Notas iniciais
Olá, amores. Sei que estou sumida e peço perdão por isso. Eu iria postar isso ontem, mas a casa tava cheia de visita e eu com rinite alérgica, acabei saindo e só voltei de madrugada :c Bem, voltando ao assunto... A pergunta de vocês que não quer calar é.. Será ainda possível o Bruce e o Oliver ficarem juntos? Eu não posso falar nada :x Mas aproveitem o capítulo! Lembrando que é um capítulo de transição, com passagem no tempo, então aqui vai abrir novos furos para serem fechados mais para frente. P.S: vou dividi-lo, mas acho que antes mesmo de amanhã, posto a continuação.

[4 semanas depois]

O dia havia amanhecido com um sol forte e brilhoso. Uma leve brisa refrescante invadia a grande casa e quando se tornava mais forte, podia uivar nas suas esquinas. Chegavam a até o homem já acordado e acariciavam seu tronco forte, o arrepiando brevemente. Ele acabava de sair do banho e se preparava para o longo dia de turno integral. Era o que vinha fazendo ao longo de todo aquele tempo, depois que tudo aconteceu. Bruce resolveu focar toda sua atenção em seu trabalho para tentar seguir em frente, e isso estava funcionando muito bem.

Desde que fez uma reforma em casa, retirando tudo o que fazia lembrar a alguém que jamais voltaria, ele resolveu assinar o turno integral. Já havia feito-o antes e não era mais necessário, mas Bruce achava que seria melhor. Quanto menos tempo passasse dentro de casa, menos ele se lembraria de tudo o que aconteceu.

Às vezes, chegou a se sentir culpado por não querer mais lembrar de Margot e Pietro, mas sabia que era o melhor jeito. Sabia que era algo que ela iria querer. Seus pensamentos não a trariam de volta, pelo contrário, o levariam a ruína. E ele ainda tinha toda uma vida para viver enquanto fosse possível. Não desistiria de viver e sabia que Margot estaria feliz por ele, onde quer que estivesse.

No começo, foi um pouco difícil manter a concentração. Ele estava sempre se desligando e pensando muito sobre tudo. Aos poucos, o ritmo foi reaparecendo e sua preocupação começou a ser somente a criminalidade de sua cidade. Não tardou e seu título de respeito voltou a fazer efeito. Não que ele realmente se orgulhasse, mas tinha consciência que havia o conquistado com honestidade e trabalho duro, então não tinha problema em gostar dele.

Seus parceiros de trabalho também não o deixaram na mão. Estavam sempre por perto, chamando-o para sair e beber algo. Por mais hesitante que parecesse, Bruce acabava aceitando e não se arrependia. Conseguia distrair a mente e se divertir. Até mesmo quando o assunto girava em torno de casamento, ele conseguia desenvolver respostas engraçadas. Também notou que recebia olhares de diversas mulheres nos bares, mas apenas sorria de volta a elas. Tempos atrás, ele saberia exatamente o que fazer. Talvez ainda soubesse, só não tinha certeza se queria. Sabia que o máximo que poderia fazer era dar uma noite de prazer a elas e depois, tudo se acabaria. E ele não queria isso.

Depois que vestiu a regata cinza e a calça azul escura, ele seguiu até o quarto e recolheu a jaqueta, vestindo-a. Sentou-se sobre a cama e calçou as botinas de combate, amarrando-as bem firmes. Então, coçou a barba aparada e passou os dedos sobre os cabelos.

Recolheu as chaves da casa e do carro, mas antes de sair pegou uma maçã verde, como sempre fazia. Poderia ter tomado um café mais reforçado, mas preferiu esperar até chegar ao trabalho, sabia que teria algo melhor para comer do que o que tinha em casa. Logo, trancou tudo e se ajeitou no carro, já sem bagunça no banco traseiro. Deu partida, dirigindo enquanto comia a maçã.

