Bad Man
3 Arco 1.2
Bang Yongguk era a pessoa mais estranha que eu já havia conhecido em toda a minha vida, tanto como segurança, como ser humano. Boa parte dos seguranças que eu tive contato procuravam me agradar o máximo possível para serem recomendados e arriscarem ganhar benefícios do meu pai, mas não dessa vez. Talvez por Dong-Sun estar longe, ele não ligava se eu estava feliz ou não, contanto que eu não o causasse problemas. Eu já não era dona da minha própria casa e agora eu me sentia muito mais como uma intrusa.
Na primeira noite, fui deixada sozinha, porque aparentemente haviam coisas a serem resolvidas e eu poderia "aproveitar esse tempo para assimilar tudo e me acostumar com a ideia". Não sei o que o meu novo segurança entende por "aproveitar", com certeza deve ser algo muito diferente do que passar a madrugada em claro. Assimilar tudo? Meu pai viajou e deixou um psicopata tomando coisa de mim. Acostumar com a ideia? Esse mesmo psicopata praticamente invadiu o apartamento e agora estava me ameaçando. Nada mais, nada menos. Era o pior cenário possível e eu não podia fazer nada. A polícia não era confiável, provavelmente já sabiam de tudo e estavam envolvidos de alguma forma. JaeHwa e HaeRim também não poderiam fazer nada e era melhor que não soubessem da situação. Eu não era capaz de medir o real risco de tudo que estava acontecendo e de jeito nenhum eu iria arrastá-las pra isso.
O quarto ficou trancado até a hora do despertador tocar. Os únicos que realmente despertaram foram Thor e Tibideaux, que me fizeram companhia a noite toda e por eu estar com medo de deixá-los do lado de fora e alguma coisa acontecer com eles. Sete e meia. Hora de levantar e ir para a faculdade.
Fui me arrastando até o banheiro com a gata agarrada na minha perna, que pulou assim que viu a pia. Abri a torneira para que ela pudesse beber água enquanto me despia, ansiando por um banho. Pelo espelho, pude ver que meu pulso tinha leves manchas arroxeadas, embora o inchaço tivesse ido embora. Suspirei. Algo me dizia que aquele não seria o último machucado durante esse período. Para qualquer pessoa comum, um simples boletim de ocorrência daria início num processo de segurança e em poucas semanas tudo estaria resolvido. Uma passagem para fora do país era fácil de conseguir. Acontece que nesse mundo de poder, você está preso numa redoma de vidro, totalmente nu, com milhares de olhos te cercando e observando. Existe um manual de regras que não é escrito, mas nos é imposto desde o início. Fique quieto sobre as lavagens de dinheiro. Assassinatos são acidentes. Mulheres precisam parir os herdeiros.
A água quente serviu para acalmar minha mente por alguns instantes. O frio do inverno deixava meu corpo e eu pude relaxar pela primeira vez. A solução não era se estressar ou bater de frente com aquela besta. Era preciso entrar num jogo psicológico silencioso e estrategista e dar o xeque-mate na hora certa. Para o azar de Bang Yongguk, eu não sou a rica filhinha de papai frágil que ele imagina. Quando eu quero alguma coisa, eu vou e faço sem a ajuda de ninguém.
E eu faço bem pra cacete.
Saí do banho com essa determinação fumegante e um zilhão de ideias diferentes borbulhando na cabeça. Estava tão distraída que nem prestei atenção no que estava vestindo, só tratei de me agasalhar e descer os vinte andares até a garagem. Por enquanto, a vida adulta havia me dado apenas um presente: a carteira de motorista. De resto, nada mudou e ainda ficavam me enchendo a paciência dizendo que eu precisava "amadurecer". Ainda atropelo todos eles.
