Notas iniciais
Oi, menines! Sentiram minha falta? Pois então, lhes trago outra história, completamente diferente de Her Boyfriend, as coisas nessa aqui vão ser bem pesadinhas. Eu tive que dar mais avisos do que eu gostaria no Disclaimer, mas é porque, bem, se trata de um romance policial, tem uma narrativa mais pesada, e infelizmente, algumas pessoas não leem o conteúdo e já saem julgando. Então, é isso. Queria deixar avisado que o ~regulamento~ de como o acampamento FME funciona vai sendo revelado ao longo dos capítulos, mas já fica logo bem claro que é como uma redenção. Mas se eu pusesse tudo num capítulo só ia virar uma cartilha de orientação :v Espero que gostem!

A ducha de água morna caía e refrescava o corpo do homem forte. Ele esfregava os cabelos úmidos e deixava a água banhar seu peitoral coberto por alguns pelos, dando um alívio tremendo ao calor infernal daqueles últimos dias. Sua vontade era permanecer embaixo daquela ducha, entretanto seu turno logo começaria e ele precisava estar pronto para mais uma noite de batalha nas ruas da pequena cidade da Flórida, Arcadia.

Bruce Rogers formou-se na academia de polícia quando ainda tinha vinte e cinco anos, e então, com apenas vinte e oito, tem a fama de ser um dos policiais mais respeitados da região. Um homem alto, caucasiano, com físico forte e definido. Seus cabelos curtos, de um castanho claro quase acinzentado. Seu rosto era de um formato mais oval, trazendo uma curta e aparada barba sobre as maxilas. Os olhos de cor cinza escuro, nariz levemente arrebitado e lábios delineados. Um homem bonito e charmoso, que fazia desde as mocinhas até as senhoras de idade suspirarem ao vê-lo passar na viatura. Entretanto, era casado há quase três anos com uma advogada e futuro pai.

Quando escutou a porta da entrada abrir, ele desligou a torneira do chuveiro e saiu, sacudindo os fios de cabelos com os dedos, respingando água pelo banheiro. Terminou de se enxugar no quarto de casal, embora quisesse vestir a farda molhado para ver se o calor não incomodava, mas imaginou que não seria uma sensação muito boa. Vestiu a boxer branca e a calça de tecido grosso, azul escura. Depois, vestiu a regata cinza que fazia parte do uniforme e então, começou a ajeitar o cinto de utilidades na cintura da calça.

Uma silhueta barriguda e inchada apareceu na porta, esboçando um sorriso cansado nos lábios. Era sua esposa, Margot Mavor. Uma advogada veterana na área criminal com trinta anos, conheceu Bruce há quase cinco anos quando foi transferida, ainda na delegacia. Era uma mulher bonita, de pele pálida, quase duas cabeças mais baixa que o marido e magra, embora agora trouxesse uma barriga redonda do sexto mês de gestação de um menino, que se chamaria Pietro. Tinha longos cabelos negros e ondulados, que escorriam até o meio de suas costas. O rosto era angelical, com lábios rosados e carnudos, nariz afinado e olhos azuis marcantes.

Observou o marido se arrumando para o trabalho e aproximou-se dele. Demonstrava uma fadiga excessiva, por ainda trabalhar, mesmo que Bruce lhe repreendesse inúmeras vezes.

— Odeio esse seu turno noturno, sabia? — ela reclamou depois de receber um beijo nos lábios como cumprimento. — Eu trabalho durante o dia e você durante a noite... Quase não te vejo!

Ele sorriu, exibindo os caninos levemente salientes e as covinhas nas bochechas.

— Daqui a pouco eles me trocam de turno novamente, Margot. — respondeu enquanto vestia a jaqueta da farda por cima da regata. — Você é que não deveria estar trabalhando no sexto mês de gestação!

Ela fez uma careta entediada e se afastou dele.

— Estou grávida, não doente, Bruce!

— Mas precisa ter cuidado, você sabe o que os médicos disseram...

Ignorando o que o marido disse, Margot deixou a bolsa sobre a cama e foi até o banheiro.