Gostava de sair um pouco mais cedo de casa para não ter que enfrentar o trânsito de pico. E ainda assim, conseguia se irritar com os outros motoristas. Era preciso, às vezes, abaixar o vidro e berrar alguns palavrões com eles, mas era superável. Depois de se irritar, ele optava por cortar caminho e acabava chegando mais rápido e menos estressado.

Como sempre, repetia o mesmo ritual de deixar as chaves com o rapaz de baliza, mas dessa vez não ia direto para dentro da delegacia. Sacudia o pulso, ajeitando o relógio de ponteiro diante dos olhos e via as horas. Como ainda estava um pouco cedo para começar, ele seguia até a cantina, que ficava próxima ao estacionamento das viaturas.

De longe, ele já conseguia notar alguns conhecidos tomando café ali e conversando com a senhora que servia. Era uma mulher de idade simpática, baixinha e gorda. Os cabelos eram longas tranças brancas e ela estava sempre vestindo roupas coloridas. Ginger adorava a mulher e dizia sempre querer envelhecer daquele jeito. Às vezes, a velhinha trazia a neta para ajudá-la e a garota ficava toda eufórica com a presença de Bruce, o que era normal.

Bruce se aproximou, notando os cabelos chamativos de Ginger e mexendo neles de brincadeira. A mulher virou-se até ele com um sorriso e o recebeu com um abraço. Haviam se tornados bastante próximos e embora Ginger tivesse uma paixonite aguda nele, nunca tentou nada além da amizade. E ele era grato por isso.

— Está com cara de quem se irritou no trânsito. — ela comentou, tomando um gole do café.

— E tem como não se irritar nesse trânsito? — Maximoff respondeu fazendo uma careta.

Bruce riu, apoiando os braços no balcão e esperando o retorno da senhora.

— Sua garota está aí hoje, Rogers. — Ginger disse, dando uma risadinha. — Já me perguntou duas vezes sobre você.

— Já falou que ela é muito nova para mim? Espero que sim, odeio ter que fazer isso. Me sinto um velho.

Eles riram e a garota logo retornou. Chamava-se Mary e tinha longos cabelos loiros. Era magra e baixa. Seus olhos eram azuis e seu rosto cheio de sardas. Uma garota bonita, mas tinha apenas dezesseis anos.

Bruce notou o sorriso que ela lhe deu, e acenou com a cabeça. Ignorando os olhares dos parceiros e os dela, ele pediu suco de laranja e pão integral.

— Claro! O que você quiser. — Mary anuiu, sorrindo para ele.

Ginger segurou uma risada.

— Você devia dar uma chance pra ela, poxa... Levar ela para tomar um sorvete ou coisa parecida! — provocou, puxando a risada de Maximoff.

— Acho que eu mesmo me prendia por pedofilia. — ele meneou, começando a tomar o suco.

Enquanto davam risadas, eles tomaram o lanche fazendo comentários maldosos sobre quase tudo. Ginger era a que tinha a língua mais afiada. Estava sempre comentando tudo em um tom ácido e cortante. Bruce não achava ruim, gostava de escutar a risada escandalosa dela. Ou então, ver como o Maximoff se derretia ao olhar para ela.

Depois, adentraram para a delegacia e Bruce logo descobriu que não iria fazer nenhuma patrulha. Ginger o entregou relatório para revisar os arquivos de veículos apreendidos e o que poderiam fazer com eles, pois a garagem já estava lotada.

Acatando as ordens, Bruce foi até a sala de arquivamento e se afundou nos papéis por um bom tempo. Lendo sobre, ligando para seus respectivos donos e decidindo se os enviaria para um ferro velho ou leilão. Era uma tarefa demorada, até porque muito dos donos estavam presos por roubar os veículos ou usá-los sem carteira. Alguns sequer ele conseguia contatar, por isso ficava instantes a fio encarando os papéis antes de listar o veículo para outro estabelecimento.

Conforme o tempo foi passando, mesmo que devagar o suficiente para se tornar irritante, Bruce tornou a sentir fome. Estava quase deixando a papelada sobre a mesa para ir até a cantina, quando Ginger apareceu com frutas na mão e o ofereceu.

