Bad Reputation
3 Chapter 3
Notas iniciais
Um bocejo sonoro escapou dos lábios de Bruce assim que ele entrou no gabinete de Terrence. Era a primeira que entrava lá desde sua chegada. Não era tão grande quanto as outras casas do acampamento, mas cabia o escritório, que ficava logo na entrada, e o quarto de Terrence, atrás da porta nos fundos. Tinha uma mesa no escritório, repleto de papéis e um telefone fixo de um modelo antigo. Bruce estava ali, sozinho, esperando a ilustre presença de Terrence.
Seu corpo reclamava vagamente de sono, pois tinha dormido tarde pelo turno de vigia. Terrence pediu para lhe chamar logo mesmo antes de amanhecer para conversar no gabinete, o que Bruce achou estranho. Antes de ir, passou no refeitório para procurar algo para comer e achando somente uvas, pegou quase o cacho inteiro.
Estava comendo as frutinhas enquanto passava o olhar pelo ambiente, reparando na bagunça que Terrence causava nos arquivos dos detentos e em relatórios de conduta que precisava mandar toda semana para a delegacia. Não tardou e o general saiu da porta nos fundos, vestindo a farda enquanto Bruce estava apenas de blusa cinza com as mangas curtas, uma calça escura com um moletom amarrado na cintura e botinas.
— Me chamou? — perguntou depois de engolir a uva e cuspir o caroço na lata de lixo próxima a mesa.
— Sim, precisamos conversar sobre seu Cherry Bomb. — Terrence respondeu, sentando-se na cadeira grande e indicando a menor para Bruce, que assentiu. — Não estou gostando dessa liberdade que você está dando para aquele moleque!
Bruce coçou a barba que estava crescendo e precisava ser aparada. Então, deu de ombros, sem entender.
— Que liberdade?
— Essa brincadeirinha de ficar provocando junto com o Oliver. Está dando muito espaço para ele com essas palhaçadas! Ele não vai ter respeito por ninguém daqui a pouco! — explicou tentando parecer calmo, mas Bruce conseguiu notar a irritação dele.
— Não vejo qual o problema nisso! Eu sei lidar com a situação se ele passar dos limites e...
Terrence bufou de nervoso, o interrompendo.
— O problema não é você saber lidar com a situação, Rogers! O problema é você dando liberdade para o Oliver se divertir quando deveria estar sendo punido vai acabar influenciando os outros e isso vai virar uma anarquia!
— Influenciar? Terrence, se tivesse influenciado, todos eles estavam reproduzindo e não só o Oliver. — discordou, mexendo-se na cadeira.
— A diferença é que o Oliver é o único que tem culhão para mexer com você, mas acha que eu já não vi os outros provocando e implicando com o Roy? — ele curvou-se na mesa, encarando Bruce sem parar.
Bruce arqueou os ombros e deu um riso descontraído.
— Todo mundo provoca o Roy! Até você!
Terrence esfregou as têmporas.
— Olha, de verdade, você sabe que eu sempre lidei com todo mundo assim e...
— Rogers, chega! — urrou, o cortando. — A partir de hoje eu não quero mais ver essas brincadeiras! Isso aqui não é um acampamento de férias ou treinamento de escoteiro para você dar essa intimidade! Estamos lidando com pequenas mentes criminosas e eu não vou tolerar essas coisas, estamos entendidos?
Bruce ergueu-se da cadeira e desamarrou o casaco da cintura, pronto para vesti-lo.
— Como quiser, senhor. Não é algo que eu realmente me importe. — depositou o cacho de uvas vazio no lixo e virou para sair.
— Rogers!
Ele retornou, olhando para Terrence.
— Hoje eu cuido do moleque!
— Como quiser. Agora, se me dá licença, tenho revista para fazer...
Bruce abriu a porta e com uma força moderada, a fechou. Roy o esperava do lado de fora, vestido de moletom negro da cabeça aos pés. Ao sentir o vento gelado da manhã, Bruce não relutou em vestir o moletom cinza.
— Não parece muito contente. — Roy reparou, enquanto andavam juntos em direção aos dormitórios.
— Pelo visto, nós também somos prisioneiros disso aqui. — meneou e depois se desviou de Roy.
