Bad Reputation
14 Chapter 11.1
Notas iniciais
O dia mal havia amanhecido e Oliver já estava acordado. Ou melhor, nem parecia ter dormido. Sua cabeça dolorida encheu-se de pensamentos e não o deixara dormir. O choro sempre parecia retornar e as lágrimas machucavam ainda mais sua cabeça. As horas durante a noite se arrastaram e Oliver as sentiu, minuto por minuto, sendo torturado pelas lembranças de suas escolhas.
Sentia uma parcela de culpa por não ter escutado o que Bruce tinha para lhe dizer. E também sentia que não estava errado, afinal estava magoado. Havia sido maltratado pela única pessoa que chegou a nutrir algum tipo de sentimento genuíno. Isso machucava e dilacerava Oliver, e era algo que Bruce tinha de ter noção.
Ficava aliviado ao pensar que tinha o dito tudo o que foi necessário, embora soubesse que ainda precisava dizer coisas a ele. Precisava dizer a verdade, apesar de tudo. Dizer que ele continuava sendo a única pessoa a receber o sentimento mais puro. A única pessoa que Oliver nutriu amor. Entretanto, depois de tudo, parecia impossível que conseguisse fazer isso.
Quando se lembrava de recusar o apelido que ele lhe dera, seu coração partia. Era mentir a si mesmo, dizer que não era mais nada para Bruce, nem mesmo o Cherry Bomb. Oliver sabia que nunca conseguiria abdicar aquele apelido e nem todo o sentimento que ele trouxe. Entretanto, algo em seu interior insistia em achar que era a melhor escolha.
A verdade era que no fim de tudo, depois de rejeitar a pessoa que amava e não conseguir dormir, Oliver não sabia exatamente como se sentir. Jurou ter feito a escolha certa ao tentar seguir em frente e superar Bruce. E, no entanto, ele não sentia isso. Deveria estar tranquilo e com a consciência leve, mas estava triste e vazio.
O sol começava a brilhar através de sua janela, quando resolveu se levantar. A casa ainda parecia imersa em um silêncio constrangedor, mas ele ignorou. Seus pensamentos estavam fazendo barulho demais para ele notar a tranqulidade presente.
Recolheu a blusa preta de manga cumprida e vestiu-a, sentindo-se um pouco grande para aquele tecido. Depois, vestiu uma calça de moletom escuro, mais larga que a anterior. Permanecendo descalço, ele saiu do quarto e adentrou no silêncio da casa ainda adormecida.
Caminhou pela casa, observando o sossego do lugar. Pouco tinha andado pelo ambiente e pensou que talvez aquele breve tour, o fizesse esquecer de tudo, ou relaxar sua mente, ao menos. Ao chegar a varanda, Oliver sentiu a brisa da manhã fazer um carinho em seu rosto. O sol brilhava no canto do céu, trazendo tons diversificados nas nuvens. Era algo bonito de se observar e trazia uma paz interior, mas ainda não o suficiente para amenizar os sentimentos de Oliver.
Manteve-se a encarar o céu por algum tempo, tentando pensar em algo que não fosse Bruce. Mas quando não pensava nele, pensava em suas escolhas. Tomar atitudes como aquelas parecia certo, até ter de tomá-las. Então, passaram a atormentar sua cabeça, porque no fundo, ele sabia que não eram aquelas decisões que queria ter tomado.
Passou um último olhar pelo céu e se virou, dando as costas. Voltou para dentro de casa e seguiu, ainda notando o silêncio do lugar. Avançou até a cozinha, mais precisamente a geladeira. Observou os tantos alimentos ali e decidiu pegar o leite. Quando fechou a porta do refrigerador, quase se assustou com a presença de sua irmã.
— Desculpa se te assustei! — ela comentou com um riso sonolento. — Por um momento me esqueci que você estava aqui e estranhei a figura mexendo na minha geladeira.
Ele arqueou as sobrancelhas.
— Eu deveria ter pedido licença, desculpe... eu...
— Está tudo bem, Oliver. — ela tocou seu ombro com cuidado. — Desde quando tem que pedir licença para usar a geladeira da sua casa?
Oliver apenas anuiu, seguindo até a bancada da pia e servindo o leite em um copo. Tomou-o mesmo puro. O gosto o fazia lembrar da fraternidade, mas não achava ruim.
