Bad Man
4 Arco 1.3
—Park JiYoung, seu cachorro está me mordendo.
-Tire o pé da boca dele.
Três dias haviam passado desde o episódio de terror. A rotina continuava a mesma, apesar dos horários imprevisíveis que meu guarda-costas aparecia misteriosamente na sala de estar ou no corredor. Ele não dizia nada na maior parte do tempo, e quando dizia era sarcástico ou reclamando de alguma coisa. Se eu começasse a anotar cada vez que meu nome completo era dito, poderia terminar um caderno inteiro até o final da semana, sem exageros. Felizmente, o único alvo de aversão dentro de casa era eu, considerando que Tibi e Thor se sentiam confortáveis com a presença do „novo morador“ e um certo carinho – uma espécie muito estranha de carinho – era recíproco.
Havia chegado o tão aguardado final de semana. Nas estações quentes do ano, os dias em que meu trio infalível assinava a lista de presença de quase todos os eventos e festas da região, e agora no inverno, as 48 horas mais intensas de maratonas de filmes e doramas que você poderia imaginar. Eram as horas em que misturar cinco comidas diferentes e juntar numa só tornava-se lei. Nessa semana, o encontro estava marcado no apartamento de JaeHwa, já que uma nova televisão havia sido instalada. Minha mochila já estava devidamente arrumada, quase estourando de tantos pacotes de biscoitos e salgadinhos, mais um pijama no fundo, e eu aguardava sentada no sofá pela boa vontade de Bang Yongguk me levar até lá de carro.
-Pra que você tirou carteira de motorista se vai ficar pedindo carona? – ele resmungou, ainda encarando o cachorro que mordia seus tornozelos.
—Se eu tivesse outra opção não estaria pedindo, imbecil.
—Peça com jeitinho e eu posso pensar no seu caso.
—Eu vou passar o final de semana inteiro na casa dela.
—Onde estão as chaves?
Sinceramente, foi mais fácil do que eu havia imaginado. Acho que a falta de vontade de olhar para a minha cara por dois dias seguidos falou mais alto do que começar a me provocar como ele sempre fazia. JiYoung 1 x 0 Bang Yongguk.
O trajeto até o condomínio onde JaeHwa morava demorava cerca de 15 minutos dirigindo, contando com o trânsito normal. Não era surpresa alguma que a estudante de arquitetura e filha de um engenheiro civil morasse numa construção projetada pela família e levasse suas iniciais. O condomínio era composto por quarto prédios de quatro andares e o prédio principal com um andar a mais que ficava no exato centro. Jay tinha a cobertura do quinto andar só pra ela, enquanto os pais moravam na cidade vizinha.
—Você tem alguma amiga com a renda anual abaixo da casa dos milhões? – a simpatia ao meu lado fez questão de comentar enquanto guiava o carro até o estacionamento reservado para visitantes. Ignorei.
Antes de sair do carro, recebi algumas instruções de segurança básica que honestamente nem prestei atenção e combinei de voltar pra casa no dia seguinte até meia noite. Algo parecido com um sorriso surgiu no rosto do motorista por meio segundo devido ao tempo que eu ficaria fora e em seguida o veículo já estava em seu caminho de volta. Estar mais do que cinco metros distante de Bang Yongguk foi como retirar uma corda do pescoço que começava a deslocar os ossos e sentir o ar de volta em meus pulmões. Nada de grosserias, nada de pânico, nada de me sentir refém em minha própria casa. Esses dois dias serviriam para pensar em nada mais do que comida e os oppas bonitos dos doramas.
—Park JiYoung. – ouvir meu nome assim que entrei na portaria despertou um alarme psicológico que me fez parar na mesma hora e olhar para quem tinha me chamado. Provavelmente percebendo minha desconfiança, o porteiro continuou.-Lee JaeHwa disse para deixar subir uma mulher de mochila preta e cabelo comprido. Suponho que seja você?
—Sim, sou eu. – forcei um sorriso simpático, tentando compensar o clima estranho de segundos atrás. –Você é novo aqui?
—Ah, deu pra perceber? Estou nos meus primeiros dias. – ele coçou a nuca, claramente nervoso. É claro que deu pra perceber, você não estava aqui na semana passada.
O novo porteiro era um dos mais estilosos e jovens que já conheci. Mesmo com o uniforme clássico de camisa preta e moletom, os cabelos claros com algumas mexas rosa na franja completavam seu rosto de forma muito interessante. Seus olhos eram charmosos, com pequenas bolsas na parte inferior, os famosos „puppy eyes“ na Coréia. Tenho a impressão de que duas meninas no último andar estavam muito satisfeitas com o funcionário. Pedi licença ao rapaz e fui em direção às escadas. A porta estava destrancada me esperando e dois olhinhos brilhavam pela fresta aberta.
—Você viu o cara novo?
—Eu estou bem, unnie, e você?
—Você viu, não viu? – a voz de HaeRim veio alta dos fundos da casa. Meu Deus, que audição.
