Bad Man

1 Prólogo


Sabem aquelas cenas de filme bem família, quando o filho chega em casa de mochila nas costas vindo direto da escola? A mãe está na cozinha com um penteado e maquiagem impecável tirando um frango assado do forno, enquanto o pai se senta à mesa afrouxando a gravata após um longo dia de trabalho. Todos apreciam uma refeição calorosa, contando as novidades do dia com enormes sorrisos no rosto, cheios de amor e preocupação um pelo outro.

Eu nunca tive isso.

Tudo o que eu recebia eram refeições preparadas pelos melhores chefes, de calorias contadas, com minha mãe sentada numa ponta da longa mesa de carvalho, de frente para o homem com a gravata mais frouxa do que eu desejava. Eu me sentava no meio, cada um a três metros de distância de mim, enquanto eu era obrigada a encarar uma cadeira solitária à minha frente onde ninguém nunca iria se sentar. O homem da gravata agora me encarava sem expressão alguma após dizer mais um de seus absurdos.

-Quer dizer que você vai embora assim e me avisa no último momento? Quanta consideração. — não pude poupar a ironia na voz.

-Não faça escândalo, JiYoung. — ele voltou sua atenção para a papelada que carregava, esperando que eu me calasse. — Eu me preocupo com a sua segurança.

-Você só se preocupa com essa empresa idiota e a sua imagem. Que tipo de pai é você?

-Eu acho que você deveria ir para o seu quarto agora.

Última palavra, como sempre. O ambiente congela e eu nem preciso que ele olhe na minha direção para sentir uma facada no peito. É claro, meu pai era Park Dong-Sun, o empresário mais influente e poderoso da Ásia. Dono de redes nacionais e internacionais de hotéis, restaurantes e prédios comerciais, ele havia dedicado a vida ao crescimento dos negócios e fazer com que todas as pessoas baixassem a cabeça quando passasse. Ninguém sabe o que se passa em sua mente ou coração e também não se atrevem a descobrir. Eu sou prisioneira dessa ditadura. Amizades, roupas, refeições, lugares; tudo é escolhido por esse homem. Afinal, a família Park é alvo de paparazzi, então eu preciso ser a única herdeira perfeita.

Herdeira de um inferno, isso sim.

Obedecendo ao ditador por falta de escolha, me virei e fui para o quarto, encontrando minha gata Tibideaux no caminho. Há alguns anos eu achava que um animal de estimação faria a casa parecer mais viva, prover companhia e me fazer esquecer do ser apático que vivia sob o mesmo teto. A gata era uma persa de excelente pedigree, os pais haviam ganhados diversos prêmios em competições de não sei o que, fazia acupuntura, terapia e tinha uma dieta planejada especificamente pra ela. No final das contas, ela era gorda e só dormia o dia inteiro. Pelo menos agora eu também tinha um cachorro que não me decepcionava.

Tibideaux seguiu meus passos e pulou na cama, logo se ajeitando nos travesseiros macios e fechando os olhos. Eu me joguei logo em seguida, com um turbilhão de pensamentos me atormentando e uma raiva que eu nunca poderia colocar pra fora. Pra começar, meu pai iria viajar por quase um mês a negócios sem a mim pela primeira vez. Eu não sabia com quem ele estava negociando ou pra onde ele ia. Não que eu me importe, não tenho o mínimo de interesse em nada que seja relacionado a Dong-Sun, porém a situação era estranha. Continuando, aparentemente eu teria um segurança me fiscalizando e "protegendo" 24 horas por dia. Aposto que será um daqueles velhos pervertidos que vai me observar enquanto durmo. Tenho quase certeza de que haviam seguranças disfarçados em todos os lugares que frequento — ou de repente escutas entraram muito na moda — então qual era a necessidade de um guarda-costas particular? Qualquer que fosse a resposta, tanto faz. Se a minha vida era um inferno, então essa pessoa seria em quem eu descontaria tudo.

Ouvi a porta da sala bater com força e o silêncio voltou. Pela primeira vez eu estava sozinha, mas não me sentia sozinha. Alguém me observava pela câmera instalada no lustre, um lugar que meu pai achou que eu nunca descobriria. Se você não tomar cuidado, pode acabar paranoico, então eu fechava os olhos e respirava fundo, tentando imaginar um quarto com apenas eu e minha gata gorda. Um mês. Um mês vivendo com um estranho, um mês sem a pessoa tóxica e manipuladora que eu era obrigada a chamar de pai. Por um lado a ideia era péssima e por outro maravilhosa. Que Dong-Sun e suas empresas fossem pro inferno.

Algo em cima da cama começou a vibrar e a irritar Tibideaux, que pulou da cama e saiu do quarto quando viu que não teria paz ali. Procurei por meu celular para atender a ligação e li o nome no visor. "Jay".

-Alô.

-Onde você tá? — disse a voz do outro lado.

Lee JaeHwa era minha melhor amiga desde que me entendo por gente. Nossas mães eram colegas de faculdade, mas o que nos permitiu ser próximas era o fato de Lee JungHwa, seu pai, ser dono de uma das empresas pioneiras mundiais de material de construção. Até onde eu sei, nunca houve nenhum acordo comercial entre nossas famílias, justamente para evitar escândalos e suspeitas de corrupção. JaeHwa estava no último ano da faculdade de Arquitetura e confesso que eu a invejava vez ou outra por poder estudar o que realmente ama.

-Em prisão domiciliar. — eu respondi. Digamos que era uma meia verdade.

-Desse jeito eu nunca vou saber quando você está falando a verdade ou não. — pude ouvir uma risada baixa e logo após um suspiro. Jay conhecia como ninguém minha história de vida.

-Você quer sair pra algum lugar? Tenho algumas novidades.

-Pode ser. Estou perto do sete, te espero na porta.

-Te encontro em 15 minutos.

"Sete" era a sorveteria que ficava a mais ou menos três quadras de onde eu morava. Nós duas nos localizávamos por números, assim qualquer um que grampeasse nossas ligações não teria como saber onde exatamente nós estávamos. Às vezes era confuso e acabávamos nos perdendo, porém era a maneira mais eficaz de manter a privacidade até agora. Vesti um par de jeans e um suéter mais casual possível junto com botas e um sobretudo de frio, já que era novembro, peguei as chaves na mesa de cabeceira e saí pela porta do quarto. Um pouco de ar me faria bem, com certeza. Passando pela cozinha, verifiquei se as tigelas de comida e água estavam cheias e se faltava ração. Faltava. Mais uma coisa para se fazer na rua.

A cozinha dava uma visão muito limitada da sala, por isso não pude saber o que estava acontecendo nos segundos seguintes. Um barulho parecido com a chave girando na porta veio da entrada principal, na sala, mas não ouvi a porta abrir ou fechar. Conferi o corredor pelo olho mágico da cozinha, entrada que raramente usávamos, achando que era Dong-Sun. Talvez ele tivesse esquecido algo e tinha voltado para pegar.

Não havia ninguém.

E eu também não estava sozinha.

Um calafrio percorreu meu corpo inteiro, uma mistura de medo, angústia, pânico e raiva guardada. Sair pela porta à minha frente ou olhar pra trás eram as duas únicas opções e nenhuma parecia certa. De repente, já não importava mais. Uma voz desconhecida, grave e ameaçadora como um trovão pareceu ressoar pelo cômodo.

-Boa tarde, Park JiYoung. — meus olhos tentaram avistar o dono da voz por cima do ombro, cada movimento era perigoso. — Meu nome é Bang Yongguk.