Era uma gravidez quase de risco. O corpo dela era pequeno demais para Pietro que crescera mais do que devia em pouco tempo, o que ocasionava em dores e desconfortos. Os médicos até previram um nascimento prematuro e certamente, teria de ser cesariana. Durante todos os seis meses, Margot estava tendo que seguir toda uma dieta regrada e vitaminas para conseguir sustentar a vida que crescia em seu interior.

Bruce notou que ela optou por lhe ignorar e suspirou, as coisas entre eles estavam soltando faíscas nos últimos meses e por isso, resolveu sair sem se despedir.

Pegou as chaves sobre a cômoda ao lado da cama de casal e seguiu pela casa. Não era tão grande, mas era o suficiente para ambos e para o futuro Pietro. Tinha dois quartos ao leste, uma cozinha ampla a oeste e uma sala bem grande entre esses cômodos. Tinha uma pequena área de serviço junto com um jardim que um dia abrigou um cão chamado Bob, mas que por ordens de Margot, foi levado para a adoção.

Bruce trancou a porta por fora e foi até seu carro. Suas botinas de combate ainda estavam desamarradas e sua jaqueta aberta, coisa que ele tratou de arrumar quando entrou no veículo. Depois, adiantou a dar partida e seguiu até a delegacia.

Por um momento, enquanto seguia a caminho do trabalho, ele achou ter esquecido a pistola, por isso teve de parar em um acostamento e checar o uniforme, encontrando-a travada no cinto. Suspirou aliviado, nem gostava de imaginar o escândalo que Margot faria se encontrasse a arma em casa. Sempre odiou armas, julgando-as perigosas demais e depois que engravidou, ficou ainda mais paranoica com elas.

Quando estacionou o carro em frente a delegacia, entregou as chaves para o rapaz da baliza por o carro no estacionamento de funcionários. Então, seguiu para dentro do estabelecimento e logo encontrou com um dos colegas de trabalho. Higor Maximoff, um oficial de patente menos privilegiada que Bruce, embora fosse mais velho e sua cabeça já faltasse cabelos.

— Deus está castigando a gente com esse calor! Será que ele não sabe que nós somos obrigados a usar uma farda quente para caralho? — reclamou Maximoff, balançando a farda para tentar se refrescar.

Bruce concordou com ele com a cabeça sem falar, então o oficial continuou falando.

— Delegado Martin quer falar contigo, Rogers. Mas ele teve de sair para encontrar com o prefeito.

Ele franziu o cenho, parando diante da caixa de chaves das viaturas e recolhendo a sua.

— Ele vai me trocar de turno de novo? Não tem nem três meses!

Maximoff deu de ombros com um semblante desentendido. Então, um sorriso abriu-se em seus lábios, indicando a chegada de alguém.

— Oficial Ginger! — cumprimentou-a abobado, mas acabou por ser ofuscado pela presença de Bruce.

Ginger era a oficial mais nova entre eles, trabalhava na recepção e cuidava da transferência dos detentos. Era magra e alta, com cabelos lisos e tingidos de vermelho, provavelmente para combinar com seu sobrenome. Seu rosto era em formato de coração, tinha olhos castanhos escuros e bem redondos, nariz bem fino e lábios grossos. Ginger nutria uma espécie de paixonite por Bruce, mas sempre respeitou o fato dele ser casado e um futuro pai.

— Mesmo posto hoje? — Bruce perguntou olhando-a e notando que sorria toda boba.

— Sim, mas você vai ficar sozinho hoje. Seu parceiro está doente e não vai poder comparecer. — ela respondeu e entregou o plano de patrulha que ele deveria fazer.

— Bem, acho que consigo dar conta. — respondeu e sorriu a ela, se afastando.

— Você consegue dar conta de qualquer coisa, Rogers! — ela disse mais alto do que desejou e mordeu os lábios.

Ele riu.

— Menos, Ginger!

Deixando-a para trás, seguiu até os vestiários para terminar de se aprontar. Precisava por o colete a prova de balas, o capacete e o porrete. Não gostava do último item, quase nunca o usava, mas como era uma regra, ele precisava segui-la.