— Bem em tempo, estava quase abandonando isso aqui para ir comer! — suspirou aliviado, pegando a faca de serra da mão dela e começando a descascar a laranja.

Ginger atravessou a sala, indo até as gavetas de arquivos dos menores infratores que eram transferidos ao acampamento, e puxou gaveta por gaveta, recolhendo todos os arquivos nomeados que restavam.

— Trago boas notícias. — ela comentou, após ajeitar os arquivos em seus braços, deixando os nomes de alguns infratores em evidência. — Terrence foi exonerado! Acredito que seja culpa sua, mas...

Bruce franziu o cenho, apoiando a laranja sobre a mesa, antes mesmo de chupá-la.

— E o que isso quer dizer?

— Quer dizer que acabou a Fraternidade Maus Elementos! Martin já está negociando o fechamento do acampamento com as autoridades. Hoje estão trazendo os últimos membros. — explicou-o, afastando-se aos poucos até a porta. — Bem, alguns não tiveram as penas cumpridas, então tenho que cadastrá-los em serviços comunitários. De qualquer maneira, aproveite seu lanche! — disse e então, deixou-o a sós.

Bruce apoiou os cotovelos sobre a mesa, ignorando os papéis e até mesmo o lanche. Deveria se lembrar que o acampamento estava mesmo nos últimos dias, Terrence havia comentado isso com ele antes de partir.

Ele respirou fundo, sentindo um turbilhão de lembranças vindo em sua mente. Lembranças que ele queria deixar para trás, mas parecia impossível naquele momento. Não podia negar que muitas delas lhe trariam um sorriso besta nos lábios e que eram boas de recordar. Entretanto, ele preferia que continuassem, ao menos, omitidas em algum lugar dentro de si. Afinal, que utilidades elas teriam?

Tentando ficar a par daquelas lembranças e da notícia que Ginger lhe dera, ele resolveu focar de novo no serviço. Balançou o rosto de um lado para o outro e pegou tanto a laranja quanto as pastas, focando sua atenção nos arquivos.

Foi um tanto difícil manter a concentração, mas ele insistiu. Por mais que sua mente insistisse em se perguntar sobre alguém que Bruce não queria lembrar, ele forçou o suficiente até que atenção fosse total aos papéis. Sabia que era melhor assim. Ele havia conseguido fazer aquela proeza durante quatro semanas, conseguiria permanecer nela.

Enquanto chupava a laranja, seus olhos percorriam pelo arquivo de um carro antigo, procurando o dono. Havia mais de três possíveis telefones e ele precisou discar cada um deles. E nenhum deles concordou com o que foi dito. Por fim, ele ficou encarando a foto do veículo, que parecia um modelo antigo de corrida, decidindo se o entregaria ao ferro velho ou leilão. Acabou escolhendo pelo leilão, afinal era um carro antigo e sempre havia alguém que gostava de colecionar.

Os próximos da listas eram veículos mais modernos, alguns bem cuidados e outros em petição de miséria. Motos caindo aos pedaços, carros enferrujados, poucos caminhões sem carroceria. Bruce acabou se perguntando onde acharam tanto espaço para guardar aqueles carros.

Aos poucos, as fichas sobre sua mesa foi diminuindo e ele tinha conseguido duas grandes listas de veículos que iriam para o ferro velho e para leilão. Precisaria conseguir o número dos estabelecimentos e perguntar se estavam dispostos a receber a mercadoria. Certamente, estariam animados com aquilo, pois um dos grandes fornecedores era a própria delegacia, que acabava lucrando um pouco com o leilão dos mesmos.

Faltavam apenas três arquivos para que Bruce terminasse. Finalmente poderia sair daquela sala e tomar um ar fresco que não tivesse cheiro de papel antigo e traças. Porém, logo no antepenúltimo, ele percebeu uma irregularidade.

