Bad Man

5 Arco 1.4


Notas iniciais
ME PERDOEM pela demora. Tive algumas complicações com o computador, mas estou de volta.

No dia seguinte, o que era para ser uma segunda-feira tranquila de aula tornou-se num furacão de categoria cinco dentro de casa. Ainda cedo – não ousei olhar o horário no relógio, mas o sol nem havia saído -, alguns dos novos inquilinos resolveram fazer uma reunião sem motivo algum dentro do meu quarto, e eles tinham essa liberdade porque não era possível trancar o pedaço de cortina pregada à porta. Fui rolada de um lado pro outro diversas vezes para dar espaço na cama e tenho certeza que ninguém quis sentar na área de Bang Yongguk. Era pura implicância. Acabei ignorando os assuntos que foram discutidos, porém falando a verdade, eu não me importava nenhum pouco. As vozes eram misturadas com sons de rabiscos, papel sendo amassado e digitações num computador muito barulhento, então nem valia a pena tornar aquilo relevante.

Às sete e meia da manhã, horário razoavelmente justo para um ser humano acordar, não havia mais barulho algum a não ser o choro de Thor ao lado da cama querendo atenção. Estiquei o braço até onde ele estava e recebi lambidas e mais lambidas enquanto tentava fazer carinho. Meus olhos ardiam pela noite mal dormida e a preguiça era como um peso absurdo sobre meu corpo. É, acho que seria o dia em que um atraso seria inevitável.

Ao me arrastar pelo apartamento em direção à cozinha, não encontrei ninguém; tudo estava arrumado. Era como se nenhum deles houvesse sequer pisado no apartamento. Apesar do silêncio, logo reparei que não estava sozinha. Sentado em cima do balcão ao lado da pia estava um dos meninos, justo aquele que eu não lembrava o nome, mas tinha o cabelo rosa.

Pensando bem, eu tinha esquecido o nome de todo mundo.

-Dae...? – tentei chamá-lo quando ele percebeu minha presença, deixando claro que eu havia esquecido seu nome.

-Daehyun. Jung Daehyun. – ele respondeu não muito satisfeito.

-Jung Daehyunsshi... – esperei ter acertado o pronome, então ele concordou com a cabeça. –Por que só tem você aqui?

-Hoje é meu dia de folga, quem vai ficar com você sou eu.

Antes de voltar a mexer no celular, Daehyun apontou para um prato na mesa de jantar, que ficava do outro lado da cozinha. Faziam anos que ninguém preparava meu café da manhã e ironicamente quem quebrou esse recorde foi um segurança provavelmente tão rude e abusivo quanto Bang Yongguk. A refeição contava com duas torradas integrais, três morangos médios, um pote de iogurte e uma xícara de café preto. Será que o rapaz de cabelo rosa teria mesmo se preocupado com aquilo tudo?

-Quando terminar, estarei te esperando no estacionamento.

Daehyun já havia sumido quando me virei para respondê-lo. Bom, só o fato de nenhuma briga ter estourado entre nós em cinco minutos já me deixava mais tranquila, sua relação comigo era estritamente profissional, sem dúvidas. Contanto que eu mantesse o ambiente normal e nada saísse da rotina, duvido muito que ele agiria de maneira agressiva. No primeiro dia em que o conheci, não tinha nada de ameaçador em seu comportamento, muito pelo contrário. O porteiro de JaeHwa era simpático, tímido e até um pouco desastrado.

Agora eu precisava me preocupar com mais cinco, não bastasse o primeiro problema.

Assim que terminei de comer, coloquei comida nos devidos potes de ração e desci até o estacionamento, onde um carro suspeito me esperava. Depois de tanto tempo morando no mesmo prédio, eu já havia memorizado todas as placas e modelos de carro dos moradores e com certeza não tinha um Hyundai entre eles. Os vidros fumê baixaram devagar, revelando um segurança muito estiloso vestindo uma jaqueta de couro e óculos escuros apesar de estarmos num ambiente fechado. Seria uma perfeita cena de ficção se não fosse o cabelo rosa estragando o clima.

-Vamos dar um rolê. – ele disse. Fiquei muito confusa.

-Que merda é essa?

-Estou tentando ser simpático.

-Tudo bem, tudo bem. – ergui as mãos em sinal de rendição. –Vamos dar um rolê.

Dei a volta no carro para sentar no banco de carona e Daehyun deu a partida. Faltavam apenas 10 minutos para o início da primeira aula e 15 quilômetros até a faculdade. Eu chegaria atrasada mesmo com a boa vontade do motorista. Pra piorar, todos os sinais estavam vermelhos. O que esperar num worst case scenario?

