurando-o pelo pulso, mas foi em vão.
— Não há mais nenhum Cherry Bomb, Bruce. Ele morreu, exatamente como você falou que faria! — interrompeu, olhando-o uma última vez.
Foi difícil abandonar Bruce, mas assim como havia sido abandonado, Oliver retribuiu. Por mais que seu coração estivesse despedaçado, louco para voltar atrás e deixar as complicações para trás, Oliver soube que tinha feito a coisa certa. E escondendo o choro doloroso entre as mãos, Oliver seguiu em frente, partindo.
Bruce permaneceu na chuva, observando a silhueta de Oliver diminuir e desaparecer na esquina. Seus lábios estavam entreabertos e sua respiração engasgada escapava por eles. Os olhos ardiam e lágrimas, que faziam sua cabeça doer, escorriam por sua face. A chuva o tornava encharcado, mas ele não se incomodava. Nada o incomodava mais do que lidar com a partida de Oliver.
Como ficar parado, tomando chuva, não adiantaria em nada, Bruce retornou ao carro. O pranto ainda rolava em sua face quando ele deu partida, assim como seria em todo o trajeto até em casa. Bruce sentia uma sensação de vazio tão grande em seu interior, que tornou a pensar se um caminhão adentrasse o cruzamento de maneira errada e acertasse seu carro, ele não se importaria. Afinal, tudo o que ele se importava, havia partido. De uma maneira ou de outra. Foi então que, atravessando um cruzamento com o carro bem acelerado, Bruce deu de encontro com uma caminhonete. Por pouco, conseguiu frear e evitou o pior. Recebeu alguns xingamentos do outro motorista e respirou fundo, sentindo o coração acelerado. Então, notou que não era uma boa escolha procurar por um acidente.
Chegando em casa, ele retirou a jaqueta molhada de seus ombros e ao abrir a porta, a jogou para qualquer canto da sala, sem se importar se estava no chão ou não. Adiantou-se até a cozinha, arremessando tanto as chaves de casa quanto as do carro em cima da mesa. Então, abriu a geladeira e pegou outra cerveja. A única escapatória que tinha.
Desolado, caiu sentado sobre a cadeira da dianteira e continuou a tomar sua cerveja, gole atrás de gole. Esfregava o rosto, de minutos em minutos, tentando apagar da memória as palavras de Oliver. Sabia que ele estava certo, embora não o estivesse procurando para esquecer Margot. Ele estava certo, porque Bruce deu-lhe todos os motivos para que ele o deixasse, e era isso o que estava fazendo. Não podia culpá-lo ou sequer exigir o contrário. A razão dele estar tomando aquele tipo de atitude era por total e completa culpa sua.
Depois de um gole generoso, deixando o líquido no final, Bruce apoiou a garrafa na mesa e abaixou o olhar. Nesse momento, seu olhar notou um papel amassado sobre a mesa. Como um flashback, ele se lembrou de Ginger o entregando e explicando ser o número de Oliver. Esticou a mão até a bola amassada e o puxou até si. Começou a desamassá-lo com cuidado e fitou o número do rapaz.
Encarou os dígitos por alguns segundos, se perguntando se era mesmo viável tomar uma atitude daquela. Certamente, Oliver desligaria quando reconhecesse sua voz, mas ele precisava tentar. Precisava, ao menos, dizer a ele que realmente sentia muito. Dizer que se arrependia era o mínimo.
Puxou o celular do seu bolso traseiro da calça e discou o número, mas antes de iniciar a chamada, ele hesitou. Tomou ar e tentou manter uma postura séria, para que não chorasse. Então, iniciou a chamada.
Chamou uma vez. Duas vezes. Três vezes. E a ansiedade em seu peito só aumentava, cada vez mais. Ele estava quase desistindo, quando ele atendeu.
— Alô? — indagou com a voz rouca, de alguém que estava chorando.
Bruce notou a presença do pranto e quis dizer qualquer coisa, mas simplesmente não conseguiu. Sua voz pareceu ter sumido de sua garganta. Tudo o que conseguia fazer, era chorar enquanto escutava a respiração pesada do rapaz.
— Quem é? — insistiu, fungando o nariz.
Sem conseguir falar nada, Bruce desligou. Jogou o celular pela mesa e deixou o pranto desesperado vazar de seus olhos até que lhe faltasse o ar. Sem conseguir se controlar, por sentir que estava perdendo sua única parte viva, Bruce se ergueu e esfregou os olhos, chorando ainda mais.
Havia errado com tantas pessoas. Com seus pais. Com Margot. E quando teve a chance de fazer algo certo, fez o de sempre; errou. Acabou errando com Oliver de uma maneira que parecia irreversível. E seu coração não conseguia suportar isso. Não conseguia porque depois de tudo, mesmo sendo tarde demais, Bruce percebeu o que sentia por Oliver.
Sem pensar, ele agarrou a garrafa com a destra e a arremessou contra a parede, estourando-a. O líquido manchou a tintura e os pedaços de vidro espalharam-se pelo ambiente, criando uma chuva de cristais. Bruce observou o estrago e conseguiu controlar o pranto, por um momento.
— Droga, Oliver... Eu estou amando você. — admitiu, por fim, mesmo que a si mesmo.
Fale com o autor