Bruce achava desnecessário ter que lidar com os garotos o tempo todo como um ditador militar. Acabava por concordar com Margot ao se lembrar de quando ela dizia que aquele modo não era eficiente. Entretanto, ele também se lembrava que era um soldado que precisava cumprir ordens.
Não podia negar que estava gostando de arrumar uma distração junto de Oliver. Era como se fosse um alívio cômico ter alguém para brincar daquela maneira. Sem contar que Oliver era o único que teve a audácia de procurar criar algum tipo de intimidade com ele. Todos os outros, assim como os oficiais, tinham um respeito que os impediam de se dirigir a Bruce com mais intimidade e era cansativo, afinal ali eles não eram inimigos. Bruce não era feito de severidade, estava sempre aberto a brincadeiras, pois desse jeito era mais fácil. Oliver estava a ponto de se tornar a única coisa que faria daquele lugar interessante e Terrence acabou por cortar isso.
O sinal de despertador tocou ensurdecedor e segundos mais tarde, começaram a aparecer jovens vestidos com moletons quentes. Roy e Bruce se adiantaram para revistar suas roupas, um rapaz de cada vez. Os obrigavam a abrir as pernas e os braços, podendo então apalpar seus corpos a procura de qualquer coisas que eles pudessem usar como arma, fosse uns contra os outros ou contra os oficiais. Como eram apenas dezesseis jovens, a revista acabou em um segundo. Depois, eles foram levados até a porta do refeitório para tomar café da manhã.
Terrence espreitou na porta, observando cada rapaz que se aproximava. Uma fila estendia-se a sua frente e ele tinha de entregar duas bananas e um copo de leite a cada um dos rapazes. Roy e Bruce cercaram a fila, em total silêncio.
Oliver ainda estava sonolento, seu rosto estava inchado e seus olhos quase não se mantinham abertos. Percebeu Bruce passando ao seu lado, mas estava com tanto sono e preguiça que preferiu ignorar e não falar nada. Quando chegou sua vez de pegar o lanche, recebeu uma leve chacoalhada de Terrence para acordar.
Depois que os rapazes se alimentaram, foi a vez de fazer os exercícios matinais para aquecer o corpo e acordar de vez. Fizeram quatro fileiras de quatro pessoas e começaram a se alongar aos poucos, enquanto escutavam as ordens de Terrence. Bruce reparou que Oliver estava hesitando nos movimentos e sem que o general percebesse, foi até ele e o empurrou para se sentar e fazer os abdominais. Escutou-o reclamar e abrir a boca em um grande bocejo.
— Vocês estão preparados para mais um dia? — Terrence perguntou alto, parecendo o general de um quartel. Os rapazes responderam sem ânimo, mas em tom alto. — Lembrem-se, quanto mais trabalharem duro aqui, menos tempo terão de ficar aqui! Quanto mais relutarem, mais nós forçaremos e vocês não vão ter vitória nisso!
Roy e Bruce passavam por entre as fileiras, como se vigiassem os rapazes. Oliver seguiu o corpo de Bruce com o olhar, sem prestar atenção no que Terrence dizia. Quando recebeu a atenção do oficial, sustentou o olhar por mais um tempo e desviou. Bruce suspirou, ficando grato por Oliver não arrumar nenhuma provocação.
— Acredito que vocês tenham percebido que quase não usamos luz elétrica e por isso, dependemos de lenhas, mas... Nossas lenhas estão acabando! Então, se vocês forem até o fundo, vão encontrar uma pilha de tocos que precisam ser cortados. E essa é a tarefa matinal de vocês hoje! — Terrence anunciou com um sorriso nos lábios.
Ninguém ousou a contestar aquilo, então foram buscar os machados necessários na casa de ferramentas. Roy ficou responsável da distribuição do material e Bruce de separar as pilhas de troncos de forma justa.
Oliver pegou o machado entre as mãos e olhou a lâmina quase enferrujada. Franziu o cenho, perguntando se aquilo cortaria alguma coisa ou se era apenas transmissor de tétano. Olhou para Bruce por perto e quando decidiu fazer a mesma pergunta de sua cabeça, ele se afastou e Terrence veio em sua direção. Revirando os olhos, Oliver seguiu até sua pilha e descobriu que teria de fazer mais força que gostaria.