Observou sua irmã começar a preparar o café e enquanto esperava a cafeteira fazer seu trabalho, resolveu pegar alguns biscoitos sobre o pote em cima da mesa. Oliver se juntou a ela, sentando-se ao seu lado. Então, ela pode observar seu aspecto derrotado.
Os olhos de Oliver estavam avermelhados e marcados por olheiras. Suas bochechas estavam levemente inchadas e marcadas. O rosto, como um todo, estava amassado e vermelho. Ele fungava o nariz de quando em quando, fazendo Lisa chegar a conclusão de que ele havia chorado.
Se lembrou de que ele havia chegado tarde no dia anterior e que sequer falou algo, apenas se trancou no quarto. Embora soubesse que ele havia ido visitar o túmulo de sua mãe, achou estranho ele chegar tão chateado.
— Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou, olhando para seu rosto.
Oliver ergueu o olhar, expressando confusão nele.
— Ontem você chegou arrasado e parece ter chorado a noite toda. — ela deu de ombros ao explicar.
— Não é nada... É só que... — respirou fundo, abaixando o copo. — Ainda é difícil ir visitar a mãe.
Lisa anuiu, mas sem acreditar.
— É difícil mesmo, mas... Oliver... — ela chamou sua atenção, retorcendo os lábios. — O que de tão sério está escondendo de mim?
— Não estou escondendo nada, Lisa.
— Não? — Lisa o encarou sério e cruzou os braços. — Então, por que me fez aquela pergunta no dia em que chegamos? Sobre superar alguém que nos magoou?
Ele abaixou a cabeça, suspirando.
— Oliver... Nós somos uma família agora! — ralhou baixo. — Tudo bem que é necessário ter privacidade, mas você está sofrendo! E, pelo que eu saiba, eu te trouxe para cá para acabar com sua dor, mas não é o que...
— Lembra do oficial que você achou bonito e... tudo o mais? — interrompeu-a, tornando a olhá-la.
Lisa franziu o cenho, assentindo.
— Ele te fez alguma coisa? Não me diga que ele...
— Ele era um dos oficiais no acampamento e... Acontece que eu me apaixonei por ele. — confessou de uma vez, desviando o olhar ao ver sua irmã boquiaberta, e com os olhos estatelados. — Isso soa mais tosco ainda quando se fala em voz alta.
— Uau... — ela suspirou, levando a mão até a testa e a coçando. — Isso... Isso é um tanto quanto masoquista, Oliver...
Oliver concordou com a cabeça.
— Então, você está tentando superar isso? — Lisa prosseguiu.
— Bem, eu achei que era a escolha certa, mas... Eu não consigo me sentir bem com isso. — ele balançou os ombros e meneou.
Lisa suspirou, levando a mão até seu ombro, o amparando. De repente, George adentrou na cozinha, procurando por comida. Ambos se entreolharam e então, ela se ergueu para dar auxílio ao marido, mas não sem antes acariciar os cabelos do irmão.
— Talvez não seja essa a decisão correta. — ela sussurrou antes de soltá-lo.
Oliver não respondeu, apenas absorveu as palavras da irmã.
Tentando deixar tudo aquilo de lado por um tempo, ele pegou mais alguns biscoitos e observou a movimentação na cozinha. George se sentou no lugar de Lisa e acenou para Oliver, que respondeu de maneira silenciosa. Lisa serviu o café e ele resolveu que comeria um pouco mais.
Não tardou e Lea apareceu na cozinha, dessa vez não chorava, apenas perguntava quando iria comer. Sua mãe aprontou seu café da manhã depressa e a entregou. Lisa também lembrou de falar a Oliver que teria mais serviço comunitário naquela manhã, o que desanimou-o um pouco. Só de pensar que teria que enfrentar, novamente, toda aquela situação constrangedora com Bruce, ele perdia a fome. E foi pensar em Bruce, que uma súbita estranha sensação subiu por seu corpo.
Estranhou aquilo, sentindo o nervosismo incomodar na boca de seu estômago. Era algo que ele nunca havia sentindo antes e não conseguia classificar como bom ou ruim. Apenas sentia aquela sensação incomodando toda vez que idealizava a imagem de Bruce em sua mente.