Não havia nenhuma informação, exceto o local onde o carro foi encontrado. Não tinha nem mesmo a foto e o número de placa registrado. Bruce encarou aquele arquivo nulo por alguns instantes, se perguntando o que deveria fazer com ele. Então, acabou decidindo ir perguntar a Ginger, que estava mais acostumada a lidar com aquilo do que ele.

Saiu da sala com a pasta em mãos, olhando em volta à procura da mulher ruiva. Observou que o movimento naquele dia estava bem eufórico e imaginou que se tratava pelo fim do acampamento. Mexeu com alguns outros policiais e seguiu até a porta da recepção, que era o local de operação frequente de Ginger. Entretanto, quando estava prestes a abri-la, ele enxergou alguém conhecido, através do basculante na parte superior da porta, que fez seu coração acelerar.

Bruce comprimiu os lábios, notando o rapaz conversando com Ginger perto do balcão. Estava acompanhado de uma mulher alta e loira, que carregava uma menina no colo. Apesar de estar com uma barba aparente nas maxilas, Bruce teve certeza que se tratava de Oliver.

Ele apertou a maçaneta, mas se recusou a girá-la. Seu coração estava acelerado e seu olhar vidrado no rapaz. Havia toda uma euforia queimando em seu peito. Tanto por estar feliz de vê-lo livre quanto por nervosismo de reencontrá-lo. Havia passado quatro semanas e Bruce jurou que qualquer sensação que tivera para com o Oliver, havia sido superada. Entretanto, ao vê-lo novamente, toda a euforia, todo o sentimento, retornou com toda força. Teve até mesmo vontade de ir até ele e perguntar como estava. De dizer qualquer coisa, mesmo que só para ouvir a voz dele, mas ao se lembrar dos seus últimos momentos ao lado dele, acabou desistindo. Era o melhor que podia fazer.

De repente, ele pareceu notar os olhos que lhe vigiavam e olhou em direção a porta, obrigando Bruce a se desviar do vidro como um covarde. Não tinha coragem de encará-lo, não depois de tudo o que aconteceu entre eles.

Mesmo se praguejando mentalmente pela covardia, Bruce percebeu que havia visto uma mancha diferente no lado direito do rosto dele. De forma discreta, voltou ao vidro e observou a mancha. Parecia um hematoma antigo, que já estava se curando. Cobria desde a maçã da bochecha até perto da sobrancelha. Bruce abaixou a cabeça, chateado. Ver Oliver machucado, lhe machucava. Saber que não pode protegê-lo mais, o fazia se sentir culpado.

Oliver olhou para a porta mais uma vez, tendo a sensação de alguém o observava, mas quando a olhava, apenas encontrava seu reflexo distante. Ignorando aquilo, ele voltou a observar Ginger conversar com a mulher loira ao seu lado. Sua irmã materna, Lisa Vincent, que também herdou o sobrenome da mãe. Estava o esperando desde cedo para buscá-lo. Era mais alta que Oliver, embora menos parruda. Tinha longos cachos louros como ouro. Um rosto afinado, lábios carnudos e olhos mais verdes que os do irmão. Apesar disso, eram bem parecidos. Trazia nos braços, uma garotinha quase idêntica a si mesma. Sua filha de quatro anos, chamada Lea.

Estava atualizando o novo endereço de Oliver, pois desde que descobrira que ele havia sido preso, Lisa decidiu que o buscaria para morar com ela, para poupá-lo dos maus tratos do pai. Oliver ficou agradecido quando recebeu a notícia, assim que chegou a frente da delegacia. Não queria ter de voltar para a casa do pai e sabia que não seria bem-vindo.

Ele observou a sobrinha no colo de sua irmã, era uma ideia nova. Ela lhe olhava de volta e dava sorrisos fofos, apesar das janelas dos dentes de leite. Apesar do pouco contato que tiveram, Lea estava super simpática com Oliver, que não podia negar sua fofura. Aproveitou e aproximou-se dela, apertando sua bochecha. Quando ela tentou fazer o mesmo, ele se afastou delicadamente, com receio dela apertar o hematoma que ainda doía um pouco.