Chegando na faculdade, a rotina era sempre igual. O clima ficava denso quando a filha de Park Dong-Sun estacionava o carro dos sonhos de muitos estudantes e ninguém arriscava ficar a menos de 5 metros de distância. A única pessoa com quem eu me comunicava era HaeRim, que por sorte estudava no mesmo campus, só que num bloco diferente. Nunca fiz questão de demonstrar interesse por Relações Internacionais, era claramente visível em meu rosto durante as aulas que eu não queria estar ali. Não era a minha área, totalmente desinteressante e eu só estava na Universidade porque de uma forma ou de outra, em alguns anos eu iria administrar todas os negócios de Dong-Sun. Honestamente, eu não tinha nada contra a ideia de administrar uma empresa ou algo parecido. Por mais que eu não me atraísse por esse tipo de trabalho, eu conhecia o suficiente para ter algum nível de confiança em levá-lo adiante. O meu problema era com o excesso de poder e corrupção, o peso que envolvia ser membro da família mais influente na economia asiática, além de não ter nenhuma liberdade para escolher outra coisa, já que eu era filha única. Apesar disso, eu obtinha as melhores notas da turma e ao menos isso não era comprado, era por merecimento.
Ao sair do último tempo de aula, encontrei com HaeRim sentada ao pé de uma ávore lendo um livro grosso e que parecia muito complicado de se entender. A cada duas semanas nossos horários se encaixavam e nós saíamos juntas durante a tarde, porém devido ao final do período suas aulas levavam tempo integral e não nos víamos muito. Faltavam dez dias para o início das férias e o curso de Medicina estava extremamente ocupado com as provas finais.
—Como estão indo as provas? – tentei puxar assunto enquanto me escorava na árvore para sentar ao lado dela.
—Não consigo entender essa merda de jeito nenhum. – sinceridade em todos os momentos.
—Você ainda precisa de nota?
—Não, eu só quero mostrar pra um certo professor que meu cérebro é sensacional.
—Boa sorte com isso.
Levei um tapa na cabeça quando menos esperava, mas relevei dessa vez. Estava muito cansada pra devolver. Pelo menos esse sentimento de subestimação por conta da família era compartilhado por mim, HaeRim e JaeHwa. Ninguém nos levava a sério e alguns professores vaziam questão de dificultar nossas vidas por puro desgosto. Como lidar com isso? Exibindo as melhores notas do curso no boletim de cada período. A melhor vingança é a volta por cima.
Da árvore onde estávamos eu tinha uma boa visão do gramado que cercava o campus e dos estudantes que ficavam largados no chão matando aula ou esperando pelo próximo tempo. Entre as pessoas, duas em especial me chamaram atenção. Dois homens vestiam os uniformes de zelador especiais para o inverno, basicamente um macacão térmico cinza e uma touca de lã. Cada um estava circulando em áreas diferentes, um ao lado do portão, o outro descansando no banco próximo aos prédios, e eram visivelmente altos, talvez a mesma altura de Bang Yongguk. O que me deixara instigada sobre eles era que ambos eram muito jovens, portanto incomum para um zelador. Irei chamá-los de Zelador 1 e Zelador 2. Zelador 1 – sentado no banco – com certeza não passava de 25 anos. Por conta da distância, não pude ter uma boa ideia de seu rosto, só que ele tinha a mania de bagunçar os cabelos castanhos claros e curtos de tempo em tempo. Zelador 2 – perto do portão – aparentava alguns anos a mais, ainda abaixo de 30 anos. A distância entre nós era menor, o que me dava uma boa visão de seu rosto oval, com lábios finos e olhos pequenos, além da expressão séria e mal-humorada. O cabelo negro e liso aparecia por debaixo da touca, chegando até um pouco acima de seus ombros.
—Você já tinha visto esses dois zeladores antes? – cutuquei o ombro da morena ao meu lado, querendo mais informações.
—Acho que chegaram essa semana. Estou esperando aquele ali vir falar comigo desde que saí da aula. – HaeRim apontou para o Zelador 2. É, eu imaginei que fosse o tipo dela.
Um dos talentos magníficos da minha melhor amiga HaeRim era sua cara de pau. Não, é sério. Quando se tratava de sedução e do gênero masculino, ela virava uma leoa que não aceitava fracassos e usava todos os seus atributos a seu favor. Com 170 centímetros de altura, cabelos castanho escuro na altura da cintura e todas as curvas nos lugares certos, a leoa parava as festas e despertava o lado mais selvagem nos homens. Isso só era possível porque o seu lado mais selvagem já havia despertado. Timidez e ousadia nunca foram tão harmoniosos em alguém como eram em HaeRim. Por favor, não confundam com promiscuidade uma mulher dona de si e que sabe o que quer.