Seu curto transe foi interrompido assim que sentiu Lea puxar seu braço e chamar seu nome. Oliver piscou seguidas vezes e prestou atenção aos chamados da garota, que apenas queria que ele fosse assistir desenho em sua companhia. Incapaz de negar um pedido como aquele, ele se ergueu e seguiu a garotinha pela casa até a sala, ainda estranhando aquela sensação.
Ajudou Lea a ligar a televisão e serviu de colchão para ela, que se espojou em seu colo como um bicho preguiça. Oliver abriu um sorriso ao ver o conforto da garota ao estar perto de si. Então, pela primeira vez, ele conseguiu esvaziar um pouco a cabeça. Enlaçou os dedos nos cabelos dourados da sobrinha e os acariciou com gentileza, fazendo-se todos ouvidos para escutá-la comentar do desenho que passava na tela.
Ao seu redor, Lisa arrumava a cozinha enquanto escutava o marido balbuciar coisas sobre o trabalho. De quando em quando, ele lhe dava alguns biscoitos, para que ela comesse. Quando George terminou de comer, Lisa conseguiu arrumar de vez a cozinha. Então, decidiu arrumar a própria filha, que mais a tarde teria de ir para a escola. Passou pelo quarto de Oliver e notou os coturnos dele, imaginando que estaria descalços. Assim, depois de recolher as roupas da filha, levou o par de sapatos até ele. Arremessou-os pelo chão e avisou ao rapaz para se aprontar, pois faltava pouco tempo.
Foi um pouco difícil tirar Lea de perto de Oliver para arrumá-la. Ainda mais porque ele era a única pessoa que a acompanhou para assistir desenhos e escutar seus comentários. Foi preciso ele levá-la no colo até o quarto e então, escapar sem que ela percebesse, ou tudo seria em vão.
Quando retornou a sala, encontrou George sentado, passando de canal em canal. Oliver passou por ele e se sentou ao seu lado para calçar os sapatos. O homem pareceu sequer ter notado sua presença, o que não foi de todo mal, já que Oliver não se sentia à vontade perto dele.
Estava terminando de amarrar os cadarços das botinas, quando escutou a buzina do lado de fora. Nesse momento, George transferiu o olhar da televisão para Oliver, que acabava de se levantar. Não falou nada, apenas o assistiu.
Oliver acenou em uma sua direção, em uma forma de despedida. George apenas arqueou as sobrancelhas brevemente, em resposta. Assim, Oliver se desviou até a porta. Mas antes que pudesse abrir a porta, ele fechou os olhos e respirou fundo, na expectativa de encontrar Bruce.
No entanto, quando seu olhar voltou a focalizar, reparou na figura conhecida, mas que não se tratava de Bruce. Era o mesmo oficial de antes. Oliver não soube dizer se ficou aliviado ou ainda mais nervoso.
Caminhou depressa até a viatura, se lembrando de quando reencontrou com Bruce. Seu coração não estava tão acelerado quanto aquele dia. Ele observou o guarda no banco da frente e respondeu seu cumprimento com um leve aceno. Então, quando entrou na parte traseira, a sensação tornou a arder em seu peito.
Oliver esfregou o rosto, sentindo o homem dar partida enquanto falava algumas coisas, as quais ele não estava escutando. Sentia uma breve falta de ar e o mesmo nervosismo na boca do estômago. Aos poucos, foi capaz de sentir um gosto amargo em sua língua. Tudo isso, com a imagem de Bruce estampada em sua mente.
Ele respirou fundo e tentou manter a atenção nas palavras aleatórias do homem que dirigia. Falava coisas como a temporada de futebol americano e as notícias dos jornais. Oliver não dava respostas muito concretas, apenas esboçava sons de concordância ou discordância. Na verdade, não estava prestando muito a atenção, apenas fingia estar. Tudo o que queria era entender o que causava aquela sensação estranha.
Pensou ser sobre o acontecimento anterior, da conversa que tiveram e de como isso o machucava. Pensou ser por ter tomado a decisão errada. Entretanto, nenhuma daquelas lembranças o fazia sentir daquela maneira. Por mais que doessem, o fizessem querer gritar um xingamento, nenhuma lhe dava aquele nervosismo e a falta de ar. Parecia algo como ansiedade mesclada com preocupação. Definitivamente, Oliver não sabia explicar.