—Eu vi, gente, não sou cega.
—A Rinnie-ah disse que ele é um oito de dez, mas eu acho que ele chega no nove! O que você acha, Jiji? – Jay me deu espaço para passar e logo se apressou em pegar minha mochila e despejar as coisas em cima do sofá.
—Hmm...eu fico com o meio termo. Oito e meio. – escolhi um dos potes de bala espalhados pela mesa de centro e sentei no carpete felpudo, tão confortável quanto uma cama. A menina que faltava apareceu com o gato da casa assim que ouviu o som das embalagens, fazendo seu comentário.
—Pra falar a verdade, eu acho que ele chega nos dezesseis.
Vou dar um tempo para vocês refletirem sobre essa frase. JaeHwa demorou até entender.
—Pelo amor de Deus, o garoto está trabalhando lá embaixo e vocês falando uma coisa dessas. – nenhuma de nós pôde conter a risada, impossível. No fundo elas sabiam que eu pensava a mesma coisa e só ficava séria para manter o mínimo de moral possível.
Por mais clichê que seja, falar sobre pessoas atraentes com suas melhores amigas é a melhor coisa do mundo. Você não precisa fingir interesse num assunto super formal ou entediante para manter uma boa conversa. Aquelas quatro paredes guardavam comentários e fantasias que nem mesmo nossos inconscientes gostariam de admitir, porém essa é o real sentido da amizade. É você se jogar no chão da casa da pessoa vestindo pijamas e compartilhar as perversões sexuais que você nem sabia que tinha, tentar adivinhar a medida do talento de alguém e se divertir com isso. Chás da tarde debatendo sobre a última crise política em algum outro país do mundo não criam uma amizade. O que faz a diferença é você se despir com as pessoas que você ama e compartilhar o bom e o podre; quebrar todos os muros.
Se você vai levar o sentido de despir pro literal, aí é uma escolha de cada um. Nós ainda não chegamos nesse ponto.
Após muitos episódios de dorama e homens lindos sem camisa numa televisão enorme, a lua já despontava no céu, só havia esquecido de trazer o sono. A madrugada despertava os assuntos filosóficos, os problemas da vida e questionamentos que nunca conseguiríamos responder. Esse momento era bastante perigoso quando tinha uma garrafa de sakê envolvida. Acabei compartilhando com JaeHwa e HaeRim sobre o que eu estava passando, tendo o cuidado de revelar somente o necessário. Tudo o que elas deveriam saber era que Dong-Sun estava fora do país por motivos desconhecidos e eu agora tinha um guarda-costas meio teimoso vinte e quatro horas por dia. Informações como a porta quebrada ou o encontro com a Dona Morte poderiam ser omitidos; quanto menos envolvimento, melhor.
—Você é besta, JiYoung. Com a aparência que você descreveu, eu faria questão desse segurança me observar o tempo todo.
—Claro que não, HaeRim unnie! Ele é... – um psicopata? Rude? Babaca? Ser detestável? –uma boa pessoa. Mas não é meu tipo.
—Sei...
—Por que ele não está com você hoje? – Jay, sempre a primeira a dormir, tinha acordado para participar da conversa.
—Sei lá. Ele meio que aparece quando quer.
Bang Yongguk era um mistério dentro de outro, um enigma dividido em várias partes. O problema não era resolvê-lo, era descobrir até onde você deveria chegar para conseguir todas as pistas.“Não tente ser mais inteligente que eu“, ele disse enquanto pensava em me jogar do vigésimo andar. Bom, eu não preciso tentar, basta provar que eu já sou mais inteligente que ele. Seria estupidez iniciar um plano de ataque tendo passado menos de uma semana desde o nosso primeiro encontro não romântico. Ele ainda estava em vantagem, pois certamente vinha me estudando há mais tempo, desde que recebeu a oferta de guarda-costas. Para trabalhar nessa área, em especial com pessoas importantes, os novos seguranças acompanham de longe a rotina de seus clientes, além de receberem fichas com o perfil de quem estão cuidando. Era uma merda admitir, mas Bang Yongguk sabia mais sobre mim do que eu sabia sobre ele.
No dia seguinte, as mesmas atividades se repetiram. A mesma conversa sendo jogada fora, o mesmo conforto de me sentir em segurança. Esses finais de semana funcionavam como uma pausa para o cérebro, então era comum cometermos alguma burrice, por exemplo colocar a pizza congelada no forno sem ligar. No final das contas, não importava. Eu podia sentir as besteiras do dia anterior entaladas na garganta. Quando deu nove horas da noite, meu celular vibrava com mensagens de dez em dez minutos lembrando que eu havia prometido chegar em casa por volta da meia noite. Oh, quem será que está enviando?
—Meninas, preciso ir. Dessa vez não tem ninguém em casa pra colocar ração. –menti, óbvio que eu não deixaria meus animais com fome.