Precisava acertar o machado mais de três vezes no mesmo lugar para conseguir apenas rachar a madeira, então precisava bater mais vezes e acabar ficando com a lâmina presa na fresta. Irritado, ele apoiava o pé no toco agarrado ao machado e o chutava inúmeras vezes, até conseguir quebrá-lo. Muitas vezes, o toco apenas soltava e continuava inteiro, apenas com a rachadura.
A sua volta, todos pareciam estar executando a tarefa com tranquilidade, exceto ele que, além estar aborrecido com a falta de prática, era o centro das atenções e de risadas. Enquanto a pilha de todos os outros estavam começando a crescer, a dele ainda estava no sexto pedaço.
Ergueu o machado acima da cabeça, o mais alto que pode. Respirou fundo e desceu a lâmina com toda força que podia sobre a madeira, que não quebrou. Porém, o machado teve a lâmina quase toda enterrada na madeira.
— Filho da puta! — xingou irritado, chutando novamente o toco.
Bruce piscava inúmeras vezes, tentando entender o que ele estava fazendo. As tentativas falhas dele, tanto de cortar a lenha quanto tirá-las do machado, estavam lhe dando agonia. Por isso, foi até ele ignorando se Terrence falaria alguma coisa. Tomou o machado das mãos dele, agarrou a madeira com uma das mãos e o cabo do machado com a outra, então fez um pouco de força e os separou de uma vez. Não satisfeito, agarrou cada beirada da fresta e com mais uma bocado de força, conseguiu terminar de partir a lenha apenas com as mãos, então devolveu o machado a Oliver, que fingiu um sorriso grato e revirou os olhos.
— Ui, exibido! Está tentando me impressionar? — provocou, mas não obteve resposta.
Depois disso, além de continuar passando vergonha com o machado, Oliver teve de aturar a presença de Terrence, o rondando como um urubu ronda uma carniça. Oliver o olhou diretamente inúmeras vezes, demonstrando a agonia que estava sentindo de ser vigiado. Sabia que ele estava fazendo aquilo para tentar evitar seu contato com Bruce. Entretanto, Oliver era teimoso e não iria abaixar a cabeça por qualquer birra.
Apoiou o machado em toco maior e passou o olhar de Terrence para Bruce.
— Oh, Bruce, tem alguém aqui com ciumes seus! — falou alto, indicando Terrence com as sobrancelhas. Bruce suspirou, lamentando o fato dele ter insistido nas provocações.
Subitamente, seu rosto foi segurado com força por Terrence. Suas bochechas ficaram amassadas, formando um bico retorcido em seus lábios. Todos pararam o que estavam fazendo, surpresos com a atitude de Terrence. Bruce travou o maxilar de tensão, observando a cena.
— Ou você cala essa porra dessa boca e esquece de vez da existência do Rogers, ou eu vou te obrigar a isso na base do espancamento! É melhor você começar a engolir essas provocações escrotas e brincadeiras de mau gosto, se não vou ser obrigado a te encher de murro! Para de agir feito uma putinha para cima de um homem casado e futuro pai, ou eu vou acertar sua cabeça como um sino! — vociferou a ameaça no rosto dele. Oliver o encarava com olhos estatelados, sem coragem de piscar ou respirar. Terrence empurrou seu rosto para trás, quase o derrubando sobre a pilha de madeiras.
Bruce sentiu a respiração ofegar diante daquela atitude brutal, ainda mais ao reparar no quão pálido Oliver ficou. Ao redor, todos assistiam receosos, trocando olhares aterrorizados.
— Você me entendeu ou vou precisar usar mais força? — urrou e o viu anuir. — Fica de pé e me responde direito, moleque! Eu quero escutar o "Sim, senhor" nessa sua voz cínica!
Oliver levantou-se depressa e por mais que tremesse, tomou ar para responder.
— Sim, senhor!
Terrence tornou a se aproximar, fazendo-o tremer. As bochechas dele começavam a tomar um tom arroxeado pela força recebida no apertão.