Depois de pronto, ele ajeitou o porrete no cinto e seguiu até o estacionamento. O turno da noite era o que deixava a delegacia mais vazia. Quase todos os oficiais naquele turno, ficavam em blitz ou rondando em patrulha, fosse a pé ou de viatura. Não que a noite na pequena de Arcadia fosse problemática, mas os clubes noturnos e as bebedeiras sempre davam problemas.

Quando entrou na viatura, deixou o plano de patrulha no banco ao lado e começou a segui-lo. Estava menor do que os outros dias, pois estava sozinho, mas não seria menos trabalhoso.

O relógio eletrônico do carro quase marcavam dez horas da noite quando o celular de Bruce tocou. Já havia terminado a patrulha há uma hora e no momento, estava parado no costumeiro posto de sua blitz, na rota que daria para fora da cidade. Checou o número de Margot e a atendeu logo em seguida.

— Está tudo bem? — perguntou a ela, afinal ela raramente ligava para ele no trabalho.

— Você saiu sem se despedir hoje, eu que deveria perguntar se está tudo bem. — retrucou um pouco séria. Bruce suspirou, escolhendo não responder àquilo. — Como está a ronda hoje?

— Está tranquila, embora eu esteja sem parceiro. Até agora não tive nenhum problema para lidar, o que é bem chato.

— Acha chato não ter ninguém para prender? Eu ficaria feliz!

Ele riu baixo, mexendo no chaveiro da chave na ignição.

— Bem, quando você é um policial, você espera prender pessoas, Margot.

— Esqueci que estou falando com Bruce Rogers, o policial mais eficiente desta cidade! — respondeu irônica, o que o incomodou um pouco. — Odeio esse seu título! Só te deixa mais conhecido entre os bandidos e você sabe que isso é perigoso!

Ele respirou fundo, ela parecia estar sempre procurando algo para discutir.

— Como está o Pietro? — perguntou, ignorando as provocações.

— Está mexendo muito! Às vezes me incomoda, mas é emocionante... Queria que pudesse ver! Acho que ele sente sua falta.

Bruce sorriu ao escutar aquilo, estava ansioso para conhecer o rosto do filho. Poder tocá-lo e niná-lo. Chamá-lo de campeão.

De repente, o rádio de sua viatura foi ativado e Bruce recebeu uma chamada, o que atrapalhou a conversa.

— Rogers, precisamos de você na Avenida! Denúncia de invasão domiciliar! — anunciou a voz grossa no rádio.

— Pelo visto, o policial mais eficiente da cidade vai entrar em ação agora... — comentou Margot, maldosa, depois que escutou o chamado.

— Margot, nos falamos depois! — falou, desligando logo em seguida.

— Rogers, está na escuta? — insistiu.

Ele pressionou o botão para responder apressado.

— Sim, oficial! Só me passar as coordenadas!

Enquanto o oficial lhe passava as coordenadas exatas do lugar, Bruce deu partida na viatura e ligou a sirene, logo saindo em disparada.

Cortou alguns caminhos para chegar mais rápido que podia e evitar o trânsito noturno, que naquele calor ficava quase insuportável. Chegou no lugar indicado em alguns minutos. Uma casa grande, no centro da cidade. Bruce se perguntou que tipo de idiota iria invadir uma casa em um lugar tão vigiado e chamativo como aquele.

De dentro da cozinha da casa alheia, o rapaz conseguiu escutar a viatura. Por isso, tratou de se esconder no armário de estoque da cozinha. Fechou as portas e encolheu-se perto das prateleiras. Sua respiração estava pesada e ele sentia-se nervoso. Era o primeiro crime da vida de Oliver Vincent, e tudo já parecia perdido.

Oliver era um jovem rapaz de dezessete anos, com o ensino médio concluído sem grandes dificuldades. Entretanto, morava com seu pai alcoólatra e passou por momentos conturbados na guarda do mesmo, o que o levara a cometer o crime. Era um rapaz caucasiano, de estatura mediana e físico forte. Os cabelos eram louros escuros, aparados em um corte militar, pouco raspados nas laterais e atrás, ficando apenas grande e espetado no topo da cabeça, formando um topete liso. Seu rosto tinha um formato quadrado, mas seus maxilares não eram tão marcados. Os olhos eram esverdeados, o nariz afinado e o lábios pequenos.