Nos despedimos rapidamente e eu desci pela escadaria com certa pressa. Passando pela portaria, cumprimentei o porteiro antigo que eu já conhecia e segui em direção à rua para pegar um táxi. Sendo muito otimista, chegaria em casa em trinta minutos, dentro do prazo „por volta de meia noite“. Tempo suficiente para me preparar psicologicamente para voltar à realidade. Chego no prédio, subo as escadas e entro pela porta da cozinha. As vasilhas de comida estavam cheias e Tibideaux comia satisfeita. As luzes da casa estavam apagadas, o que me fez pensar que Yongguk não havia chegado ainda ou estava escondido em algum lugar.
Ao me aproximar da passagem que dava para a sala de estar, notei algo de estranho. A pouca iluminação que vinha da rua e passava pelas cortinas era suficiente para revelar seis silhuetas diferentes espalhadas pela sala; duas no sofá, uma próxima à janela, duas encostadas na parede do canto do cômodo e uma de pé no centro da sala. Certamente não tinha como quem quer que fossem não tivessem me visto também, então nem valia a pena ignorar ou sair correndo. Se era para morrer, eu pelo menos queria ligar a luz antes. E foi o que eu fiz. Meus olhos se acostumaram devagar com a claridade súbita, e foi aí que eu comecei a reconhecer cada uma das silhuetas.
O caixa da sorveteria.
Os dois zeladores do campus.
O porteiro da JaeHwa.
Bang Yongguk.
E mais alguém que eu não conhecia.
—Park JiYoung. – eu gostei muito mais quando o porteiro disse meu nome. – Permita-me apresentar meus companheiros. – dito isso, Yongguk que estava no meio da sala começou a apontar para cada um.
JongUp, o caixa.
YoungJae, o Zelador 1.
Himchan, o Zelador 2.
Daehyun, o porteiro.
Zelo, a figura desconhecida.
Todos eles iam acenando com a cabeça quando seus nomes eram chamados e algumas coisas começaram a fazer sentido. Todavia, eu ainda não sabia o que eles estavam fazendo ali.
—Você certamente já deve ter visto alguns deles por aí. – continuou.
—Sim, eu reconheço alguns... Bang Yongguksshi, por que eles estão aqui?
—Ah, acho que eu esqueci de te contar. – ele deu uma risada sarcástica, batendo na testa como se fosse um descuido. – Nós vamos morar com você a partir de agora.
—... O quê?
O quê?
—Nossos quartos de hóspedes já estão arrumados e eu sugiro que você não entre neles.
Dito isso, os rapazes saíram de seus lugares, sem pronunciar uma única palavra, e se dirigiram em fila para dentro do apartamento. O de cabelo rosa – só conseguia lembrar que seu nome era Dae-alguma-coisa – passou do meu lado por último, apenas para sussurrar:
—O palpite das suas amigas estava certo.
Nåo senti meu coração por alguns segundos. Como ele sabia disso? A resposta mais lógica que consegui pensar era que a casa de JaeHwa estava grampeada e o sistema só dava alcance até a portaria, por isso o disfarce enquanto monitorava o que estava acontecendo. Monitorando a mim ou JaeHwa? Quantas pessoas tinham escutado aquilo? Mais importante, por que Yongguk ainda estava na minha frente?
—Você não vai dormir? – perguntei.
—Eu vou ficar no seu quarto.
E mais essa.
—O que te faz pensar que você vai dormir no meu quarto? – a confusão em minha cabeça já virava raiva, perceptivel no tom de voz.
—A cama que eu coloquei lá dentro hoje.
—Quer saber? – seria mais desgastante discutir. –Durma onde você quiser.
—Se eu pudesse fazer isso eu com certeza não estaria dormindo no seu quarto.
Respire, JiYoung. Lembre-se que agora você tem seis assassinos em potencial no mesmo ambiente que você, não faça burradas. Respire fundo e vá colocar um pijama para dormir, é o único momento do dia que você não precisa lidar com um pesadelo. Segui pelo mesmo corredor que os meninos e estranhei. A porta fora substituída por um pedaço de cortina grossa pregada no entorno da entrada. Relevei. Alguns móveis haviam sido mudados de lugar para que uma cama de casal encaixasse no quarto, porém não foi nenhum problema. Eu já estava planejando mudar a ordem das coisas mesmo, pelo menos eu não precisei fazer sozinha. Só não gostava do que tinha vindo junto. Ficar debaixo dos cobertores aliviou um pouco o estresse, ele cobria minha visão do lado onde o imbecil iria dormir e meu corpo se sentiu tentado a relaxar novamente. Foi quando uma mão pesada tocou o alto da minha cabeça, do mesmo jeito que se acaricia um cachorro ou um gato, e mais uma vez ouvi aquela risada baixinha e irônica.
—Não se preocupe, Park JiYoung. Nós vamos nos dar bem. Afinal, como você mesmo disse...
Ah, não. Por favor, não.
—Eu sou uma boa pessoa.
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