Havia apanhado de Luke, duas semanas atrás. Envolveram-se numa discussão por conta dos quartos do dormitório e acabaram brigando. Como daquela vez não havia Bruce para lhe ajudar, Oliver se defendeu como pôde. E por mais que tenha o ferido o suficiente, recebeu o troco em dobro, resultando num rosto todo marcado.

Ginger chamou sua atenção, estendendo um pacote com seu antigo celular dentro e em seguida, um papel e caneta para assinar.

— Pelo visto, seu aniversário foi essa semana, não foi? — ela indagou, depois de ler a data no arquivo dele. Oliver anuiu, curvando-se para assinar. — Belo presente então, não acha?

Ele deu de ombros, sem falar nada. Ginger indicou onde ele teria de assinar e o observou em silêncio. Quando terminou, ela o entregou os papéis com as datas e horários dos serviços comunitários que deveria cumprir.

— Sinto muito, mas você ainda precisa terminar de cumprir sua pena. — ela disse ao ver a careta que ele fizera ao receber os papéis.

— Pode deixar, ele vai cumprir direito! — Lisa respondeu por ele, pegando as folhas da mão dele e entregando a filha em seus braços, para que pudesse guardar os documentos de volta na bolsa.

Ginger ajeitou os arquivos dele dentro da pasta e escutou a irmã dele se despedir, então se voltou a Oliver.

— Rogers está lá dentro! — comentou, lembrando da proximidade que os dois criaram dentro do acampamento. — Quer vê-lo? Posso chamá-lo...

Oliver passou o olhar da irmã para Ginger, um tanto quanto sem jeito. Piscou algumas vezes, sentindo o nervosismo fazer suas mãos suarem. Como um raio, as lembranças dos últimos diálogos invadiram sua mente e tornaram a magoar seu coração.

— Não! Não quero vê-lo. — respondeu depressa e quando notou o estranhamento dela, tentou amenizar a resposta dura. — Quer dizer, não quero atrapalhá-lo no serviço.

— Bem, você que sabe! — se conformou, abrindo um sorriso somente com os lábios. Então, estendeu a mão até ele. — Feliz aniversário atrasado! E, cuide bem da sua liberdade, espero não ter ver por aqui de novo!

Oliver sorriu ansioso, devolvendo o aperto e agradecendo.

Ginger o viu se afastar junto da irmã e suspirou, voltando a olhar para o arquivo dele. Se recordou de como Bruce parecia também estar evitando aquele assunto e estranhou brevemente. Dando de ombros, ela se levantou, recolhendo a papelada. Apoiou a pasta embaixo do braço e se deslocou, na intenção de arquivar aquilo, pois quando a pena de Oliver terminasse de vez, ele teria de voltar para assinar. Deslocou-se até a porta e quando a abriu, deu de encontro com Bruce escorado, o que lhe causou um susto.

— Desculpe, eu não queria te assustar! — lamentou-se, ajudando-a se recompor.

Ginger tomou ar e levou uma das mãos a testa, respirando mais aliviada.

— O que diabos você... – queixou-se, respirando profundamente. De repente, como se sua ficha tivesse caído, ela olhou de Bruce para a porta. Então, apontou o dedo a ele de maneira acusadora. — Estava espiando através do vidro?

— Que? Não! Por que eu faria isso? — meneou nervoso, entregando-a os papéis que deixou cair.

Ela riu, olhando-o.

— Droga, Rogers! Estava espiando o Oliver?

— Não, Ginger! Não estava! Estava indo ter perguntar o que diabos eu faço com o arquivo nulo de um carro sem placa apreendido! — mentiu, estendendo o arquivo para ela. — Foi só uma coincidência. Eu nem sabia que ele estava aí.

Ela arqueou uma sobrancelha de modo sugestivo, observando a pasta que ele lhe entregou.

— Bem, foi o aniversário dele esses dias. – comentou persuasiva.

— Ah, é? Parabéns para ele. — Bruce deu de ombros, indiferente.

Ginger o olhou brevemente, franzindo o cenho. Devolveu-lhe o arquivo, indicando-o para mandar ao ferro velho.