Ainda fingindo prestar atenção na tagarelice do guarda, ele observou a rua. Tentava afastar o sentimento desconhecido e também, parar de pensar sobre Bruce. Sabia que seu dia inteiro se danificaria, caso insistisse em ficar reproduzindo a conversa frustrante em sua mente. Mas era difícil, principalmente por se lembrar de recusar escutar o que Bruce tinha a dizer. E parecia tão bobo ter tomado aquela atitude naquele momento.
O carro fizera o mesmo trajeto do dia anterior, trazendo uma espécie de déjà-vu. Oliver sentiu o veículo estacionar brevemente e receber os mesmos outros dois rapazes. Eles adentraram, cumprimentando Oliver e o guarda em silêncio. Quando retornaram à estrada, Oliver tornou a se sentir grato pela falação dos garotos, afinal, dessa maneira, tornava-se um pouco invisível.
Depois de fazer o retorno, o carro seguiu pela estrada principal, não demorando muito a chegar na fachada da escola que estavam pintando. Oliver notou que, dessa vez, conseguia escutar vozes vindo de dentro da escola, já que no dia anterior, não escutou som algum. Talvez porque estivesse distraído o suficiente sentindo raiva de Bruce, por tratar-lhe como um nada.
Assim que deixaram a viatura, o oficial tratou de distribuir os macacões novamente, para que o vestissem. Então, enquanto o faziam, ele foi separando as latas de tintas, que estavam em maior quantidade do que antes. Quando terminaram, recolheram os rolos de pintura e prestaram atenção no guarda.
— Terão de terminar este muro e mais o do outro lado do portão. — ele anunciou, apontando para outro extenso paredão sem pintura. — Dessa vez, não irá faltar tinta. – sorriu, apontando, dessa vez, as inúmeras latas ao redor deles.
Os rapazes assentiram, já que não tinham outra escolha. Então, decidiram terminar de pintar o muro que haviam começado. Tiveram de reforçar a tintura em algumas partes, pois ficara mais clara pela falta de tinta.
Não tardaram a concluir o primeiro muro, mas quando encararam o segundo, eles suspiraram pesarosos. Oliver olhou para o céu, observando o sol brilhar imponente no céu. Respirou fundo e retornou a sua obrigação.
Mergulhava o rolo na lata, tirava o excesso e o passava pela parede. Estava repetindo tanto aquele movimento que, aos poucos, achou que estaria executando-os como em um modo automático. Seus braços já não reclamavam tanto perante aquelas tarefa, revelando músculos mais resistentes. Entretanto, mesmo assim, começaram a apresentar cansaço.
Conforme o sol avançava pelo céu, eles avançavam no serviço. Como antes, haviam separado em três partes pela extensão do muro e iam pintando um de encontro ao outro. Porém, o cansaço começou a se fazer presente, junto do calor.
O guarda permanecia apenas observando, encostado na lataria da viatura, mas quando o calor pareceu apertar, ele abriu a porta e se sentou no banco, podendo se esconder do sol. Já os rapazes, tiveram que suportar apenas com as mangas arregaçadas e o zíper frontal aberto.
O suor escorria em suas faces, obrigando-os a enxugarem com as mãos. O cansaço da repetição atingia os músculos e fazia o corpo reclamar. Algumas vezes, eles apresentavam certa relutância em continuar. Apoiavam o rolo contra o muro e ficavam alguns instantes parados, apenas observando. Então, era preciso o guarda abrir a boca e tentar, de alguma maneira, incentivá-los a retornar ao trabalho.
— Como eu já disse uma vez: quanto mais rápido terminarem, mais rápido serão liberados. — falava alto, mesmo que os garotos nem parecessem ouvir.
Oliver insistia, mesmo que o estômago começasse a sentir uma pontada de fome e os músculos repuxassem em desistência. Não via a hora de terminar tudo aquilo e poder retornar para casa. Sua cabeça ainda doía pela noite mal dormida e o corpo pedia por descanso. Havia sido uma péssima ideia matutar a noite inteira invés de dormir quando, no dia seguinte, teria trabalho a fazer.