—Por que você não vai falar com ele?
—Eu estou ocupada estudando anatomia humana. – seu raciocínio foi tão rápido que no mesmo momento desviou o olhar do livro para me mostrar um sorriso com ar de cumplicidade. –Se bem que eu não me importaria em estudar num modelo vivo.
—Você não tem jeito mesmo, viu. – não pude evitar de rir junto com ela.
—É um caminho sem volta.
Poucos minutos depois, eu já me encontrava no apartamento, sendo recebida por um filhote de maltês saltitante. Consegui respirar aliviada por não encontrar com meu novo segurança assim que entrei pela porta e também não havia nenhum vestígio de sua presença espalhado pela casa. Pra falar a verdade, ficava cada vez mais estranho. Um sujeito desconhecido invade meu apartamento, diz que foi contratado pelo meu pai para cuidar da minha segurança e some por quase 24 horas. Eu não sei que segurança é essa.
Meus ombros relaxaram enquanto eu seguia com Thor em meu colo, até ouvir a voz que eu mais temia.
—Park JiYoung, precisamos conversar.
Finja que não ouviu e siga em frente. Tem alguém falando? Oh, deve ser algo da minha imaginação. Evitei descobrir de onde vinha a voz da besta e continuei meu caminho até me trancar no quarto. Poucos segundos depois, passos lentos se aproximaram da porta e eu prendi a respiração como se isso fosse me tornar invisível.
—Park JiYoung. – ele falava com um tom abaixo do que da primeira vez e creio que um longo suspiro separou sua frase. Tremi. –Precisamos conversar.
—Não, não precisamos. – a porta que nos separava foi a única coisa que me deu forças para responder daquela maneira. Coloquei meu filhote no chão e o observei indo investigar uma cauda felpuda que pendia para fora de uma das gavetas do guarda-roupa.
—Eu vou te dar a chance de ser boazinha e abrir essa porta.
—Quanta bondade a sua. – meus dedos caçaram o botão de play no rádio que ficava em minha escrivaninha e uma música aleatória começou.
Aumentei o volume até não conseguir mais ouvir o que era dito do outro lado, mas sem perturbar os dois animais que não tinham nada a ver com a situação estressante. Sem murros na porta, sem gritaria. Ou eu tinha conseguido evitá-lo, ou eu estava muito, muito encrencada.“Conheça o seu inimigo antes de atacar“. O problema era que meu inimigo podia me colocar a sete palmos do chão por qualquer passo em falso.
Pelo visor do rádio eu contava os segundos da música. A cada momento sem nenhuma reação eu podia sentir meu corpo suar frio, até não aguentar mais e desligar. Quarenta e cinco segundos de tensão pareciam dez minutos. Tive a impressão de que se olhasse ao redor, veria tudo em câmera lenta.
—Park. JiYoung.
Foi tudo que ele disse dessa vez. Algo havia mudado em sua entonação e eu não sabia o que era. Pausado. Respirando fundo.
—Eu não vou sair daqui.
O tique de um relógio começava a ecoar em meus ouvidos.
—Park. JiYoung.
—Não.
Minutos de silêncio. E dessa vez eu sabia que eram minutos porque mentalmente eu havia contado 196 segundos. Eu não entendia o porquê das minhas pernas tremerem, não entendia o suor que escorria da minha testa. Parecia que meus pensamentos se uniram num letreiro gigante e iluminado, escrito „fuja“.
—...Última chance.
O modo como a voz grave vibrou deixou muito claro o que havia mudado. Era praticamente um rosnado de um lobo prestes a atacar. Era raiva.