— Parecia estar abandonado quando foi apreendido! Pode enviar para lá, não fez falta a ninguém até agora!

— Tudo bem.

Bruce anuiu com a cabeça e deu as costas para Ginger, mas antes que ele pudesse se afastar, ela o chamou de novo:

— Rogers!

Ele retornou, arqueando as sobrancelhas ao vê-la retirar um papel de dentro da pasta e lhe estender.

— Aqui tem o número e o endereço do seu Cherry Bomb, caso você mude de ideia e queira dar os parabéns de modo decente... — ela riu sarcástica e se afastou.

Bruce revirou os olhos, mas acabou dobrando o papel e colocando-o dentro do bolso da calça.

Oliver olhou através da janela do carro, observando a rua correr a seu redor, fazendo-o ter a sensação de que ele estava parado e o mundo ao redor correr. Talvez ele desejasse que fosse mais do que apenas sensação.

No momento, estava dentro do carro do marido de sua irmã, indo em direção sua antiga casa para buscar suas coisas. Lisa dirigia o carro do marido, que se chamava George, mas Oliver ainda não tivera a chance de conhecê-lo. Sentava-se no banco do carona, escutando-a tagarelar e brigar com Lea, no banco traseiro, para que parasse quieta ou acabaria se machucando.

Lisa era a filha mais velha, com vinte anos, de sua falecida mãe e do seu primeiro casamento. Ao contrário de Oliver, ela cresceu em um lar feliz, com um pai decente, que não a maltratava. Não cresceu ao lado dela e desde que sua mãe faleceu, nunca mais a viu. Sequer pode imaginar que ela estaria casada e com uma filha. Ela o pediu desculpas por nunca mais aparecer, mas Oliver não se sentiu chateado, ela não tinha obrigação nenhuma de protegê-lo. Lisa também o contou que assim que descobriu que ele havia sido preso, correu atrás do tempo perdido e quando foi notificada dos abusos que ele sofria nas mãos do pai, decidiu que o acolheria em sua casa. Pois jamais se perdoaria caso deixasse seu irmão continuar sofrendo nas mãos de um canalha bêbado.

Era tudo extremamente controverso. Tanto pelo fato de estar seguindo em frente quanto por estar também voltando atrás. Estava deixando toda uma história dolorosa para trás ao se mudar de casa e família, mas ainda assim, era necessário que ele retornasse. Não só apenas para pegar suas coisas, até porque elas poderiam ser substituídas, mas porque precisava dizer algumas coisas a seu pai. Precisava dizer coisas das quais queria se convencer. Dizer que seguiria frente, que arrumaria um emprego e seria alguém de quem se orgulharia em ser. Porém, dizer aquilo era fácil. Ele disse o mesmo anos atrás. O problema era acreditar em tudo o que foi dito.

Além de todo aquele nervosismo, havia muita coisa em que Oliver queria pensar, mas estava sufocado com toda a situação. Era tudo novo e ele não sabia lidar. Ele precisava de um tempo para por tudo no lugar, pensar nas coisas e idealizar suas futuras ações. Entretanto, sua atenção era requerida de minuto a minuto. Às vezes, ele sequer conseguia formular uma resposta e já tinha que responder outra. Sua irmã insistia em sugerir uma festinha de aniversário atrasada enquanto Lea queria lhe contar sobre suas festas antigas, e ele tendo que negar tudo aquilo, pois não queria comemorar nada, não tinha o que comemorar. Oliver sentia sua mente funcionar na máxima potência para absorver tudo aquilo. E por mais que fosse um pouco incomodo, o fazia perceber que estava mesmo em uma família. E famílias funcionavam daquela maneira. Perguntas e comentários invés de agressões e humilhações. E mesmo que ele demorasse a se acostumar, ele se sentiu acolhido.