Apesar de tudo, sua mente continuava a retornar para Bruce. Continuava a se lembrar de toda a conversa que tiveram, ou que quase chegaram a ter. Oliver sentia uma grande culpa e impotência por não ter sido capaz de escutar o que ele tinha para dizer. Mas sabia o motivo de ter negado. Tinha certeza que Bruce pediria desculpas e jamais seria capaz de recusar. Teria corrido para os braços dele na primeira oportunidade e isso não era algo que Oliver deveria cogitar. Depois de tudo o que passou com Bruce, sabia que era necessário manter um pé atrás. Confiava nele, tinha noção disso. Entretanto, Bruce havia lhe ameaçado de morte e acabava de sair de uma tragédia fatal com a esposa. Era notório que seus sentimentos estivessem bagunçados e Oliver não queria se bagunçar entre eles. Mas havia escolhido um caminho um árduo para evitar isso, e acabava se arrependendo. Afinal, o sentimento acabava falando mais alto.
Por fim, quando se deram conta, faltavam poucos centímetros para que finalizassem. Um sorriso de alívio e felicidade surgiu na face dos garotos, que agilizaram os últimos momentos e sem muitas dificuldades. Assim que vislumbraram ambos os paredões pintados, só faltaram pular em comemoração.
— Agora que terminaram, vou ter de levá-los para assinarem a ficha de finalização de serviço. — informou, observando-os retirarem os macacões e concordarem.
Eles ajudaram o oficial a guardar os materiais e as roupas, então retornaram até a viatura, para que fossem levados até a delegacia e assinassem os papéis que constavam que eles haviam cumprido um serviço da pena.
O oficial deu partida, dando o retorno por fora da estrada principal, para evitar o trafego do horário de almoço, que certamente estaria engarrafado. Foi quando repararam em uma viatura passar acelerada e com a sirene ativada no cruzamento. Eles observaram o veículo em alta velocidade, mas não se surpreenderam, afinal era uma cena costumeira. Porém, a sensação retornou e Oliver se sentiu incomodado. Bem mais do que antes.
Tudo parecia mais arrastado que o normal daquela vez. Até mesmo as vozes dos rapazes ao seu lado. Oliver sentia uma agonia crescente ao sentir que aquela lentidão. O nervosismo queimava em seu interior e o gosto amargo marcou sua boca. Ele se sentiu mal, como se estivesse prestes a enjoar.
A viatura parecia nunca chegar ao destino, fazendo-o se sentir tonto com aquela demora. Oliver se sentia ansioso e também preocupado. Não sabia o motivo daquilo, mas desde que viu a viatura em alta velocidade, não conseguiu conter a comoção.
Quando finalmente conseguiu enxergar a delegacia, após a curva, Oliver sentiu que estava suando frio, mesmo que levemente. Sua mão estava gelada e úmida, assim como seu rosto. Ele franziu o cenho, achando que estava prestes a adoecer ou algo do tipo. Então, quando estavam quase estacionando, o rádio da viatura foi acionado.
— Oficial Hawking, está na escuta? — a voz nervosa de um homem chamou, puxando a atenção de todos dentro do carro.
— Sim, estou! Pode falar! — respondeu, ajeitando o carro para estacionar.
Oliver fitou o rádio, notando a ansiedade o impedir de respirar.
— Precisamos de reforço na Avenida, agora! — ordenou.
— Eu estou com os rapazes do serviço comunitário, não há outra? — respondeu enquanto os garotos saíam da viatura, já estacionada.
— Não, oficial! Foi a única viatura que consegui contatar e preciso que venha para a Avenida agora! Rogers foi baleado!
O coração de Oliver pareceu parar diante daquela notícia, tudo pareceu ficar em câmera lenta. Bruce havia sido baleado. Aquela notícia caiu como uma cruz de chumbo em seus ombros.
Então, Oliver percebeu o motivo da sensação e o que ela significava. Era como se fosse uma espécie de pressentimento. Não era nada sobre ele e sim, com Bruce. Estava preocupado com ele e por isso, toda vez que idealizava sua imagem em seus pensamentos, a sensação retornava. Era como se estivesse sentindo que algo ruim pudesse acontecer. E aconteceu. E, naquele momento, Oliver não pensou em mais nada, senão manter-se escondido entre o banco do motorista e o banco traseiro, para conseguir ir até o local em que Bruce estava.