Ele observou a casa por entre as frestas da porta daquele armário e logo notou o oficial, caminhando silenciosamente a sua procura. Prendeu a respiração nervosa e o assistiu andar pela cozinha. Quando ele havia saído do seu campo de visão, Oliver abriu o armário com cuidado e saiu.

Notou as costas largas do policial a sua frente e, cautelosamente, se aproximou por trás. Numa distância mais segura, envolveu o antebraço direito no pescoço dele, tentando enforcá-lo, porém ele era mais alto e isso acabou complicando a situação.

Bruce teve de soltar a arma logo que sentiu o aperto em seu pescoço. Segurou o antebraço do rapaz e empurrou seu corpo para trás, levando o corpo dele de encontro com a parede, com toda força possível. Escutou-o grunhir de dor e por isso, afrouxar o braço em volta de seu pescoço. Puxou o pulso, trazendo-o para frente e então acertou uma cotovelada em seu nariz, derrubando-o desnorteado. Segurou-o pelos cabelos e o virou de costas, imprensando o rosto dele contra a cerâmica do chão. Apoiou o joelho em seu ombro e com o rapaz imobilizado, pode algemá-lo. Quando puxou-o de pé novamente, notou que o nariz dele sangrava.

— Isso é para aprender a não pegar ninguém pelas costas! — ralhou e depois recolheu a arma pelo chão, recolocando-a no cinto.

— Quem mandou ter um traseiro tão bonito? — provocou-o com um sorriso manchado pelo sangue.

Bruce agarrou sua nuca com força e o puxou para perto, causando um ganido de dor da parte do rapaz.

— É melhor ficar quieto e fechar esse sorriso ou eu quebro seus dentes! — ameaçou e então, empurrou-o para fora da casa.

Segurava-o pela nuca e a cada vez que ele tentava forçar, apertava com mais força, sem se preocupar em machucá-lo. Algumas pessoas estavam na calçada, observando o garoto ser retirado a força e jogado dentro da viatura, sem delicadeza nenhuma. Os moradores agradeceram a Bruce, que anuiu e voltou para o veículo, prendendo o rapaz com o cinto.

— É melhor não tentar nada, a menos que aguente levar alguns tiros! — alertou com um sorriso cínico nos lábios, voltando para o banco da frente e dando partida.

Bruce acelerou a viatura e seguiu de volta a delegacia, sentindo sua garganta lhe incomodar pela dor de ter sido pressionada. O rapaz era forte, isso não dava para negar.

— Eu tenho dezessete, não pode me prender por invadir uma casa! — Oliver disse em certo momento, olhando o oficial pelo espelho retrovisor.

— Ah é? Que bom saber disso! — ele riu de escárnio. — Não posso te prender por invasão, mas tem um lugarzinho especial esperando por você!

Oliver franziu o cenho e decidiu não falar mais nada. Sabia que só poderia ser preso em penalidades extremas em caso de crimes hediondos, mas invasão domiciliar não era um desses casos.

Quando chegaram, Bruce o agarrou pelos braços, sem cuidado algum e o arrastou para dentro da delegacia. Havia algumas pessoas na recepção e os olharam um tanto quanto surpresas ao ver um rapaz tão jovem sendo preso.

Bruce o levou com força até a sala provisória, onde ele esperaria até o intendente interrogá-lo e decidir o que fazer. Empurrou-o sentado no banco de madeira e fechou a porta transparente com força. Não tardou, e o intendente apareceu próximo a ele.

— Ele fez o favor de dizer que não pode ser preso por invasão tendo dezessete. — contou risonho, observando o garoto nervoso na sala.

— Sr Terrence vai ficar feliz com essa notícia!

Ambos riram e então, o homem loiro, com cabelos medianos e presos pela metade, entrou na sala. Bruce ficou ao lado de fora, assistindo. Conseguia escutar, mesmo que baixo, o que eles falavam.

— Qual seu nome, rapaz? — perguntou o intendente, depois das cordialidades.

— Oliver Vincent. — respondeu de cabeça baixa.

— E quantos anos você tem, Oliver?

Nesse momento, ele ergueu a cabeça e viu Bruce de braços cruzados, o assistindo.