— Dá próxima vez eu pego nesse seu pescoço e não largo até ver você apagado! Agora, termine esse seu trabalho porco igual a você!
— Sim, senhor! — Oliver anuiu com os lábios trêmulos e deu as costas, tornando a pegar o machado.
O general rugiu para que todos voltarem ao trabalho e continuou perto de Oliver, observando-o trabalhar. Bruce abaixou o rosto, respirando fundo. Sabia do que Terrence era capaz, embora não concordasse com aquilo.
Quando finalmente terminaram de cortar lenha, ainda faltava um bom tempo para o almoço. Por isso, Terrence decidiu ordenar que eles capinassem o menor campo e semeassem, para começarem uma pequena lavoura. Eles concordaram com vigor. Oliver mantinha-se de cabeça baixa, apenas seguindo as ordens. Quando Bruce o viu passar, meneou levemente. Além de achar desnecessária a ameaça, ficou incomodado de ver o garoto daquele jeito. Era como se ele mesmo tivesse magoado Oliver. Sentia que estava querendo proteger mais ele do que deveria e não entendia muito bem o porquê. Em outras vezes acharia aquela atitude grosseira, mesmo que desnecessária, normal. Não era do costume de Bruce ter toda aquela empatia e proteção a alguém que não fosse sua esposa, principalmente se esse alguém era um menor infrator.
Oliver capinava o terreno junto dos outros rapazes e recebia olhares peculiares, conseguia sentir isso muito bem. Eram os mesmo olhares de quando apanhava na escola. Podia sentir cada um deles o julgando mentalmente, afinal era tudo o que sabiam fazer. Aquilo não o magoava tanto como antes, mas ainda feria. As palavras de Terrence zuniam em sua cabeça como se fosse um disco arranhado. Era como se estivesse de frente ao seu pai mais uma vez, escutando sua voz horrenda, rugindo palavras piores ainda. Aquilo lhe dava um calafrio agoniante no corpo, sem contar na dor que sentia em seu maxilar inferior. Terrence havia apertado seu rosto com força e a dor estava ali presente, para o fazer lembrar sempre do ocorrido.
Como o campo que semearam era pequeno, logo foram dispensados para almoçar. Oliver entregou a enxada para Roy e desviou seu caminho para o refeitório, nesse momento sentiu uma trombada em seu ombro que lhe desequilibrou. Quando ergueu o rosto para ver, percebeu se tratar de Luke. Sem dar muita importância, continuou seu caminho.
— Parece preocupado. É com o Cherry Bomb? — Roy perguntou ao se encaminhar junto de Bruce para irem almoçar.
— Não precisava daquilo. Terrence pega muito pesado, às vezes.
— Ah, isso é só seu instinto paterno, Rogers. É só um jovem delinquente tomando uma sova, isso é normal. — deu de ombros e Bruce anuiu vagamente.
Durante o almoço, pegou se lembrando de Margot. Se perguntava como ela estaria sozinha, se sua gestação estaria tranquila e se ainda continuava trabalhando. Queria poder tocar na barriga dela e sentir Pietro se mexendo sem parar. Precisava ser o melhor pai quando Pietro viesse ao mundo, justamente para que a vida dele não tomasse o mesmo rumo infeliz que a de Oliver e ele terminasse naquele acampamento, com Terrence gritando ameaças em seu rosto.
Pensou em pedir a Terrence uma breve ligação para sua casa, mas percebeu que não queria ter de lidar com ele. Não queria ter de escutar a voz dele e se lembrar de tudo o que disse a Oliver. Entretanto, precisava saber como sua esposa estava. Sentia falta de escutar a voz dela, contando como foi o dia, que casos tinha de defender ou acusar. Precisava escutar a voz dela, mesmo que fosse só para discutir. Sabia que era a única coisa capaz de o fazer esquecer de Terrence, Roy e Oliver. Principalmente, Oliver.
Depois do almoço, Terrence exigiu exercícios em duplas dos rapazes, pois precisavam aprender o valor do trabalho em equipe. Eles precisavam revezar um trajeto enquanto carregavam um pneu. Era um trajeto com alguns tocos de madeira e outros pneus de diversos tamanhos espalhados pelos chão, servindo de obstáculos. Precisam ir e voltar com um pneu de trator nas costas, então passar para a dupla e ela teria que fazer o mesmo. Não havia ganhador ou coisa tipo, mas os rapazes logo se empolgaram na competitividade.