Esqueceu de todas as dificuldades entre eles, fossem as ameaças ou o tratamento de Bruce para consigo. Nada daquilo era mais importante, apenas o estado vital de Bruce, pois Oliver não conseguia nem mesmo cogitar a ideia de perdê-lo para sempre.
O corpo manchado de sangue foi apoiado contra a lataria de um carro à deriva. Uma exclamação dolorosa escapou dos lábios de Bruce, que xingava baixo pela dor que latejava em sua cintura. A respiração dele estava arrastada. O suor que escorria por seu rosto mostrava toda a dor que estava sentindo e também, o nervosismo. Ele olhou para baixo, encarando o ferimento aberto no lado esquerdo de sua cintura.
O sangue vazava de maneira constante da parte inferior de seu tronco, próximo a costela, e manchava toda sua farda. Ele tentava apertar a abertura, tentando impedir que o sangue continuasse a escorrer, mas a dor e a ardência eram lancinantes a ponto de sentir seus músculos enfraquecendo aos poucos.
À sua frente, Maximoff tentava lhe manter são, falando palavras que aos poucos começavam a se tornar emboladas. Enquanto isso, ao redor, era possível escutar ainda mais barulhos de tiros pelo confronto que estavam enfrentando. Bruce tentou relutar e olhar em volta, mas o parceiro o impediu, mantendo-o amparado.
— Rogers, preciso que continue comigo, certo? Olhe para mim! A ambulância já está chegando!
Bruce teve de fazer um certo esforço para entender o que ele havia dito, mesmo que ele quase tivesse gritado. Sua cabeça estava girando e se tornando pesada. Bruce não sabia se era pela dor. Ou pela quantidade de sangue que estava perdendo. Ou pelos dois.
— Cadê essa bendita ambulância?! — Maximoff berrou nervoso, olhando ao redor. Quando voltou o olhar para Bruce, o notou pálido e suando frio. — Rogers, seja forte! Você consegue se manter firme?
— Eu... acho que vou apagar... — ele respondeu em suspiro de voz.
— Não, não vai! Continue olhando para mim! Eu sei que não sou a coisa mais bonita que você já viu na vida, mas finja que eu sou! Finja que eu sou lindo e continue me olhando! — suplicou, arrancando um leve sorriso no rosto manchado de Bruce.
De repente, o som da sirene da ambulância aliviou os músculos de Maximoff. Antes mesmo que o veículo estacionasse, ele fez sinal para indicar onde estavam. Também notou a viatura de reforço que acabava de chegar e foi capaz de suspirar.
Com toda pressa, foi dada a assistência a Bruce, que foi colocado numa maca e imobilizado corretamente. Sem delongas, ele foi carregado para a ambulância, para receber os primeiros cuidados.
Sentia sua visão turva e a cabeça pesada. Seu corpo continuava a reclamar da dor e ele sentia que não iria sustentar a consciência por muito tempo. Foi quando escutou alguém berrar seu nome. Fazendo um último esforço, ele seguiu o som com o olhar e reparou na viatura de reforço.
— Bruc...
— Garoto, que diabos está fazendo aqui? Você deveria ter saltado na delegacia! — o oficial que dirigia o interrompeu, tentando impedi-lo de continuar.
Oliver forçou contra os braços do policial e ignorou todas as palavras dele. Tudo o que conseguia enxergar era o homem sendo levado para a ambulância. Ver a imagem de Bruce ensanguentada mexeu tanto com seu psicológico que não o fez medir força ao empurrar o guarda e se desviar.
Era impossível conter o choro ao ver Bruce naquele estado. Seu coração partia-se ao poucos, se negando a acreditar no que estava vendo. Oliver se recusava a perder Bruce.
— Bruce! – gritou, sentindo as lágrimas derramarem-se em seu rosto enquanto tentava alcançar a ambulância, mas já era tarde demais.
Conforme a porta foi se fechando e separando os dois, um sorriso estampou o rosto sujo de Bruce. Um sorriso, porque o último rosto que viu antes de tudo se tornar escuro foi o rosto de Oliver.
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