Bad Man

2 Arco 1.1


O homem que vi assim que me virei definitivamente não era nada do que eu esperava. Tinha a aparência jovem, cabelos negros bagunçados um pouco acima dos ombros, alto — muito alto — e vestia um moletom amassado e jeans rasgado em quase todas as partes. Tenho certeza de que nunca havia o conhecido e também não fazia ideia do que ele estava fazendo ali. Se fosse um intruso, a segurança com certeza teria sido notificada, porém, se não fosse um intruso, ele não precisaria ter entrado com tanta cautela e suspense.

-Quem é você?

Pergunta idiota. Ele me disse seu nome segundos atrás.

-Eu acabei de dizer. — é óbvio.

Bang Yongguk — se é que esse era seu nome verdadeiro — estava completamente calmo, arriscaria dizer até entediado com a situação, enquanto eu sentia minhas pernas tremerem e o coração pulsar em meus ouvidos. Olhei ao redor rapidamente, procurando por algo que machucasse ou pudesse ao menos distraí-lo por alguns segundos. Bom, se eu fugir, não vou poder levar minha gata junto. Esse é o menor dos meus problemas agora. No canto direito tinha uma panela. Não era uma frigideira como eu gostaria, acho que isso só acontece em ficções. Vamos, JiYoung, é só pegar a maldita panela. O que você vai fazer com ela depois disso eu não sei, por enquanto só se preocupe em pegar a panela.

Alcancei uma das alças e joguei meu corpo pra frente, mirando no rosto do homem que ainda me encarava. Tentei esticar meu braço o máximo possível sem dar muitos passos, no objetivo de manter uma distância segura e proteger meu corpo enquanto atacava. Algo deu errado nesses poucos sentidos. Meu pulso girou de uma forma que com certeza não era natural e um som alto de metal sendo derrubado me fez despertar. Bang Yongguk havia girado meu corpo de modo a me prensar contra a parede, imobilizando meus braços acima da cabeça com a mão direita, enquanto a outra segurava meu pescoço forte o suficiente para não mover o rosto. A falta de ar que eu sentia era por conta do medo. Suas pernas imprensavam as minhas que tremiam cada vez mais. Nada mais poderia ser feito.

-Eu não vou repetir. — novamente a voz de trovão ecoou e todo o ambiente pareceu gelar. Os olhos castanhos escuros pareciam me perfurar com desprezo. -Não torne isso difícil ou vamos ter problemas. Melhor dizendo... você vai.

Por mais que eu nunca tivesse visto esse monstro na vida, eu sabia que ele estava dizendo a verdade. Instinto, talvez. Você nunca imagina que algo assim vai acontecer contigo, até o momento que acontece. O que fazer? Resistir era inútil, argumentar também.

Merda, eu ainda precisava encontrar JaeHwa.

-...Hwa. — tentei balbuciar uma frase pequena, sei saber ao certo o que estava dizendo, mas só ouvi a última sílaba. Ele levantou as sobrancelhas como se quisesse que eu repetisse o que havia dito. -Eu preciso... encontrar JaeHwa.

-Sua amiga, certo? — suas mãos começaram a afrouxar, deixando apenas meu pulso latejando. Quando a distância entre nós ficou maior do que trinta centímetros, meus pulmões se encheram de ar novamente e tive a sensação de despertar de um transe. -Pode ir.

Não pergunte nada, JiYoung. Não pergunte como ele entrou, o que ele está fazendo aqui ou como ele conhece a Jay. Dê meia volta e saia pela porta. Mergulhe o pulso num pote de sorvete quando chegar lá, se necessário. Girei a chave na porta da cozinha e me arrastei com passos lentos até o elevador. Acho que o homem disse mais alguma coisa antes de ficar pra trás, mas não prestei atenção. Descer vinte andares nunca foi tão demorado.

O caminho até a sorveteria demorava cerca de dez minutos e era só seguir reto, o que era ótimo se considerado meu estado mental. Muita coisa aconteceu em pouco tempo e minha mente se esforçava ao máximo pra assimilar tudo. Pai viajando. Estranho na minha casa. Pulso torcido. Ameaça. Falta de ração. Eu vou perder o juízo não vai demorar muito.

-Jiji! — uma mão com unhas pontudas me puxou pelo ombro e então percebi que havia passado direto pela sorveteria. Tentei melhorar minha expressão o melhor que pude para não ser confundida com um zumbi e abri um sorriso.

-Jay unnie! Desculpe, eu estava distraída. — demos um abraço e ela me puxou para dentro do estabelecimento.

-Você demorou, achei que não vinha mais.

-Tive que resolver algumas coisas em casa. — não era bem uma mentira. -Chegou há muito tempo?

-Uns 10 minutos.

Sentamos na mesa de sempre, em duas poltronas aconchegantes ao lado da janela no final da sorveteria. Era o lugar mais silencioso e quentinho da loja, por ser perto do aquecedor. Antes que uma de nós pudesse começar uma conversa, uma figura conhecida apareceu segurando uma bandeja prateada ao nosso lado.

-Com licença moças, prontas para pedir?

-HaeRim unnie?

-Eu mesma, Park JiYoung. Surpresa por me ver aqui?

-Pra falar a verdade, sim.

HaeRim era o terceiro e último pilar do meu círculo de amigos. Ela chegou um pouco depois no Ensino Fundamental, enquanto eu e Jay nos conhecíamos desde a época de fraldas. A mãe de HaeRim havia passado com ela 8 anos no exterior estagiando num hospital renomado dos Estados Unidos como anestesista, e toda a sua família seguia carreira no ramo da medicina, com prêmios, artigos acadêmicos e palestras internacionais. Como meu pai poderia deixar passar despercebido, não é mesmo? Ser melhor amiga de uma futura cirurgiã de nome era uma oportunidade de ouro.