Terrence separou as duplas, mas não ficou para assistir, precisava ligar para alguns lugares e fazer algumas coisas no gabinete. Deixou Bruce e Roy com a liderança e se afastou do lugar. Assim que todos estavam a seus postos, Bruce berrou, dando início.
Oliver estava de dupla com Luke, o que não lhe agradou. O rapaz lhe encarava como se tivesse repúdio e aquilo o incomodava. Contudo, como não estava com direito algum de reclamar de nada, apenas anuiu e deixou com que ele começasse a prova.
O problema começou na hora de passar o pneu para a dupla. Luke jogava o pneu de qualquer maneira em direção a Oliver, atrasando-o na prova. Às vezes, assim que Oliver colocava o step nas costas, Luke dava um jeito de derrubar. Aquilo estava o irritando, mas ele permaneceu como se nada estivesse acontecendo, até a hora que Luke colocou um pé na frente do seu, lhe fazendo tropeçar e cair.
— Porra, qual é o seu problema? — perguntou irritado, se levantado. — Não sabe o que significa trabalho em equipe, não?
— Claro que sei, mas é você que está atrapalhando! Está todo chateadinho aí porque não pode mais dar em cima do oficial igual uma putinha e fica descontando em quem não tem nada ver com isso!
Oliver franziu os lábios.
— Está com inveja porque eu sou o centro das atenções aqui e você é merda nenhuma? — retrucou, o encarando.
Ele se aproximou como um raio, segurando na camisa de Oliver.
— Vou ter inveja de um viadinho de merda? — ele riu de escárnio.
— Mas sou o viadinho de merda que tem coragem de bater de frente com os oficiais, enquanto você, o machão, só consegue obedecer as ordens!
Luke enfureceu-se e quando estava pronto para acertar o rosto de Oliver, a voz de Bruce soou feito um trovão.
— Que porra está acontecendo aqui? — trovejou e foi até eles os separando com força.
Nenhum dos dois respondeu, porém Luke olhou para o rosto de Oliver e escarrou no chão.
— Viadinho de merda!
Bruce o agarrou pela gola com força e o puxou para mais perto.
— Repete isso mais uma vez, machão!
Luke o encarou assustado, sem coragem para repetir. Então, Bruce o empurrou de encontro ao chão.
— Os dois vão limpar os banheiros como punição! — anunciou com a voz grossa, causando uma careta de nojo nos detentos, afinal o banheiro não estava nas melhores condições. — Roy, leve o Sr Machão para o banheiro dos detentos e Oliver... Você vai para o dos monitores!
Roy assentiu e empurrou Luke com cuidado até o banheiro. Oliver fez o mesmo, mas quando estava se desviando, sentiu Bruce segurar seu braço.
— Dá um tempo! Terrence não vai ficar tolerando suas picuinhas!
Sem responder, Oliver puxou o braço com força, se soltando de Bruce e indo finalmente para o banheiro.
Bruce apareceu em ambos banheiros logo depois para entregar os materiais e então voltou para os outros detentos, fazendo-os voltar para o exercício em dupla. Quando Terrence apareceu, teve de contar tudo e recebeu um elogio indesejado.
Oliver encarou o banheiro imundo e fez uma careta antes de começar. Aproveitou que o local não era tão grande e agilizou, fazendo o mais rápido que podia. Seu corpo reclamava um pouco pelo cansaço diário, mas ele conseguiu resistir e assim que terminou, foi dispensado por Roy para tomar banho.
Já estava anoitecendo, o que piorava a ducha. A água gelada caiu como uma enxurrada de agulha em seu corpo, fazendo-o querer gritar. Enfiou a cabeça embaixo daquela ducha e lavou os cabelos depressa. Quando começou a lavar o rosto percebeu que os pelos de sua barba estavam começando a crescer novamente. Não era muito de usar barba, mas não sabia o que usaria para depilar o rosto naquele lugar, então teria que aceitar os pelos até que arrumasse uma solução.