— Tenho dezessete.

Repentinamente, Maximoff apareceu a seu lado e estalou os lábios, parecendo decepcionado ao ver o rapaz preso. Então, virou-se a Bruce.

— O delegado está te chamando, Rogers.

Bruce assentiu e afastou-se, deixando Maximoff assistindo o interrogatório.

Cuidadoso, bateu as juntas dos dedos na porta e abriu-a. Encontrou o homem gordo, com a camisa de botões quase explodindo, sentado na poltrona larga de couro. Era careca, mas tinha uma barba negra e grossa a cobrir suas maxilas. Seu rosto carregava sempre a mesma expressão irritada e severa.

— Sr. Martin. — cumprimentou-o balançando a cabeça e sentou-se na cadeira em frente a mesa dele. — Precisa de algo?

— Acabou de prender mais um, Rogers? — perguntou e viu-o anuir. — Não é a toa que te chamam como o policial mais eficiente dessa joça. Fico orgulhoso de ter alguém tão competente entre nós.

— Fico lisonjeado de escutar isso do senhor. — agradeceu com um sorriso mínimo.

— Bem, vamos ao assunto pelo qual te chamei aqui. — ele suspirou e coçou a barriga enorme. Se o delegado estivesse perto de Margot, ela voltaria ser aquela garota magrela que Bruce conheceu. — Vou te transferir para a Fraternidade Maus Elementos.

Bruce franziu o cenho.

— Para o acampamento de menores infratores? — Martin anuiu. — Mas, senhor, acredito ser mais útil aqui.

— Sim, sim, eu sei que você é mais útil aqui! — ele parecia irritado com aquela história. — Mas você foi o único aprovado da academia que não passou por lá. E tem outra, aquela joça está quase falindo! O oficial Terrence só conta com a ajuda do Roy, precisamos de alguém que imponha respeito nesses moleques mal aproveitados!

— Senhor, tomo isso como um elogio, mas eu queria recusar, se eu puder. Meu filho está quase nascendo e...

— Você é um policial, Rogers! — rugiu. — Todo dia põe essa droga de distintivo no peito, nem sabe se vai voltar para casa no fim da noite! Se pensar no risco, nem deveria ter engravidado sua esposa!

— Claro, senhor. Você está certo.

— Não estamos tendo nenhum aproveitamento daquela merda! 75% dos jovens que saem de lá, voltam a cometer crimes! — explicou-o com a voz parecendo um trovão.

Bruce assentiu, sabia que não deveria contestar o delegado.

— Quando devo ir? — questionou desanimado.

— Amanhã Ginger vai levar os menores que estão aí para lá, aproveite a carona!

— Certo, senhor. — Bruce assentiu e levantou-se. — Precisa de mais alguma coisa, senhor?

— Mande lembranças a Margot! Quando aquele moleque nascer, quero conhecê-lo! Está dispensado por hoje!

— Claro, senhor.

Bruce saiu da sala um tanto quanto apreensivo. Sabia que um dia teria de ser transferido para a Fraternidade, mas não esperava que seria num momento como aquele, com sua mulher grávida de seis meses e passando por complicações. Teria de ficar longe dela por sabe lá quanto tempo. Não poderia cuidar dela, levá-la ao hospital quando precisasse. Sequer poderia levar celular para poder ter contato com ela.

Estava pensando em como contaria a notícia para ela, quando escutou uma voz alta. Procurou de onde vinha e encontrou Oliver, quase aos gritos, sendo transferido para a cela em que passaria a noite.

— Não, por favor! Não precisa chamá-lo!

Bruce franziu o cenho e foi até o intendente, que acabava de se afastar.

— O que houve?

Ele deu de ombros.

— Eu disse que precisaria chamar o pai dele, que é o único responsável por ele, então ele pirou!

Bruce anuiu e se desviou, indo até o vestiário, deixar os pertences. Tirou-os com pressa e procurou o rapaz da baliza, para que o levasse até seu carro.

Enquanto dirigia de volta para casa, sua cabeça matutava em alguma forma de dizer a notícia para Margot, sem que ela fizesse um escândalo. Algumas vezes, Bruce contou sobre seus parceiros oficiais serem transferidos para o local e escutou longas ladainhas dela reclamando.