Quando o carro parou, Oliver respirou fundo. Estavam na rua de sua antiga casa. Era um bairro quase industrial, com poucas casas ao redor. A de seu pai ficava no fim da rua e era, de todas, a mais decadente. Oliver se lembrava de que quando era pequeno, ela era linda. Tinha toda uma entrada detalhada em madeira e um curto jardim na frente. Entretanto, olhando pela janela do carro, ele percebeu que nem mesmo o jardim permaneceu belo.

— Quer que eu entre com você? — Lisa perguntou de repente, ao vê-lo encarar a casa pela janela.

Ele sacudiu a cabeça, virando-se para ela.

— Não... Eu preciso fazer isso sozinho... — respondeu, então saiu do carro.

Escutou-a falar algo sobre manobrar, apenas assentiu e seguiu adiante, ficando de frente a entrada.

Era como estar voltando ao abatedouro e Oliver sabia o que o esperava lá dentro. Não seria um Terrence, lhe ditando regras e abusando da autoridade. Não seria Luke. Nem mesmo Maxwell. Seria a parte mais dolorida de sua vida, que ele precisava deixar para trás. Ele precisava dizer adeus àquela parte.

Ele caminhou diante da porta, lembrando-se de tudo o que vivenciou dentro daquela casa. Quando olhava para a janela repleta de jornal, ele conseguia rever as lutas que travava com seu pai, na intenção de se defender. Era capaz de escutar seus próprios gritos e prantos. Podia sentir, mais uma vez, a carne arder pelas agressões. Foi preciso tomar ar para conseguir seguir em frente.

Bateu as juntas dos dedos na porta rachada e esperou. Cada segundo parecia uma eternidade. E essa eternidade o deixava ainda mais ansioso. Sabia que encontraria seu pai, provavelmente alcoolizado, mas não sabia mais o que poderia esperar dele. Aos poucos, ele conseguiu escutar os passos arrastados se aproximando. Seu coração se acelerou e suas mãos suaram. Por um segundo, se lembrou do nervosismo que sentia em relação a Bruce. E sentiu falta.

A porta foi aberta, revelando um homem branco, alto e gordo. A cabeça raspada e um bigode negro e espesso sobre os lábios rígidos. Os olhos escuros e invasivos. O nariz grosseiro. E o cheiro de álcool.

— Ah, é você... — ele resmungou com a voz rouca e grossa. — Não esperava ter que aturar você nem tão cedo!

Oliver respirou fundo, tomando coragem para olhá-lo nos olhos.

— E não vai precisar, Jeffrey! Eu só vim buscar minhas coisas, estou indo embora! — anunciou, sentindo o coração palpitar ainda mais rápido.

Jeffrey deu uma risada gloriosa, assustando o rapaz.

— Essa é a melhor notícia que já recebi na vida, claro, depois de saber que você foi preso!

— Pode ter certeza que é a minha também!

Ele avançou para dentro de casa, ignorando o pai, que o seguia pela casa um pouco cambaleante. A presença dele era como uma entidade em um filme de terror. Quanto menos precisasse aturá-lo, melhor seria.

Atravessou a sala, observando a bagunça. Estava repleta de garrafas de cerveja e jornais velhos. Os estofados estavam rasgados e manchados. Os poucos móveis que restavam, estavam cobertos de poeiras e quebrados. Oliver meneou ao encarar a decadência de seu pai.

Deslocou-se pelo corredor, notando as paredes amadeiradas rachadas. O chão estava imundo com um misto de poeira e respingos de cerveja. Ele precisava ter cuidado com os cacos de vidros, apesar de estar usando as botinas do acampamento.

Quando chegou a seu quarto, sentiu dificuldade em respirar. Era pequeno como um armário de depósito. Só cabia uma cama e uma cômoda. De sua cama, só restava o esqueleto, todo arruinado. Suas roupas estavam todas jogadas pelo chão, boa parte estava imunda como todo o resto da casa. A cômoda só tinha algumas gavetas, com outras roupas jogadas e sua antiga mochila de escola.