Chegou ao jantar um pouco atrasado, mas não tanto quanto Luke. Então, teve de comer depressa e adiantar-se para a próxima prova.
Quando Terrence anunciou que seria uma prova de resistência, Oliver quis chorar. Seu corpo estava dolorido pelo trabalho duro do dia inteiro e ainda tinha que lidar com algumas cãibras. No entanto, sem escolha, ele apenas fechou os olhos e respirou fundo, se preparando.
Precisavam segurar um tronco mediano de madeira sobre os ombros, com dois pneus de carro convencional pendurado em cada extremidade do tronco. Tudo isso enquanto escutavam o sermão de Terrence sobre voltar ou não para a cadeia.
Oliver escolheu ficar no fundo, onde estava mais escuro, assim Terrence não o marcaria e ficaria lhe rondando. Com muita dificuldade, conseguiu por o peso sobre os ombros cansados e apoiou os braços no tronco. Terrence nem havia começado a falar e Oliver já estava sentindo sua coluna reclamar do peso.
— Daqui a pouco, seus ombros vão começar a ficarem dormentes e suas colunas berrarem de dor. Quero que foquem nessa dor! — Terrence rugiu e logo viu algumas caretas de esforço mesclada com dor. — Sintam essa dor! Essa dor é a mesma que as pessoas que você assaltam, sentem! Essa dor é a mesma que seus pais sentem quando descobrem que seus filhos se tornaram menores infratores! Vocês gostam dessa dor?
Os garotos gritaram uma expressão negativa de modo agonizante.
— Então porque você as provocam nas pessoas? Minha vó já dizia "não fará com o outro aquilo que não quer que façam com você", mas pelo visto vocês não estavam pensando nisso quando cometeram seus crimes! Mas agora eu lhes pergunto: valeu a pena?
Enquanto os meninos continuavam a responder com dificuldades, Bruce e Roy caminhavam entre as fileiras, olhando para cada semblante sofredor.
— Vocês vão cometer outros crimes quando saírem daqui? — questionou alto, rondado as primeiras fileiras.
— Não, senhor! — responderam em uníssono, demonstrando a dor da prova nas vozes.
— Eu não ouvi direito... — mentiu, obrigando-os a gritarem ainda mais alto, o que era difícil e doloroso.
Bruce estava passando pela penúltima fileira quando notou Oliver com a postura torta, quase caindo. Sua feição entregava a dor bizarra que estava sentindo. Ele se deslocou da penúltima para última fileira e aproximou-se do rapaz por trás.
— Arruma essa postura! — ordenou, olhando-o encurvado para frente.
— Tão fácil mandar quando não é você que está com cãibra na perna... — retrucou com a voz embargada.
Bruce olhou para frente, vendo Terrence na primeira fileira fazendo seu discurso, então levou a mão até o tronco, segurando-o por baixo e erguendo, aliviando o peso sobre Oliver, que respirou aliviado.
— Alonga essa perna! Rápido!
Oliver alongou-a de todos os jeitos, até a dor parecer sumir e então, recebeu o peso do tronco novamente. Estava para agradecer Bruce, mas ele já havia se afastado.
Depois de quase três horas aguentando o peso de um tronco e dois pneus sobre os ombros e escutando os berros de Terrence, os rapazes foram liberados, mas sem antes serem escolhidos a dedo para o turno. Oliver quase quis chorar quando escutou aquilo, mas então foi liberado para ir descansar. Antes de se retirar, virou-se para Bruce e o olhou por uma última vez.
Bruce também foi dispensado, podendo ir para o dormitório dos monitores e descansar tanto o corpo quanto a cabeça. Adentrou o quarto escuro e acendeu o pequeno lampião em cima da cômoda ao lado da cama. Assim, jogou-se deitado sobre a cama de solteiro. Sua mão tateou a cômoda novamente e recolheu um papel pequeno.
Uma foto dele junto de Margot. Estavam com os rostos encostados e ambos sorriam para a câmera. Ela estava tão linda e sorria tão radiante, que Bruce sorriu automaticamente. Estava sentindo falta dela, e não via a hora de deixar tudo aquilo para trás para poder voltar para casa. Entretanto, quando pensou no fim de tudo aquilo, foi impossível não pensar em Oliver.
