Bad Man

9 Arco 2.4


—Como já é do conhecimento de todos, na tarde de ontem o prédio Park Residencial’s, meu lar e de meu pai, foi atacado de maneira terrível e covarde. Quem quer que tenha sido o responsável é cruel o suficiente para não se importar com as vítimas, cidadãos inocentes que estavam em casa, em paz.

À medida que eu lia o discurso, era como se as palavras encaixassem dentro de mim e se tornassem minha nova realidade. Minta até se tornar verdade, eu havia escutado uma vez. Minha preocupação era deixar claro que não importava a quantidade de dinheiro que eu tinha, eu ainda era humana e podia ser injustiçada. Preciso admitir que Daehyun e Youngjae fizeram um ótimo trabalho, nós tínhamos a enorme vantagem da mídia não ter nenhuma imagem política sobre mim, o que dava total liberdade deles criarem o que bem entendessem. Seja acessível, faça com que os outros se identifiquem com você.

Vez ou outra, eu olhava para o público por rápidos segundos, numa tentativa de decifrar suas expressões, porém, como bons coreanos, todos estavam impassíveis. Após 20 minutos discursando, eu só queria terminar.

—De agora em diante, conto com a justiça e imparcialidade da investigação coreana para que os culpados sejam devidamente responsabilizados. Estou à disposição para colaborar com a polícia. Obrigada.

—Park JiYoung! — eu mal havia terminar de falar, os flashes voltaram e me chamavam quase gritando. — Você acredita que tenha sido alvo da explosão?

—Não. — eu respondi. — O culpado poderia ter me atacado em qualquer lugar e saberia que eu não estava em casa.

—Por que você passou a noite na casa de Kim HaeRim?

—Eu levei alguns livros para ajudá-la a estudar. Quando eu soube o que aconteceu, fiquei por lá.

—Park JiYoung! Onde está Park Dong-Sun?

—Park JiYoung! Olhe pra cá! Que tipo de negócios ele está fazendo?

—Park JiYoung! Park JiYoung!

—Olhe pra cá!

—A assessoria está terminada. — senti um leve empurrão me afastando, enquanto eu estava totalmente perdida no meio da gritaria. Olhei para o lado e Yongguk havia tomado o controle. — As demais perguntas serão respondidas à polícia. Obrigado.

Foi aí que as vozes ficaram mais altas e os jornalistas se puseram de pé. Meus seguranças se posicionaram ao meu lado e me guiaram para fora da sala, tranquilamente. Antes de sair, pude ouvir claramente alguém gritar:

—Park JiYoung! O que você está escondendo?

De volta ao hotel.

—Cara, eu achei que aqueles fotógrafos nunca iam deixar a gente em paz. — JongUp se jogou de qualquer jeito no sofá, dando um suspiro que mais parecia um rosnado.

—Desculpa, mas, por que você parece mais cansado do que eu? Fui eu quem teve que lidar com aquela gente querendo arrancar meus membros. — eu olhei para ele, irritada. O efeito dos energéticos estava passando e o cansaço fazia tudo parecer detestável.

—Não se esqueça de que seus membros não foram arrancados porque eu e Yongguk estávamos lá.

Nós nos entreolhamos, cada um querendo começar a briga, porém exaustos demais para continuar. Ele se virou, enterrando o rosto no estofado e acenando para que eu fosse embora. Yongguk estava na porta do closet discutindo algo com Zelo e não havia nenhum sinal de Himchan, então segui direto para a cama. Meu coração ainda batia acelerado e isso era agoniante, mas meus olhos já não conseguiam se manter abertos por muito tempo e meus pensamentos estavam cada vez mais embaralhados. Comecei a me despir, deixando as roupas jogadas num monte ao lado da cama, lutando para tirar tudo o mais rápido possível e colocar meu pijama confortável e quentinho. Como se ele fosse suficiente para me proteger de todo estresse.

—Park JiYoung? — eu não reconheci a voz por alguns segundos, parecia distante enquanto eu me concentrava em achar meu pijama. — O que você está fazendo? Ninguém disse que você podia descansar agora.

Quando olhei brevemente para trás, avistei Himchan encostado na porta. Pensei que ele não estivesse no quarto. Senti meu rosto arder em constrangimento por não estar completamente vestida.

—Dormir. — foi a única coisa que encontrei forças para dizer.

—”Não poder”.

Tentei me apressar em encontrar minhas roupas e ignorá-lo, quando...