Não tinha nenhuma boa memória daquele quarto, não que se lembrasse. Talvez quando sua mãe ainda fosse viva e sua vida ainda fosse decente, mas tudo o que conseguia lembrar era de ter que se desviar das garrafas que Jeffrey arremessava. Ou de quando escalava a cama e a cômoda, na tentativa de fugir das cintadas dele.

Oliver comprimiu os lábios e adentrou, seguindo até a mochila antiga, encardida de poeira. Bateu sua palma contra a bolsa, livrando-a da maior parte da sujeira. Então, começou a recolher as roupas pelo quarto, imaginando que teria de lavá-las para poder usar.

Seus ouvidos captaram o barulho do chinelo de seu pai pisando sobre os cacos de vidro e suspirou tanto de impaciência quanto de medo. O homem se escorou na porta, observando o filho e notando o hematoma no rosto dele. Então, sua risada escarnecedora ecoou pela casa.

— Eles te surraram bastante, foi? — provocou, cruzando os braços por cima da barriga redonda.

O garoto não respondeu, apenas permaneceu analisando quais roupas ainda eram cabíveis de uso.

— Deve ter virado a putinha deles, não foi? É isso que acontece com viado nesses lugares, já que não tem boceta. Policial come. Bandido come. — Jeffrey continuou, exibindo um sorriso escroto embaixo do bigode. — Uma pena isso não te fazer homem e sim, mais viado. Viado sujo. Viado usado.

Oliver parou o que estava fazendo e ergueu o corpo. Direcionou seu olhar sério a sua figura paterna e se aproximou dele, aos poucos. Teve a decência de manter a cabeça erguida, olhando-o nos olhos.

— Eu sou homem. Eu sempre fui. O fato de eu beijar outro homem, não me faz menos. Inclusive, tem que ser muito macho para isso. — respondeu, causando uma risada sarcástica em Jeffrey. Oliver ignorou e aproximou-se mais ainda. — E eu sou muito mais homem do você jamais vai ser. Sabe por quê? Porque eu não tenho vergonha de ser quem eu sou. Eu posso apanhar por isso. Posso ser humilhado por isso. Mas eu tenho a decência de manter a cabeça erguida e não tenho vergonha de mostrar hematomas que pessoas como você me fizeram. Porque, na verdade, quem deveria ter vergonha de agredir o próprio filho a ponto de ele preferir ir preso, é você, Jeffrey. Não eu.

Jeffrey o encarou sério, absorvendo todas aquelas palavras. Oliver teve a cautela de se afastar alguns passos quando notou a raiva em seu olhar. Ele odiava ser contestado, sabia disso. E sabia o que acontecia quando o fazia. Entretanto, tudo o que recebeu foi uma risada ainda mais escandalosa e irônica.

— Discurso motivacional, então? Alguém falou isso para você e agora, você acredita nessa baboseira? — perguntou, coçando o bigode enquanto continuava a rir.

Oliver se lembrou de Bruce. Lembrou de todas suas palavras, de todos os seus sorrisos.

— Sim, alguém me disse isso. Alguém que eu confio. — respondeu e tornou a pegar suas coisas.

Sequer havia terminado de recolher as peças quando decidiu sair daquele lugar. Não aguentaria mais dividir o mesmo lugar com Jeffrey, ou seria capaz de causar o pior. Tudo o que conseguia sentir olhando para ele era nojo e repulsa e tinha medo que isso o fizesse cometer alguma loucura. A última coisa que Oliver queria, era ser preso novamente.

Notas finais
Vocês acharam que ia demorar pra um reencontrar o outro, né? Caíram no conto do vigário! KKK Entretanto, há um "porém" aí! O Bruce ter visto o Oliver, não significa muita coisa, afinal, se perceberam, o Oliver não parece afim de vê-lo e ele parece não ter coragem de corrigir o prejuízo. Enfim, resolvi mostrar um pouco da vida antiga do Oliver e mostrar um pouquinho do que ele sofreu. Anyway, agora temos pontos em abertos na trama e como vocês acham que eles serão fechados, huh? Logo, logo trarei a continuação ♥ Espero que tenham gostado. ♥