—Eu já disse que não vo—
Um estrondo quebrou todo o suspense que emanava entre o quarto e o corredor. Antes, meus olhos encaravam um retângulo de madeira clara e reforçada, imóvel. Em segundos aquele retângulo havia se fracionado em todas as direções, e por trás dele eu via um homem que não queria ver se aproximando de mim. Como defesa, coloquei meus braços à frente do corpo para empurrá-lo e ganhar tempo, porém, com certeza esperando que eu reagisse dessa forma, meu inimigo abaixou o corpo o suficiente para me erguer apoiada em seu ombro, me deixando pendurada quase que de cabeça para baixo.
—Me põe no chão agora! Bang Yongguk! – eu me debatia enquanto gritava, esperando que algum dos socos que eu mirava em suas costas fosse o suficiente para que ele me largasse no chão. Silêncio.
Percebi que atravessamos a sala enquanto o desespero só aumentava e eu não tinha outra opção a não ser gritar. No fundo eu sabia que ninguém ouviria. Quando voltei à posição normal, senti um vento congelante em minhas costas, preparado para cortar meus ossos. De onde estava, podia observar quase toda a largura do apartamento. Ele tinha me colocado sentada na janela.
—Escuta... – uma de suas mãos segurava firmemente minha cintura, enquanto a outra trilhava um caminho partindo de meu pescoço até meus lábios. Seu polegar ficou ali. –Eu disse que não iria dizer de novo... e você me fez repetir. Duas vezes.
Meu corpo inteiro tremia, não por conta do frio. Era pavor, pânico. Era encarar a possível morte bem nos olhos. O uivo do vento gritava do lado de fora e meu coração batia mais rápido do que deveria aguentar. A esperança de que eu logo encostaria em grades nunca veio, porque não haviam grades.
—O-O que você... – minha voz sumia enquanto eu tentava formar uma frase.
—Shhh... – os dedos que antes tocavam meu rosto agora desciam até meu ombro esquerdo, empurrando-me para fora da janela até minhas mãos soltarem da base onde estava sentada. –Park JiYoung. Estou sendo paciente com você. Você vai me ouvir?
Um feixe de luz do sol que já se punha refletiu exatamente no rosto cruel de quem me segurava. O raio escondia os olhos sem brilho e furiosos daquele homem louco que me encarava. Era aterrorizante, como Bang Yongguk por inteiro.“Caso eu morra, aqui e agora, esses olhos serão minha única lembrança“, pensei. Concordei com a cabeça.
—Muito bem. Tenha em mente que se você me causar problemas, eu posso te largar daqui de cima num segundo só... e eu vou te encarar enquanto você cai. Entendido? Eu posso fazer com que tudo pareça um acidente e nada vai acontecer comigo. Quando eu te chamar, você responde e me obedece. Não tente ser mais inteligente do que eu. Você pode até achar que vive num inferno por causa do seu pai, mas você não sabe o que é me ter como o diabo. Não me cause problemas e tudo o que eu irei fazer é te manter em segurança.
A voz... era calma. Cada palavra de ameaça parecia muito mais suave do que poucos minutos atrás. Ele gostava disso. Do terror, do pânico que exalava de mim. Eu pude ver as portas do inferno abertas através de seus olhos.
—...bem. – eu sussurrei, com o mínimo de forças que me restava. Se aquilo durasse mais quinze segundos, um desmaio era certo.
—Foi um prazer conversar com você.
Ainda manipulando meu corpo, Bang Yongguk fez com que meus pés tocassem no chão.
—Eu não vou falar novamente. – ele disse antes de se virar e desaparecer pela casa.
Minha mente estava bloqueada e minha visão era um borrão branco. Era como se eu tivesse entrado em estado de emergência, só que sem nenhuma ambulância para me resgatar. Eu não conseguia me manter de pé e também não tinha forças para me arrastar até um lugar seguro. Piada. Onde era seguro depois do que tinha acontecido? Não sei quanto tempo levei para me recuperar do choque. Quando pude assimilar algo novamente, a lua já estava alta no céu e o apartamento sem movimento algum. Meu próximo movimento contra meu segurança levaria mais tempo para ser planejado do que eu esperava. O tabuleiro precisava ser reorganizado.
Só que agora eu conhecia um pouco mais contra quem eu estava jogando.
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