-Arrumei um emprego de meio período só agora na época de inverno. Me mantém ocupada e ainda ganho meu dinheiro.

-Trabalhar numa sorveteria durante o inverno? Ainda bem que você não escolheu a área de Marketing. — Jay riu por trás do menu, para se defender de um tapa na testa.

-Uma gracinha você. Então, o que vai ser? O de sempre?

-Pode ser, mas vê se capricha na calda dessa vez.

-Quer que eu te dê o sorvete na boca também?

-Se não for incômodo...

Observei nossa amiga funcionária se afastar e ir montar nossas taças atrás do balcão. Pude reparar que não era só ela que estava em treinamento, mas vários outros funcionários estavam com o crachá de trainees. O rapaz que ficava no caixa foi o que mais me chamou atenção, com algumas tatuagens pequenas no braço esquerdo e o cabelo espetado com reflexos azul marinho, quase imperceptíveis se não fosse pela iluminação. Era bonito, admito, só que algo parecia errado. Ele estava tenso, frio e totalmente alheio ao que acontecia ao seu redor.

Não exagere, JiYoung, você só está tensa por conta do que aconteceu mais cedo.

-E aí? Quais são as novidades? — olhei para JaeHwa e ela brincava com o pacote de açúcar.

-Pra começar, meu pai foi viajar por um mês de última hora pra fazer não sei o que.

-Quer dizer que você vai ficar sozinha esse tempo todo? — ela perguntou com um brilho no olhar. Fiquei até com pena.

-Até parece. Ele disse que contratou um segurança pra me vigiar vinte e quatro horas por dia.

-Nossa... que merda. — toda a alegria no rosto de Jay virou uma careta estranha, meio desapontada. -Aposto que é um velho pervertido.

-Exatamente!

-Duas taças de sorvete com muita calda dessa vez. Bom apetite.

A tarde correu lentamente e descontraída. Em algum momento HaeRim matou o trabalho para ficar conversando com a gente e eu evitei pensar em qualquer coisa que não fosse o momento. Dentre tantas coisas arranjadas e falsas, a amizade daquelas duas era o sentimento mais verdadeiro e caloroso que eu sentia desde a morte da minha mãe. Ninguém precisava de máscaras, ninguém tinha medo de errar. Juntas éramos mais fortes e elas se transformaram nas irmãs mais velhas que eu sempre desejei. Meu porto seguro. Bang Yongguk, ou quem quer que fosse, podia me ameaçar e aterrorizar. Tanto faz. Enquanto eu tiver a JaeHwa e a HaeRim, eu estou disposta a enfrentar qualquer coisa só para passar mais um dia com elas.

Por volta das seis, me despedi e saí andando na direção contrária do apartamento. Eu estava atrasada para buscar meu cachorro, Thor, na pet shop e comprar ração para um ser muito abusado. E não era Bang Yongguk. O peludinho já me esperava na porta, segurando a própria coleira na boca e abanando o rabo. Que vida fácil, que vida boa. Sair andando por aí sem preocupação alguma, sabendo que teria comida no pote quando chegasse em casa e que poderia dormir a hora que quisesse.

-Cheguei... — anunciei mais para mim mesma assim que entrei no apartamento. O filhote correu até sua cama no canto da sala e se encolheu pra dormir.

O monstro ainda estava lá, sentado no sofá. Apoiei o corpo na porta atrás de mim e nós dois nos encarávamos sem dizer nada. Os olhos castanhos não deixavam transparecer nenhum sentimento ao mesmo tempo que deixavam claro que conseguiam ler tudo o que se passava dentro da minha cabeça. Medo, insegurança, um pouco de raiva. Tibideaux estava sentada no meio de suas pernas abertas mais do que o necessário. Traidora.

-Vamos deixar algo claro entre a gente. — ele foi o primeiro a se pronunciar, mas dessa vez não olhava pra mim. Começou a fazer carinho na gata. -Eu fui contratado pelo seu pai para ser seu guarda-costas. Não me cause nenhum problema e eu te garanto que te proteger vai ser a única coisa que eu vou fazer.

-Quer dizer que você vai ficar me seguindo por aí como um idiota? — me arrependi no exato momento que as palavras irônicas saíram da minha boca, mas era tarde demais.

-A idiota aqui é você por precisar de segurança.

-Eu não preciso.

-Escuta, Park JiYoung. — mais uma vez o ambiente ficou gélido. Ele não se moveu, não esboçou nenhuma reação e nem olhou pra mim; o tom de voz já era suficiente para me paralisar. -Eu não ligo se você precisa ou não. Se você tem problemas familiares com o papai, não é da minha conta. Eu vou fazer o que eu fui pago pra fazer e acho melhor você não me atrapalhar.

A última palavra estava dada. Como argumentar? Eu não sabia que tipo de pessoa que ele era ou o que ele podia fazer comigo enquanto meu pai estava fora. Tinha um estranho na minha própria casa e em menos de 24 horas ele tinha mais controle do que eu. Um mau pressentimento me dizia para correr dali o mais rápido possível e nunca mais aparecer. No entanto, um outro pressentimento me dizia para encarar aquela besta nos olhos e rosnar na mesma altura. Minha cabeça estava baixa por tempo demais.

Tudo bem. Então é assim que vai ser daqui pra frente. Certo, Bang Yongguk, se você quer fazer parte desse inferno, eu vou te arrastar até as profundezas dele.

Notas finais
Olá, queridxs. Espero que tenham gostado do capítulo. ♥ Um aviso importante: os capítulos serão curtos propositalmente, não por preguiça, eu juro.