O cara ao meu lado parecia tão impaciente quanto eu. Ouvi um suspiro de impaciência e o som da marcha sendo mudada bruscamente.

—Abaixe. – uma mão quase do tamanho da minha cabeça me fez escorregar pelo banco, sem nenhuma explicação.

O motor roncou feroz e em pouco segundos meu corpo foi empurrado para trás devido à alta velocidade do veículo. Eu não sabia como o segurança estava desviando dos outros carros – ou se ele estava desviando – e tudo que eu conseguia ver pelo vidro da frente eram as luzes vermelhas sendo deixadas para trás. Tenho quase certeza que pela lei nós deveríamos ter parado em todas elas. Esqueçam o que eu disse sobre o cabelo rosa cortar o clima, só a jaqueta preta e os óculos escuros já me intimidavam o suficiente para não perguntar o que estava acontecendo.

Senti tantas viradas e curvas que não faziam parte do trajeto que eu estava acostumada que realmente duvidei de para onde estávamos indo. Seria estranho Daehyun ter tentado ser gentil comigo para logo em seguida me sequestrar, todavia, analisando todos os acontecimentos dos últimos dias, a probabilidade disso acontecer era bem grande. Em alguns minutos, entramos em algum local, talvez uma garagem por conta da estrutura. Ele estacionou e se virou para mim, que estava quase encolhida no chão do carro.

—Se você correr, consegue chegar a tempo. Não deixe ninguém te ver.

De primeira, não entendi. Fiquei o encarando por um tempo, com a própria confusão estampada no rosto, até ele apontar para a porta. Tudo bem, era para eu sair e assim o fiz. Realmente estávamos num estacionamento e eu podia ouvir o barulho da rua, por mais que eu não soubesse bem aonde estava. Procurei pela saída mais próxima, correndo como fui aconselhada. A rampa dava acesso à rua lateral do campus, onde por sorte tinha um portão não muito longe do meu prédio.“Não deixe ninguém te ver“. O que raios isso quis dizer? É absolutamente impossível não ser vista numa universidade com cerca de 30 mil alunos. Pensando ainda mais, os vidros do Hyundai também eram escuros para evitar que quem estivesse dentro fosse exposto. Não havia necessidade de ter me escondido ainda mais. Tem algo errado. Ao lado do portão, pude ver o Zelador 2 rondando a área, olhando para todos os lados como se procurasse algo. Esqueci seu nome, mas era o favorito de HaeRim. Quando passei por ele, ouvi a vassoura varrendo o chão. Tudo parecia normal.

Só que eu sabia que não estava.

Como previsto, cheguei na sala de aula no horário exato do primeiro tempo. A última semana do semestre não tinha nenhuma importância; toda a matéria havia sido dada e as provas já foram entregues, porém mesmo assim eu precisava manter a minha frequência impecável. Apesar de odiar a graduação, eu me esforçava para que a minha formação me conferisse o melhor histórico e currículo possível. Meu ódio pela herança que Dong-Sun iria deixar não era motivo para ser rebelde e irresponsável.

Vez ou outra, durante as explicações, avistei Zelador 2 me vigiando pela janela da porta. Nós nos olhávamos, um sabendo do outro, porém não fazíamos nada. Ele limpou cada sala onde eu tive aula e circulava pelos corredores obviamente querendo ser notado.

Após sete horas completamente inúteis, eu precisava arrumar algum jeito de voltar para casa. Qualquer meio de transporte público poderia ser alvo de um sequestro relâmpago e não havia ninguém para me dar carona. Também duvido que os Zeladores gostariam que eu falasse com eles durante o horário de trabalho, além de poder virar um problema caso alguém nos visse. A pé? Não, tão perigoso quanto pegar um ônibus ou táxi. A última – e única, na verdade – alternativa era voltar para o estacionamento e torcer para que Daehyun estivesse me esperando no carro depois desse tempo todo. Meio irreal, mas valia a pena tentar.

O portão C, por onde eu havia entrado mais cedo, ficava mais vazio, já que os prédios próximos a ele eram de cursos de ciências exatas. Os estudantes de lá não são bem pessoas divertidas que gostam de ficar à toa pelo gramado. Creio que conseguiria fazer o caminho de volta sem grandes suspeitas em cima de mim, contando sem nenhum imprevisto.