As coisas já não estavam saudáveis entre eles, estavam enfrentando uma crise pesada no casamento desde que descobriram a gravidez dela. Ela estava sempre tentando convencê-lo que um filho não merecia um pai policial, pois havia uma grande chance dele se tornar órfão e também ser vítima de ataques vingativos por parte dos bandidos. Os médicos o alertaram que ela ficaria mais irritada e explosiva pelo descontrole hormonal que estava sofrendo, por isso tentava evitar discussões. Mas havia outro ponto que estava pesando, ainda mais para Bruce.

Não estavam tendo relações sexuais decentes desde o quarto mês da gestação, pois ela reclamava de dores e desconforto. Tudo o que tinham eram alguns toques e carícias, mas na maioria das vezes, Bruce precisava lidar com a situação sozinho. Dessa vez, já completava um mês inteiro sem interação sexual nenhuma e Bruce estava incomodado. Sempre teve um apetite sexual grande e a falta de sexo o incomodava. Ele continuava tentando ter algo, mas ela sempre negava. Algumas vezes, chegou a dizer que não se importaria se ele transasse com alguma prostituta para se satisfazer, desde que usasse proteção. Bruce, por mais que sentisse falta e precisasse se masturbar frequentemente, nunca a traiu.

Chegou em casa aporrinhado, bufando seguidas vezes. Antes mesmo de abrir a porta, já havia arrancado a jaqueta da farda, revelando a regata manchada de suor.

Quando entrou, escutou a televisão ligada. Conforme se aproximava, podia ver a silhueta de sua esposa andando de um lado para o outro, arrumando as roupas que chegaram da lavanderia. Bruce não falou com ela de imediato, seguiu até a área de serviço, jogando a jaqueta sobre o cesto de roupas e descalçando as botinas. Então, foi até cozinha e pegou uma garrafa curta de cerveja, abrindo-a com a mão e virando um gole generoso.

— E então, lidou com o invasor? — Margot perguntou quando Bruce caiu sentado sobre o sofá, bebendo a cerveja.

— Ah, era um rapaz menor de idade... Provavelmente não sabia o que estava fazendo, quis invadir uma casa no centro da cidade. — contou, esfregando o rosto suado e cansado. — O filho da mãe ainda achou que podia me derrubar, tive que usar a força.

— Não me diga que espancou o garoto? — ela parecia mais preocupada com o meliante do que com ele.

— Espanquei ninguém não, Margot! Só imobilizei o garoto! — explicou, tornando a beber mais da cerveja.

Ela meneou a cabeça, ainda dobrando as roupas. Antes que ela pudesse falar mais alguma coisa, Bruce resolveu contar logo.

— Tenho notícias. — falou, curvando-se para apoiar os cotovelos sobre as coxas. — Acredito que não vai gostar, mas...

— Acho difícil piorar a situação, mas me conte.

Ele comprimiu os lábios, respirando fundo. Margot notou a hesitação dele e parou o que estava fazendo para prestar atenção, com a mão na cintura.

— Fui transferido para a Fraternidade Maus Elementos. — anunciou de uma vez e ao ver o semblante irritado dela, abaixou a cabeça.

— Você vai para aquele acampamento de menores infratores? — Bruce anuiu e ela ficou incrédula. — Aquilo é um regime militar, Bruce! Não admito que você vá para lá judiar de crianças!

Ele coçou os cabelos de nervoso.

— Não vou maltratar crianças, Margot! Eu vou tentar corrigir jovens delinquentes!

— Usando a força bruta ao extremo! Você sabe o quão brutal são esses acampamentos e que não é eficaz! Eles saem de lá e voltam para a cadeia em semanas!

— Margot, eu não sei qual método é o mais eficiente, não sou eu que escolho o modo como eles vão ser tratados! Eu apenas obedeço ordens! — irritou-se.

Ela desistiu de dobrar um peça de roupa e arremessou-a com raiva contra a pilha.

— Bruce, você sabe que todo policial que vai para lá fica marcado por bandido! Você já tem uma puta fama na cidade e agora vai para um lugar que vai piorar a situação! — falou alto, quase gritando com ele.