As coisas para o rapaz estavam começando a ficarem difíceis. Além de Terrence criar uma marcação com ele, os outros infratores estavam começando a tirar proveito da condição dele. Bruce percebeu que estava temendo pelo garoto. Enquanto estivesse ali, por mais que Terrence parecesse dificultar as coisas, sabia que podia manter o garoto a salvo. Bem, Bruce sabia que podia protegê-lo, só não sabia porque queria fazer aquilo. Queria poder tentar entender aquele instinto que o fazia querer cuidar de Oliver, mas o sono foi mais forte e ele acabou adormecendo.
Tinha acabado de adormecer quando, de repente, escutou batidas fortes em sua porta. Acordou um tanto confuso com a situação e só percebeu que parecia grave quando continuaram a socar a porta de madeira. Levantou depressa e foi atender Roy, que parecia desesperado.
— O que foi?
— Problemas com o Cherry Bomb! Luke se recusa a dormir no quarto dele e...
— Droga, chamou o Terrence? Esse Luke está dando muita dor de cabeça! — Bruce esfregou o rosto e saiu do quarto, juntando-se na caminhada apressada de Roy.
— Não, ele está com tanta marcação com o Oliver que tive receio!
Bruce acabou por concordar.
— Pois é, fez certo em não chamá-lo.
Ambos adiantaram-se pelo território até chegar no dormitório dos detentos, onde encontraram um pequeno aglomerado de pessoas. Bruce abriu caminho entre elas, rugindo algumas palavras rudes para que saíssem da frente e quando chegou no quarto, encontrou Luke com o braço envolta do pescoço de Oliver, que o empurrava contra a parede. Sem rodeios, separou os dois, empurrando um para cada canto do quarto.
— Podem me dizer que caralho estão fazendo? — rugiu passando o olhar de um para o outro.
— Eu não vou dividir o quarto com um viadinho! Me recuso! — Luke escarrou no chão, enfurecendo ainda mais Oliver.
— E acha que fui que eu escolhi dividir o quarto com alguém nojento feito você?
— Calem a porra da boca! — Bruce urrou, fazendo ambos a se encolherem. Então, dirigiu-se até Luke. — Você disse o que mesmo?
Luke franziu os lábios com raiva.
— Não vou dividir o quarto com um chupador de pau! Vai que esse viadinho tenta me assediar de madrugada!
Oliver mantinha o olhar fixo nas costas de Bruce, ansioso.
— Não vai dormir no mesmo quarto que um viadinho, é isso? — perguntou novamente e o viu anuir. — Tudo bem... Tudo bem...
Subitamente, Bruce agarrou Luke pela roupa e o arrastou para fora do quarto.
— Já que você não quer dormir no mesmo quarto que um viadinho, então você não vai dormir! — sentenciou e jogou-o no chão. — Vai passar a noite toda acordado, lá fora, de vigia!
— Isso não é justo! — ralhou alto.
— Não é justo? Acho que foi você quem disse que não queria dormir no mesmo quarto que um viadinho, oras... Estou realizando o seu desejo! — Bruce deu de ombros, escutando as risadas dos outros rapazes, e procurou por Roy, que estava no corredor. — Roy, certifique-se que nosso amigo passe a noite toda na vigia, certo? — Roy assentiu e buscou o rapaz, puxando-o para fora. Bruce olhou o tumulto em volta. — Mais alguém tem algum desejo? Não, ótimo!
Assim que todos voltaram para seus respectivos quartos, Oliver aproximou-se Bruce.
— Eu... Eu queria agradecer pelo que você fez... — falou quase gaguejando, enquanto o olhava.
Bruce segurou seu queixo com uma mão e ergueu, observando o pequeno corte no nariz por causa da briga.
— Agradecer? Achei que iria oferecer outro favor sexual, Cherry Bomb! Ainda mais que eu te salvei! — ironizou, arrancando um riso dele. Acertou dois leves tapas na bochecha dele e se afastou. — Trate de dormir, antes que eu te coloque no turno junto com o Sr Machão!
Oliver sustentou aquele sorriso idiota nos lábios até adormecer.
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