Felizmente, encontrei todos os corredores vazios. Espera. Felizmente? Nenhum lugar da universidade ficava totalmente deserto, ao menos haviam seguranças vigiando o local.

Só que não tinha ninguém. E agora Zelador 1 vinha apressado em minha direção.

Nossos olhares se encontraram e continuamos nos encarando enquanto a distância entre nós diminuía cada vez mais rápido. Ele carregava uma pequena pilha de livros nas mãos, que com certeza não eram para leitura própria, a não ser que fosse de seu interesse aprender sobre Bioquímica. Os passos dele se apressavam e as batidas do meu coração também. Era a segunda vez que eu percebia o tempo parar e não era por uma coisa boa. O momento devia ter durado no máximo dez segundos, porém na minha cabeça foi uma vida inteira. Despertei assim que senti a borda de um dos livros me acertar bem no meio do estômago e logo a pilha mais pesada do que eu havia calculado estava comigo.

—Veja seu celular. – Zelador 1 sussurrou ao pé do meu ouvido e saiu de cena tão rápido quanto entrou.

Cacei de imediato o aparelho no bolso e o visor mostrava uma mensagem não lida de um número desconhecido.“Fique na casa de Song HaeRim. Estacione na rua XXX com o Hyundai.“

Algumas perguntas vieram à cabeça: 1) por que HaeRim unnie?; 2) por que a rua XXX?; 3) como eu vou estacionar alguma coisa sem a chave do carro?

Olhei para os livros em meus braços e respondi a terceira pergunta. Zelador 1 tinha me dado a chave. Em algum momento ele e Daehyun haviam se encontrado e por algum motivo Zelador 2 sabia exatamente onde ele iria me deixar. Não era surpresa, eles eram um grupo. Por mais que eu quisesse saber o que estava acontecendo, parte de mim dizia que era melhor deixar pra lá. Algo estava muito errado, entretanto, a função dos seis meninos ainda era me proteger e nisso eu acreditava. Segui para o estacionamento na rua lateral sem chamar muita atenção e dirigi em direção à casa de minha amiga que ficava cerca de vinte minutos dali, com trânsito.

Até agora eu não sabia o que estava mais estranho: o comportamento de tudo à minha volta ou Bang Yongguk não ter me contactado nenhuma vez. A casa estava vazia de manhã e nenhum dos rapazes que encontrei mostrava sinais suspeitos. Mas que merda! Tem algo errado e eu sei disso! Quais sinais eu perdi? O que estava bem na minha cara e eu não consegui perceber? A carona. Os vidros. O portão C. A mensagem de texto. É tão óbvio e mesmo assim eu não entendo!

—Merda!

E foi assim que eu gritei dentro do carro que tudo escureceu.

Faltavam poucos metros para chegar na rua em que eu deveria estacionar quando um apagão – aparentemente geral – aconteceu. O que era suspeito ficou ainda mais. A única iluminação vinha do sol que já ia embora, mas não era suficiente devido aos prédios altos que faziam sombras na rua. Com a ajuda dos faróis eu pude encontrar uma vaga e entrar no edifício antes que uma multidão de curiosos tomasse posse da calçada e me impedisse de passar. Bom, nada de luz, nada de elevador. O porteiro de HaeRim – me certifiquei de que não era nenhum dos meninos – sugeriu que eu subisse as escadas, então liguei a lanterna do celular com uma das mãos enquanto a outra apoiava os livros. Eu não sabia para que eles serviriam, mas resolvi levar mesmo assim e os carreguei até a cobertura. Para quem já está acostumada com vinte andares, quinze é moleza.

Sem luz e sem elevador, a campanhia certamente não funcionava. O que fazer? É só gritar.

—Escuta, só tem uma situação na qual eu aceito pessoas gritando o meu nome, e essa não é uma delas. – confesso que foi a recepção mais estranha que já recebi.

—Não vou nem perguntar. Posso entrar?

—Bom, agora você já está aqui.

Ela me deu espaço para entrar na casa e eu fui colocar o peso em cima do sofá. Quando a porta foi trancada, as luzes voltaram.

—Ah, finalmente. Eu pensei que teria que dar desculpa por não ter estudado. – a dona da casa foi acendendo todas as luzes da casa que faltavam. –Que livros são esses?

—Que livros? – aqueles que você trouxe, JiYoung? –Oh, eles são...hm...um dos seus colegas de classe me disse que talvez você fosse precisar. – menti. Eu não fazia ideia do que eles eram.