—Sabe... — de repente, sua voz estava próxima e eu podia sentir sua respiração em minha nuca. Congelei. -Você é muito descuidada. — meu coração disparou quando algo frio, quase gelado, encostou em minha cintura em ambos os lados. Suas mãos eram tão frias como eu imaginava. Foi quando elas pararam em meu quadril e pressionaram contra mim que uma onda de adrenalina me despertou e eu pude me virar para empurrá-lo para longe. — Ah, já está desperta? Ótimo, se vista logo. A polícia está vindo, provavelmente para interrogá-la. Não tivemos tempo de treiná-la antes deles chegarem, então espero que você lembre alguma coisa do discurso.

Tão rápido quanto chegou, Himchan saiu do quarto e eu fechei os olhos o mais forte que pude, evitando que lágrimas se formassem. Minha cabeça pulsava de dor, o estômago estava se contorcendo vazio e minha vista ardia num pedido desesperado de socorro. Joguei o pijama no chão com o resto da minha vontade de viver e pus meu vestido e saltos novamente, como se nada tivesse acontecido. Quando entrei na sala, era como se nenhum dos meninos estivesse estado ali, nem mesmo os cabos e fios dos computadores de Zelo. Apenas JongUp estava presente, com cara de poucos amigos.

—Cara, se eu soubesse que não ia dormir tão cedo... — ele resmungou.

—Faço das suas palavras as minhas. — eu me sentei no sofá de frente para a porta, esperando os policiais. — Onde estão os outros?

—Por motivos de segurança nessa entrevista, eles nunca existiram. Só eu e Yongguk, porque já nos viram na assessoria. Yongguk está do lado de fora da porta e, se perguntarem, somos simples guarda-costas contratados pelo seu pai.

—E não são? — ele riu baixinho, revirando os olhos.

—Contratados pelo seu pai, sim. Já simples...

Escutei batidas na porta e a maçaneta virando, e automaticamente eu e JongUp ajeitamos a postura, como duas estátuas. Presumi que Yongguk havia aberto, já que estava do lado de fora. Dois homens em seus uniformes turquesa entraram, com duas energias incrivelmente distintas. Um deles era alto, arrisco dizer próximo de 190 centímetros de altura, com uma expressão séria e concentrada, como se quisesse dominar todo o ambiente. Já sua dupla era consideravelmente mais baixa e amigável, possivelmente mais nova. Ambos deviam estar na faixa de 30 e poucos anos.

—Boa tarde, senhorita Park JiYoung. — o mais alto quebrou o silêncio ao chegar mais perto, fazendo uma breve reverência. — Eu sou o sargento Kim WooBin e esse é meu auxiliar, detetive Song JoongKi.

—Sejam bem-vindos, é um prazer conhecê-los e cooperar com o que vocês precisarem. — eu me levantei para cumprimentá-los da mesma maneira, enquanto JongUp continuava impassível.

—Lamento pelo o que ocorreu e por iniciar a investigação tão rápido, porém devido à gravidade da situação, não temos escolha.

—Eu entendo. Por favor, sentem-se.

Os dois oficiais se acomodaram no sofá e prontamente o detetive tirou de sua bolsa um caderno de anotações. Senti minhas mãos começarem a suar frio e engoli seco. Agora não tinha nenhum script, nenhum passo programado que eu pudesse seguir na frente de dois homens que com certeza sabiam quando alguém estava mentindo antes mesmo de falar.

—Bom, vamos começar com o básico. Você notou algo de diferente antes de sair de casa? Algo fora da rotina, um carro estranho, um comportamento suspeito de algum funcionário...

—Não, nada. — tirando o fato de ter acordado praticamente sozinha no apartamento, mas os meninos já eram suspeitos o suficiente. — Tudo parecia normal.

—Algo incomum no seu trajeto até a universidade?

—Eu fiz um trajeto diferente naquele dia, então não sei dizer.

—Por que?

—Hã, bem... é normal trocar de tempos em tempos. Evita paparazzi’s e stalkers. — não deixava de ser verdade.

—É possível que o segurança responsável por você soubesse de alguma coisa e por isso mudou o trajeto? — dessa vez, foi o detetive Song que perguntou.

—Nunca me ocorreu a ideia, pra ser sincera...

—O que você acha?

—Creio que não. Normalmente eles sabem tanto quanto eu e me avisam de qualquer perigo que possa acontecer.

—Nós também sabemos que você passou a noite na casa de Kim HaeRim. Pode nos contar o que aconteceu?

—Eu acabei sabendo que ela precisava de alguns livros da biblioteca e passei no apartamento dela pra entregar. Então o incidente aconteceu e... — eu desviei o olhar, evitando lembrar das imagens do noticiário. Quanto mais eu falava sobre aquilo, mais a realidade pesava sobre mim.

—Quem te avisou? Ela sabia que você iria à casa dela?