— Quando você aceitou casar comigo, você sabia que esse era o meu sonho! E você sabia do risco!

— Mas agora eu estou esperando um filho! Não quero que meu filho corra o risco de ser vítima de vingança de bandido!

Bruce respirou fundo.

— Nosso filho, Margot! Você não o fez sozinha e eu...

— Meu filho, sim! — ralhou, interrompendo-o. — Meu filho, porque eu nunca sei se o pai dele vai voltar para casa no fim do dia, imagina daqui quatro meses! Meu filho, porque eu não sei nem se ele vai conhecer a cara que o pai dele teve!

— Acha que eu não me preocupo com isso? Eu sei muito bem o risco que eu corro sendo policial, mas eu não posso abandonar isso! — retrucou, tentando ficar calmo, mas a garrafa tremia junto de sua mão pelo nervoso.

— Sabe o risco que sua família corre? Quantas vezes vimos no noticiário que a família de tal policial foi morta por causa de vingança? Você enche a boca para dizer que se importa comigo e com seu filho, mas se você realmente se importasse, tinha pensado na gente antes de aceitar ir para um regime militar!

— Eu não tive a opção de aceitar ou não, porra! Foi uma ordem e eu sou um soldado! Eu cumpro a porra da ordem sem questionar!

— Você não é a porra do policial mais respeitado dessa droga?

Bruce largou a garrafa sobre o chão e escondeu o rosto entre as mãos, completamente irritado. Margot estava passando dos limites.

— Não quero discutir isso com você, Margot! Já estou cansado de brigas! Se eu pudesse recusar, eu teria recusado, mas eu não posso! — ele ergueu e se afastou.

Foi até o quarto e puxou a mochila, precisava arrumar suas coisas. Abriu o guarda-roupa e recolheu as regatas do uniforme, as blusas pretas de manga comprida, as jaquetas de farda, moletons uniformizados e calças. Estava irritado o suficiente para não dobrar as roupas de maneira ordenadas, então apenas as jogava para dentro da bolsa. Estava indo para a gavetas de meias e cuecas, quando Margot apontou no quarto e desfez a mala dele.

— Sabia que tinha feito uma zona! Será que nunca aprendeu como dobrar uma roupa direito?

Ele não respondeu, apenas recolheu as peças necessárias da gaveta e pôs sobre a cama, depois sentou-se sobre o colchão, bufando.

— Olha, eu sei que as coisas já estão difíceis para você, Bruce, mas tenta entender o meu lado... — Margot lamentou, dessa vez mais calma. — Eu só quero o seu bem!

Ela levou uma das mãos e acariciou a barba aparada dele, fazendo-o sorrir.

— Eu te amo, Bruce! — murmurou e então, voltou a dobrar as roupas dele.

Bruce ergueu-se e foi até ela, abraçando-a por trás. Beijou seu ombro direito e seu pescoço. Quando Margot percebeu a intenção dele, o empurrou com o braço.

— Não vou fazer sexo com você, Bruce! — admitiu sem rodeios.

Ele se afastou, retorcendo os lábios.

— Sei que está sentindo falta, mas sabe que é complicado para mim!

— Tudo bem, não estou reclamando. — respondeu, omitindo a frustração.

Ela o olhou, dando um sorriso de lado.

— Estou até imaginando quando voltarmos a ativa... Não sei se vou aguentar esse seu fogo! — comentou brincalhona, fazendo-o rir.

— É, ele é bem extenso... — disse com ambiguidade e recebeu um tapa no braço.

Margot se aproximou e segurou seu rosto.

— Nunca me traiu por isso, traiu? Aquela sua colega oficial parecer ser a primeira se voluntariar.

Bruce olhou-a irritado e afastou a mão dela de si, voltando para a sala para terminar de tomar sua cerveja sozinho.

Notas finais
Bem, fiz uma introdução mais longa do que estou acostumada para apresentar bem os personagens. O Oliver não teve tanto destaque ainda, mas logo ele vai dar as caras. E bem, a Margot tá pegando pesado com o Bruce. :/ Enfim, espero que tenham gostado. Até a próxima. ♥