HaeRim se sentou ao meu lado e folheou todos os livros, parecendo interessadíssima no conteúdo, então disse que esses eram sobre a matéria da última prova do semestre. Nunca acertei tanto numa mentira como essa. Quer dizer, na realidade, quem acertou não foi eu.

Merda. Eles estão sempre a dois passos à frente.

—Eu preciso estudar, mas você pode ficar à vontade. Podemos pedir comida mais tarde.

—Desse jeito eu não vou embora nunca. – brinquei. Comer era uma boa opção.

—Você é uma aproveitadora.

Observei minha amiga se afastar com os livros que eu havia trazido e então pude relaxar no sofá. Eu ainda não sabia o motivo de precisar ficar aqui ao invés de voltar pra casa, mas confesso que era muito mais agradável. Contanto que nenhum outro incidente acontecesse como na casa da Jay, eu me sentia confortável e segura. O único risco que eu corria com ela era de aparecer um striper de surpresa na porta.

Bom, eu não chamaria isso de risco, sendo bem sincera.

A ideia do striper não foi suficiente para me distrair de toda a loucura que estava acontecendo sem eu saber. Era óbvio, mas tão óbvio que tinha algo errado nesse dia que me deixava irritada. Talvez se eu tivesse me comunicado com Bang Yongguk eu pudesse ler suas ações, eu já possuía um certo conhecimento sobre ele. Por outro lado, esse pode ser o motivo de ele não ter aparecido até agora. São tantas teorias e tantas explicações.

Tudo o que eu sabia até agora era que meu carro era inutilizável e que voltar para casa não era uma opção. O motivo era desconhecido. O apartamento estava limpo, como se ninguém tivesse pisado lá. O carro tinha vidros fumê e estacionou na rua lateral. Algumas dessas coisas se encontravam no mesmo ponto: o prédio onde eu morava. Outro ponto era que eu não deveria aparecer em público, todavia, nenhum deles me impediu de frequentar às aulas. Testemunhas? Cúmplices? Onde os livros entram na história? Seriam eles apenas um ato de bondade dos garotos?

Ah, eu os associei com bondade, com certeza não é isso.

O objetivo de todos eles era me proteger. De alguma forma, minhas amizades eram importantes nessa parte, embora não fizesse sentido. As duas também eram figuras públicas e não tinham a privacidade de uma pessoa comum. Pensando nisso, o condomínio de JaeHwa era muito melhor monitorado do que o prédio onde HaeRim morava e Daehyun trabalhava nele. Haviam pouquíssimos pontos cegos pela área do condomínio e todos eles eram distantes do prédio principal, ou seja, Daehyun tinha quase que acesso total a todos os cantos e poderia saber muito bem sobre qualquer tipo de ameaça. Não tinha como se esconder.

... A não ser que esse não fosse o objetivo.

A visibilidade do edifício para onde haviam me mandado era muito maior. As janelas dão vista para outros apartamentos, não há becos por perto e a segurança é básica. O monitoramento pelos funcionários das pessoas que entram e saem é menor, porém você pode ter testemunhas visuais em todos os lados. Será? O apagão excluía totalmente essa possibilidade. Ninguém conseguiria reconhecer 100% uma outra pessoa no escuro.

Ainda tem algo faltando.

—JiYoung-yah! – meu momento de dedução foi interrompido por um grito. O nervoso na voz dela fez meu coração acelerar. –Você viu as notícias?

Meu cérebro congelou ao ouvir a palavra „notícias“.

—Não, eu... estava fazendo outras coisas. O que aconteceu?

Sem me responder, a dona da casa correu até onde eu estava, pegando o controle da televisão e passando pelos canais rapidamente. Eu nem sei se ela estava prestando atenção na numeração deles. Quando parou, o jornal transmitia imagens ao vivo de um terrível desastre, onde inicialmente eu só conseguia ver uma fumaça densa e cinza se espalhando pelo céu. A câmera do helicóptero desceu o ângulo, revelando uma construção alta com os últimos andares derrubados de forma estranha, enquanto os debaixo tentavam segurar os escombros de alguma forma. Era inútil, logo tudo iria cair. Eu ainda não estava entendendo o propósito daquilo, até o jornalista providenciar uma visão de 360 graus da rua. Foi aí que comecei a reconhecer tudo e me senti invadir por um pânico horrível.

—HaeRim unnie. – eu balbuciei, com a voz tão trêmula quanto meu corpo. –Aquele prédio é o meu.

Notas finais
O primeiro arco está finalizado. AGORA É SÓ TRETA.