—Hã, um colega de classe dela. — inventei o que pareceu mais provável no momento. Eu não fazia ideia do que esperavam que eu respondesse nessa situação. — Nós normalmente não precisamos avisar quando vamos visitar, nós já somos bem próximas.

As perguntas simples continuaram por um tempo e felizmente não eram nada que eu precisasse mentir. Vez ou outra eu notava o sargento Kim encarando JongUp com certa curiosidade, mas sem conseguir nenhum contato visual. Parecia que o segurança nem respirava. Eu estava começando a me sentir confiante no meio daquela conversa, porém, como tudo na vida, nada bom dura por muito tempo.

—Park Dong–Sun entrou em contato em algum momento?

Aí estava. O gatilho. O nome que eu não queria ouvir pelo resto da minha vida, se possível. Onde estava Dong–Sun? Por que ele não havia ligado ainda? Ele sabia de alguma coisa?

Todas essas dúvidas se embolavam dentro de mim e logo senti que estava hiperventilando. A única resposta que eu conseguia encontrar era: se eu vivesse ou morresse, não importava. Eu não importava. Nenhuma das vidas perdidas importava. Ele nem mesmo havia entrado em contato com os contratados dele. Então por que eu estava sendo obrigada a lidar com essa merda toda?

—Senhorita Park? — a voz do detetive Song me fez despertar e eu desviei o olhar, constrangida. Não era hora de ter uma crise. — Está tudo bem?

—Eu, hã... sim, perdão. Com toda essa... situação, eu não consegui descansar muito bem.

—Será melhor para todos nós continuarmos essa conversa em outra hora, então. — vi o sargento Kim se levantar, ainda sério. — Podemos voltar amanhã no final da tarde?

—Sim, sim, é claro. Eu sinto muito pelo incômodo. — me curvei o máximo que podia, expressando o quanto eu estava envergonhada. Eu só esperava que aquilo não me fizesse parecer mais suspeita.

—É completamente compreensível, senhorita Park. Descanse, nos vemos amanhã.

Os dois oficiais seguiram sozinhos até a porta e JongUp finalmente se moveu pela primeira vez em talvez uma hora, para fazer um sinal positivo com a mão. Respirei aliviada.

—Vá dormir. Quando você acordar, provavelmente já saberemos o próximo passo.

Precisei conter novamente as lágrimas que queriam se formar, tamanho era o alívio de finalmente poder ir dormir. Não consigo nem lembrar de andar até o quarto; me rendi ao cansaço assim que bati na cama.

Quatorze horas depois

Acordei me sentindo como se acabasse de ter sido atropelada duas vezes seguidas. Embora o cansaço tivesse ido embora, meu corpo sofria as consequências da desidratação e falta de alimento. Demorei alguns segundos para me situar no escuro e perceber que não estava em casa.

Casa... será que algum dia eu voltaria para lá? Ou será que nesse tempo todo eu havia sido pretensiosa demais ao chamar aquele apartamento de casa?

Próximo à janela, pude ver dois vultos encostados contra à parede, cochichando. Não poderia ser alguém além dos seis meninos e eu também não queria descobrir, mas acabei chamando atenção quando me revirei na cama, querendo levantar.

—Acordou cedo assim? — aquela voz de trovão só poderia ser de Bang Yongguk. Meus olhos focaram no relógio digital em cima do criado mudo, eram 03:42 da manhã.

—Nós temos comida...? — foi o que eu consegui dizer.

—Tem algumas sobras na geladeira do jantar, mas seria melhor você tomar um banho antes. — ele deveria conseguir ver meu estado deplorável até mesmo no escuro, mas falando em banho...

—Você não vai...de novo...?

—Fique tranquila, vou te deixar em paz dessa vez.

—Oh? Como assim? — ouvi a voz da segunda figura. Himchan. — O que vocês estão escondendo de mim?

—Nada. — eu e Yongguk respondemos ao mesmo tempo. Bom, eu talvez um pouco mais nervosa.

—Sei...

Juntando forças para levantar da cama, tateei meu caminho até o banheiro e acendi a luz. Péssima escolha, quase fui cegada. Quando os esteticistas condenam dormir de maquiagem, estão absolutamente corretos. Meus olhos ardiam e eu mal conseguia abri-los por conta do rímel e minha pele estava extremamente ressecada. Eu duvido que os meninos tenham se preocupado de pegar meus produtos de cuidado com a pele...

Fiz o meu melhor com o que tinha em mãos e, ao final do banho, ouso dizer que eu parecia com um ser humano normal novamente. Yogguk e Himchan não estavam mais no quarto quando eu saí, porém pequenos vultos apareceram ao lado da cama. Eram Tibideaux e Thor, que não receberam nenhum minuto de atenção desde que chegamos no hotel. Senti-me uma péssima dona, mas não tão péssima quanto faminta. O carinho ficaria para depois.

Na sala, iluminados pelas luzes da cidade através da janela, vi Daehyun e JongUp dormindo no sofá, e YoungJae e Zelo em dois colchões próximos. Himchan estava sumido e Yongguk estava sentado na mesa de jantar, parado, sem parecer se importar com a minha presença. Na verdade, não tenho certeza se ele se importava com alguma coisa. Continuei em silêncio durante todo o tempo em que estava na cozinha, montando minha refeição. Já tendo visto o tamanho do apetite do grupo, era surpreendente o fato de que havia sobrado alguma coisa, mas nada era melhor do que uma simples tigela de arroz com kimchi e um ovo frito. Sentei-me na outra extremidade da mesa com certa pressa, ansiosa por finalmente colocar algo no estômago. Eu devia parecer um monstro, pois não demorou muito para ouvir:

—Achei que vocês, ricos, tinham aula de etiqueta.

—E nós temos. Só que nós, ricos, não ficamos mais de vinte e quatro horas sem comer. — uma risadinha veio do outro lado.

—Como está?

—Muito bom. Onde vocês conseguiram isso?

—Himchan cozinhou. — Yongguk cruzou os braços e se recostou na cadeira, agora olhando diretamente para mim. Eu não conseguia ver muito bem sua expressão no escuro, mas tinha certeza que ele me encarava como se eu fosse um animal exótico.

—Espera, sério??

—Você ficaria surpresa com o que ele sabe fazer com as mãos... Com certeza suas amigas têm uma ideia. — um calafrio correu por meu corpo ao lembrar do que havia acontecido quando eu tentava me trocar.

—Você vai me fazer perder o apetite.

—Do jeito que você está comendo, duvido.

—Por que você não está dormindo?

—Alguém precisa ficar de guarda. Himchan está do lado de fora.

O silêncio invadiu o ambiente de novo e eu continuei a comer sob os olhares de Yongguk. Ser encarada no escuro era mil vezes pior. Eu não conseguia ver suas expressões, portanto não conseguia ter a menor noção do que se passava na cabeça dele. Era claro que nós nos detestávamos, mas o quanto isso aumentava quando ele sabia que eu não poderia prever nenhum de seus movimentos? O quanto ele conseguiria tirar vantagem de mim desse jeito? A presença deles era realmente para a minha segurança ou era o contrário?

Corri os olhos por todo o cômodo, procurando algo que pudesse distrair meus pensamentos. Próximo à porta do covil de Zelo, lá estavam, os potes de comida e água de Thor e Tibideaux. Mais do que isso, havia restos de comida. Eles estavam sendo cuidados.

O que tornava as coisas ainda mais difíceis.

Dessa vez, não pude me conter. Quando as primeiras lágrimas correram por meu rosto, tudo que eu pude fazer foi baixar a cabeça e me esconder entre as mãos. No fundo, eu só queria gritar. Na realidade, eu não podia acordar ninguém. Meu corpo inteiro soluçava e tremia, minha respiração quase não conseguia acompanhar sem fazer nenhum barulho. Em meus pensamentos, só uma frase ecoava, cada vez mais alto.

Você é fraca.

Por que eu estava chorando? Não tinha ninguém para me consolar. Nem se meu pai me ouvisse a milhares de quilômetros, eu nunca ouviria um “vai ficar tudo bem”. Porque é isso que eu sou. Fraca. Inútil, a menos que sirva para algum propósito econômico.

Você é fraca.

O que ela faria se estivesse viva? Caso ela estivesse aqui...

Você é fraca.

Quando é tarde demais para desistir? O quão fundo é fundo demais para voltar atrás?

Após certo tempo, as lágrimas pararam de cair, mas o choro continuou. Eu só torcia para cair no sono novamente e me deparar com outra realidade quando acordasse. Um toque suave. Um sussurro. Um sentimento de coragem.

Todavia, a minha realidade no momento era o toque de uma mão pesada sobre a minha cabeça, que seguiu deslizando pelos meus cabelos. O sussurro era na verdade uma voz grave, que minutos atrás me fazia tremer de medo.

—Você se saiu bem, JiYoung...

Naquele momento, era tudo o que eu tinha. Uma mão e uma voz ameaçadoras. Um homem ameaçador. Eram as únicas coisas em que eu podia me agarrar, para não sucumbir ao pior. Era a última oportunidade, quase me convidando para vender minha alma ao diabo.

E assim o fiz, sem imaginar as consequências de minha escolha...